A Filha do Tempo e os Elementos Primordiais

Foi uma quarta-feira, lembro-me bem disso. Afinal, quem não gravaria na memória o dia em que sua versão de uma realidade alternativa aparece na sua casa buscando abrigo?

Eu olhei para eu mesmo com quinze anos, vestindo uma armadura de couro sobre uma camiseta preta com os dizeres "CTPE - Treinando os salvadores de amanhã", e a julgar pela espada que ele carregava, não deveria ser uma iniciativa dos bombeiros.

A história que narrarei aconteceu em outra Terra, mas segundo meu "eu mais jovem", poderia chegar aqui, em nosso mundo, caso ele e seus amigos não conseguissem derrotar o exército de anti-deuses conhecidos como azuras, ou algo assim, que queriam trazer de volta do exílio o Lorde do Caos, Isfet, e seu filho N'Guói (ou lagosta, não sei bem qual era o certo).

Alternando as versões dele (eu mesmo de outra realidade), a da Pri e a da Deb (também da outra versão da Terra, que aqui são minha família), você conhecerá o incrível mundo (ou dimensão, não saquei bem ainda) de Etherion, e toda a gama de complicações que ele trouxe àquela Terra, que podemos definir em uma única palavra: deuses.

Bem vindo às Crônicas de Etherion.

# Uma nova visão da Mitologia Grega

# Os deuses sob uma nova perspectiva

# 2º lugar na categoria "Fantasia" da 2ª Edição do "Projeto Leitura Voraz 2017" do Wattpad - https://my.w.tt/QIE3gAjLML

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15. Irmãs e Promessas

Deb

Quando saímos do supermercado o Rod me mandou um WhatsApp. Marcou de conversarmos no dia seguinte na pracinha do Eugênio de Melo, bairro vizinho ao nosso. Disse que tinha uns amigos para me apresentar e um lugar para me mostrar.

Assim que cheguei em casa com as meninas eu descobri que nossos planos (e minha curiosidade) seriam frustrados. Meus pais e meus tios estavam na sala quando entrei com a Pam. Pelo que conhecia da minha mãe, ela estava com um sorriso muito forçado.

- Que bom que vocês chegaram meninas. Seu pai e eu teremos folga amanhã, por causa da falta de água programada pela SABESP. Então, decidimos ir para a casa de praia.

Nossa família tinha uma modesta casa na praia, em Caraguatatuba. Quase todas as nossas férias eram passadas lá.

- Sério? - Perguntei, pois meu pai era contra irmos à casa de praia fora das férias. Porque, só ele sabe. Coisas de Machado.

- Sim. A Carol e o André já estão arrumando as coisas para irmos. Subam e se arrumem também.

Quase fiquei contente, mas lembrei do compromisso com o Rod. Mas antes que eu pudesse pensar em algo, a situação piorou.

- Deb, veja se a Pri ou você tem um maiô para emprestar para a Pam. Se não tiver nenhum que sirva, compramos no caminho.

Tanto minha mãe como a Pri e eu sabíamos que não tinha maiô sobrando. Eu tinha o meu e a Pri o dela. Minha mãe teria que sair com a Pam para comprar. E meu pai iria dormir no sofá assim que meus tios saíssem. Então aproveitei para falar com o Rod no whats. Conversamos até umas 11:00hs, e graças a Deus a mãe dele estava melhor.

Acho até que dormi falando com ele, porque um hora meu celular caiu no meu rosto. Me despedi dele e fui dormir.

— # —

Na manhã seguinte acordamos as seis da madruga. Segundo meu pai, quanto mais cedo, mais aproveitamos. Tomamos café naquela lerdeza que nos segue na parte da manhã. Quando estávamos terminando, meu pai perdeu a paciência.

- Se vocês não estiverem prontos em 10 minutos, cancelamos a praia e vamos para a roça do tio Márcio.

Sem mais uma palavra, corremos para nos arrumarmos. Adoro meus tios, mas passar o dia colhendo mandioca não estava nos meus planos.

Quando cheguei ao meu quarto, lembrei de ter combinado com o Rod dele tentar ir a praia também, para nos encontrarmos lá, assim, sabe, sem querer. Peguei o celular para mandar um whatsapp pra ele, quando ouvi o toque de mensagem.

