As Crônicas de Talla

A Terra das Quedas é uma das regiões mais importantes do Reino de Kalikarpaso. O High Lorde Fornes nomeou sua única filha como Regente, após incontáveis feitos. Talla Fornes agora faz parte de uma rede de intrigas e manipulação extremamente difícil e perigosa. Ela tentará fazer sua voz ser ouvida em uma sociedade que não está acostumada a ter uma mulher em posição de poder.

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1. A Regente Sem Voz

Os ataques na rota do ouro eram cada vez mais sucessivos. A iniciativa de diminuir o número de escravos na Terra das Quedas era cada vez mais ineficaz. A corrupção dos membros da Associação do Comércio era cada vez mais atrevida. E a voz de Talla Fornes no conselho era cada vez mais tímida. Não por culpa de Talla, ou tão pouco pela falta de confiança do High Lorde da Terra das Quedas nela. Seu pai lhe apoiava até onde podia, mas o conselho era formado por outros homens que viam a presença de uma mulher na mesma mesa que eles como uma afronta a sua honra. “Mesmo depois das inúmeras vezes em que provei que meu valor.” As incontáveis reformas de sucesso eram recebidas com infinitas reações de indiferença, assim como cada pequeno erro era lembrado constantemente como sinal de incapacidade para exercer o cargo de Regente. “Incapacidade de exercer o cargo de Homem. É por isso que sou condenada. Incapacidade de crescer um pênis.”

 

Te todas as reformas bem sucedidas de Talla a qual ela mais era orgulhosa era a Resolução 11.1101. Ela já tinha 16 anos, mas fazia parte do conselho há apenas um verão. Lorde Telstar do Castelo da Baixada foi o primeiro membro do conselho a escutar a proposta. Ele não decepcionou Talla em sua surpresa forçada. Telstar era um dos quatro grandes Lordes da Queda que faziam parte do conselho, mas grande era apenas a tradição de sua família. O ouro nos cofres de Telstar era tão inexistente quanto sua capacidade de atuação, assim como sua honra e fama. A medida de Talla o ajudaria e ela sabia que Lorde Telstar já havia percebido isso, mas ele iria se fingir de chocado por mais algum tempo.

 

“Se aplicarmos essa iniciativa o número de escravos cairá drasticamente.” Talla tentava desenvolver seu ponto antes de ser interrompida por Lorde Telstar.

 

“Sim. Os escravos ficaram felizes. Os camponeses também. Você ficará feliz em brincar de Rei. Até seu pai ficará feliz por te ver fazendo algo pela família enquanto o herdeiro homem dele não vem. Mas e eu? O que ganho com isso? Por que deveria aceitar lhe ajudar?” Disse o velho roliço se levantando.

 

Talla começou a se segurar assim como sempre fazia. Ela iria engolir seu orgulho e ser cortês como uma Lady deveria ser. “Mas onde isso me levou até agora?” Talla se cansou de agir como Lady e resolveu agir como Regente da Terra das Quedas.

 

“Você vai aceitar por que não tem escolha.” Disse Talla se levantando de seu próprio assento e indo na direção do lorde polpudo. Telstar deu um passo para trás em surpresa e se caiu na cadeira desajeitado. Talla aproveitou o momento e se fez presente. “Por que seus cofres estão tão vazios quanto os estômagos dos camponeses morrendo de fome em nossas terras. Por que mesmo tendo descoberto suas minas de cobre você não tem o ouro necessário para investir em escravos, e com essa proposta irá poder empregar os camponeses com promessa de pagamento futuro.” A cada nova frase ela se aproximava mais de Lorde Telstar, que cada vez mais se encolhia em sua cadeira, tão bem quanto um velho de mais de cem quilos consegue. “E por que assim terá ouro o suficiente para pagar os vestidos extravagantes de suas amantes.” Talla observou o efeito de cada frase sua, mas a última era a qual havia lhe ganhado a lealdade de Telstar. Era sabido que muitos dos grandes Lordes tinham suas amantes espalhadas por cada castelo que visitavam. Mas Telstar tinha uma que vivia sobre o mesmo teto de sua esposa. O casamento com uma mulher da família Goby lhe proporciona algumas vantagens, assim como uma traição tão imoral contra um membro de uma família poderosa podia facilmente lhe proporcionar guerra.

