O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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13. Capítulo 8 - ח (CHET) A ENCARNAÇÃO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ח

CHET

A ENCARNAÇÃO

 

N’zambi acordou de súbito, depois de um dia e uma noite de sono profundo. Estava confuso ainda deitado numa cama de madeira, sobre um colchão feito de folhas de bananeiras secas, amontoadas dentro de um grande saco de linhagem feito com fibras de cânhamo. O jovem príncipe abriu os olhos lentamente, e sua visão ainda estava ofuscada, de modo que aos poucos se recuperava. Por um momento não sabia onde se encontrava, pensando ainda ter acordado na paróquia em que viveu a maior parte dos seus dias até chegar a Palmares.

Quando recuperou totalmente os seus sentidos, se viu em um quarto arredondado escuro feito de taipa, encoberto por um teto feito de palha de folhas amontoadas, produto das palmeiras de guariroba que cercavam a região. Ao lado da sua cama, havia uma pequena mesa de madeira quadrada com quatro pernas, e sobre ela uma pequena moringa de barro com água e, também, uma lamparina de barro que ainda se encontrava acesa.

N’zambi se debruçou na cama e logo se sentou. Pegou a pequena moringa e de uma só vez bebeu toda água contida nela. Ainda o sol não se levantou porque era madrugada, mas não faltava muito para o raiar do dia. Sentado na cama, encostado à sua cabeceira, N’zambi puxou o seu longo cobertor feito de tiras de pano de algodão coloridas, emendadas a um grande lençol de fibra de cânhamo, e se encobriu. Naquela hora da madrugada antes do despertar do sol, o frio ainda era intenso por conta do orvalho da manhã.

Direcionando o seu olhar para a pequena chama que se encontrava ao seu lado, N’zambi se esforçava para se lembrar do sonho que tivera, e que o apavorou, despertando-o. Recordava que entrara não se sabe da onde em um grande cômodo em que todas as paredes estavam de uma forte cor avermelhada. Onde havia uma grande sala vazia, e iluminada por uma tênue luz amarela. O piso dessa sala tinha ladrilhos preto e branco. Todo intercalado como um tabuleiro de xadrez. E, ao lado de uma das paredes, se encontrava uma longa escada circular, que subia em espiral. Havia também uma mesa ao fundo, e acima dela um grande candelabro em forma de bastão, que continha uma única vela acesa, da qual provinha a luz amarelada que clareava todo o salão. Nessa mesa também havia um incensário que rajava fumaças por todo o ambiente.

Sem mover um único passo do lugar onde se encontrava, o jovem viu à sua direita um curto corredor azulado, com várias portas pretas intercaladas. Esse corredor estava semiescuro, e o atraiu de tal forma que ele foi caminhando em sua direção. A cada passo que dava, N’zambi se sentia mais consciente em seu sonho, e por um instante começou a reparar nos seus pés caminhando. Então, percebera que estava em meio a um sonho. Estando plenamente consciente e afirmando para si mesmo que estava sonhando, lembrando-se das palavras que o preto velho griot Djeli dissera antes, a respeito de estar consciente no mundo dos sonhos.

Nesse momento de estado de pura consciência, N’zambi começara a reparar nos minuciosos detalhes daquele ambiente estranho. Observando as inúmeras portas negras do corredor em que caminhava lentamente. Ao passo em que caminhava e olhava as portas, N’zambi se sentiu fortemente atraído por uma das portas do lado esquerdo, já perto do final do corredor. Ele foi até ela, colocou sua mão sobre a maçaneta e, por um instante, hesitou em abri-la, sentindo um forte calafrio por dentro. Contudo, a sua curiosidade era mais forte do que o seu medo. Então, lentamente abriu a porta. E, observando porta adentro, se deparou com um ambiente totalmente escuro e sombrio, onde havia uma escada que descia para as trevas, e percebeu dois grandes olhos como de um felino o observando. Rapidamente, N’zambi, apavorado, fechou a porta. E, nesse fechar, uma das portas que era a última do lado direito do corredor se abriu. E dessa porta saía uma luz branca intensa. Sem demora N’zambi correu adentrando-a, e nisso uma voz lhe disse bem alto e forte: “E AQUELES QUE TÊM SABEDORIA BRILHARÃO COMO O ESPLENDOR DO FIRMAMENTO”. Então, N’zambi acordou.

Inutilmente o jovem príncipe procurava um significado para aquele sonho estranho e tão real que o apavorava. E, nisso, esperava o nascer do dia para relatar esse sonho ao preto velho Djeli, em busca de uma significação. O sol maravilhosamente despertara do seu sono, e banhou com sua graça iluminada os arvoredos e kubatas dos kraais dos mokambos do K’ilombo dos Palmares. Já nos primeiros raios solares, os pequenos pássaros entoavam uma forte corrente de oração, veneração e agradecimento ao novo dia. Em um bom dia encantador, pelo qual N’zambi observava de bruços numa pequena janela do seu quarto de taipa.

Encantado, o jovem príncipe resolveu encarar o sol o mais forte que pôde. E, depois de alguns segundos, a luz o cegou, e num mero pensamento momentâneo e inteligente, pensou consigo mesmo se indagando: “Qual a diferença em encarar a luz e observar a escuridão, se ambas cegam a nossa visão?”.

E, naquela simples indagação, N’zambi obteve uma grande iluminação do entendimento da dualidade que o cercava fora e o aprisionava dentro. Ele percebera o significado do 1 (um) que se faz 2 (dois), e do 2 (dois) que se faz 3 (três). O jovem príncipe percebeu de súbito que o 2 (dois) é uma ilusão. O dois (2) era inexistente, e não era uma realidade, e sim a maior das mentiras já criadas pelo nosso intelecto, sendo apenas um ponto de vista limitado do todo fragmentado. Nesse momento em que o sol o cegava com sua grande luz, absorvendo-o, N’zambi entendeu que um mais um é igual a três (1 + 1 = 3), e que o três é igual a um (3 = 1).

— Bom dia, meu jovem!

— Uai! — Pulou N’zambi assustado, com o toque da mão do velho Djeli em seu ombro.

— Há, há, há, há! — Gargalhou o preto velho, e disse:

— Desculpe, meu jovem, não foi minha intenção assustá-lo. Falei com você antes, mas você não me ouviu, parecia encantado por alguma coisa.

N’zambi tentou inutilmente encará-lo. Mas apenas o que conseguia ver era uma grande bola de luz na sua frente que o cegava. E disse:

— Não foi nada, Djeli, apenas estava encarando o sol.

— E o que você viu no sol, meu jovem?

— Uma forte luz que me cegou.

