O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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12. Capítulo 7 (PARTE 2)- ז (ZAYIN) O PODER

Quando todos os Imolès estavam reunidos no Ilé. Surgiu de repente no meio deles o grande sacerdote do oráculo de Ifá, Orunmilá.

Orunmilá chamou todos os Imolès, e falou para que eles ficassem em círculo com as mãos dadas. Sendo que fizeram dois círculos, um dentro do outro. Havia um círculo maior composto pelos Irun Imolès, que eram a maioria, e dentro dele um círculo menor, formado pelos Imolès Funfuns.

Esses círculos eram tão perfeitos de tal forma, que todos observavam o grande sacerdote de Ifá que estava no centro dele. Pois cada Irun Imolè se posicionava entre os espaços das mãos dadas dos Imolès Funfuns.

Ali, diante de todos Imolès, o grande sacerdote de Ifá, Orunmilá, convocou ao centro Òòsàálà e Olófin Odùduwà e disse:

— Imolès, seres do Orún, que é o primeiro reino da criação. Aqui estamos todos reunidos no novo reino, o Àiyé. Agora todos juntos celebraremos a união que se deu com o fim das divergências entre vós.

Orunmilá, com sua mão esquerda, pegou a mão direita de Òòsàálà. E com sua mão direita pegou a mão esquerda de Olófin Odùduwà. E, ali no centro, uniu as mãos dos dois Funfuns, e disse:

— Faço isso em representação da união de todos os seres criados. Esse dia será sempre um dia de comemoração entre vocês, e também entre aqueles que virão de vocês. Os novos seres que habitarão este novo mundo. Esses seres que serão um virão como dois. Macho e fêmea. Os machos serão da descendência de Òòsàálà, o universo. E as fêmeas serão da descendência de Olófin Odùduwà, a natureza. Um representará o acima e o outro o abaixo. Um será forte e ardente como o dia, sendo este o sol. Outro será calmo e leve como a noite, sendo este a lua. Um agitará e o outro acalmará. Um completará o outro, e juntos movimentarão. Nascerão separados, mas viverão unidos. E pela união dos seus corpos a vida se multiplicará. Assim como agora eu faço com Òòsàálà e Olófin Odùduwà, eles também farão da mesma maneira diante de um sacerdote, para juntarem-se e se multiplicarem. Este dia será conhecido como Odù Ifá Ìwòrì-Òbèrè. O dia em que celebrarão o casamento, o acordo e o pacto de união.

Falando isso, o sacerdote de Ifá pegou uma cabaça e pintou-a de branco. Depois cortou essa cabaça horizontalmente ao meio, separando-a em duas partes. Então, fez com que Òòsàálà ficasse ao lado de Olófin Odùduwà. Fazendo com que eles se abraçassem de lado com um dos braços.  Sendo que Òòsàálà ficou ao lado esquerdo de Olófin Odùduwà, abraçando-a pelas costas com seu braço direito. E Olófin Odùduwà ficou ao lado direito de Òòsàálà, abraçando-o também pelas costas com o seu braço esquerdo.

O grande sacerdote pegou uma das metades da cabaça, que era a parte de cima, e colocou na mão esquerda de Òòsàálà. Depois pegou a outra metade, a parte de baixo e colocou na mão direta de Olófin Odùduwà. Fazendo isso ordenou com que Olófin Odùduwà e Òòsàálà levassem ambas as metades da cabaça ao centro dos seus corpos. Sendo que Olófin Odùduwà segurava a sua metade abaixo, e Òòsàálà segurava a sua metade acima...

Então, o grande sacerdote pegou do solo um pouco do àpò-iwà, colocando dentro da metade da cabaça que servia como base, que estava na mão de Olófin Odùduwà, para representar o elemento primordial da criação do novo reino.

Também, colocou outros elementos primordiais da criação. Como carvão para representar o sangue da terra. O efun, que é o sangue branco, onde toda vida germina. E o osún, que é o sangue vermelho, onde a vida no novo reino habitará.

Depois ordenou que Òòsàálà descesse com sua metade da cabaça sobre a metade que se encontrava na mão de Olófin Odùduwà, selando-a. E disse:

— Eis aqui o igbá-odù. A representação do útero de toda a vida no novo reino. Separar as duas partes do igbá-odù, significará a própria destruição deste mundo.