 

“EU estou lhe fazendo um grande favor. E VOCÊ vai ficar me devendo.” Completou Talla enquanto se afastava de Lorde Telstar. “Amanhã estarei aqui após o amanhecer. Espero sua presença para planejarmos como explicaremos a Resolução diante do Conselho.” Talla se virou e saiu sem esperar uma resposta. “Pensei que seria mais difícil crescer um pênis.”

 

Lady Fornes sabia que teria muito mais dificuldade em convencer os outros três lordes do Conselho sobre a retirada do trabalho escravo das minas de cobre. A Terra das Quedas sempre foi conhecida pelo peixes suculentos e mulheres carnudas, mas desde o descobrimento das minas a região se transformou. Os escravos saíram dos barcos e portos e foram levados até as minas. O cobre usurpou o lugar dos peixes não só na economia, mas como também nos lagos confeccionados para criação dos animais, que agora eram usados no complexo sistema de mineração. Talla conhecia cada curva da Revolução do Cobre na Terra das Quedas, e usaria todas elas para convencer o Conselho.

 

“Vocês terão os criados necessários para a manutenção das estradas, mas a construção terá que ser terminada em duas semanas.” Disse o High Lorde Fornes, já cansado de discutir. Talla sabia que seu pai era mais propenso a aceitar os pedidos de acordo com que o cansaço ia vencendo o sua vontade de dialogar. Mas isso era para pedidos pequenos. Para a sua Resolução ela ia precisar de mais elementos do que o cansaço.

 

“Meu Senhor, os nossos construtores disseram que precisariam de no mínimo cinco semanas.” Lord Deciul era o menos confiável de todos os Lordes juramentados ao Castelo da Queda, e o mais insistente. “Isso se o tempo ajudar.”

 

“Os deuses seguraram o tempo, e você acelerará o trabalho.” Disse o High Lorde com um ar autoritário.

 

Talla viu Lorde Goby segurar o braço de Lorde Deciul, que por sua vez segurou sua resposta para si mesmo. “Sim, Meu Senhor. Lorde Deciul e eu iremos nos certificar que os trabalhadores cedidos com tanta gentileza por Vossa Alteza sejam bem utilizados.” Disse Lorde Goby com referência estranhamente exagerada. Talla não sabia tão bem o que pensar de Goby. Ele era sempre o que menos falava nas reuniões, no entanto era o mais ouvido.

 

“Duas semanas serão o suficiente, Meu Senhor.” Lorde Deciul usou a deixa para completar.

 

“Por fim. Caso ninguém tenha mais nada a acrescentar, podemos encerrar essa reunião.” Disse o High Lorde já se levantando. Geralmente as reuniões do conselho eram cercadas de pequenos pedidos e preocupações. Eventualmente algum depoimento importante de um Lorde menor ou membro da Fé. Um caso como o do pedido de Lorde Deciul por homens para acelerar as obras de manutenção nas estradas do região eram o ponto máximo de uma reunião do Conselho em dias normais. Aquele não era um dia normal.

 

“Por ordem gostaria de apresentar uma Resolução.” As palavras de Talla não surgiram o efeito que ela gostaria. Desde a criação do Conselho da Terra das Quedas foram quatrocentos e cinquenta e três invernos e apenas dez Resoluções, por isso Talla esperava uma reação mais ativa dos membros do Conselho, que continuaram se levantando e se preparando para ir embora.

 

“Minha querida Lady Regente, Resoluções são apresentadas para resolver o fim de disputas. Não temos nenhuma disputa nas nossas terras. A não ser que tenha interpretado a desavença entre Lorde Deciul e Lorde Telstar pelo último pedaço de pão como tal.” Disse Lorde Sturge com o tom de menosprezo, enquanto olhava para Lorde Goby a espera de aprovação por sua pequena piada. Talla tinha preocupações com a lealdade de Lorde Deciul, sentia aversão a falta de moral de Lorde Telstar, e admirava Lorde Goby tanto quanto o temia. Mas só conseguia sentir desdém para com Lorde Sturge. Goby havia se casado com a irmã de Sturge no outono passado, e desde então Goby teve sua voz duplicada dentro do Conselho. Um dia Talla chegou a se perguntar se a reunião estava acontecendo em uma caverna quando percebeu Sturge repetindo em eco cada palavra que seu novo cunhado falava.

