O meu melhor amigo da minha namorada


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1. O meu melhor amigo da minha namorada

- Rafael, você confia no Rubens?

- Conheço-o desde o segundo ano do primário.

- Eu sei. Mas você confia nele?

- Confio. Eu e ele somos como unha e carne. Ele é o meu melhor amigo e eu sou o melhor amigo dele. Mas, diga-me, Eliseu: Por que você me perguntou se confio nele?

- Ouvi algumas histórias...

- O que você está insinuando?

- Quero dizer que o Rubens está apunhalando você pelas costas.

- O quê? Por que você me diz isso?

- Ora, falam por aí...

- Falam o que, Eliseu? Deixe de rodeios. Vá direto ao assunto. Tenho motivos para desconfiar do Rubens? Que eu saiba, não. Ele é o meu melhor amigo. Por ele, ponho a mão no fogo. Você está querendo me dizer alguma coisa? O que é?

- Não me leve a mal, Rafael, mas, sabe? É complicado...

- Então, descomplique. Para mim, complicado é o cálculo integral. Tive professores de matemática que saltavam por sobre esse capítulo e aproveitavam o tempo para falar do Che Guevara, aquele assassino. Carlos Chagas, cá entre nós, merece o título de herói. Não o Che, aquele homicida bastardo. Você já ouviu falar do Trypanosoma cruzi? Mas você, Eliseu, ainda não me disse porque me perguntou se confio no Rubens.

- É um assunto que tem de ser tratado com tato, para evitar brigas, até...

- Pare de conversa mole.

- Não é conversa mole. É um assunto... Pode haver fatalidades. Você já ouviu falar do Otelo e da Desdêmona?

- Desdêmona? Que eu saiba, o Otelo namora a Rúbia.

- Deixe pra lá. É uma história muito extensa.

- Você fala, fala, mas não diz nada. Desembuche.

- Estou à procura das melhores palavras, para não haver mal entendidos.

- Use qualquer palavra, Eliseu. Desembuche. Você, com esse chove-não-molha, me dá nos nervos.

- Eu queria falar para você há um mês...

- Um mês! Falar o quê?

- Espere. Não me interrompa. Deixe-me contar a história.

- Conte-a. É o que eu quero que você faça.

- Então, não me interrompa. Inteirarei você do que ouvi. Depois, você que procure saber a verdade. Há um mês, mais ou menos, a Mônica contou-me que viu o Rubens e a Penélope, na praça Santo Antônio...

- Muita gente vê maldade em tudo. Procuram chifres em cabeça de cavalo...

- Não é na cabeça de um cavalo que a Mônica insinuou haver chifres.

- O que você quer dizer?

- Nada.

- O Rubens e a Penélope são amigos. E eu sou amigo da Beatriz, namorada do Rubens. Lembra-se do que disseram quando dei carona para ela? Disseram que eu e ela tínhamos um caso.

- Lembro-me, Rafael. Deixe-me prosseguir...

- Há muita gente maledicente neste mundo.

- Deixe-me continuar...

- Tem gente que só sabe pensar o pior de todo mundo.

- Você está um pouco exaltado.

- Você queria que eu ficasse de que jeito? A Penélope, minha namorada, e o Rubens, meu melhor amigo, foram vistos, juntos, em uma praça... A Mônica é mexeriqueira....

- Posso continuar?

- Continue. Quero ver até aonde vai a má-fé da Mônica.

- Ouça-me, e não se precipite. E não se irrite. Fique quieto, e ouça-me. A Mônica não foi a única pessoa que me falou do Rubens e da Penélope. Uma pessoa em quem confio...

- Quem?

- Posso prosseguir? Obrigado. Uma pessoa em quem confio... Dela nenhuma suspeita levanto quanto ao caráter... Não direi o nome dela, por enquanto. Não digo isso porque você poderá vir a presumir que não confio nela. Não digo o nome dela porque ela me pediu que eu não o dissesse para você, e disse-me que uma amiga dela, cujo nome ela não me revelou...

- É sempre assim...

- Posso?

- Uma pessoa disse que outra pessoa lhe disse... E os nomes? Nunca são citados.

- Posso continuar?

- Por que você não dá os nomes? Porque elas pediram, para contar para você o que tinham para contar, que você não me dissesse os nomes delas.

- Posso continuar?

- Fique à vontade.

- Ela me disse que, naquele dia que você, gripado, não pôde ir à discoteca Noite Quente, a Penélope e o Rubens, juntos, na pista de dança...