Falando isso, Orunmilá se retirou ascendendo ao Orún, levando consigo o igbá-odù.

Então, Òòsàálà e Olófin Odùduwà se abraçaram e se beijaram. E, quando estavam se beijando, acendeu neles um glorioso sentimento que nunca fora antes sentido dessa forma em toda a criação.

Sentiram o que depois viemos a conhecer como a atração que um homem sente por uma mulher, e que a mulher sente por um homem em seu primeiro contato. Esta sensação que une o macho e a fêmea. Sentiram e presenciaram uma nova e real forma de experimentar o AMOR.

Depois daquele primeiro beijo, em que o inexplicável brotou, eles já não eram mais os mesmos, pois experimentaram o que ninguém jamais provou. O amor dos amantes. E a partir daí a cidade de Ilé se tornou Ilé-Ifè, a “Morada do Amor”.

Òòsàálà, movido por uma grande compaixão, compartilhou sua missão com todos os Imolès ali presentes. Mas nem Òòsàálà e nenhum dos outros Imolès sabiam como poderiam criar os novos seres. Pois não havia elementos dados da parte de Olódùmarè, e nem instruções a serem dadas pelo sacerdote do oráculo de Ifá, Orunmilá.

Òòsàálà, meditando nessa questão, obteve uma iluminação. Ele sabia que cada Irun Imolè trazia consigo um segredo palpável. Sendo na verdade esse segredo um elemento que o representava.

Então, ele teve a ideia de ir a cada Irun Imolè e lhe pedir o seu elemento para ver se serviria para criar os novos seres, os Igbá Imolès.

Òòsàálà foi pessoalmente a cada um dos Irun Imolès, do mais alto ao mais baixo em luz e sabedoria. Procurando um único elemento específico, para ver se era possível, a partir dali, moldar os corpos dos novos seres.

Òòsàálà foi até Aganjú e lhe pediu o seu segredo. E Aganjú lhe revelou o enxofre. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas não deu certo. Pois o enxofre era mole, frágil e leve, e se quebrava com facilidade. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.

Òòsàálà foi até Egbé e lhe pediu o seu segredo. E Egbé nada tinha para lhe oferecer. Pois naqueles dias antes da criação dos Igbá Imolès havia alguns Irun Imolès que não conheciam os seus segredos. Só sendo revelados a eles depois da criação dos Igbá Imolès, quando esses, elementos ainda desconhecidos, se tornassem futuramente úteis para os novos seres.

Òòsàálà foi até Elegbàrà e lhe pediu o seu segredo. E Elegbàrà também nada tinha para lhe oferecer.

Òòsàálà foi até Erinlè e lhe pediu o seu segredo. E Erinlè também nada tinha para lhe oferecer.

Òòsàálà foi até Ìdejì e lhe pediu o seu segredo. E Ìdejì também nada tinha para lhe oferecer.

Òòsàálà foi até Ògún e lhe pediu o seu segredo. E Ògún lhe revelou o ferro. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois o ferro era rígido, muito duro e pesado, e não havia possibilidades de moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.

Òòsàálà foi até Òsùn e lhe pediu o seu segredo. E Òsùn lhe revelou o ouro. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois também o ouro era um pouco rígido, um pouco duro e pesado, e também não tinha como moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.

Òòsàálà foi até Obà e lhe pediu o seu segredo. E Obà lhe revelou o minério. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois o minério às vezes era rígido, duro e pesado, e às vezes era mole, frágil e leve. Não tendo assim como também moldá-los. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.

Òòsàálà foi até Sànpànná e lhe pediu o seu segredo. E Sànpànná nada tinha para lhe oferecer, além de palhas e cipós. Òòsàálà viu que com as palhas e cipós ele nada poderia formar que se assemelhasse a um novo ser. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.

Òòsàálà foi até Òrànmíyàn e lhe pediu o seu segredo. E Òrànmíyàn também nada tinha para lhe oferecer. Pois também não conhecia o seu segredo.