— E o que você viu nessa Luz que o cegou? — Perguntou novamente o preto velho.

— Vi que não há diferença entre encarar a luz e observar a escuridão, porque ambas nos cegam.

Diante daquela resposta, o velho griot percebeu que suas sementes foram lançadas em solo fértil, e que já começaram a germinar. E disse:

— Me fale mais sobre isso, meu jovem.

Aos poucos N’zambi recuperava a sua visão, e a grande bola luminosa ia ficando cada vez mais fraca, e o rosto de Djeli ia ficando mais nítido aos seus olhos. E disse:

— Somente agora, Djeli, eu compreendi o que você tanto me falava a respeito do entendimento do Sagrado e Eterno Contínuo, que tinham os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães. E pude perceber que todas as coisas são uma única coisa só, e de que toda dualidade é uma mera ilusão. Entendi que cada coisa e pessoa é um universo em particular. E, quando dois universos se unem, um outro universo é criado. E, quando dois universos se apartam, eles permanecem dois. Não podendo dessa forma gerar um outro universo e nisso se unificarem. Entendi que 1 (um) mais 1 (um) é igual a 3 (três) e que a trindade é o verdadeiro uno. E, quando 1 (um) mais 1 (um) se torna 2 (dois), então surge a ilusão. E a ilusão é a dualidade de todas as coisas existentes.

Diante desse relato, o preto velho ficou maravilhado. Percebendo que a semente que lançara em pouco tempo já era uma árvore frondosa. E que aquele não era um simples solo fértil. Era um monte de adubo. E disse:

— Agora, meu jovem, você adquiriu uma verdade. Sem demora você deve torná-la útil. Se não a tornar ação, você logo a esquecerá. Agora sei que você está preparado para o que eu tenho a lhe ensinar. Pois, diante de tal afirmação, você já concluiu a Grande Obra. Mas, lembre-se! O mais importante não é descobrir a verdade, pois muitos já obtiveram isso. O que torna a verdade verdadeira é sustentá-la e torná-la útil. Aí está a dificuldade.

— E como posso fazer isso Djeli? — Perguntou N’zambi.

— Se educando e se disciplinando, meu jovem, para se tornar um homem de ação. E assim poder adquirir A SABEDORIA que te dará AS DOZE VIRTUDES DO EQUILÍBRIO DA ALMA, que são: A FORÇA, A HUMILDADE, A JUSTIÇA, A FÉ, A ESPERANÇA, A PACIÊNCIA, O AMOR, A CORAGEM, A VONTADE, A GRATIDÃO, A GLÓRIA e A BENÇÃO que conduzem ao bem maior que é A PERFEIÇÃO, por fim conduzindo À LUZ, e essa LUZ é A VERDADE, e a isso chamo VIDA SANTA DE PAZ.

Djeli o encarou, e dessa vez estava muito sério como N’zambi nunca o vira antes, e continuou:

— Muito tempo atrás, meu jovem, eu estava caminhando de terra em terra e de mar em mar. Procurando o Segredo dos segredos, e queria descobrir o Mistério dos mistérios. Em minhas andanças encontrei um homem branco, que se refugiara na nossa Terra-Mãe África. Ele me contratou para eu tomar conta do seu terreno, e lhe ajudar num árduo trabalho que ele desempenhava dia e noite sem parar. Muitos diziam que ele era louco e que fazia feitiçaria. Mas, como eu precisava de um lugar para dormir e também de comida, aquela era uma ótima oportunidade. Não me importava de estar com um louco, até porque em minha terra natal, muitos achavam que eu também era louco.

O velho griot deu um breve sorriso e continuou:

— Logo no começo eu achava que aquele homem era louco mesmo. Pois ele me contratou para manter as chamas de um forno esquisito que ele construiu sempre acesa, dia e noite. Esse forno tinha oito câmeras, e cada câmera tinha que ficar numa temperatura adequada. Revezávamos o trabalho de quatro em quatro horas, eu e um outro ajudante que ele contratara. Mas esse outro rapaz era descuidado, e uma vez ele pegou no sono e as chamas se apagaram durante duas horas, estragando um trabalho de um mês. Pois as soluções que estavam aquecendo dentro das câmeras se esfriaram por baixar a temperatura, interrompendo todo um processo de transmutação de elementos e substâncias. Este homem branco, indignado, despediu o outro rapaz. E foi aí que me veio a oportunidade de aprender desde o princípio os ensinamentos secretos dos alquimistas. Provavelmente você já ouviu falar sobre alquimia, não é?

— Sim. Ouvia os padres falando que era uma arte de invocar os demônios. Onde homens faziam pactos para obter ouro e curar doenças. — Respondeu N’zambi.

— Nada disso meu jovem, ou quase isso. — Sorriu o velho e continuou:

— Com o tempo você saberá. Mas o importante é que você adquiriu numa manhã o que levei dez anos de minha vida para adquirir. Trancado numa casa bagunçada cheia de livros e frascos de vidro, na companhia de um velho louco, em que quase morri.

— Como assim, em que quase morreu, Djeli? — Perguntou N’zambi.

— Eu me entreguei de corpo e alma à Alquimia, pois me interessou muito a parte da transmutação dos metais. Eu já era metalúrgico, profissão que aprendi com o meu pai, pois fazíamos ferramentas para o trabalho no campo, instrumentos musicais e armas de guerra. Mas nunca pensei que os metais de pouco valor podiam ser transmutados em metais raros como o cobre, o bronze, a prata e ouro.

Fez-se uma pausa, Djeli retirou o seu cachimbo de um dos bolsos do seu jaleco de couro amarronzado. Pegou, também, de outro bolso um pequeno saco de pano com suas misturas de ervas prediletas. E, enquanto socava no seu cachimbo essas ervas, continuou dizendo:

— Este homem branco velho e louco, vendo que eu também tinha muitas habilidades, além, também, de falar a língua árabe e o aramaico, saber aritmética, metalurgia e astrologia, prometeu-me ensinar a arte alquímica, se eu somente colaborasse com ele na sua empreitada ambiciosa de conseguir ouro. Eu não sabia muito sobre ele, pois ele não costumava falar tanto da sua vida. Dizia que sua vida fora insignificante e sua história irrelevante. Mas, como herdei o espírito do Pacto Sagrado, de manter viva a chama de sabedoria do Sagrado e Eterno Contínuo dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães, sendo um contador de histórias, o que os franceses chamavam de griot, pois éramos seus criados, sabia eu que toda história é relevante e sempre traz um segredo misterioso e divino. Ele me contou que chegou a nossa Terra-Mãe África fugindo de alguns senhores da nobreza no Reino da França que empobreceram e queriam o prender nas suas casas para fabricar ouro para eles.