- Eles não podem dançar?

- Se você me interromper a cada dois segundos, não poderei contar o que me contaram. Nenhuma afirmação eu fiz. Ninguém me deu provas de coisa nenhuma. Conto o que me contaram. Você, depois, que decida o que irá fazer. Não cabe a mim dizer para você o que você tem de fazer. A Penélope é a sua namorada, não a minha, e o Rubens é o seu melhor amigo, não o meu. Então, vamos prosseguir. A Penélope chegou na discoteca, disse-me a minha amiga; pouco depois, o Rubens chegou. Encontraram-se em uma mesa reservada. Beijaram-se, no rosto. Dançaram a noite toda. Um não tirava os olhos do outro. Não quero dizer que eles não arrancavam os olhos um os do outro. Não gostou da piada, sei; não precisa me dizer que é sem graça. O que quero dizer é que a Penélope e o Rubens encararam-se, apaixonadamente, segundo algumas testemunhas... Não me interrompa. Ainda não terminei.

- Vou pôr tudo isso em pratos limpos.

- O Rubens e a Penélope, enquanto dançavam, conversavam ao pé do ouvido, abraçados, juntinhos. Riam. Gargalhavam. Dançaram agarradinhos durante as músicas românticas. A Marli, uma amiga minha, você não a conhece, sei, disse-me que ouviu a Penélope falar para o Rubens: “Deixe o Rafael pra lá. Esqueça-o. Ele vive com a cabeça no mundo da lua e não vê o que se passa na ponta do próprio nariz.” A Marli disse-me que estavam ao balcão. Ela, que sabe que conheço a Penélope e o Rubens, contou-me o que ouviu. A história ainda não chegou ao fim. O Claudionor disse-me que, naquela mesma noite, viu a Penélope e o Rubens à saída do Jardins Suspensos da Babilônia.

- O quê? É mentira.

- Não digo nem sim, nem digo não.

- Você está me dizendo que a Penélope e o Rubens estão me traindo?

- Falei do que ouvi.

- Não é possível! A Penélope e o Rubens! Nunca! Jamais! Eles nunca me trairiam. Nunca! Confio neles. Viram o Rubens com outra mulher. O Claudionor enganou-se. Não há outra explicação. A Penélope e o Rubens! Nunca! Não acredito. Tenho certeza de que eles não estão me traindo. Não! Não! Não! Vou falar com o Claudionor a respeito.

- Não vá fazer besteira.

- Que besteira, o quê! Parece que você não me conhece.

- Conheço você muito bem. Você é que não se conhece. Você é pavio curto. Estourado. Meio insano. Meio insano? Você é um insano inteiro. Não sei se fiz bem em ter contado...

- É claro que fez.

- É que ocorrem tantas tragédias por aí...

- Você está pensando que matarei o Rubens e a Penélope? Não há motivos. Confio neles. Vou falar com o Claudionor... Há um mal entendido.

- Não se esqueça: Não vi o Rubens com a Penélope. Contei para você o que me contaram. Não se precipite. Vá com jeito. Se necessário, fale com o Claudionor, com a Penélope, com o Rubens. Você não pode nem cruzar os braços, nem partir para a ignorância. Se você conhecesse a história do Otelo, entenderia...

- É a segunda vez que você me fala do Otelo. Qual a relação dele com a Penélope? Você quer me dizer mais alguma coisa? Desembuche.

- Vamos almoçar. Estou com fome. Se quero dizer mais alguma coisa? Quero: Você precisar ler um livro de vez em quando.

Entraram no restaurante. Sentaram-se à mesa. Falaram de futebol enquanto aguardavam o garçom oferecer-lhes o cardápio e servir-lhes o almoço. Durante o almoço, falaram de transações financeiras de gigantescos conglomerados financeiros, do mercado internacional, do progresso da China e da Índia. Não negligenciaram o Brasil: falaram do despreparo dos brasileiros, do seu baixo nível de conhecimento em matemática e em ciências. Falaram, também, da disseminação do populismo, na América do Sul, impulsionado pelos petrodólares da Venezuela e pelas doutrinas irrealistas disseminadas, sob o rótulo bolivarismo, pelo hagiógrafo de Fidel Castro, Hugo Chávez. Outros temas aos quais dedicaram algumas palavras: internacionalização da Amazônia; aquecimento global; guerra no Iraque e no Afeganistão; pedofilia; confrontos entre policiais e traficantes de drogas nos morros cariocas; o vigor renovado do poderio econômico e militar da Rússia; as novas tecnologias da informação, da telefonia e do entretenimento; o preço do petróleo; as brigas das celebridades do cinema, das novelas e dos esportes; os mais recentes episódios de séries de televisão; revistas em quadrinhos; vídeos aos quais assistiram na internet; os preços, modelos e prestações de telefones celulares.

