A Filha do Tempo e os Elementos Primordiais

Foi uma quarta-feira, lembro-me bem disso. Afinal, quem não gravaria na memória o dia em que sua versão de uma realidade alternativa aparece na sua casa buscando abrigo?

Eu olhei para eu mesmo com quinze anos, vestindo uma armadura de couro sobre uma camiseta preta com os dizeres "CTPE - Treinando os salvadores de amanhã", e a julgar pela espada que ele carregava, não deveria ser uma iniciativa dos bombeiros.

A história que narrarei aconteceu em outra Terra, mas segundo meu "eu mais jovem", poderia chegar aqui, em nosso mundo, caso ele e seus amigos não conseguissem derrotar o exército de anti-deuses conhecidos como azuras, ou algo assim, que queriam trazer de volta do exílio o Lorde do Caos, Isfet, e seu filho N'Guói (ou lagosta, não sei bem qual era o certo).

Alternando as versões dele (eu mesmo de outra realidade), a da Pri e a da Deb (também da outra versão da Terra, que aqui são minha família), você conhecerá o incrível mundo (ou dimensão, não saquei bem ainda) de Etherion, e toda a gama de complicações que ele trouxe àquela Terra, que podemos definir em uma única palavra: deuses.

Bem vindo às Crônicas de Etherion.

# Uma nova visão da Mitologia Grega

# Os deuses sob uma nova perspectiva

# 2º lugar na categoria "Fantasia" da 2ª Edição do "Projeto Leitura Voraz 2017" do Wattpad - https://my.w.tt/QIE3gAjLML

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13. Um quase encontro quase perfeito

Deb

A pior coisa que um ser humano pode fazer a outro é a traição. Não estou falando dos melodramas das novelas mexicanas (esses até curto ver), mas de quando alguém esconde a verdade de outra pessoa. Isso é algo difícil de perdoar.

Não estou brava com o Rod por ele ter se encontrado com a tal de Bella, só os dois, no escuro. Tá bom, talvez eu esteja um pouco brava com isso também. Mas não dá para ignorar quando seu quase namorado é amigo de um cara que sai atirando flechas nos outros; e quando ele mesmo sai distribuindo golpes do Kung Fu Panda por ai.

Quando chegamos em casa e eu gritei com meus pais, percebi o quanto aquilo estava me afetando. Eu nunca grito com meus pais (só com meus irmãos), então, fiquei muito mal com isso. E se entrar em um relacionamento com o Rod me colocaria nesse tipo de situação onde meus irmãos tinham que assistir pessoas brigando com armas e eu teria que mentir para os meus pais, então eu sabia o que devia fazer.

Assim que entrei no meu quarto, mandei um whatsapp para o Rod.

"Oi Rod... olha, depois de hoje, acho melhor darmos um tempo, ok? Tipo... vamos deixar aquela conversa de lado... você tem uma vida muito agitada e perigosa, e não quero colocar minha família em perigo como aconteceu hoje... até mais..."

Foi uma das coisas mais difíceis de fazer, mas consegui enviar a mensagem. Por mais que eu gostasse dele, minha família estava em primeiro lugar.

Ele visualizou a mensagem e não respondeu, e eu não sabia se ficava triste ou grata por isso. Mas o que eu podia fazer? Ele colocou meus irmãos em perigo. Não sei o que aqueles caras eram, mas mesmo se fossem apenas uma gangue de rua que estivesse a fim de briga (o que eu tenho quase certeza que não eram), eles estiveram muito de atacar minha família. Não dava.

Eu estava deitada na cama a uns vinte minutos, olhando para o teto, quando minha mãe entrou no quarto. Ela trouxe um bauru e suco de abacaxi, meus preferidos. Sem falar nada, ela sentou na cama e ficou fazendo carinho na minha cabeça. Me senti tão mal por ter gritado com ela que tive que me segurar para não chorar.

Depois de um tempo, criei coragem para falar com ela.

- Mãe... Desculpa ter gritado. Não era com vocês que eu estava brava, foi mal.

- Tudo bem querida - tela disse, me abraçando. - As vezes acontece, não se preocupe. O importante é que já passou. Você está chateada porque brigou com o Rod, não é?

