A Filha do Tempo e os Elementos Primordiais

Foi uma quarta-feira, lembro-me bem disso. Afinal, quem não gravaria na memória o dia em que sua versão de uma realidade alternativa aparece na sua casa buscando abrigo?

Eu olhei para eu mesmo com quinze anos, vestindo uma armadura de couro sobre uma camiseta preta com os dizeres "CTPE - Treinando os salvadores de amanhã", e a julgar pela espada que ele carregava, não deveria ser uma iniciativa dos bombeiros.

A história que narrarei aconteceu em outra Terra, mas segundo meu "eu mais jovem", poderia chegar aqui, em nosso mundo, caso ele e seus amigos não conseguissem derrotar o exército de anti-deuses conhecidos como azuras, ou algo assim, que queriam trazer de volta do exílio o Lorde do Caos, Isfet, e seu filho N'Guói (ou lagosta, não sei bem qual era o certo).

Alternando as versões dele (eu mesmo de outra realidade), a da Pri e a da Deb (também da outra versão da Terra, que aqui são minha família), você conhecerá o incrível mundo (ou dimensão, não saquei bem ainda) de Etherion, e toda a gama de complicações que ele trouxe àquela Terra, que podemos definir em uma única palavra: deuses.

Bem vindo às Crônicas de Etherion.

# Uma nova visão da Mitologia Grega

# Os deuses sob uma nova perspectiva

# 2º lugar na categoria "Fantasia" da 2ª Edição do "Projeto Leitura Voraz 2017" do Wattpad - https://my.w.tt/QIE3gAjLML

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17. O Leão, a Feiticeira e... Não, não tem guarda-roupas

Deb

O sol brilhava forte nos céus. Eu estava deitada na sombra de uma palmeira, em uma praia linda. Um copo de caldo de cana com gelo e dois canudinhos estava na mesinha ao meu lado. Ao longe eu podia ouvir meus irmãos e minha prima brincando.

Uma parte de mim (uma bem, bem minúscula) sabia que eu tinha que abrir os olhos, meus olhos verdadeiros. De uma maneira estranha, eu sabia que aquilo não era real, mas sabia também que eu precisava estar ali. No mundo dos sonhos.

- Reino do Sonhar. Assim que chamam essa bagaçada.

A voz que falou comigo me trouxe uma nostalgia enorme, uma saudade de um lugar do qual não me lembrava, de pessoas queridas que há muito se foram.

Me virei e a primeira coisa que me veio à mente foi que eu estava frente a frente com a feiticeira branca do filme Narnia. Mas não era uma mulher adulta, e sim, uma garota de uns dezoito anos que estava ali ao meu lado, também deitada em uma cadeira de praia.

De tudo que eu podia dizer para aquela menina, o que saiu da minha boca foi:

- Cara, você tem as sobrancelhas brancas.

E era verdade. Os cabelos, as sobrancelhas e até a íris dos olhos dela eram brancos. Ela usava um vestido cor de gelo, uma tiara de gelo e estava descalça. Não era o modelo do ano para concursos de praia, mas achei melhor não dizer nada. Ela tinha uma presença meio... gelada. Sério, eu estava começando a sentir frio, e vinha dela aquele frio.

Ela riu quando falei das sobrancelhas dela. E aquilo foi tão familiar...

- Você e suas piadas. Cara, tu é pancada, ae.

- Pancada?

- Pode crê! Mas ae, deixa eu te mandá a real: tu tá sumida faz maió cara.

- Hum... eu achei mesmo que nos conhecíamos. Já estudamos juntas?

- Tu tá zoando? Fui eu que te ensinei a detonar com a magia do gelo! Fui sua mestra elementar, saca?

- Tô sacando bem pouco... mas você não me é estranha...

- Tú não tá lembrada? Vê se tu saca essa pegada...

E dizendo isso ela levantou. Esticou a mão esquerda e falou a primeira frase sem rima de maloqueiros dos anos 80 desde que chegou.

- Flecha congelante!

Ela puxou o ar, e para meu espanto (é, eu quase engasguei) um arco de gelo apareceu. Ela esticou uma corda invisível e uma flecha de gelo se materializou do nada.

- Ai meu deus, que que é isso!

- Guerreira deusa, criança. Sou uma mina, saca?

Ela apontou para o mar, bem longe, e atirou. Quando a flecha de gelo acertou o mar, ele congelou. Sério, o mar inteiro congelou, até onde à vista alcança.

E eu lembrei.

Estávamos em um campo de tiro. Vários alvos estavam à distância de 25, 50 e 100 metros. Eu era mais nova, não sei quanto. Talvez uns doze anos. E atirava sem parar nos alvos, usando essa técnica. A flecha congelante.