Mas dessa vez ele tinha um ponto. A grande maioria das Resoluções anteriores existiram apenas para reconhecer uma mudança nas fronteiras quando algum Lorde ganhava uma disputa e assim anexava um território que antes era juramentada a uma outra casa. Sempre retroativa a alguma guerra. Mas não todas.

 

“Sim Lorde Sturge, Vossa Senhoria está correto. Nove das dez Resoluções criadas foram para dar solução a alguma disputa territorial após o fim de um confronto. Mas a Resolução 6 do ano 907 era diferente. Ela exigia que todo contrato de compra e venda feita entre um lorde juramentado ao Castelo da Queda fosse aprovado pelo seu líder antes de assinado. Naquela época o High Lorde Boris Fornes, meu avó de sexta geração, solucionou problemas antes deles se tronarem confrontos. E salvou milhares de vida e milhares em ouro com as guerras que evitou.” Talla não sabia o que lhe fazia mais orgulhosa naquele momento, mas provavelmente foi ver Lorde Goby sendo o primeiro a se sentar em sua cadeira novamente com um olhar curioso dirigido a ela. Após Goby todos voltaram a se sentar e esperar ansiosos pelo que ela tinha para propor. Ela sabia que logo aqueles olhares curiosos se transformariam em outra coisa, mas tinha que aproveitar em quanto eles a escutavam com atenção.

 

“E então, como pretende salvar milhares de vidas e de ouro para nossas terras?” Talla havia treinado Lorde Telstar para lhe fazer as perguntas certas nos momentos certos. Ele deveria ser o mais crítico possível. Ela sabia que diversas perguntas iam ser levantadas, e se ela controlasse como e quando elas fossem levantadas poderia se preparar melhor para responder cada uma da melhor maneira.

 

“As vidas salvas serão dos nossos camponeses que morrem de fome por nossas terras. E o ouro será na transformação da Terra da Quedas como a melhor produtora de cobre do Mundo Conhecido.” Talla havia ensaiado exaustivamente cada resposta. Em sua cabeça a reação seria melhor para sua primeira frase de efeito. Ainda assim pelo menos seu pai se mostrou assertivo.

 

“E como pretende fazer isso?” Perguntou o High Lorde Fornes.

 

“As Makks são os reinos conhecidos por seus Gladiadores, o reino de Thryva por seu vinho e as Ilhas do Mar Vasto por suas especiarias marinhas.”

 

Antes que Talla pudesse continuar seu raciocínio Lorde Telstar habilmente a interrompeu. “Todos nós já vivemos pelo menos duas vezes o número de invernos que a Lady, que agora quer nos ensinar historia do Mundo Conhecido que os gatunos de rua conhecem.” Disse ele se dirigindo aos outros membros da mesa.

 

“Vossa Alteza a Regente. É assim que deve se dirigir a Lady Fornes nas reuniões do Conselho, Lorde Telstar.” Disse respeitosamente Lorde Goby. Talla havia tido a ideia de fazer Telstar lhe chamar de Lady em tom de menosprezo, mas nunca em mil verões esperaria que Lorde Goby seria quem iria o corrigir e repreender. A expectativa era de Telstar a ofender mais algumas vezes até que a própria Talla o cortasse, mas isso havia saído ainda melhor do que ela havia planejado. Talla não tinha tempo para saborear aquela pequena vitória. Lorde Goby acenou brevemente com a cabeça para ela, que continuou.

 

“Não pretendo lhes dar nenhuma aula de historia, Lorde Telstar. Mas por vezes aqui quando um de nós descobre uma nova técnica que pode ajudar nossos vizinhos, logo tratamos de compartilhar. E é isso que pretendo fazer hoje.”

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