Me assustei. Será que os pequenos contaram para ela? Qual será o tempo de castigo por deixar meus irmãos assistirem violência gratuita com participaçção de arco e flechas? Talvez algo tipo... Infinito?

Mas graças aos céus não era isso. Era só minha mãe e aquele incrível sentido materno.

- Não precisa ficar preocupada, querida. Brigas em relacionamentos é a coisa mais normal que existe.

Ela não acharia normal se visse os golpes de capoeira do Rod ontem, mas achei melhor omitir este detalhe.

- Mãe, você não entende... Ele... Eu não posso confiar nele.

Ela me abraçou e eu não consegui mais segurar. Parecia que tinha cinco anos e estava chorando porque não me deixaram brincar de esconde-esconde.

- Querida, confiança é a base de um relacionamento. Vocês já estão namorando?

- Hum... não, na verdade... Ele pediu para namorar comigo, mais ou menos.

Ela riu, e acabei sorrindo também.

- Meu amor, se ele pediu para te namorar, é por que gosta de você. Ele mentiu sobre alguma coisa?

- Bem... Na verdade não. Mas ele deixou de contar coisas sobre ele e acabei descobrindo sozinha.

- Essas coisas são do passado dele?

- Sim, mas...

- Mas ainda fazem parte do presente, certo?

- Isso!

Ela ficou quieta por um tempo, enquanto fazia cafuné na minha cabeça.

- Sabe filha, uma das coisas que as pessoas mais costumam fazer é julgar uma situação sem entender o contexto.

- Como assim?

- Você deve ter visto o Rod em uma situação sobre a qual vocês ainda não tiveram chance de conversar. Com certeza, ele estava resolvendo algo na vida dele que estava pendente ou estava ajudando um amigo. O motivo não importa, o que é realmente importante é você dar à ele a chance de se explicar. Então você pode tomar suas conclusões.

- Mas e se ele mentir?

- Eu posso estar enganada, filha, mas ele não parece esse tipo de garoto. Se fosse, eu saberia.

Acabei ficando confusa.

- Como assim?

Ela deu um sorriso conspiratório. Lá vinha.

- Depois que nós jantamos, quando ele veio te visitar, liguei para a mãe dele, a Dona Helena, para avisar que o Rod estava realmente aqui em casa, caso ele tenha se esquecido ou não se importado em avisar. Ela agradeceu eu ter avisado, mas ele já tinha feito isso. Acabou que conversamos um pouco e entramos no assunto das escolhas dele para o futuro, e ela disse que ele está mesmo empenhado em ser um empreendedor.

- E o que isso tem a ver com ele não ser mentiroso?

- Filha, se ele fosse um garoto mentiroso, ele diria o que eu queria ouvir quando o questionei sobre suas escolhas profissionais. Ele tentaria ganhar pontos comigo, que sou sua mãe, para que eu o apoiasse. Mas o que ele fez foi exatamente o oposto. Contou seus verdadeiros sonhos sem se importar se eu aceitaria ou não, não ligando nem um pouco se as ideias dele atrapalhariam minha permissão para o namoro de vocês.

Fiquei pensando no que ela disse. Agora, com a cabeça mais calma (e com o rosto seco finalmente, agora que as lágrimas pararam de cair), eu consegui pensar um pouco melhor. Ele poderia ficar quieto sobre todo aquele lance da Bia, mas me contou e tentou me ajudar. Eu que acabei sendo boba nessa história. Se ele conhecia sobre monstros, devia, de alguma maneira, estar ligado a isso, o que implica em saber se defender dessas coisas.

E a tal de Bella, pelo que vi, faz parte desse mundo secreto dele. Os cursos extracurriculares do Rod devem ser aulas de combate a esses monstros. Santa Tartaruga da Escócia, aqueles encapuzados deviam ser monstros. O Rod, a Bella e o Arqueiro Verde salvaram meus irmãos. Eu que parei lá, com ciúmes dele. A culpa era minha, não dele.

- Acho que eu fui um pouco injusta, né mãe?

- Talvez minha querida. Por que não conversa com ele e tenta entender melhor a situação?