À noite, Rafael visitou Penélope, no apartamento dela. Enquanto ambos bebiam champanhe e assistiam a uma superprodução hollywoodiana, ele lhe falou das histórias que ouvira de Eliseu. Penélope, no início, abafou a gargalhada, mas, ao ver que Rafael continha-se para não gargalhar, abriu a boca, e a sua gargalhada contagiante preencheu todos os cômodos do apartamento.

- Que comédia! - exclamou Penélope, enxugando as lágrimas que se lhe escorriam pelo rosto de maçãs robustas e coradas. - Que comédia! Não posso ter amigos? Pôxa! Fui, sim, à discoteca com o Rubens. Não contei pra você, Rafael, porque não é necessário contar. Além do mais, essa não foi a primeira vez que fui com o Rubens à discoteca, você sabe. Que bobagem! É aquela velha história. As pessoas vêem certas coisas, e pensam que estão vendo outras, ou querem ver outras – fez uma pausa, ar pensativo. – Os Jardins Suspensos da Babilônia, uma das sete maravilhas do mundo, desapareceu a milhares de anos. Não precisaremos esperar muito tempo para ouvirmos histórias de minhas aventuras e do Rubens na torre de Babel, aos pés do Colosso de Rodes... e... Quais são as outras maravilhas? – e gargalhou. Rafael gargalhou, atraiu-a para si, enlaçou-a, e beijou-lhe o pescoço. - É demais pra minha cabeça! Vamos deixar tal bobagem pra lá, e vamos nos divertir.

Além de Eliseu, nos dias seguintes, nas semanas seguintes, outras pessoas deram para Rafael notícias cabeludas protagonizadas por Penélope e Rubens. Muitas delas não se limitaram a lhe falar de supostas escapadas de Penélope; deram-lhe orientações de como ele poderia flagrar Penélope e Rubens, na cama, ou no apartamento dela, ou no dele, ou num motel, e de como ele poderia abordar o assunto durante conversas com Penélope e Rubens. Rafael, no início, desconsiderou as histórias que lhe levavam ao conhecimento, mas ficou cismado quando pessoas nas quais confiava e cujo caráter imaculado conhecia contaram-lhe histórias de Penélope e Rubens. Disseram-lhe que os viram, aos beijos e abraços, no cinema, à saída de um motel, à entrada de um hotel – ou em carros separados, ou no mesmo carro - e, um pouco antes do almoço, à entrada e à saída do prédio no qual Rubens morava. Rafael ficou com os cabelos em pé. Cismado, desconfiou, inclusive, das pessoas que mais prezava, e desconsiderou o que elas lhe disseram. Não queria acreditar que Penélope, a sua namorada, e Rubens, o seu melhor amigo, o traíam. Mas as histórias sucediam-se. O ciúme corroia Rafael, que discutia, diariamente, com Penélope, que lhe dizia, com tanta convicção, que todas as histórias não passavam de mentiras que ele nela acreditava, mas resquício de desconfiança persistia em manter-se nos seus pensamentos; resquício que a voz carinhosa e as carícias de Penélope dissipavam.

Sucediam-se as histórias.

Atormentado, com o espírito corroído pelo ciúme, Rafael passou noites em claro, a sua memória falhava com freqüência preocupante, e no trabalho desincumbia-se com lentidão as tarefas sob a sua jurisdição. Em certa ocasião, cochilou ao volante, e quase provocou um acidente. Diante dessa situação insustentável, decidiu acolher uma sugestão de Vinicius, um colega de trabalho que lhe contara uma história protagonizada por Penélope e Rubens.

- Vamos pôr tudo em pratos limpos - disse-lhe Vinicius, durante o almoço, no refeitório da empresa. - Você está se acabando... Você se olhou no espelho hoje? Seus olhos... seu rosto... Pelo amor de Deus! Você parece um espantalho. Pior, um zumbi. Um morto-vivo. Um vampiro de filmes de terror. Descobrirei o dia, a hora e o local de um encontro da Penélope com o Rubens, caso eles estejam realmente se encontrando por aí. Assim que eu souber de algo, ou irei ao seu apartamento, ou telefonarei para você. Fique sossegado. Você precisa desanuviar a cabeça.