Òòsàálà foi até Òsànyìn e lhe pediu o seu segredo. E Òsànyìn também nada tinha para lhe oferecer. Pois também ainda não lhe foi revelado o seu mistério...

Òòsàálà foi até Òsóòsì e lhe pediu o seu segredo. E Òsóòsì também nada tinha para lhe oferecer. Pois também ainda não lhe foi revelada a sua bravura.

Òòsàálà foi até Òsùmàrè e lhe pediu o seu segredo. E Òsùmàrè também nada tinha para lhe oferecer. Pois também ainda não lhe foi revelado o seu dote.

Òòsàálà foi até Oya e lhe pediu o seu segredo. E Oya lhe revelou o fogo. Porém, o fogo não era maleável e a tudo consumia. Então, Òòsàálà foi até Sàngó e lhe pediu o seu segredo. E Sàngó lhe revelou os gases. Òòsàálà tentou pelo menos conter os gases em sua mão, algo que lhe parecia impossível, e não deu certo. Não podendo nem ao menos conter os gases e nem o fogo, Òòsàálà jogou esses elementos na terra, e a terra os absorveu...

Òòsàálà foi até Yemoja e lhe pediu o seu segredo. E Yemoja lhe revelou a prata. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois também a prata era um pouco rígida, um pouco dura e pesada e não tinha como moldá-la. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.

Òòsàálà foi até Yewa e lhe pediu o seu segredo. E Yewa lhe revelou o cobre. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois também o cobre era rígido, duro e pesado e não tinha como moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.

Òòsàálà prosseguiu indo a cada Irun Imolè, e de um a um pedia o seu elemento. Uns tinham algo a lhe oferecer e outros não tinham. Mas nenhum dos elementos apresentados pelos Irun Imolès lhe serviu para criação dos novos seres.

Depois de falar com todos e provar todos os elementos, Òòsàálà entristeceu-se. Pois desta vez não poderia fracassar em sua missão. E, se afastando de todos, Òòsàálà subiu numa grande montanha para ali meditar. E de joelhos e cabeça baixa ao solo, em cima de uma montanha, Òòsàálà chorou de tristeza.

Òòsàálà chorou tanto, que suas lágrimas escorreram pelo pico da grande montanha. E as lágrimas tristes de Òòsàálà formavam pequeninos flocos cristalizados, embranquecendo toda região acima.

As lágrimas de neve de Òòsàálà foram se derretendo da metade da montanha para baixo, formando nascentes de águas doce. Essas nascentes formaram grandes extensões de águas flutuantes, que deram origens aos primeiros rios.

Porém, havia um dos Irun Imolès com quem Òòsàálà não se encontrou, porque se encontrava na beira do mar.

Esse Irun Imolè estava encantado com as águas do novo reino. E, desde que pisou no Àiyé, brincava na beira do mar, entre as águas e a areia. O nome deste Irun Imolè é Nàná Bùùkúù.

Nesse ínterim, enquanto Nàná Bùùkúù brincava à beira-mar, ela avistou os fluentes de águas provocados pelas lágrimas de Òòsàálà indo ao seu encontro. E, chegando velozmente, precipitaram-na ao mar. As águas arrastaram Nàná Bùùkúù até as profundezas do oceano.

Ciclos eternos se passaram, e Nàná Bùùkúù, depois de dar um grande giro nas profundezas marítimas, regressou ao lugar onde se encontrava antes. Porém, viu que o lugar mudara. E, onde antes havia grãos de areia, surgiram grandes piscinas de águas acinzentadas pela lama, que resultaram do encontro do rio com o mar.

Maravilhada, Nàná Bùùkúù começou a brincar com toda aquela lama e dela formou muitas pequeninas criaturas, modelando-as com esse material. Essas são as muitas criaturas do mangue. Os variados tipos de crustáceos, conchas e moluscos. E, desde aquele momento, a lama se tornou o elemento de Nàná Bùùkúù.

Descendo montanha abaixo pela neve branca, Òòsàálà já não tinha mais esperança de realizar sua grande missão que o redimiria. E, chegando à cidade de Ilé-Ifè, Òòsàálà estava prestes a contar a todos o seu fracasso. Mas Olófin Odùduwà lhe contou que havia mais um dos Irun Imolès que ele não entrevistara.