Djeli foi até a pequena lamparina na mesinha que fica ao lado da cama em que N’zambi estava sentado. Pegou-a cuidadosamente, pois a chama já se encontrava muito fraca, pelo fato do óleo que ele mesmo produzira com as sementes de cânhamo já ter acabado. Restando apenas o pavio de algodão umedecido de azeite. Protegeu cuidadosamente a pequenina chama com uma das mãos e levou ao seu cachimbo pitando várias vezes até acendê-lo. Voltou ao seu lugar de origem, onde se encostara à pilastra central, que sustentava as armações de madeira do teto de palha no quarto de taipa arredondado. Soltou uma grande fumaça, que perfumava todo o quarto numa mistura odorífica de sálvia, alecrim, hortelã e flores de cânhamo. Quase não dava para perceber o cheiro das folhas de tabaco do fumo-de-corda, e continuou a dizer:

— Ele me dizia que, na Europa, os alquimistas eram frequentemente raptados e torturados por esses senhores, para forçá-los de alguma maneira mágica a fabricar ouro, ou até falsificá-lo. Para livrá-los das suas falências financeiras. E, por isso, ele sempre me advertia, dizendo: “Fique longe das pessoas. Oculte o seu verdadeiro nome dos lugares onde estiver vivendo. E nunca fale o que está fazendo. Pois as pessoas são ambiciosas, egoístas e traiçoeiras. E, pelas suas ambições, são capazes até de devorar os seus filhos e matar os seus pais”.

Djeli deu outra pitada forte no seu cachimbo e continuou:

— Daí em diante, começamos a trabalhar juntos. Ele me ensinava latim e mandarim, e eu o ensinava árabe e aramaico. Pois os livros alquímicos em sua maioria se encontravam nessas quatro línguas, outros poucos em francês, português, grego e espanhol. Todas as manhãs nos dedicávamos à leitura. Pelo fato de nossas mentes ainda estarem frescas, depois de algumas poucas horas de sono. Pois dormíamos quatro horas apenas, isso quando nos dias em que não precisávamos nos revezar no forno. O mais difícil não era a língua em si, em que os manuscritos estavam escritos. E sim, a forma em que estava escrito. Pois muitos desses manuscritos se encontravam selados, sendo que o mais difícil era interpretar o que outro alquimista estava querendo dizer, em sua linguagem simbólica. Mas aí que entra a minha importância na obra. Pois minha habilidade em interpretação era fenomenal, assim dizia o velho alquimista. Como eu herdara dos antigos do meu povo a arte de contar histórias, essa habilidade de interpretação era natural em mim.

Deu outra forte pitada em seu cachimbo e continuou:

— Juntos aprendemos muitas coisas. Sobre os elementos e suas combinações, mas estávamos longe em adquirir ouro. Mas, de uma certa forma, algo estava mudando dentro de nós. Parecia que, quando manipulávamos as substâncias, estávamos manipulando também algo dentro da gente. De repente as coisas faziam mais sentido. Apreciávamos a natureza e o universo mais amplamente, e as coisas mais simples que realizávamos em nosso laboratório nos faziam mais felizes do que conseguir umas dúzias de barra de ouro.

Pitou o seu cachimbo tomando um ar sério e triste e prosseguiu:

— Até um dia em que a desgraça bateu em nossa porta. Era um homem árabe de capuz preto, que julgávamos ser também um alquimista foragido. No início ficamos receosos em recebê-lo. Mas, quando vimos que ele sabia do que estávamos fazendo e se dizia entender do assunto, permitimos que ele entrasse em nossa morada. Ele viu os livros do velho louco e ficou impressionado de ele ter toda aquela biblioteca em seu poder, naquela região onde não existia nenhum livro sobre nenhum assunto, quanto mais manuscritos de alquimia. Então, este árabe, em sua ambição, foi aos poucos conquistando nossa confiança. Pois víamos que ele realmente entendia sobre o assunto, e pensávamos que achamos mais um irmão para nos ajudar a completar a Grande Obra. Que era criar a Pedra Filosofal, pois a partir dela poderíamos transmutar outros metais inferiores em ouro e fazer o elixir da longa vida. Um poderoso líquido que, ao ser ingerido, tinha o poder de curar todas as doenças e dar uma vida eterna no templo de carne ao seu detentor.

Deu outra forte pitada no seu cachimbo e continuou:

— O árabe tirou uma pequena pedra dourada de um pequeno saco de pano que se encontrava preso por um cordão em sua cintura e nos falou: “Eis aqui o que vocês querem”. Então, olhamos esse pequeno pedaço de minério e não soubemos identificá-lo. E ele nos disse: “Aí está o que vocês tanto procuram. Mas, ainda não está acabado. Vocês devem colocá-lo no forno central até derretê-lo, depois misture com um pouco de mercúrio na câmera quatro do seu forno. Retire-o e pronto, eis aí a Grande Obra”. Ficamos maravilhados e agradecidos para aquele estranho, e perguntamos o que ele queria em troca por nos proporcionar o elemento central para gerar a Pedra Filosofal. Ele nada quis em troca, além de alguns alimentos para continuar a sua viagem. Dizendo ele que o bem e o conhecimento tinham que ser dado de bom grado para aqueles que o procuram cegamente. Então, demos tudo que ele precisava, e, quando ele partiu, sem demora fomos fazer como ele nos indicou. Colocamos o material no forno e, ao aquecer, a pedra começou a estourar libertando uma negra fumaça. Aproximamo-nos e, ao inalarmos aquela fumaça negra, começamos a nos sentir mal, e caímos como mortos no chão. Depois só me lembro de ver algumas sombras encapuzadas invadirem o nosso laboratório e roubar todos os livros e frascos herméticos. Fiquei vários dias caído ali no chão, tomado por delírios até me recuperar. Quando estava totalmente são, vi o velho louco caído ao meu lado, tentei reanimá-lo, mas ele já se encontrava morto. Fomos intoxicados por chumbo. Depois entendi o que eu li em alguns textos, em que dizia que o chumbo continha um espírito maligno, nos advertindo para ter cuidado com esse espírito na obra.