Foi muito rápido, só um vislumbre de algo de um passado que eu não sabia existir. Olhei para a arqueira com um pequeno lampejo de reconhecimento.

- Quione – eu sussurrei.

Ela fez uma reverência debochada.

- Ao seu dispor, alteza. Quione, Mão de Ouro do Corpo das Arqueiras do reino do Tempo. Filha de Bóreas, guardião do Portão Norte do Império Ômega e... mas que raio de cara de mosquito é essa?

- É que... bem, não estou entendendo nada do que você está falando. E todos esses títulos... você é uma daquelas fãs da Daenerys?

Ela suspirou, e começou a gargalhar.

- Mina, tu acha que to repricando a pivete do Game os Thrones?

- Eu... eu não entendo. Lembro de você, mas de onde? De um lugar familiar, mas que lugar é esse? E quando foi isso?

Ela parou de rir. Primeiro fez cara de quem não acreditava no que eu estava falando. Depois franziu as sobrancelhas como quem tenta entender o que está acontecendo. Por fim, arregalou os olhos.

- Santas margens do rio Lete. Garota, você está com amnésia?

- Eu? Lógico que não!

Ela me estudou mais alguns instantes.

- Qual o nome dos seus pais?

- Meus pais? José Carlos e Ruth, por quê?

Ela praguejou quando ouviu a resposta. Acho que é melhor não reproduzir o que ela disse, sabe... pode impactar na classificação etária.

- Mas que droga, tú não lembra mesmo. Mas lembrou do meu nome... Caracas, odeio isso. Sou uma maga elementar, isso é coisa dos engomadinhos.

- Engomadinhos?

- Isso ae... os tais de mestres da mente.

- Maga elementar? Mestres da mente? Você é doida?

Ela me olhou feio. Muito, muito feio. Nota mental:  chamar uma mulher com cara de louca, de louca, não é uma ideia tão boa assim. Depois de um tempo ela suspirou.

- Você está em Midgard, certo?

- Tá, desisto – eu disse. – Onde raios é Midgarden?

- Midgard, sua... nem sei mais como te chamar. Tá de rolê na Terra? E o resto do povo? Rhamaro, Zenos, Apolo, Artemis, Liam, Arutha, Karoline, Loren... os membros do conselho... essa pancada de gente tá com você?

Respirei fundo. Tinha que lembrar que ela parecia perigosa.

- Olha Quione... eu não lembro de conhecer ninguém que tenha um dos nomes que você citou. E eu não faço nem nunca fiz parte de conselhos escolares, então...

Ela ficou balançando a cabeça dizendo "tsc, tsc, tsc". Eu estava quase  dando um chute na canela dela, quando uma voz grave falou atrás de mim.

- Não tem como ela se lembrar, princesa Quione. A magia erigida em torno da mente dela é muito poderosa.

Virei e me assustei tanto que fui para trás e cai no chão. Lógicamente, Quione riu.

- Mas é uma palerma mesmo... é só Narasimha.

Meu olhar de pavor levou a garota a suspirar novamente.

- Você não lembra dele.

- Eu me lembraria de um leão falante.

E era isso que ele era, o tal Narasimha. Bom, mais ou menos. Ele tinha cabeça de leão, mas o corpo era de humano. Um humano bem musculoso que usava toga branca presa por um cordão dourado.

Ao contrário do que pareceu quando o vi pela primeira vez, olhando melhor dava para ver que ele não era mal ou selvagem. Transmitia tanta tranquilidade e bondade quanto um monge (quer dizer, eu acho isso, já que nunca me encontrei com um monge).

- Até que os da sua raça é boa em aparecer quando não é chamada, não é leão velho?

O tal Lánosamba sorriu para ela, algo que julguei muito parecido com um leão prestes a dar um bote em um cervo, tipo aqueles especiais do National Geographic e do Animal Planet.

- Pelo contrário princesa. Nós, os mestres da mente, nunca vamos onde não somos bem vindos e sempre respondemos a um chamado. A princesa disse em alto e bom som: Maga elementar! Mestres da mente! E eu vim atender ao chamado.

Quione passou a mão pela cara.

- Eu não disse nada disso.

- Eu não me referia a você, princesa. E sim, à princesa Alana.

Eles ficaram olhando para mim. Demorou um pouco para eu entender que achavam que eu era a tal princesa Laura.

- Olha, eu sei que devo ser parecido com a tal Laura...

- Alana, seu nome é Alana – disse Quione. Eu a ignorei. Sou boa nisso.

- ... mas eu sou Deborah. Deb para os amigos, então, por favor, não me chamem de Deb. Mas definitivamente não sou Alana.