"Deb, não poderei ir ao nosso encontro. Recebi um recado do centro de treinamento que sairemos hoje a noite para um campeonato que acontecera durante o dia de amanhã. Nos falamos depois de amanhã.

Beijos."

Por um momento fiquei muito decepcionada por ele desmarcar comigo. Depois me conformei. Teríamos que encontrar um meio termo sobre esses campeonatos depois que desse a "resposta" pra ele.

Quando desci com minhas coisas, meus irmãos e minha prima já estavam entrando no carro. Meu pai, como sempre, não estava nada feliz com meu atraso.

- Porque tanta demora, filha? Seus irmãos já estão no carro e...

- Querido - cortou minha mãe delicadamente, colocando a mão sobre o ombro dele -, a Deb é uma mocinha. Ela precisa de coisas próprias de mocinhas. Agora vamos.

- Mas...

- Meu bem, vamos?

Meu pai ia falar mais um pouco. Ele sempre fala mais que o necessário, mas minha mãe consegue moderar um pouco o resmungo. Dessa vez deu certo.

- Ta, ta. Vamos então. Quero estar na praia daqui a uma hora no máximo.

Acabou que demoramos 1:30hs pra chegar. Pegamos transito ainda em São José. Ainda bem que a Rodovia dos Tamoios, que liga nossa cidade (e o resto do Vale do Paraíba) ao Litoral Norte do estado de São Paulo estava tranquila. Serviu para o meu pai se acalmar um pouco. Ele se acalma quando pega trânsito livre (acho que quando eu dirigir eu entendo).

No caminho paramos na Bica D'agua pra tomar agua fresquinha e, depois, no mirante, onde dava pra ver a linda paisagem da orla de Caraguatatuba.

Como demorou mais que o pretendido para chegarmos, fomos direto pra Prainha. Apesar de nossa casa de praia ser próxima da praia Martins de Sá, preferimos a Prainha porque é sem ondas.

Depois de nadarmos todos juntos, com meu pai brincando de pegar nossos pés em baixo d'agua, resolvi sair e pegar um bronze. Minha mãe foi com o André, a Pam e a Carolzinha comprar picolé, mas meu pai ficou conversando com o vendedor de camarão. Cara, ele para pra conversar com qualquer um que dê ouvidos.

A Pri foi comigo tomar sol. Coloquei meu óculos de sol e deitei com o rosto embaixo do guarda-sol. Acabei ficando com sono sem perceber. Só me dei conta que cochilei quando a Pri me chamou.

- Deb? Ta acordada?

Sacudi um pouco a cabeça pra acordar, antes de responder.

- Agora to. Acabei cochilando. Você estava falando comigo?

- Não, não. Chamei você agora.

- Pode falar - disse eu, segurando um bocejo.

- Eu estava pensando aqui e, acho que está na hora de arrumar um namorado.

Olhei pra ela com o rabo do olho. Apesar de ficarmos próximas neste ano, o assunto meninos ainda era algo que não abrimos uma com a outra.

- Por que você acha isso?

Ela hesitou um pouco antes de responder.

- Sabe... Com todo esse lance entre você e o Rod, nosso trio vai acabar se desfazendo.

- De onde você tirou isso?

- É verdade - ela disse com um sorriso triste. - Assim que vocês começarem a namorar, vão passar mais tempo sozinhos, e tals. E... E eu não quero...

Confesso, deu um nó no peito. A Pri sempre teve dificuldades em fazer amigos. Ela é extrovertida, brincalhona e se da bem com todo mundo, mas é difícil de confiar em alguém. E eu não sabia que ela se importava tanto comigo.

- Pri, olha pra mim.

Ela olhou, um pouco relutante.

- Você sabe que eu sempre amei você, não é?

- Sim.

- E sabe que ultimamente você se tornou minha melhor amiga.

Não era uma pergunta, mas ela assentiu mesmo assim.

- Eu nunca vou deixar você sozinha, minha malinha. As coisas não vão mudar assim, como você está falando.

- Mas Deb...

- Nada de "mais Deb". O Rod e eu não vamos te abandonar.