Djeli fez uma pequena pausa, deu várias pitadas no seu cachimbo para reacendê-lo. E falou num tom de seriedade e advertência:

— Cuidado, meu jovem, com as pessoas que possam se aproximar de você, prometendo satisfazer os seus desejos facilmente. Pois nada na vida é fácil, principalmente aquilo do que mais se quer e se deseja. Está certo aquele valoroso dito dos católicos, que diz: “Quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Aprendi isso por um alto preço. Enfim, a partir daquele momento, não mais queria obter ouro dessa forma, pois quase perdi a minha vida e perdi a vida de um velho amigo. Porém, nos meus experimentos laboratoriais, eu cheguei à mesma luz que você teve em apenas encarar o sol. Pois, quando misturávamos duas substâncias em nossos frascos ou fornos, víamos que criávamos uma terceira substância. O que na verdade era uma única substância em particular. É isso que eu chamo de “O PODER DAS PIRÂMIDES”.

Houve um momento de silêncio absoluto ao som dos pássaros, cantos dos galos e os berros dos animais. Djeli foi até o jovem príncipe, que se encontrava sentado na cama a sua frente. Colocou suas mãos em seus ombros e olhou carinhosamente em seus olhos. De súbito, o jovem se levantou e o abraçou fortemente. Djeli correspondeu o abraço com a mesma força. Sabia ele que aquele pequeno rapaz nunca obteve o afeto de ninguém. Ambos permaneceram um breve longo tempo abraçados. E, ao se apartarem, Djeli fora com as suas mãos no rosto do rapazinho, acariciando com os seus polegares as suas bochechas. E, vendo lágrimas rolarem dos olhos de N’zambi, o velho disse:

— Seja sempre como essa água que escorre do profundo do seu coração, através das cachoeiras dos seus olhos. Essa água é de pureza sublime, beneficiando o estado de todas as coisas existentes, sem discriminação. Águas que escorrem das bênçãos da bondade do seu ser. Fluindo de um lugar onde os homens erroneamente aprenderam a desprezar. Nunca ignore o seu coração e viva com a bondade dele nesta terra. Que essas suas lágrimas, provindas da fonte do seu coração e derramadas pelas quedas d’águas dos seus olhos, formem um lago de bondade para que todos os seres possam se banhar, convivendo como irmãos em perfeita harmonia e satisfação. Pense, fale, aja, realize e governe o tempo todo com o sentimento, a palavra, a capacidade e a ordem daquele que segue o caminho do coração, que é expressão da bondade absoluta. O homem bondoso que segue o seu coração não conhece a rivalidade, porque o coração nunca disputa. Agora vamos, meu jovem, sei que você está com uma fome de leão.

O jovem N’zambi enxugou as lágrimas do seu rosto. Calçou as suas sandálias de couro e foi acompanhando o velho até a espaçosa varanda da casa de taipa. Ao passo em que caminhavam, Djeli disse:

— Você se lembra daquela mulher perfeita que te falei anteriormente.

— A mulher que estava procurando o homem perfeito. Lembro sim! — Disse N’zambi sorrindo, ainda com os seus olhos avermelhados e molhados.

— Pois é. Ela estará conosco neste café da manhã. — Disse o velho também sorrindo.

— Então, você era esse o homem perfeito, não é?! — Exclamou N’zambi.

— Não, meu jovem, ela ainda está à procura desse tal homem. Eu sou o seu tutor e ela me chama de papai.

Diante dessa resposta, o jovem príncipe silenciou, não querendo ser inconveniente. Mas certa curiosidade o dominou. E também sentira um agudo calafrio por dentro.

Ao passo que estava caminhado, Djeli ia dizendo:

— Ela está muito curiosa para lhe conhecer. Ontem, quando você estava dormindo, conversávamos em quanto trabalhávamos na horta. Esperávamos que você acordasse para o jantar, e ela estava ansiosa para conhecer o famoso recém-chegado príncipe de Palmares.

Chegando à varanda, N’zambi se deparara com uma grande mesa de madeira retangular. Repleta de frutas, pães, bolos de aipim e carimã, lelês e bolachas de fubá de milho, cuscuz de tapioca, rapadura, café, leite de cabra quente e queijo coalho. N’zambi ficara maravilhado com tanta boa comida, sendo que ainda eram as suas comidas prediletas no café da manhã.

— Veja, N’zambi, um café da manhã digno de um rei. — Disse Djeli puxando o rapaz para sentar-se à mesa. Pois N’zambi se encontrava estagnado apreciando aquelas iguarias, e continuou:

— Eu disse para Dandara que ela estava exagerando, mas ela me disse que não. Porque sabia que você tinha um dia e uma noite sem comer. E, além do mais, cozinhar é uma das coisas preferidas dela. E, por falar em Dandara, cadê ela?

O preto velho virou o rosto para a porta da casa que se encontrava ao lado, não muito distante de onde estavam sentados, e falou num tom de voz alto:

— Dandara, venha cá! Tem uma visita faminta, esperando para comer na mesa que você preparou.

Então, uma voz doce e suave respondeu em um tom alto, dizendo:

— Espera um momento, papai, já estou indo.

Djeli sorriu silenciosamente, sabendo o quanto Dandara era vaidosa. Sabia que nesse momento ela colocaria o melhor dos seus vestidos, penteando e enfeitando a sua linda e longa cabeleira. De repente, uma doce voz na entrada da porta disse alegremente:

— Bom dia!

N’zambi virou o seu olhar e ficara perplexo e admirado com o que viu. Olhou para a jovem moça muito espantando, e seus olhos esbugalhados quase que pularam da sua face.

Vendo a sua reação, Dandara o indagou:

— O que foi! Eu pareço um fantasma?

E gaguejando N’zambi respondeu:

— Nan... Na... Não!

E, num tom irônico e sutil, a doce moça disse:

— Eu posso ser branca, mas fantasma eu não sou. Prazer, meu nome é Dandara.

O jovem, ainda desconcertado, disse:

— Muito pra... ze... zer. Eu... Eu sou N’zambi.

E Dandara, voltando o seu olhar para o preto velho Djeli, disse:

— Papai, por que você não contou nada sobre mim para ele.

Djeli, soltando uma grande gargalhada, disse:

— Falamos muito sobre você, minha menina, em outro aspecto. Mas, quanto a sua aparência, deixei em oculto. Para poder admirar a beleza da surpresa de cada mistério.

Dandara foi até o preto velho griot, sentou no seu colo, o abraçou e disse em um ar irônico e sorridente:

— Papai! O maior segredo é não haver mistério algum. — E juntos riram.

N’zambi observava tudo timidamente, desconcertado, sentado em sua cadeira. Dandara se sentara à sua frente do outro lado da mesa, enquanto o velho Djeli estava sentado na ponta lateral da mesa ao lado deles.

Dandara o encarou, deu um lindo sorriso e disse:

— Papai me falou muito sobre você, N’zambi. E eu estava muito curiosa para conhecê-lo. Como sabia que você tinha dormido muito, acordei bem cedo na madrugada e preparei todas essas coisas gostosas para você. É um prazer poder cozinhar para o príncipe de Palmares.

