A Filha do Tempo e os Elementos Primordiais

Foi uma quarta-feira, lembro-me bem disso. Afinal, quem não gravaria na memória o dia em que sua versão de uma realidade alternativa aparece na sua casa buscando abrigo?

Eu olhei para eu mesmo com quinze anos, vestindo uma armadura de couro sobre uma camiseta preta com os dizeres "CTPE - Treinando os salvadores de amanhã", e a julgar pela espada que ele carregava, não deveria ser uma iniciativa dos bombeiros.

A história que narrarei aconteceu em outra Terra, mas segundo meu "eu mais jovem", poderia chegar aqui, em nosso mundo, caso ele e seus amigos não conseguissem derrotar o exército de anti-deuses conhecidos como azuras, ou algo assim, que queriam trazer de volta do exílio o Lorde do Caos, Isfet, e seu filho N'Guói (ou lagosta, não sei bem qual era o certo).

Alternando as versões dele (eu mesmo de outra realidade), a da Pri e a da Deb (também da outra versão da Terra, que aqui são minha família), você conhecerá o incrível mundo (ou dimensão, não saquei bem ainda) de Etherion, e toda a gama de complicações que ele trouxe àquela Terra, que podemos definir em uma única palavra: deuses.

Bem vindo às Crônicas de Etherion.

# Uma nova visão da Mitologia Grega

# Os deuses sob uma nova perspectiva

# 2º lugar na categoria "Fantasia" da 2ª Edição do "Projeto Leitura Voraz 2017" do Wattpad - https://my.w.tt/QIE3gAjLML

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5. Churrasco de Cobra

Deb

A Pri e eu nunca fomos amigas de verdade.
Lógico, éramos irmãs e tal... Mas nunca tivemos aquela amizade verdadeira, sabe, como aqueles irmãos que fazem tudo junto. Eu sentia que existia um bloqueio entre a gente, como se ela me afastasse do que importava para ela. E isso me entristecia muito.

Mas graças a Deus, depois que começamos a estudar no Juarez, ficamos mais próximas e, junto com a Miriam e a Jú, umas garotas da nossa sala, formamos um clube da luluzinha (que tinha um membro honorário do sexo oposto, o Rod).

A Miriam é uma pessoa viajante e ruiva, não necessariamente nesta ordem. Ela gosta de protestar contra a matança dos pinguins de papo amarelo, e coisas do tipo. Não sei se é mal de pessoas criativas, mas ela tem a mente bem longe, o que ela compensa com umas ideias muito legais que saem do nada.

A Jú, tadinha, é lesadinha. A Chamamos de Jú Banana, porque ela adora os Bananas de Pijama (isso mesmo, aquele programa da cultura que passava a muuuito tempo). Mas ela é super legal e compensa sua, hum... Lerdice, com muito bom humor em toda sua juba loira.

Essas duas, a Pri e o Rod são meu alívio na eterna maratona de estudar, estudar e estudar. Segundo meu pai, a entrada no Juarez vai facilitar meu futuro, mas não tem facilitado nada o meu presente.

Desde que as aulas começaram, há duas semanas, minha vida é uma rotina sem fim: entro às sete horas na escola, durmo até o intervalo, as 9:30 (fala sério, quem não tem sono nas primeiras aulas da manha?), como um lanche no refeitório (geralmente bisnaguinha com queijo branco, que eu adoro, e suco de abacaxi) e fico de papo até voltar para a aula. Lá chegando, durmo até a hora do almoço, ao meio dia (fala sério gente, depois de comer sinto um baita sono...).

Só começo a me concentrar nos estudos depois do almoço. Sei, sei... Acabei de dizer que depois de comer fico com sono, mas também, dormi a manhã inteira. Tenho que fazer algo de útil, na escola, né?

Claro, me concentro nos estudos se não tiver outras coisas importantes que requerem minha atenção imediata. Tipo o quê? Deixe-me ver... Se a Jú ou a Miriam estiverem com uma cor de esmalte novo (a Pri não gosta de esmalte, vai entender a pessoa); ou se alguém da sala estiver precisando de conselhos amorosos (área que manjo muito, diga-se de passagem... conheço tudo que rola nos sites da net sobre relacionamentos... e não perco uma novela mexicana, vejo todas no Youtube com minha mãe); ou ainda se meu Poo estiver precisando de cuidados especiais.