Ela ficou com os olhos cheios de agua, se segurando pra não chorar. Também, sou uma pessoa maravilhosa. É normal me amarem assim.

- Eu... Eu não quero atrapalhar vocês. Mas também não quero mais ficar sozinha.

Eu me sentei e a abracei. Depois coloquei a cabeça dela no meu colo.

- Eu nunca vou te deixar, Pri.

Ela me olhou com os olhos úmidos ainda.

- Você promete Deb?

- Sim Pri, prometo. Agora, que tal voltarmos pra água? Duvido que você chegue primeiro que eu?

- O que... Ai!

Eu larguei a cabeça dela e sai correndo para o mar, seguido de longe por uma magrela muito irritada. Minha maior preocupação: não deixar a Pri me alcançar, pois a mordida dela é bem ardida. Mas correr na agua não é algo muito fácil, então, nem ela nem eu fazíamos qualquer progresso. Foi quando eu senti.

Eu tinha realmente me esquecido deste tipo de sensação. É algo estranho, que acontece em todo o corpo. Uma sensação urgente de perigo e quase um... ódio, pode-se dizer assim, por qualquer que seja o que esteja se aproximando.

A pedra mágica, ou gema do éter como a Bella tinha chamado, ficou bem quente.

A Pri me pegou e já ia me morder, quando viu minha cara (que não devia estar das melhores). Então começou a olhar para os lados também.

- O que foi Deb? O que é isso?

Eu olhei para todos os lados antes de responder.

- Eu... Eu não sei. Uma sensação estranha, igual a que eu senti um dia antes da Bia me atacar.

- O que?

Eu olhei pra Pri e não entendi o porque da pergunta dela. Seus olhos estavam arregalados (mais do que o normal) e sua boca estava aberta. Foi então que eu me toquei que tinha aberto minha enorme boca e contado pra ela sobre a Bia.

- Pri, eu...

- Para! Não tenta me enrolar! Você acabou de dizer que alguém te atacou. Foi a ex-diretora não foi? A tal de Bia.

Eu hesitei. Não sabia se devia ou não contar pra Pri. Eu sentia que, se ela soubesse a verdade, iria entrar por um caminho sem volta. Eu não sei o porque deste pensamento, mas era muito forte dentro de mim. Então, tomada por uma calma repentina vinda sei lá de onde, eu olhei muito séria pra minha irmã.

Já tínhamos passado por muitos coisa juntas, e ela já sabia que algo estava esquisito, principalmente porque estava comigo quando os caras de capuz atacaram.

- Pri, vou te avisar apenas dessa vez. Se eu te mostrar o que aconteceu, será um caminho sem volta. Você estará ligada ao meu destino, quer queira ou não.

Eu sei lá porque falei assim, mas essas palavras pareciam ecoar de algo distante. Era como se eu tivesse ouvido isso tempos atrás, através de outra pessoa. Era uma sensação muito familiar, mas eu não conseguia discernir de onde vinha.

Minha linda irmã, por mais doidinha que fosse, uma coisa ela não era: covarde. Ainda mais quando o assunto envolvia nossa família. Já a vi esmurrar um moleque mais velho que ela por que o cara bateu no André.

- Eu não ligo - ela disse. - Se alguém sequer cogitar agredir você, essa pessoa terá que se ver comigo primeiro. Eu vou te proteger Deb, preciso fazer isso.

A gema no pulso dela brilhava de tão quente. Eu sabia que era verdade, que ela não estava falando aquilo da boca pra fora. Infelizmente (ou felizmente) minha irmã era muito decidida.

Então eu fiz algo super esquisito, até para as situações que tinham acontecido até então. Coloquei as duas mãos na cabeça da Pri,  e fechei os olhos. Tudo o que tinha acontecido desde quando senti aquela sensação pela primeira vez até agora passou pela minha mente, direto para ela. A transformação da Bia, o homem coberto por chamas, o salto no tempo junto ao papai, o beijo do Rod. Tudo passou em um piscar de olhos por minha mente. E foi transferido para a mente da Pri.

-- # --

Opa, blz pessoal?

Curtiram o despertar de um novo poder da Deb? E o que será que as incomodou e fez a gema delas esquentar daquela maneira?

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