Timidamente, N’zambi respondeu:

— Muito obrigado, senhorita.

— Por favor, não me chame de senhorita. Posso ser uma garota branca, mas não sou como as outras meninas que você conheceu lá no povoado de Porto Calvo, ou nas outras vilas dos colonos. Me chame apenas de Dandara.

Realmente, N’zambi sabia que Dandara não era como as outras meninas brancas da província pernambucana. Pois uma menina branca, jamais falaria com um menino negro filho dos escravos. Quanto mais lhe preparar aquele maravilhoso café da manhã. N’zambi bem que sabia como era tratado em Porto Calvo pelos jovens brancos da sua idade. Onde as meninas lhe chamavam de “Pedaço de Tição”, dizendo: “Lá vem aquele negrinho, Pedaço de Tição”. Por isso, era muito desconfortante para N’zambi estar ali sentado naquela mesa, ao lado de uma menina branca.

Lembrou-se de quando saía com o Padre Antônio para comprar algo, indo até a metrópole da Capitania de Pernambuco em Olinda, ou à Vila dos Arrecifes dos Navios. Onde era sempre advertido pelo padre, para baixar a cabeça e nunca olhar para um rosto de uma jovem e nem sequer lhe dirigir a palavra. Mas fazer tudo o quanto ela mandasse. A respeito de fazer o que as meninas mandassem, lembrara-se também amargamente de uma jovem que o obrigou a lamber as solas sujas de barro do seu sapato, ficando de quatro como um cachorro. Enquanto os outros jovens se divertiam, o chamando de cão vira-lata. Mas, diante do enorme sorriso de satisfação, expresso no rosto lindo da jovem à sua frente, aquilo só eram amargas lembranças passageiras e momentâneas na cabeça de N’zambi.

Dandara era realmente uma moça linda de dezenove anos, dois anos a mais do que o jovem N’zambi. Tinha um corpo forte e esbelto, nem tão magro e nem muito menos gordo. Seus cabelos eram negros e acastanhados pelo sol. Cabelos longos e cheios que iam até os seus joelhos, partidos em dois acima da sua face. Seus olhos eram castanhos, arredondados e grandes. Encobertos por duas cheias sobrancelhas negras. Seu rosto era fino, mas carnudo. Suas bochechas eram macias e não tão protuberantes. Seus lábios eram grossos e avermelhados, não tão carnudos como os dos negros, e tinha um belo nariz. Seu rosto era perfeito, um rosto de menina inocente numa face de moça vivida, não tendo nada que estivesse em desarmonia, tudo na mais exata proporção. Como se passasse pelas mãos do mais hábil escultor.

O velho Djeli percebeu o desconforto de N’zambi perante a jovem moça à sua frente. Sentiu que era melhor para os dois jovens que ele se retirasse. Então, levantou da sua cadeira alegando ter que resolver algumas coisas na sua horta, enquanto ainda o sol estava fraco. E, assim, despediu-se e os deixou a sós.

Djeli pegou o seu banquinho de madeira de quatro pernas e fora sentar-se junto às leiras das suas hortaliças. Olhou de relance para a varanda, observando os dois jovens por entre as folhas de couves, imbuídos numa conversa entusiasmante. E admirava o quanto sua menina estava grande, e como os anos passaram tão rápidos. Lembrara-se por um relapso de tempo como ganhara a tutela da jovem moça Dandara.

Dandara foi um apelido que o preto velho deu à pequena menina de nome Maria Paim, aos cinco anos de idade. Quando a recebeu de um casal de cristãos-novos e criptojudeus, que foram banidos da colônia, pela visita da inquisição da Igreja Católica Apostólica Romana ao Estado do Brasil. Em que foram forçados a se apresentarem ao Tribunal do Santo Ofício de Lisboa, no Reino de Portugal, sob a acusação de praticar secretamente o judaísmo. Os cristãos-novos, em contraposição aos cristãos-velhos, eram a designação dada aos povos judeus, muçulmanos e alguns de crenças animistas, convertidos às crenças do catolicismo romano no Reino de Portugal, como também nas suas colônias. E posteriormente essa designação chegou ao Reino da Espanha, onde lá os judeus convertidos eram chamados de marranos.

Isso se deu depois da grande expulsão dos judeus e muçulmanos das terras espanholas, pelas monarquias de Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela. Em que mais de sessenta mil judeus se recusaram por força da Inquisição a converter-se à fé da Igreja Católica Apostólica Romana, emigrando massivamente para o Reino de Portugal. Naquela época, a corte portuguesa já estava repleta de judeus ocupando altos cargos e conselhos. Em que o Rei D. João II, influenciado por esses conselheiros judeus, aceitou receber em seu reino os imigrantes judeus espanhóis. Apenas impondo-lhes uma severa taxa de oito ducados de ouro para os imigrantes ricos, e para os pobres confiscava metade dos seus bens.

Com a morte de D. João II, seu filho, o monarca D. Manuel I, sobe ao poder. No início do seu reinado, D. Manuel I se revela ainda mais piedoso com os pobres imigrantes judeus do Reino da Espanha, perdoando-lhes as suas dívidas com a coroa. Entretanto, depois de alguns anos, quando os maiorais do seu reino viram que os imigrantes judeus estavam prosperando e se multiplicando grandemente, impuseram uma lei junto ao clero católico dominicano para expulsar os judeus das terras portuguesas.

O monarca D. Manuel I, vendo que os imigrantes judeus fizeram crescer a economia do seu reino, na ocupação especializada de cargos operários que faltavam em sua terra, e na alta demanda dos tributos e impostos à coroa, como também nas práticas de piratarias portuguesas, nas quais os judeus eram os mais hábeis navegantes, descobrindo novas terras para colonizá-las, como também novas rotas e mercadorias mercantis, ficou temeroso em expulsá-los. Pois a saída dos judeus do seu reino representava consequentemente a saída de um relevante capital, que tornava o Reino de Portugal o mais rico e influente de todos os reinos do ocidente europeu. Por outro lado, a expulsão dos judeus do Reino de Portugal apaziguaria os seus cidadãos maiorais e contribuiria para o plano ambicioso de D. Manuel I. Em que pretendia se casar com Infanta Isabel de Aragão, herdeira do trono dos reis católicos que unificaram o Reino da Espanha pela Inquisição, que consequentemente, expulsaram os mouros árabes e os judeus de suas terras.