Você não sabe o que é um Poo? Fala sério, pessoa, em que mundo você vive? Poo é o app de celular/tablet preferido de todos os seres do sexo feminino (e alguns do sexo masculino, vai entender porque).

É como um bichinho de estimação, mas o coco dele não fede e ele não solta pelo pela casa. Perfeito! Chamo o meu de Ti, isso antes dele...

Ai... Estou perdendo o foco. Concentra!!! Pronto, agora tá melhor. Comecemos então daquela terça-feira da segunda semana de aula e o segundo dia que senti aquele treco esquisito.

Estava na aula de educação física. Sinceramente, uma matéria que eu não gosto nem um pouco. Graças a Deus meu professor não implica muito comigo. São raras as vezes que o professor Leandro me manda fazer alguma coisa e, quando isso acontece, vou jogar vôlei com o pessoal.

Apesar de jogar pouco, modéstia a parte, eu me saia bem. Na escola anterior, a Possidônio, eu até participei do interclasses e ficamos em terceiro lugar. Então, não tinha problemas em ser escolhida na divisão de times.

Neste dia em particular, nem precisei do professor Leandro me chamar. Estava animada pra jogar, então já fui logo para a quadra coberta, onde a galera do vôlei fica. Minhas amigas e a Pri também foram jogar. Quer dizer, a Pri sempre jogava. Ela é fissurada em esporte, acho até que vai querer dar aulas de educação física um dia.

Estávamos jogando há uns quinze minutos, e estava bem legal. Nosso time tinha ganhado duas vezes no quinze vira, ou seja, quando um time faz quinze pontos ganha. Dai o vencedor pode escolher virar ou não o lado da quadra. Foi quando chegou a Minerva.

– E então, tem lugar pra jogador de verdade ou é só pra amador?

A Minerva era daquelas que se achavam uma dádiva divina ao mundo. Era boa aluna e ótima atleta, mas era um porre de menina, chata, metida e orgulhosa. Nem preciso dizer que eu a amava.

– É só montar um time e entrar de próximo – eu disse.

Ela me deu um sorriso de falsa felicidade e chamou alguns amigos seus, o que era bem ruim para o nosso time. Apesar da Pri e da Jú jogarem bem, o pessoal que entrou era muito melhor. A Miriam e eu jogávamos apenas por brincadeira, e o time adversário pegou bem pesado. Acabamos perdendo, mas, já que a Minerva ia começar a jogar as meninas e eu resolvemos parar de jogar.

Estávamos ao lado do bebedouro, na fila pra beber água, quando senti algo estranho. Era como se alguma coisa dentro de mim explodisse (e não, não eram gases... se liga, pô). Muito mais forte que o formigamento do primeiro dia de aula. A pontada na cabeça foi tão forte que me desequilibrei e quase cai, sendo salva no último minuto pela Miriam.

– O que foi Deb? O que aconteceu? Ela perguntou.

– Não sei. Eu... Eu me sinto mal.

– Ai meu Deus – disse a Jú. – Você também, Pri?

Olhei e vi minha irmã encostada na parede, com a cabeça entre as duas mãos.

– Não, to de boa – ela disse. - Já está passando. Eu... só é uma tontura, nada mais. Mas talvez devêssemos levar minha irmã para a enfermaria.

- Eu também já estou bem.

As duas olhavam para a Pri e eu, bem desconfiadas e preocupadas ao mesmo tempo, mas deixaram por isso mesmo. Elas nos levaram para o pátio, onde tinha sombra. Em uns dez minutos eu estava bem. Pela cara da Pri, ela também estava melhor.

– Já to de boa – eu disse.

– Deb, não abusa – disse a Pri. – Quer ir pra casa? Eu ligo pra mãe e peço pra ela vir te buscar.

Olhei para ela com a cara mais sínica que consegui fazer.

- Se eu for para a casa, você vai também mocinha. Está tão ruim quanto eu.

- Que tal irem as duas para casa?  Perguntou a Jú.

- Isso mesmo. Tontura e dor aguda na cabeça pode ser coisa seria. Melhor não brincar com isso.

A oferta era tentadora, mas era melhor ficar. Eu já me sentia bem. Só sentia algo estranho. Parecia uma presença, o que era ridículo, já que o pátio estava lotado de pessoas. Era como se alguém estivesse me olhando e eu sentisse isso.