O Dalai Lama leonino e a Branca de Neve ficaram me olhando por um tempo longo demais (como eles gostavam de olhar, credo), até que começaram a gargalhar. Demorou um pouco para pararem, o que não serviu para me deixar mais a vontade.

- Tu é mesmo hilária, pirralha. "... não me chamem de Deb", ora essa, vai te catar! Boa, boa mesmo! Sóóó, ae!

Olhei para o Dalai Lama versão gato das selvas.

- Dá para traduzir o que essa louca tá dizendo?

Ele sorriu para mim – não estava ficando mais fácil aceitar isso.

- Acredito que, tirando suas irmãs e suas primas, Quione seja realmente sua melhor amiga, princesa. Mas creio que, graças à magia que foi feita em você,  não é possível que se lembre, a não ser que aceite quem você realmente é.

Fiquei quieta. Se, e não posso dizer que não começava a pensar muito nesse "se", eu realmente fosse uma princesa de um outro mundo... isso explicaria as coisas loucas que têm acontecido comigo: o ataque da Bia; os sonhos sem sentido; aquela mudança brusca de tempo no dia em que fui ao médico (e eu fui, minhas ancas ficaram doendo horrores por causa da benzectacil); o ataque da cosplay doidona de pequena sereia; aquela armadura que surgiu do nada; e esse sonho maluco onde converso com a Miss Rainha de Gelo e o Simba.

Percebendo minha hesitação, Quione parou de rir.

- Olha, se você não tá mesmo lembrando de nada, significa que tá mesmo pancadona.

- Eu não estou pancadona!

- Que seja, mas se tú não lembra de nada, talvez o mestre aqui possa ajudar.

Olhei para o monge leão, que assistia enquanto conversávamos.

- Você pode me ajudar?

- Com certeza, querida. Já estou providenciando isso.

Não entendi o que ele queria dizer logo na hora, mas depois de um tempo minha mente começou a doer. Quase pude sentir alguma coisa batendo com tudo na minha cabeça, em uma parte que eu não sabia que existia e que era muito dolorida.

- Aiii!

Quione segurou meu braço, me impedindo de cair novamente. Quando olhei para o monge leão, vi que ele apoiava as duas mãos nos joelhos e ofegava bastante. Quando ele ergueu os olhos  e eles encontraram os meus, um lampejo de lembrança passou pela minha mente.

Vi uma mulher muito bonita, que, sem poder explicar agora, eu amava demais. Seu rosto não era visivel, apenas o vestido prateado com estampas de pássaros.

- Querida, está na hora de sua aula com o Mestre Narasimha.

- Sério, mãe?  Está tão legal a aula com a Quione... aprendi a moldar uma espada de gelo, olha.

Ergui a arma para ela ver. Estava muito orgulhosa de mim mesma, pois era a primeira vez desde que comecei as aulas práticas de magia elementar, que conseguia moldar uma arma. Minha mãe sorriu, apesar de seu rosto não ser todo visível. Conseguia ver apenas sua boca.

- Isso é ótimo, querida. Mas uma princesa de nosso reino deve saber usar sua mente tão bem como usa sua magia. Vamos, não podemos deixar o Mestre Narasimha esperando.

Me despedi de uma menina de uns doze anos, sorridente. Apesar de mais nova, ela era a imagem refletida de Quione. Ou seja, ela realmente me dava aula de magia elementar.

Enquanto caminhava para o templo de meditação de nosso palácio, vi ao longe um homem poderoso com cabeça de leão acenando discretamente para mim. Mestre Narasimha. Ao lado dele, minha irmã esperava por mim. Ela sorriu.

Balancei a cabeça e retornei ao presente apenas para perceber que minha visão ficava cada vez mais embaçada. Mestre Narasimha me olhava com atenção.

- Mestre...

- Está na hora de você voltar ao seu mundo, criança – ele disse suavemente. - Agora que seus inimigos te encontraram, não descançarão enquanto você não for capturada. Mas não se preocupe, pois seus amigos te encontraram.

- Pode confiar nos engomadinhos filhos de Zeus, mina – disse Quione, acenando com o arco em despedida. – Eles são esquesitos mas são fortes. Artemis é quase tão boa quanto eu, então você está em boas mãos.

Isso foi a última coisa que ouvi, pois tudo ficou escuro e minha consciência foi puxada para fora do mundo dos sonhos.

 

Um pouquinho mais de Etherion né minha gente...

Curtiram os mestres da Deb? Acham que ela se lembrará de tudo que lhe dizem ter esquecido? E afinal, acham que ela é uma semideusa ou pode mesmo ser outra coisa?

 

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