Òòsàálà, recebendo essa boa notícia, restabeleceu o seu ânimo rapidamente, pois algo lhe dizia que sua missão não estava perdida. E sem demora foi ao encontro desse Irun Imolè.

Os outros Irun Imolès lhe contaram que Nàná Bùùkúù se encontrava brincando na beira do mar. Então, Òòsàálà reuniu todos os Imolès, e juntos foram ao encontro de Nàná Bùùkúù.

Chegando lá, Òòsàálà a cumprimentou e viu-a modelando as pequeninas criaturas no novo habitat que se formou pelo encontro do rio com o mar. Então, Òòsàálà foi até Nàná Bùùkúù e lhe pediu o seu segredo. E Nàná Bùùkúù lhe deu a lama negra acinzentada do manguezal.

Òòsàálà pegou esse elemento e moldou o primeiro Igbá Imolè à imagem e semelhança dele mesmo...

Vendo que esse era o elemento certo para formar os novos seres, Òòsàálà encheu-se de alegria. Então, ele foi a Olófin Odùduwà e pediu que fizesse o mesmo, assim como ele fez. Olófin Odùduwà moldou o segundo Igbá Imolè a sua imagem e semelhança...

Então, macho e fêmea os criaram. E a estes dois primeiros moldes Òòsàálà chamou de Egungun...

Òòsàálà falou para que todos os Imolès o ajudassem a modelar mais corpos à semelhança dos Egunguns. E a estes derivados de corpos, Òòsàálà chamou de Egun.

Depois de terem modelado todos os corpos dos Igbá Imolès, todos se reuniram em um grande círculo ao redor do montante de corpos feitos de lama enegrecida do manguezal. E juntos suplicaram ao mais Alto dos altos para que manifestasse sua glória e respirasse o seu hálito de vida nos corpos de lama dos novos seres. E do mais Alto dos altos veio um sopro de vida dizendo:

EU SOU!

Então, os corpos de lamas criaram vida e se animaram. Todos ficaram maravilhados diante dos novos seres. E Òòsàálà foi bem-sucedido em sua missão de criar os seres que cuidarão do novo mundo.

Mas de repente, diante de todos, Yemoja levantou uma questão e disse:

— Se os Igbá Imolès cuidarão do Àiyé, quem cuidará dos Igbá Imolès?

Yemoja disse isso porque sabia da fragilidade dos novos seres, já que eles eram feitos de lama, sendo que os seus corpos negros eram densos e grotescos. Muito diferentes dos corpos luminosos e graciosos dos Irun Imolès e dos Imolès Funfuns.

De repente, Òòsàálà se viu diante de mais uma questão, que tornava sua missão ainda incompleta e imperfeita na criação. Mais uma vez Òòsàálà pôs-se a meditar e, refletindo, obteve uma iluminação, e disse a todos:

 — Imolès do Orún, quero que cada um de vocês que tem um segredo tome para si determinado grupo de Igbá Imolès.

E assim, como Òòsàálà disse, eles fizeram. E Òòsàálà continuou a dizer:

— Agora com o dedo furem a cabeça de todos os Igbá Imolès e coloquem em cada um o seu elemento dentro dela. Aqueles que ainda não tiverem elementos não se preocupem, pois no tempo certo em que o segredo for revelado a cada um de vocês, eu também lhes darei um grupo de Igbá Imolès. E aqueles que por ordem da própria natureza universal não tiverem seus segredos nunca revelados serão os pais e guardiões dos seres inorgânicos que farão companhia e servirão aos novos seres deste mundo. Por esse tempo, auxiliem os seus irmãos a cuidarem desses novos seres e de toda criação.

E assim todos fizeram como Òòsàálà falou. E os Irun Imolès se tornaram os guardiões e pais dos Igbá Imolès.

Porém, aconteceu uma coisa estranha e imperfeita na criação. Os Igbá Imolès do grupo dado a Nàná Bùùkúù agiam de forma esquisita e medonha. Òòsàálà vendo isso se escandalizou. E pôs-se novamente a meditar para resolver essa questão e obter a perfeição na criação, que era a satisfação de todos os seres.