Não sei se a Pri sentia o mesmo, mas ela olhava para os lados como se procurasse alguma coisa.

No fim, resolvi não falar nada. Já tinha tido minha cota de esquisitice por um mês, e mais uma dessa me levaria direto pra enfermaria. Voltamos para a quadra e eu tentei esquecer aquilo. A pedido meu, as meninas não comentaram com ninguém.

Daquele dia em diante, sempre que eu estava na escola àquela presença me incomodava. E um pressentimento de que alguma coisa ruim estava para acontecer não parava de martelar na minha cabeça.

Na segunda-feira seguinte, eu estava na segunda aula do período da tarde, aula do professor Tibúrcio. Sinceramente, eu não tenho nada contra química, mas decorar a tabela periódica é muuuito chato. Titânio, Samário, Cobalto, Germânio... Cara, que nomes malísticos. Quando os ouvi pela primeira vez, pensei que era nome de alguns países lá do fim do mundo.

O que fazia todo mundo gostar da aula era o Sr. Tibúrcio. Tipo assim... Ele é tipo o professor mais da hora do mundo! Ele dava aula para a Miriam no ano passado, de ciências, em uma escola no bairro Vila Industrial. Cara, ele sim sabe dar uma aula. Ele leva vídeos, slides, promove gincanas, palavras cruzadas e dá provas com consulta.

Apesar de baixinho (tipo, um metro e meio), ele impõe respeito ganhando nossa amizade e confiança, não abusando do poder que tem como professor. Depois do primeiro dia de aula, que ele chegou parecendo um físico maluco daqueles laboratórios do governo, ele sempre estava com uma camisa havaiana, calça brim e sapatênis cinza (péssimo modelito). Não sei por que, hoje ele resolveu deixar seu cabelo (que era um emaranhado de fios compridos) no estilo surfista, o que não combinou nada com seu estilo... E ainda por cima a franja ficava caindo nos olhos castanhos.

Eu estava até interessada, porque o Sr. Tibúrcio é simplesmente demais. Ele estava recrutando atores entre os alunos pra fazer um teatro com os componentes da tabela periódica, porque achava que assim aprenderíamos melhor.

– Então pessoal – continuou o Sr. Tibúrcio, – já tem o Cobalski para o papel de Titânio, o vilão. Nossa querida Carmem será a princesa do reino Arsênio. Faltam então, alguns coadjuvantes...

Todos estavam muito empolgados com a ideia, afinal, qualquer coisa que substituísse trabalhos e tarefas era muito bem vinda. Tudo estava tranquilo, caminhando muito bem. Foi então que o seu João entrou na sala. Sempre que ele vinha, alguém era levado para a coordenação.

O seu João é o coordenador do colégio. Um cara de altura mediana, careca, moreno e nariz de chapoca de calcanhar. Era sério, mas muito legal e sempre se mostrava preocupado com a gente.

– Com licença professor – disse o seu João. – A Srta. Bia pede para a aluna Deborah Machado comparecer à sala da coordenação.

É... Era minha vez de enfrentar a justiça da Bia. Todos sabiam por que os alunos eram chamados: os testes de aptidão profissional não alcançaram o resultado esperado. Entende-se por resultado esperado o aluno mostrar aptidão ou vontade de cursar engenharia, que é a profissão carro chefe da Embraer, empresa que financia a escola.

– A Srta. Deborah? – perguntou o Sr. Tibúrcio, com uma sobrancelha levantada. – Bom... Será algo demorado, João? Estamos realmente ocupados aqui, e a saída de qualquer aluno agora pode comprometer o andamento da aula.

Não falei que o Sr. Tibúrcio era o máximo? Uma belezinha ele, tentando me ajudar. Mas infelizmente não fununciou.

– Veja bem Sr. Tibúrcio – começou o Sr. João, meio sem graça, – eu apenas cumpro ordens. Se eu voltar sem a garota, terei que vir aqui novamente. O senhor pode liberá-la, por favor?

"Tadinho do seu João", eu pensei. Olhei para o professor Tibúrcio, que aguardava minha decisão. Fiquei muito feliz por isso. Se eu não quisesse, sei que ele faria de tudo para me ajudar. Mas não seria justo com o seu João. Acenei positivamente para o professor e levantei.

– Ok então – disse o professor Tibúrcio. – Mas, por favor, diga à Bia para não demorar, João. Estou passando matéria de prova.