Dito isso, ela deu um beijo de boa noite na minha testa e saiu. Assim que ela saiu meu celular vibrou. Era o Rod.

"Deb, eu sei que foi tudo meio confuso, mas eu posso explicar... Me da uma oportunidade, vamos conversar com calma, e então você verá que as coisas não são tão complicadas assim... Por favor, não quero desistir da gente..."

Fiquei sem saber o que escrever. Escrevi, apaguei e repeti isso umas dez vezes antes de finalmente escrever algo que não soasse tão ridículo.

"Oi Rod... Olha, eu estava um pouco nervosa, me desculpe... Por que não conversamos amanhã, na Ilha do Açaí? É sábado mesmo... Pode ser? Umas três da tarde?"

Fiquei esperando ansiosa a mensagem de resposta, até que chegou.

"Perfeito! Nos encontramos lá então, às três... Valeu Deb, valeu mesmo."

Bom, agora só precisava ir ao encontro e resolver de vez todo esse rolo de uma vez por todas. Nada mais daria errado a partir de então.

— # —

No dia seguinte tudo deu errado logo na hora do almoço. Eu acordei umas 10 horas, e percebi que teria que bancar a emburrada com meus irmãos para evitar que eles fizessem um monte de perguntas que eu não sabia ou não queria responder. Na verdade, a Pri era bem discreta, e a Carol um anjinho, não iria falar nada. O mala do André, por outro lado, iria me azucrinar as ideias.

Para evitar isso, assim que sai do banheiro decidi fazer uma visita ao quarto dele. Me lembrei de como ele ficou assustado quando viu o Rod lutar e a Pri o ameaçou, e resolvi entrar nesse jogo.

Entrei com tudo no quarto dele, sem nem ao menos bater na porta (torcendo para ele não estar pelado, eca). Ele estava deitado na cama jogando vídeo game. Quando me viu, deu para notar que se assustou. Antes que o efeito passasse, cheguei perto dele e falei bem baixinho, para que ninguém que estivesse no corredor ouvisse sem querer.

- Só para deixar bem claro... Viu o modo como o Rod e os amigos dele lutam?

Ele balançou a cabeça que sim, ainda assustado.

- Então... Ele via começar a me dar aulas de luta, para que eu aprenda a lutar daquele jeito. Se você me azucrinar as ideias a partir de hoje, tenha certeza de que vai se arrepender.

- Eu... Eu ainda posso chamar a mãe.

- Pode mesmo – eu concordei, o que pareceu não deixá-lo muito feliz. – E assim que você contar, eu espalho para todos os seus amigos que você apanha de menina e sai correndo chamando a mamãe.

Era um blefe, lógico. Bem, mais ou menos. Eu tinha pensado no assunto e decidi que pediria para o Rod me explicar essa maluquice toda, e me ensinar alguma coisa para eu me defender, caso algo parecido acontecesse novamente. Mas eu não ia usar nada dessas coisas com meu irmão. Apesar de ser uma mala, era meu irmão. Uns petelecos na orelha já resolviam.

Aproveitei a cara de pavor que ele estava para sair do quarto antes que ele pudesse falar qualquer coisa. Ele tinha fama de covarde na rua de casa, já que umas duas ou três vezes a Carolzinha bateu em moleques que o provocaram. Só aproveitei o próprio medo dele.

O resto da manhã foi tranquilo. A Pri e eu fizemos algumas lições de casa. Apesar de ela me olhar de um jeito estranho as vezes, ficou na dela e não me perguntou nada, o que agradeci imensamente, em silêncio.

Quando estava chegando a hora do almoço, em torno de 12h15min, bateram palmas em casa. Como meu pai não gosta de atender, a não ser que a pessoa chame alguém da casa pelo nome, ninguém fez nada. Só quando uma voz conhecida chamou da sala, é que percebemos que a visita já estava dentro de casa.

- Ruth? Dá para colocar água no feijão?

Era minha tia Raquel, irmã da minha mãe, que ao contrário dela, era loira, alta e de cabelo curto. Assim como minha mãe, ela era professora, mas morava do outro lado da cidade, no Bosque dos Ipês.