Vendo-se encurralado, o monarca português, influenciado pelos seus conselheiros judeus, pôs em prática o grande plano de converter todos os muçulmanos e judeus do seu reino à fé católica, no prazo de dez meses. Tudo isso sem que necessitasse da instalação do Tribunal do Santo Ofício no seu reino. Caso os judeus e os muçulmanos não aceitassem a conversão, todos os seus bens seriam confiscados e depois, eles seriam expulsos das terras portuguesas, sem nem sequer poder levar a roupa do corpo. Sob a influência dos importantes judeus da sua corte, o monarca D. Manuel I criou um alvará proibindo a saída dos convertidos do seu reino, e denominando esses convertidos de cristãos-novos, em contrapartida, os que já nasceram na fé da Igreja Católica Apostólica Romana, eram conhecidos por cristãos-velhos.

O que agora concedia aos convertidos o pleno poder e direito ao exercício dos cargos políticos, administrativos e eclesiásticos do reino. Podendo se unir em laços matrimoniais com os cristãos-velhos e ter posse de documentos territoriais portugueses. Além do mais, pelo fato de agora serem católicos, poderem também ocupar cargos religiosos dentro da igreja. Esse alvará, redigido pelos conselheiros judeus da corte de D. Manuel I, não fazia nenhuma referência aos convertidos deixarem de exercer as práticas e costumes da sua primeira fé, dando aos judeus convertidos a liberdade de assumir as suas crenças judaicas, como a observação do Shabat, os seus cuidados alimentares e as realizações anuais das festas religiosas, dentro das suas tradições hebraicas.

E, assim, D. Manuel I, em sua grande ambição, foi persuadido pelos seus conselheiros judeus a se julgar mais sábio do que os monarcas espanhóis. Que expulsaram todos os judeus e muçulmanos com todas as suas riquezas e pertences, de modo que a coroa portuguesa foi que mais se beneficiou. Não sabendo ainda ele que a expulsão das comunidades judaicas nas terras espanholas, foi devido a uma grande dívida que o monarca aragonês Fernando II tinha com os negociantes e mercadores judeus. Devido a um empréstimo, em que ele dizia ser para financiar o seu casamento com a monarca castelhana Isabel I. Não passando isso de uma grande burla, porque, depois da sua união conjugal, que futuramente unificaria a Espanha em um só reino, foi que Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela buscaram por meio da Inquisição Católica uma cruel maneira de se livrar dos seus credores judeus, sem lhes pagarem nada e ainda tomarem posses das suas terras e dos seus negócios.

Sem muito pensar nas consequências da conversão dos judeus ao catolicismo, e por se julgar muito esperto, em matar dois coelhos com uma cajadada só, como diz o dito popular, o monarca D. Manuel I dera poder aos judeus de ocupar cargos eclesiásticos e do estado, sem perderem a sua identidade judaica. Isso desencadeou uma grande revolta popular, impulsionada pelos frades dominicanos, durante as comemorações da páscoa. Em que os cristãos-novos celebravam o Sêder Pessach. A população dos cristãos-velhos, movida por um egocêntrico sentimento de orgulho religioso, perseguiu violentamente, torturando e matando durante três dias todos os cristãos-novos judeus, e centenas sucumbiram. Esse fato ficou conhecido como o Massacre de Lisboa. A partir daí muitas famílias judias foram forçadas a abandonar o Reino de Portugal.

Algumas décadas se passaram depois desse grande massacre. E, com a morte de D. Manuel I, o monarca D. João III assume o reinado de Portugal, implantando a Inquisição no seu Reino. Depois disso, a vida dos cristãos-novos, que em sua maioria era de descendência judaica, nunca mais foi a mesma. Muitos foram acusados pelos tribunais do Santo Ofício, e perderam seus bens e títulos de trabalhos. Suas licenças aos cargos públicos e eclesiásticos foram caçadas. E outros muitos foram sentenciados à morte ou banidos do Reino de Portugal. Muitos outros imigraram para as colônias ou para outros reinos, em que o poder e a influência da Inquisição Católica não os alcançavam.

Perseguidos, injuriados, discriminados e maltratados, os cristãos-novos judeus, em sua maioria, se transformaram na subclasse do Reino de Portugal e da Europa Católica. Ocupando sempre cargos inferiores e forçados a viverem de forma ordinária. Sendo os serventes e operários dos, por assim dizer, cristãos-velhos, os de puro sangue da cristandade católica.

O velho griot Djeli assumiu o compromisso da tutela da menina Maria Paim em consideração à grande amizade que teve com a sua avó. A já falecida e respeitada senhora de engenho e cristã-nova conhecida como Branca Dias. Branca Dias era uma mulher de grande força, sabedoria e possuidora de um coração bondoso para com todos, inclusive para com os seus negros escravizados e para com os povos nativos da região. Apesar de ter possuído uma vida muito agitada e com muitas perdas, Branca Dias sempre manteve uma postura superior, diante das inúmeras situações desconfortantes que imperavam na colônia.

Mãe de onze filhos e uma enteada, casada com o cristão-novo e negociante mercantil escravagista Diogo Fernandes, Branca Dias veio para o Novo Mundo depois de ter sido presa em Lisboa pela Inquisição Católica. Onde foi denunciada pela própria mãe e por uma irmã no Tribunal do Santo Ofício, por se juntar a um grupo de marranos que se reuniam secretamente, para praticar os cultos e as devoções judaicas. Em uma sinagoga escondida, que ficava num porão de uma casa de posse dos cristãos-novos.

Branca Dias, como também sua mãe e sua irmã, foram presas na mesma época e sentenciadas à abjuração pública, dois anos de cárcere e hábito penitencial, ficando reservada a sua comutação e dispensa. Depois de seis meses de prisão, o mercador escravagista Diogo Fernandes apresentou uma petição ao Tribunal do Santo Ofício de Lisboa, em que pediu dispensa do tempo que faltava para sua esposa cumprir. Tendo sido a ela concedida a liberdade, pela razão de naquela época ter sete filhos pequenos para criar. Logo após ter sido solta, ela e o marido decidem sair das terras ibéricas, vindo a viver no Estado do Brasil, a colônia portuguesa no Novo Mundo.

Devido ao fato de Diogo Fernandes ser um mercador escravagista, estando sempre em constantes e longas viagens, entre as capitanias da colônia do Estado do Brasil, as colônias africanas e o Reino de Portugal, a senhora Branca Dias era quem assumia todas as responsabilidades, tanto da sua casa grande, como dos engenhos e das senzalas. Além também de possuir em sua casa uma escola para as moças da capitania, em que ela mesma ensinava. Obtendo, assim, um grande respeito pela sociedade colona da Capitania de Pernambuco. Até porque as filhas da alta classe colonial, como também as filhas do governador, eram educadas por ela.