Òòsàálà meditando percebeu que cada segredo dos Irun Imolès, sendo colocado na cabeça dos novos seres, lhes dava personalidades, faculdades, inteligências e habilidades específicas. Sendo estes segredos a alma deles.

E viu que esse novo ser já era composto de lama, e que colocar novamente lama em sua cabeça faria seres desmiolados e sem especialidades. Seres desprovidos de alma. Por isso que eles se comportavam de forma esquisita.

E, rapidamente, Òòsàálà impediu Nàná Bùùkúù de colocar seu elemento nas cabeças dos corpos dos novos seres, e lhes tirou os seus filhos.

Diante desse acontecido, Nàná Bùùkúù se sentiu muito ofendida, pelo fato de contribuir com o seu elemento para formação dos corpos dos novos seres. Mas, porém, não ser digna de obter a graça de nem sequer ter um só Igbá Imolè para cuidar.

Òòsàálà mais uma vez pôs-se a meditar, e se viu diante de um problema hediondo e difícil de resolver. Pois ele sabia que, se um dos Imolès do Orún não estivesse satisfeito com a criação, não haveria perfeição. Pois a perfeição é a plena satisfação e aprovação de todos.

Então, diante desse problema, Òòsàálà teve que tomar a decisão mais triste diante de toda a vida. E lembrou-se das palavras ditas a ele por Olódùmarè, de que a dualidade será a expressão dos novos seres e do novo reino. Pois se há vida no segundo reino, haverá também a morte.

E, chorando lágrimas vermelhas, que escorreram na terra do novo mundo, que deram origem ao barro vermelho que provém a argila, Òòsàálà disse a Nàná Bùùkúù:

— Nàná Bùùkúù, ouça! Você, que deu a lama, que foi responsável para formar o corpo dos seres deste mundo, digo-te agora que esse elemento lhe será devolvido. Pois os seres deste mundo nasceram com uma dívida contigo. Dívida essa de um empréstimo que todos eles te pagarão mais cedo ou mais tarde. E no dia desse pagamento, em sua morte, os seres deste mundo chorarão de tristeza, assim como também choraram de alegria ao nascerem, quando receberam de ti este valoroso empréstimo. E depois de acertarem as suas contas contigo, Nàná Bùùkúù, os segredos postos em suas cabeças pelos demais Irun Imolès, que permanecerem puros pelas suas ações de vida no Àiyé, subirão ao Orún e terão a permissão de passar pelos portões das fronteiras do mundo, o Òrun Àkàsò. Mas aqueles que corromperem as suas almas no Àiyé e se acinzentarem e, assim, atrofiarem os seus segredos não terão permissões para passar pelos portões das fronteiras do mundo. Sendo que ficarão presos para sempre no reino astral, o Òrun Àkàsò.

E assim Òòsàálà concluiu sua missão, obtendo a perfeição tão almejada pela Criação e pelo Criador de todas as coisas existentes.

O Orún voltou a ser perfeito e iluminado como era no princípio, e suas fronteiras foram dissipadas. Pois os seus seres alados estavam muito ocupados e felizes de cuidar dos novos seres do novo reino.

E assim os Imolès Funfuns tinham os Irun Imolès por filhos, e estes tinham os Imolès Funfuns por pais. E os Imolès Funfuns se ocupavam e se empenhavam em manter a harmonia entre os Irun Imolès.

E os Irun Imolès tinham os Igbá Imolès por filhos, e estes tinham os Irun Imolès por pais alados e celestiais. E os Irun Imolès se ocupavam e se empenhavam em manter a harmonia entre os Igbá Imolès.

Por sua vez, os Igbá Imolès se ocupavam por cuidar deles mesmos, dos seus semelhantes e dos seus descendentes. E também de manter a harmonia entre os seres e as criaturas que dividem o Àiyé com eles.

Dessa forma, Olódùmarè, o Deus Supremo, Pai e Mãe de toda Criação, encontrou uma perfeita solução para harmonizar os seus seres. Dando-lhes responsabilidades uns para com os outros, para manutenção da própria vida e de toda sua criação.

E essa responsabilidade de cuidar um dos outros é a mesma que o mais Alto dos altos tem com toda a sua criação.