Junto com ela veio meu tio Marcio e minha prima Pamella. O tio Marcio é moreno bem claro, tem os olhos verdes, é tão alto quanto minha tia e trabalha em uma empresa em Caçapava, cidade com a qual nosso bairro faz divisa. E a Pampam, bem... Ela é uma figura. Tem a idade da Pri, tem os cabelos loiro-escuros, pele clara e olhos cor de mel. E como eu disse, é uma figura.

Mal minha mãe levantou para cumprimentou minha tia, a Pampam já estava pulando em cima dela.

- Oi Tiiiaaa! Que saudades!

- Oi minha linda, tudo bem com você?

- Tudo bem, sim! Sabia que ganhei uma tartaruga?

- Dizem que sopa de tartaruga é muito bom – disse meu pai, só para azucrinar.

- Credo tio... Oi tiiiiooo! Que saudades!

É eu sei. A Pampam costuma mudar de assunto bem rápido. Enfim... Depois de todos os cumprimentos terem acabado, fomos almoçar. Como tínhamos mais três convidados, minha mãe mandou as crianças comerem na sala, enquanto meu pai e ela comiam com meus tios na cozinha.

Passamos o almoço e as duas horas seguintes só conversando bobeiras e assistindo series na TV (abençoado seja o cara que inventou a Netflix). Quando eram 14h15min, chamei minha mãe no corredor.

- Mãe, será que eu posso sair por uma hora, mais ou menos?

- Ué, filha. Seus tios e a Pampam estão aqui. Onde você quer ir?

Fiquei sem graça de falar com ela sobre o Rod, mas não tinha outra maneira de sair de casa.

- Lembra da conversa que tivemos ontem? Então, eu marquei com o Rod de conversarmos na Ilha do Açaí.

Ela ergueu as sobrancelhas, e foi quando vi que eu teria complicações.

- Filha, eu entendo você... Você quer acertar as coisas, mas sua tia marcou de vir hoje. A Pampam estava louca para ver você, não é justo deixar ela aqui e sair.

- Mas mãe... Por favor!

Ela pensou um pouco, suspirou e balançou a cabeça concordando. Porém, antes que eu pudesse pular e agradecer, ela mostrou a mão aberta pedindo para eu esperar. Ops, lá vinha.

- Você pode ir, mas a Pri e a Pampam vão com você.

- Ah, mãe! Qualé! Você não pode estar falando sério!

- E como estou mocinha. Acha que seu pai vai deixar você sair para encontrar um menino que quer namorar você? Ele me mata antes disso.

- Mas ele nem sabe!

Ela deu um sorriso e balançou a cabeça.

- Querida, é lógico que ele sabe. O menino estava na enfermaria esperando você acordar, e depois veio aqui em casa para ver se você estava bem. Seu pai não é bobo, Deb.

Percebi que não tinha escapatória, teria que levar as duas comigo.

- O André e a Carol também vão? - Perguntei, vencida.

- Não, filha. A Carol vai para a casa da Esther, fazer trabalho de escola. E hoje é a vez do seu irmão lavar a louça.

Sorri para minha mãe, grata por segurar meu irmão em casa.

- Bom, eu vou tomar banho e me arrumar. Marcamos às três.

Quando eu ia saindo, ela colocou a mão no meu ombro.

- Deb, seus tios vão tomar café aqui em casa hoje. Precisa comprar algumas coisas no mercado. Acho que a Pri pode ir com a Pampam, depois de tomarem açaí, não concorda?

Dizendo isso, ela piscou e voltou para junto dos meus tios. Eu sorria de orelha a orelha. Tinha a desculpa perfeita, só tinha que convencer a Pri e a Pampam. O que implicava em falar para a Pampam do Rod.

Resolvi deixar isso para depois do banho, só avisei as duas que íamos ao açaí. Ah, e tive o maior prazer em comunicar meu irmão que a mãe o havia escalado para lavar a louça. Que sábado mais feliz aquele estava sendo.

— # —

- Então você vai namorar esse menino?

Essa foi a única pergunta que a Pampam fez depois de eu explicar como conheci o Rod, que nos tornamos um pouco mais que amigos, e que eu iria me encontrar com ele hoje. Achei melhor explicar para ela que ele estaria lá na Ilha do Açaí quando estivéssemos a caminho, evitando assim que ouvidos indesejados ouvissem (oi pai).