– Sim, professor. Eu avisarei. Muito obrigado e com licença.

O Sr. João se afastou da porta para eu passar. Saímos e fomos em silêncio para a escada, pois a coordenação ficava no térreo, enquanto minha sala ficava no terceiro andar. Sem ter o que fazer me perdi em meus pensamentos, até que o Sr. João quebrou o silêncio constrangedor.

– Deb, muito obrigado por ter vindo comigo. Não sabe como me livrou de problemas hoje.

– Que é isso seu João. Não é sua culpa. Afinal, está só fazendo o seu trabalho.

– Eu sei, é pra isso que sou pago. Mas tenho que ser sincero com você, garota. Você tem um grande coração. É muito nobre da sua parte se importar com um simples coordenador como eu. Essa nobreza que você tem será muito útil nas coisas que enfrentará em seu futuro.

– Como assim? – Confesso: não entendi bulhufas do que ele disse.

– Como o tempo você verá. Mas uma coisa eu posso te garantir. Ninguém conseguirá fazer com que você tome uma decisão que não queira. Siga seu coração, sempre, mas dê espaço para a razão também. Assim, você andará por caminhos seguros e sólidos.

– Hum... – foi tudo o que consegui dizer.

Um simples coordenador? De que raios ele estava falando? Mas enfim, já tenho esquisitice demais na minha vida sendo irmã da Pri (não contem para ela que eu disse isto, ok?. Voltei aos bons e velhos pensamentos viajantes: Será que iria chover? Quer cor seria meu primeiro carro? A Selena Assunção se declararia para o Roberto Alberto Noberto na novela das 6:00hs? Questões interessantes para refletir quando se está no corredor da morte. Digo, da diretoria.

Chegamos à frente da sala da Bia. Ele olhou pra mim, esperando eu me manifestar. Suspirei e acenei. Seu João bateu na porta a voz da Bia soou lá dentro, estridente como sempre.

– Sim?

– Sou eu, João. Vim com a Sra. Machado.

– Ah, certo. Mande-a entrar. Está dispensado João.

Olhei pra ele vi o quanto ele se segurava para não dizer nada. Eu mesma estava nervosa. Sabia que a Bia se julgava superior aos alunos, mas aos outros funcionários da escola? Fala sério.

- Senhorita – insistiu o Sr. João -, o professor Tibúrcio pediu para dizer-lhe que a aluna Deborah é importante para atividade que está sendo desenvolvida em sala e...

- Tanto faz, João. Manda a menina entrar e pode ir.

Cara, que grosseria daquela mulher. Seu João se controlou. Olhou pra mim e deu um sorriso triste, bem forçado. Acenou com a mão e foi embora pelo caminho que viemos. Respirei fundo e entrei.

A sala da diretora Bia era um luxo só. Sua mesa era de mogno escuro, com um laptop, uma pasta aberta, uma porta-caneta e um porta-retrato de três crianças, seus sobrinhos, na Disney. Atrás dela, de frente para quem entrava na sala, estava uma foto da Bia com a ex-presidenta da república.

Em baixo da janela, que dava para a quadra de vôlei tinha uma mesinha de café, com bolachas, chá e (lógico) café. Do lado oposto à janela tinha uma bonita estante de marfim, repleta de livros.

Eu entrei e esperei. Bia estava lendo algo na pasta que estava sobe a mesa, e eu tive a desconfortável sensação que era sobre mim. Seu cabelo loiro estava preso em um coque com uma caneta prateada. Ela estava de conjunto verde escuro, calça e terninho, tendo por baixo uma blusinha branca (a mesma que ela usava todo dia, por isso, os alunos achavam que ela não tomava banho). Usava óculos com aro de tartaruga rosa. Seus olhos azuis movendo-se, captando toda a extensão das folhas na pasta.

Depois do que pareceu ser uma hora, Bia ergueu os olhos dos papéis e me olhou. Por mais chata que fosse, tinha que admitir que ela era bonita. E nova. Ela tinha apenas vinte e cinco anos, e já era diretora de um colégio de renome na cidade, como o Juarez. Ah, lógico... Ela era insuportavelmente chata.

– Sente-se – ela ordenou.

Sentei e esperei. Já tinha tido outro encontro como ela, e aprendi, da pior maneira, que é melhor não falar nada, a não ser responder o que ela pergunta. Acaba bem mais rápido.