Como na colônia ainda não chegara o poder da Inquisição, não havendo nenhum Tribunal do Santo Oficio, devido à ordem dominicana pela qual se ocupava dos tribunais não ter se instalado no Estado do Brasil,  Branca Dias mantinha em sua casa reuniões ocultas com os cristãos-novos, onde funcionava uma sinagoga secreta. Sendo ela a cabeça dos marranos na colônia. E sua casa, o centro operacional do judaísmo daquela época. Branca Dias também mantinha uma boa relação com os k’ilombolas de Palmares. Apesar de os palmarinos não ver com bons olhos os cristãos-novos, pelo fato de estes serem os maiores mercadores dos africanos escravizados trazidos da África para o Novo Mundo.

Muitas vezes o engenho de Branca Dias serviu de refúgio e de abrigo noturno para os k’ilombolas, quando estes iam até Olinda em incursões mercantis, para troca de mercadorias por armamentos. E, por esse fator, os palmarinos, em troca de favores, deram ordem a todos os guerreiros do k’ilombo a nunca furtar ou importunar os negócios e as terras dessa senhora de engenho.

O preto velho Djeli sempre costumava ir visitá-la. Branca Dias adorava as suas histórias, e Djeli adorava as suas conversas, imbuídas de interessantes informações. Ambos se tornaram íntimos amigos, pois se interessavam pelos mesmos assuntos. Em que Branca Dias lhe contava sobre a Kabbalah, uma arte mística dos povos judeus. E Djeli lhe contava sobre a Alquimia e lhe explicava coisas sobre a magia, ritos e práticas religiosas dos negros, que cultuavam os orixás em seu engenho, que naquela época essa manifestação religiosa africana era conhecida como culto de Xangô. Branca Dias confiava tanto em Djeli, que lhe contava alguns segredos dos modos de vida dos cristãos-novos judeus daquela época. Dizia ela ter os judeus dois modos de vida, um baseado nas aparências sociais como cristãos-novos, e o outro, onde assumiam em secreto suas verdadeiras identidades judias. Em que existia ocultamente uma rede de informação, que circulava por todo mundo, em um pacto de união e favorecimento da comunidade judaica.

Ela contou-lhe quando, depois da grande expulsão espanhola, em que os judeus sefarditas foram enganados e traídos. Se tornaram os mestres dos disfarces, e de como se infiltravam oculta e perspicazmente nos palácios reais dos monarcas dos reinos onde se instalavam. E como influenciavam os monarcas a tomarem decisões que favoreciam as comunidades judaicas nesses reinos. Criando, assim, uma rede secreta em que os judeus se reconheciam, através de pequenos e minuciosos códigos. Como certos apertos de mãos, acenos específicos, acentuações em pronunciar certas palavras do idioma local, como também ao se colocar uma letra hebraica de sua escolha, no final de suas assinaturas. Assim, também, como criaram um dialeto próprio derivado do espanhol-português conhecido como Ladino.

Essa comunidade secreta de judeus se infiltrou estrategicamente entre os operários construtores e artesões. Pois estes operários tinham o direito e a primazia de ir e vir entre os reinos europeus, pela construção de estradas que os interligavam, e também, pela construção de castelos e mansões para os reis, ricos e poderosos, e de imensas catedrais para o clero católico. Já que na Idade Média não era permitido aos povos saírem de seu local de origem, e, assim, com essas regalias e benefícios de deslocamento, os judeus mantinham uma rede de informação e união em todo o território europeu. Com a introdução dos judeus junto a esses pedreiros artesões, deram-se as bases de origens da Franco-Maçonaria. Em que esses pedreiros artesões guardavam com muito zelo e devoção os segredos de suas técnicas operárias, para que não caíssem em domínio público, e suas regalias de ir e vir entre os reinos europeus cessassem, pela banalização dos seus conhecimentos geométricos e matemáticos de construção. Dando origem a uma sociedade comunal discreta, de caráter universal, cujos membros cultivam o aclassismo, a humanidade, os princípios da liberdade, a democracia, a igualdade, a fraternidade e o aperfeiçoamento intelectual. Sendo a Maçonaria uma associação iniciática, filosófica, progressista e filantrópica. Criando na comunidade fraternal dos operários construtores uma realidade muito diferente do que era a vivência naquela época da Idade Média. Em que a escuridão e a ignorância predominavam sobres os cidadãos europeus, por parte dos seus líderes regentes e religiosos.

Branca Dias lhe contara também como se deu a colonização do atual Estado do Brasil. E de como os cristãos-novos criptojudeus pretendiam tornar essas terras do Novo Mundo em um estado administrado unicamente pela comunidade judaica, para que pudessem assumir as suas identidades sem disfarces. Contava ela que o interesse da secreta comunidade judaica portuguesa pelas terras do Novo Mundo deu-se a partir de uma informação dada por um cristão-novo de origem dos judeus poloneses, que se batizara com o nome de Gaspar da Gama. Mas que era conhecido como Gaspar das Índias, pelo fato de ter vivido em Goa, que futuramente se tornaria uma colônia portuguesa nas Índias Orientais.

Gaspar das Índias chegara ao Reino de Portugal na embarcação do Almirante-mor Vasco da Gama. Que foi acusado de ser espião do Sabayo de Goa. Mas que, passando para o lado dos portugueses, fora trabalhar como intérprete de línguas, nas frotas marítimas do navegador e explorador D. Pedro Álvares Cabral. Que chegara ao Novo Mundo com a proposta de tomar posse oficial daquelas terras, que antes já foram descobertas pelos piratas cristãos-novos portugueses.

A partir dessa importante informação, os conselheiros judeus da corte de D. Manuel I, imbuídos em seu propósito de fazer das novas terras descobertas no Novo Mundo um Estado Judaico, buscaram através do fidalgo cristão-novo Gaspar da Gama, que tinha muita influência sobre D. Manuel I, pois este lhe revelara vários segredos que futuramente serviram de informações valiosas para a colonização de Goa, desviar toda a atenção do monarca das novas terras descobertas no Novo Mundo. Alegando não haver nessas novas terras nada de lucrativo para o mercantilismo europeu. E que, pela longa distância marítima dessas terras até o reino português, a coroa só teria prejuízos em agora investir em sua colonização. Além de que precisavam de muitos homens e armamentos para se defenderem dos inúmeros nativos tribais e não civilizados. Propondo ao monarca português que desse toda sua atenção à colonização e exploração mercantilista na Ásia. E que arrendasse as terras descobertas do Novo Mundo para os Fugger. Uma poderosa família de criptojudeus banqueiros, financiadores e mercadores alemães. Representada no reino português pelo fidalgo pirata navegador e cristão-novo Fernão de Loronha. Que trabalhava em especial para o banqueiro Jacob Fugger, mais conhecido como “O Rico”, exercendo as suas práticas de pirataria mercantilista.