- Se você... Não sei mais o que pensar... Se você puder me ajudar, Vinicius...

- Se posso? Ora, Rafael, para que servem os amigos?

A conversa encerrou-se ao fim da refeição. Quatro dias depois, Vinicius, ao telefone, inteirou Rafael do dia, da hora e do local de um encontro de Penélope e Rubens. Rafael, antecipando-se a Penélope e Rubens, foi ao local do encontro, um parque, usando roupas incomuns, e sentou-se, com um livro nas mãos, fingindo lê-lo, à sombra de uma árvore, e ouviu a conversa de Rubens e Penélope. Ei-la:

- Ontem, Rubens, discuti com o Rafael. Ele não confia em nós.

- Por que inventam histórias a nosso respeito?

- Não sei. Ontem, o Rafael disse-me... Nossa! Você não vai acreditar...

- Você precisa ter um pouco de paciência.

- Paciência! Ontem, eu, se não mordesse a língua e não pensasse um pouco, acabaria com o namoro. O Rafael ofendeu-me. Tratou-me como se eu fosse uma vadia.

- Ele está com ciúme. Penélope, você e eu temos de nos evitar... Temos de nos afastar um do outro. Quer um sorvete?

- Quero. Por que temos de nos evitar? Temos de acabar com a nossa amizade, Rubens? É isso... Entendi o que você disse? Rubens, somos amigos há tanto tempo! Desde os oito anos. Desde os dez anos. O Rafael não tem motivos para desconfiar de nós. Pôxa, ele desconfia de mim... De mim. Por quê? Porque um bando de imbecis, boateiros, mexeriqueiros, que se fazem de amigos dele, inventam histórias a nosso respeito...

- O Rafael viveria melhor se possuísse apenas inimigos.

- Com certeza... Ele discute comigo, todos os dias. Não agüento mais. Estou a ponto de chutar o balde...

- Vocês namoram há três anos...

- Quatro anos e meio.

- Vai jogar tudo para o alto?

- O que você quer que eu faça? Ele não confia em mim. Ele acredita nas pessoas que lhe contam mentiras...

- Acalme-se, Penélope, acalme-se. Não se precipite. Não tome nenhuma decisão precipitada.

- Não agüento mais! Não agüento mais! Eu e o Rafael discutimos, todos os dias. As coisas que ele me diz... Ontem ele levantou a mão pra mim.

- Ele jamais bateria em você. Conheço-o há tanto tempo...

- Você acha que ele não me bateria? Você não viu os olhos dele, ontem. Você não viu o rosto dele. Parecia... Sabe... Parecia... Você... Havia fúria nos olhos dele. Fiquei com medo. Fiquei apavorada. Se eu não lhe dissesse que, se me encostasse um dedo, um só, se ele ousasse me encostar um dedo, apenas um dedo, eu iria à delegacia, e o denunciaria, ele não abaixaria a mão, e me daria um murro.

- Ele não bateria em você, Penélope. Um gesto impensado, o dele. Num momento de fúria... Ele não repetirá o gesto.

- Não sei. Tenho tanto medo.

- Acalme-se. Você está um pouco nervosa. Tenha um pouco de paciência. O Rafael vai pôr a cabeça no lugar, e reconhecerá, mais cedo ou mais tarde, a injustiça que está cometendo, e saberá que os amigos dele são amigos da onça, e a paz entre você e ele será restabelecida.

- Deus queira que isso seja verdade. Darei fim ao namoro, se o Rafael me ofender mais uma vez.

- Acalme-se, Penélope. Acalme-se. Você e ele formam um belo casal. Muita gente inveja vocês dois. O Rafael há de se convencer que você merece toda a confiança do mundo...

- Você também.

- ... e as coisas vão se ajeitar. Vamos? Temos dez minutos.

- Que horas são?

- Meio-dia e cinquenta.

- Nossa! Já? O tempo passou tão rápido. Vamos chegar atrasados ao escritório.

- Vamos acelerar os passos. Não podemos chegar atrasados. O chefe, hoje, está com a macaca, diria meu pai. Vamos. Ou você quer ouvir um sermão daqueles, hoje?

*

- O Rafael é um amor de homem. Nos últimos dias, tratou-me como rainha. Vamos brindar. Ao cornudo!

Rubens e Penélope brindaram.

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