E essa responsabilidade é o único propósito de nossas existências neste mundo.

É o que nos faz semelhantes ao nosso Criador Perfeito, O Pai e Mãe de Todas as Coisas Existentes.

Essa responsabilidade é o que hoje conhecemos e sentimos como o verdadeiro AMOR, o verdadeiro AMAR e o verdadeiro SER AMADO.

E os Irun Imolès, juntos aos Imolès Funfuns, foram chamados pelos Igbá Imolès de Òrìsà, que quer dizer “Aquele que me deu a minha alma” ou “Aquele que comanda a minha cabeça”...

E, finalizando o conto, Djeli encarou N’zambi e disse:

— Por isso, meu jovem, que na crença dos povos iorubás os homens ao nascerem vêm com a cabeça aberta. Pelo fato de os Òrìsàs terem naquele momento colocado o seu elemento-alma dentro dela.

O céu começara a clarear no K’ilombo dos Palmares, quando o preto velho griot Djeli terminou de contar a história da criação iorubá. O jovem príncipe N’zambi sentiu que vivenciou toda aquela experiência contada. E teve uma leve e profunda sensação de viver uma eternidade naquela noite. Vivera e experimentara todo o drama dos Òrìsàs. E algo do que ele não sabia havia mudado dentro dele. Sentiu uma mudança na maneira de como via e interpretava a vida, e o mundo em que vivia. Mas também se sentia muito confuso e desconfortável com as suas credulidades. Pois desde muito jovem fora educado no pensamento cristão do catolicismo, que não admitia outra forma de crença, senão as dos seus dogmas religiosos.

Houve um silêncio profundo entre Djeli e N’zambi naquele momento. O preto velho esperava que N’zambi quebrasse o silêncio lhe perguntando algo. Porém, ambos permaneceram sentados por algum tempo, ao lado das cinzas do que antes era fogueira. Restando apenas poucas brasas, que soltavam uma leve fumaça. Enquanto o céu se acinzentava, anunciando que um novo dia estava preste a brotar, Djeli, vendo que o rapaz permanecera numa quietude profunda, preso em seus próprios pensamentos, resolveu quebrar o silêncio, dizendo:

— Imaginemos um grupo de pessoas vivendo uma fantasia. Imaginemos agora que esse grupo de indivíduos não saiba que vive em uma fantasia, e que essa fantasia seja a realidade do mundo em que vivem. Agora imaginemos que dentro dessa “realidade” algumas pessoas desse grupo criem fantasias para suas diversões e entretenimentos. Para, digamos, sair um pouco dessa “realidade” entediante em que eles vivem. E também criem fábulas para darem respostas para o porquê de eles existirem naquele grupo. Feito isso, agora eis a pergunta: Se algumas pessoas desse grupo procurarem saber a verdade, como elas distinguirão a realidade da falsa “realidade” e a “fantasia” da verdadeira fantasia?

Fez-se um breve silêncio. N’zambi encarou o velho griot meio que embaraçoso em seus pensamentos, e Djeli continuou:

— Se você acha isso complexo, meu jovem. Saiba que a nossa realidade não passa de fábulas e fantasias, dentro de outras muitas fábulas e fantasias ao longo dos tempos e gerações. Em que também o tempo e o espaço e toda cadeia de pensamentos, palavras e sentimentos são meramente falsos e fantasiosos.

— E o que é então a realidade e a verdade, Djeli? — Perguntou o jovem príncipe desesperado.

— É aquilo que não se encontra, porque não se procura. — Disse o preto velho.

— Se não se encontra e não se procura, é porque a realidade e a verdade nunca se perderam. Então, onde ela está, Djeli? — Tornou a questionar o jovem.

— No aqui e no agora!

Exclamou Djeli, e continuou:

— Preferimos acreditar e viver as fantasias, não é? Porque encarar a realidade... hahahahaha... a realidade não tem cara! Vamos, meu jovem, o dia já raiou e você precisa descansar.

E, sorrindo, abraçou com força o jovem príncipe, olhou profundamente em seus olhos e disse:

— Há de se construir sempre bons sonhos, pois o pesadelo em que vivemos é real.

FIM DA SEGUNDA PARTE DO SÉTIMO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV)

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