– Deborah, tudo bem com você?

– Sim, Srta. Bia.

– Ótimo. Como estão as coisas em casa?

Era sempre assim. Ela perguntava se estava tudo bem e começava um interrogatório intenso. Sei lá pra que.

– Bem, graças a Deus.

- Está se adaptando bem nas aulas?

- Sim.

- Os métodos utilizados pelos professores te agradam?

- Não tenho nada para reclamar, senhorita.

Ela ergueu uma sobrancelha e pareceu um pouco decepcionada, mas foi muito bem em disfarçar isso.

- Sua irmã e você estão bem? Conseguem acompanhar as matérias tranquilamente?

- Sim senhora.

– Que bom. Os deuses tem se alegrado de vocês então.

E lá vamos nós com esse papo de deuses outra vez. A Bia era daquelas que acreditava em deuses, tipo os deuses gregos. Mas pelo que eu entendia, ela achava que o mundo estaria melhor se os pais dos deuses, os Titãs, reinassem hoje no lugar de seus filhos. Algo assim. Estranho.

Como tinha que responder algo, murmurei alguma coisa tipo "hum, certo".

– Bem – continuou a Bia, – estive revisando seus testes de aptidão.

Como coisa que eu não soubesse disso.

– Ah... os testes (quando não sabe o que dizer, finja-se de tonta).

– Vi aqui que você está interessada no curso de Publicidade e Propaganda.

Não era uma pergunta, então não respondi nada.

– Aqui consta também uma forte aptidão para artes em geral. Diga-me, o que você realmente quer fazer? Em que quer se formar?

E finalmente, o bote.

– Bom, como a senhorita acabou de dizer, quero estudar Publicidade e Propaganda.

Ela ficou me analisando por alguns momentos, fingindo-se decepcionada. Depois, seus olhos ficaram frios, apesar do sorriso forçado. Comecei a me sentir estranha, um certo desconforto na barriga.

– Sabe Deborah, você é uma das melhores alunas da sua turma – disse ela, sempre de olho em mim. – Não sei como consegue isso, já que dorme metade do dia e na outra metade não é tão interessada assim nas matérias. Tive algumas reclamações desse seu comportamento, mas alguns professores alegaram que os resultados de suas provas e trabalhos falarão por você.

Mais um momento de silêncio constrangedor. Pelo que eu sabia, era mais fácil a Minerva e sua trupe de nerds abestalhados terem reclamado de mim do que algum dos professores. Todos eles eram bem legais, e deviam sofrer muito nas mãos dessa diretora rabugenta. Quando contei sobre ela para o meu pai, ele disse que ele devia estar sem beijar na boca há muito tempo. Minha mãe quase teve um troço enquanto meus irmãos e eu morríamos de rir.

Lembrar disso naquele momento não ajudaria muito, pois eu começaria a rir sem, motivos e poderia até me dar mal com a Bia. Tentei, de tudo quanto é jeito ficar séria. Infelizmente, creio que não fui muito convincente.

- Disse algo engraçado, Deborah?

- Não, senhorita. Apenas lembrei de algo engraçado que meu pai disse. Me desculpe.

- Acho bom se concentrar aqui, no presente. Coisas ruins podem acontecer com pessoas desatentas.

Engoli em seco e acenei positivamente com a cabeça.

– Agora que estamos entendidas, voltemos ao assunto em questão... Eu gostaria então que você me explicasse como consegue fazer isso.

– Como consigo... o que?

Ela então deu um sorriso tão sarcástico que comecei a ficar nervosa.

– Bem... Como consegue ir bem em todas as matérias sem o mínimo de esforço.

Minhas mãos começaram a arder e eu suava muito. Estava ficando muito nervosa. Olhei para Bia e ela estava estranha. Havia uma imagem, tipo holográfica em cima dela, meio que se fundindo com ela.

– Algum problema, querida?

Eu não conseguia responder. Estava me sentindo estranha, suando, minha cabeça doía muito. A pontada se transformou em uma dor horrível, e meu corpo inteiro formigava. Minha barriga estava quase entrando em acordo com minha garganta para expelirem meu café da tarde.

Bia esperava minha resposta, mas eu não tinha nenhuma. Aquela sensação estranha do outro dia veio novamente, como se um novo coração batesse bem forte dentro de mim.