Gaspar da Gama alegou que, com o investimento de Jacob Fugger na exploração das novas terras, o monarca D. Manuel I obteria preciosas informações sobre o potencial econômico, para que pudesse medir as necessidades e dificuldades da futura colonização. Tudo isso sem que o monarca necessitasse tirar fundos da coroa e ainda receberia tributos e impostos por serviços prestados e futuras mercadorias. De acordo, o monarca D. Manuel I, seguindo os ditames dos seus conselheiros judeus, redigiu um contrato de arrendamento com o cristão-novo Fernão de Loronha, que representava o banqueiro Jacob Fugger, para exploração das terras descobertas no Novo Mundo, que pelo, Tratado de Tordesilhas, pertenciam ao reino português. Tradado esse redigido pelo alto clero da Igreja Católica Apostólica Romana, que celebrava a divisão das terras descobertas e por descobrir fora das regiões europeias, entre o recém-formado Reino da Espanha e o Reino de Portugal.

Assinado o contrato com o rei de Portugal, o cristão-novo Fernão de Loronha, equipado com uma frota de seis navios e sua tripulação pirata de cristãos-novos, explorou a costa do Novo Mundo e, numa bela manhã do dia da comemoração católica de São João Batista, os piratas judeus se defrontam com uma ilha paradisíaca e cheia de penhascos, com águas cristalinas e praias alvas. Que, para afirmarem sua suposta fé católica perante os cristãos-velhos, batizaram esse arquipélago com o nome da comemoração do santo daquele dia, vindo a ser o nome de “Ilha de São João da Quaresma”. Porém, quando Fernão de Loronha ganhou as ilhas das mãos do monarca D. Manuel I, se tornando a primeira Capitania Hereditária do Mar, os cristãos-novos, que representavam a secreta comunidade judaica, mudaram o nome da ilha, colocando o nome do seu descobridor e detentor.

Branca Dias contou a Djeli que Fernão de Loronha enriquecera com o comércio de tinturaria. Através da extração de uma específica madeira, conhecida pelos nativos Tupinambás como Ybirapitanga. Que no Reino de Portugal era conhecida como Pau-de-tinta ou como Madeira Judaica. Já que sua maior extração e mercantilismo eram feitos pelos piratas cristãos-novos judeus. Como essa madeira naquela época era a única fonte de renda das terras portuguesas do Novo Mundo, que se chamava oficialmente Terra de Santa Cruz, os mercantilistas e o povo português chamavam ironicamente essas terras de: “A terra da madeira judaica”. Pois só os judeus conheciam aquelas terras.

A secreta comunidade judaica portuguesa, em concílio com um dos seus mais ilustres membros, o fidalgo Fernão de Loronha, como já queria se apossar das terras do Novo Mundo, que já estava de certa forma em sua administração, arquitetou um plano para mudar o nome da madeira, que futuramente pelo dito popular mudaria o nome também da terra. E buscaram uma codificação engenhosa para o nome, chegando à palavra criptografada “E R A S I L”. Que nada mais é do que a palavra “ISRAEL” com as suas letras embaralhadas.

Fernão de Loronha, em reunião com o monarca D. Manuel I e os maiorais cristãos-velhos do reino, representando o papel de bom cristão-novo, imbuído na fé católica, disse que não era bom para sua fé e para o reino que a madeira fosse conhecida como “madeira judaica”, e que, por isso, a nova terra fosse pejorada com o título de “A terra da madeira judaica”. E assim propôs um novo nome para madeira. Antes de pronunciar esse novo nome, Fernão de Loronha, vendo a presença do clero católico dominicano junto ao monarca, sentiu um enorme calafrio por dentro, e ficou temeroso que eles, ao escreverem o novo nome da madeira, decifrassem o código. Sabendo ele que dentre os eclesiásticos dominicanos existiam vários homens bem letrados e decifradores de línguas e enigmas.

Então, ele rapidamente, ao ver o brasão da corte portuguesa estendido em um pano bem grande à sua frente, e num relapso de tempo, em que depois ele julgou ter vindo de uma inspiração divina, a qual salvara sua carne e sua reputação, trocou a letra “E” pelo “B” de brasão. E pronunciou com firmeza de voz: PAU-BRASIL. E, assim, Branca Dias afirmava a assinatura dos judeus no nome da colônia.

Mas, quando os tribunais do Santo Ofício foram instalados no reino português, todas as intenções e esperanças da secreta comunidade judaica foram frustradas. Até reviver de novo, décadas depois do falecimento de Branca Dias, pela invasão dos holandeses, e novamente morrer com a sua expulsão. Numa triste época para os judeus da colônia portuguesa no Novo Mundo, em que a sinagoga Kahal Zur Israel ou Congregação Rochedo de Israel, sendo uma das primeiras de todas as Américas, fundada pelo rabino, o luso-holandês e ex-cristão-novo Isaac Aboab da Fonseca, e que funcionou durante vinte e sete anos, foi extinta. Devido à expulsão do domínio holandês da colônia portuguesa, que concedia a liberdade aos judeus de praticar os seus cultos religiosos, e afirmar publicamente sua identidade judaica.

E, assim, muitos judeus, seguindo os holandeses, imigraram do Estado do Brasil para Nieuw Amsterdam. Que depois com a colonização britânica veio a ser New York, nas terras do norte do Novo Mundo. E umas minorias de judeus marranos se instalaram na Ribeira do Seridó, interior do sertão do Estado do Brasil, disfarçando suas práticas judaicas, realizando reuniões em segredos, e casando-se com membros de suas próprias famílias para preservarem suas linhagens judaicas, e, assim, fugirem dos seus opressores, os inquisidores católicos.

O preto velho Djeli sempre contava as histórias de Branca Dias para sua neta, Maria Paim, que ele batizara como Dandara. E, quando a colocava para dormir, a mimava com uma música em Ladino, que aprendera com sua avó, que dizia:

 

"Avre este abajur, biju

avre la tu ventana

por ver tu kara morena

por ver tu kara morena

al Dió daré mi alma.

Por la puerta io pasi

I la topi serrada;

la yavedura yo bezi

komo bezar tu kara.

No kiero más ke me avlesh

ni por mi puerta pasesh;

más antes me keríash bien

angora te ielatesh.

Si tú de mí te olvidarásh,

tu ermozura piedrarásh.

Ningún ninyo te endenyará

en los mis brazos muerash."

FIM DO OITAVO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).  

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