- Essa é a ideia, se tudo correr bem hoje.

- Isso quer dizer que eu terei um novo priminho!

- Acho que isso significa que ela apoia você, Deb – disse a Pri, rindo.

Tive que rir também. As coisas para minha prima eram bem simples: ou ela gostava de algo, ou não gostava. O fato de ela ter comemorado que teria um novo primo significava que ela gostava da ideia. Agora faltava saber se ela gostaria dele.

Você pode achar bobagem, mas o apoio da minha família era importante para mim. A tia Raquel era a única tia que nos visitava, com quem meus pais mantinham vínculo, então, a Pampam era quase uma irmã para a gente. Eu queria que ela gostasse do Rod, assim como achava que a Pri gostava dele e da ideia de namorarmos. Apesar de nunca ter perguntado isso para ela, achava que ela era a favor de ficarmos junto.

- Pri, você gosta desse carinha? - Perguntou a Pampam.

- Sim, o Rod é muito legal.

- E você não liga dele namorar a Deb?

Hum... Naquele momento eu descobriria o que minha irmã achava, graças a minha prima.

- Oche! Lógico que sim. O Rod é muito legal, e minha irmã é minha irmã, ué. Por que eu ligaria?

- Só um minuto – cortei as duas. – O que você quer dizer com minha irmã é minha irmã? Por acaso não sou legal também?

- Acho que não, hein, Deb – disse a Pampam, colocando lenha na fogueira.

- Deixa você Pri. Quando arranjar um carinha legal, vou dar o troco.

- Ih, meu bem... Analisando aquela escola vai ser difícil.

A Pampam e eu olhamos para ela.

- Como assim?

- Ué, você pegou o único partido legal. O resto tá pior que o cavalo aos avessos do bandido com diarreia.

Foi uma das coisas mais idiotas que eu já tinha ouvido, e acho que foi por isso que eu ri tanto. Nem percebi que estávamos entrando na Ilha do Açaí. Foi só quando ele falou conosco que me dei conta que tínhamos chegado.

- Nossa, eu não sabia que teríamos companhia.

Vire e dei de cara com o Rod, sorrindo. Ele usava uma camiseta do Homem Aranha, bermuda jeans e tênis. Como estava fora da escola podia ter dispensado os óculos, mas as vezes ele esquecia e saia com ele mesmo assim.

- Nada mal, hein prima.

A Pampam sofre de um problema que, como já comentei, atinge toda a nossa família: discrição zero. Porém, ao contrário da minha mãe e das minhas irmãs, que tentam suavizar a situação fingindo que não estão sendo totalmente inconvenientes, a minha prima não tinha esse problema. Ela simplesmente falava o que vinha na cabeça.

Por exemplo, uma pessoa normal esperaria eu apresentar o Rod, ou ao menos se apresentaria com uma frase tipo "prazer, sou Pamella, prima da Deb". O que ela disse foi:

- Oi, tudo bem? Sou sua nova prima, Pamella. Prazer em conhecê-lo priminho.

Eu não tinha onde enfiar a cara. A Pri morria de dar risada. E o Rod, depois de erguer as sobrancelhas, talvez assustado com a sinceridade e cara de pau da Pampam, riu e cumprimentou ela com um beijo no rosto.

- Bem, prazer Pamella, sou o Rodrigo. Mas meus amigos e parentes me chamam de Rod.

- Você quer que eu te chame de Rod por que é meu amigo ou meu parente?

- Pamella dos céus... - Resmunguei, não acreditando.

O Rod a estudou um tempo, e vi que ele se assustou com algo. Foi bem rápido e ninguém percebeu, já que a Pampam estava matracando sem parar. Passou tão rápido que eu achei que estava imaginando coisas. Então ele acabou sorrindo.

- Bem, já que você me considera seu "priminho", somos praticamente parentes. E como você é prima da Deb e da Pri, que são duas pessoas que gosto muito, já te considero uma amiga. Pode ser assim?

- Pode – disse ela na maior naturalidade. – Então, eu vou querer açaí com leite moça e leite em pó.