– A presença... É você que venho sentindo este tempo todo.

Bia riu com desdém.

– Francamente querida, eu esperava mais de você. Deixei minha aura pulsar bem forte, para ver o que você ia fazer. Pelo visto, o treinamento que recebeu do guardião não ajudou muito.

Olhei pra ela sem entender. Aquela mulher estava ficando maluca.

– Guardião?

- Acha que não sabemos sobre seu treinamento? Da patética esperança que depositaram em você e naqueles outros moleques? Indra é muito mais poderoso do que você imagina, filhote de deus.

Filhote de deus? Indra? De que raios ela estava falando?

Senti meu corpo pulsar cada vez mais forte. Sentia algo imensamente... poderoso, acho que esta é a palavra. Bia deve ter sentido o mesmo, pois seu sorriso triunfante vacilou.

Eu lembro de ter gritado. Então aconteceu.

Tudo parou. Eu não ouvia som algum, nem o tic-tac do relógio de parede. Me levantei por  impulso e Bia não se mexeu, ao contrário, continuou olhando pra cadeira.. Eu sentia... Uma coisa estranha, tipo... Uma energia, se é que posso chamar assim.

E do nada, tudo voltou ao normal.

Bia continuou a encarar a cadeira por mais três segundos e então me olhou.

– Acho que podemos parar com essa brincadeira irritante, certo? Eu sei quem você é, uma filha do tempo.

Filha do tempo? Que raio de nome é esse?

O problema é que eu não conseguia responder. Concentrava-me muito em não desmaiar ou vomitar. Agora, com certeza estava vendo coisas. Bia estava verde, com manchas amarelas. Suas mãos estavam estranhas... suas unhas crescendo.

– Sabe – disse Bia, – não sei como pensou que eu não prestaria atenção em você, no meio de todos esses humanos. Quem te escondeu aqui?

Ela levantou e veio andando em minha direção bem devagar, dando a volta na mesa. Andando não, rastejando. Suas pernas foram substituídas por uma longa e grossa cauda escamosa. Meus punhos estavam fechados, e eu sentia minhas unhas penetrando minhas mãos. Bia apertou meu pescoço com sua garra direita. Chegou bem perto do meu rosto, e vi seus olhos em fendas verticais, como de répteis. Seu bafo era horrível, como se ela nunca tivesse visto uma escova de dentes na vida. No lugar de seus dentes eu vi presas de animais. Sua língua era bifurcada como a de uma cobra.

 

Bia, a mulher cobra

– Vou usar você, garota do tempo. Você vai servir de exemplo para os malditos deuses. Por acaso...

A pedrinha no meu pescoço estava ardendo de tão quente. Uma palavra estranha não parava de vir na minha cabeça. Martelando, martelando...

Então eu gritei.

- Etherion!

Uma luz intensa me envolveu, e eu senti uma coisa estranha, poderosa, percorrendo meu corpo. Por acaso tomei consciência de que minhas roupas mudaram, mas não me atentei a isso. Com todas as minhas forças eu desejei que aquilo tudo parasse, aquele pesadelo esquisito. E foi o que aconteceu. Tudo pareceu congelar. Bia parou de falar e seu aperto afrouxou. Eu fiquei sem entender, mas tentei me livrar daquelas garras a qualquer custo. Foi difícil no começo, mas cosegui tirar a garra do monstro do meu pescoço. Bia não se movia.

Eu cai no chão e vi meu celular, que estava no bolso da calça cair e deslizar para baixo da janela. Me arrastei pra longe da Bia. Quando a adrenalina acabou, eu suspirei, e tudo pareceu voltar ao normal (tão normal quanto pode ser uma cobra-monstro esquisita tentar te matar). Nada de luz intensa e nem roupa diferente. Bia continuou falando como se nada tivesse acontecido.

– ... você achou que... mas o que...

Antes que ela (ou eu) pudesse entender o que aconteceu, uma luz forte como o sol brilhou na janela. A última coisa que consegui ver antes de desmaiar foi um homem coberto por chamas aparecer na sala e envolver o pescoço de Bia com uma mão poderosa que pegava fogo, enquanto o monstro gritava, tentando se soltar.

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Fala galera!

O que acharam do despertar da Deb? Curtiram? Deixe seu ponto de vista nos comentários, me ajuda a melhorar a história!

Abraços e até o próximo cap!

 

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