Dizendo isso ela sentou na mesinha e começou a conversar com o Rod, que pediu o mesmo para ele. A Pri entrou na onda depois de pedir açaí com sensação. Eu acabei pedindo o mesmo que a Pampam e o Rod, e acabamos ficando uma hora conversando bobeira, totalmente desencanados.

Quando era quase quatro horas da tarde, o Rod recebeu uma mensagem no celular. Ele leu por um bom tempo, e depois, me chamou para conversarmos lá fora. Assim que saímos lá fora, vi que ele estava bem triste.

- O que foi? Você está estranho.

- Minha mãe... Ela... Bem, ela está doente. Meu irmão acabou de avisar que internaram ela no hospital da Vila Industrial.

- Ai Rod... Sinto muito. O que ela tem?

- Não sei, na verdade. Eu preciso ir para lá, Deb. Podemos conversar depois? Sei que estou pisando na bola novamente, mas...

- Para com isso – eu o cortei, antes que começasse a falar bobeira. – Sua família é prioridade. Vai ver como sua mãe está. Depois eu falo com você, para ver horário de visita e o quarto em que ela está.

- Valeu – ele disse me abraçando e dando um beijo no meu rosto. – Valeu mesmo, gatinha.

Fiquei meio sem graça de ele me chamar de gatinha, mas ele nem registrou isso, tão inquieto estava com essa história toda da mãe dele, coitado. Ele entrou, explicou mais ou menos para as meninas, se despediu delas e saiu correndo.

Enquanto a Pampam pagava o açaí dela, a Pri veio falar comigo.

- E ae, o que você vai fazer em relação à ontem? Ainda vai falar com ele?

Olhei para minha irmã. Ela tinha entendido o que eu pretendia e não disse nada. Devia isso à ela.

- Não, vou dar um tempo – respondi. – Ele está com muita coisa na cabeça agora. Vou deixar rolar, quando der, ele explica.

- Entendi...

- Você concorda com isso?

- É seu namorado, mana, ou quase namorado. Você tem que fazer o que achar melhor.

- Mas você também está envolvida.

- Eu sei – ela disse olhando para longe. – Mas me contento em saber da verdade depois de você se acertar com o Rod. Então, podemos conversar, se você quiser.

- Quero sim – disse para ela. – Quero contar tudo para você. Preciso de você Pri, só tenho que organizar as ideias e entender o que está acontecendo. Você espera uns dias?

Ela pareceu um pouco desconcertada, mas concordou com a cabeça. Nesse momento, a Pampam chegou.

- Já que o Rod precisou ir embora, você vai com a gente no supermercado, Deb? Ela perguntou.

- Vou sim, lindinha.

E fomos as três Marias para o supermercado. Enquanto íamos, a Pampam deu seu veredito sobre o Rod. Então me lembrei deu de uma coisa.

- Pampam, você ainda tem a pedrinha mágica?

- Essa aqui? - Perguntou mostrando a dela presa em uma correntinha. - Lógico que sim, foi presente do tio.

Olhei para a Pri e vi que ela pensou o mesmo que eu. Seja lá o que fosse todo aquele rolo, era possível que a Pampam estivesse envolvida também.

- Que bom que você ainda tem, vai que é valiosa - falei, só para desbaratinar.

- É, talvez - ela disse, ansiosa para mudar de assunto. - Gostei dele Deb. Tem minha aprovação.

- Eu não sabia que precisava da sua aprovação – disse rindo.

- Lógico que precisa. Eu aprovando, falo bem dele para os meus pais, que falarão bem dele para tio Zé Carlos.

- Nem me lembre disso...

- Nessas horas eu fico feliz de você namorar primeiro – disse a Pri.

- Por quê? - Perguntou a Pampam.

- Ué, assim eu posso anotar todas as mancadas que a Deb fizer e evitar quando chegar a minha vez – disse minha irmã, gargalhando e saindo correndo para que eu não batesse nela.

E assim fomos conversando no caminho de ida e volta, falando sobre namorados e coisas do tipo. Um sábado perfeito, com um quase encontro quase perfeito.

-- # --

Fala pessoal, blz? Gostaram da Pampam?

 

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