O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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8. Capítulo 4 - ד (DALED) A CAUSA

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ד

DALED

A CAUSA

 

Lentamente, o sol começou a cair do imenso céu por detrás dos montes esverdeados que cercavam as províncias-mokambos do K’ilombo dos Palmares. N’zambi encontrava-se deitado numa das redes da varanda. Tirando um leve cochilo depois de comer um delicioso cozido de galinha e legumes, acompanhado de pirão de farinha de mandioca e uma saborosa salada, que Djeli preparara com muito amor e reverência. E, ao comer, N’zambi disse que essa era a melhor comida que ele já experimentou em toda sua vida. E o velho lhe disse que ela foi preparada com os melhores temperos sagrados que realçam o sabor dos alimentos e os preenchem de nutrientes. Sendo estes o Amor, a Gratidão e uma boa pitada de fome.

O preto velho pegou alguns feixes de madeira no seu quintal e colocou na baia do seu jumento. Selando junto a uma sacola de palha, que continha café e alguns utensílios. Também havia algumas espigas de milho e raízes de batata-doce, entre outras coisas de comer e fumar. E, também, levou consigo uma moringa contendo uma bebida mágica dos povos Huni Kui, o Nixi Honi Xuma.

Djeli caminhou até a frente da casa e, na porteira da entrada, gritou:

— N’zambi, vamos!

O jovem príncipe rapidamente pulou da rede, calçou suas sandálias de couro e correu até o ancião. E perguntou:

— Para onde vamos, Djeli?

— Para a pedra do grande monte. — Respondeu o velho, e acrescentou:

— Hoje passaremos a noite lá. A lua está cheia e teremos uma bela visão da floresta, onde as palmeiras de guariroba resplandecem à luz da lua, como os cristais resplandecem à luz do sol. E também cumprirei a minha palavra de lhe contar a lenda da criação do mundo para os povos iorubás. Porque o homem de palavra, meu jovem, é o homem da verdade.

Ao passo que eles subiam o grande monte, o sol ia adormecendo. E, logo acima no imenso céu acinzentado, iluminou a Grande Estrela de todas as tardes e manhãs, aquela que mais brilha. Djeli e N’zambi fixaram os seus olhos na mais bela de todas as estrelas que se encontrava solitária no céu vespertino. E seguiram ao passo lento do seu jumento, em que os cachorros os antecipavam na subida do grande monte. Enquanto caminhavam, Djeli contava algumas histórias sobre os povos iorubás. O céu já estava quase escuro quando eles chegaram ao topo do monte e avistaram a grande pedra. O jovem N’zambi em silêncio guardava no coração todas as coisas que o velho griot lhe contava. E Djeli continuava a contar:

— Há uma coisa na cultura dos povos iorubás que diz: “ile ni a n wo, ki a to so omo l'oruko”. Isso significa que devemos considerar primeiro a tradição e a história dos familiares da criança, quando se escolhe o seu nome. Os povos iorubás levam muito a sério os seus nomes. Porque eles acreditam que as pessoas vivem os significados deles. Por isso que eles desenvolvem esforços consideráveis para nomear um novo ser que vem a esse mundo.

Chegando ao local desejado, Djeli amarrou seu jumento num tronco de um araçá e foi sentar-se ao lado de N’zambi na grande pedra. E se maravilhavam observando a bela vista de um céu avermelhado, ao longe dos montes esverdeados. E Djeli perguntou ao jovem:

— Você sabe o significado do seu nome?

— Sim, Djeli, é o deus maior do meu povo. — Respondeu N’zambi.

— Sua avó, a Rainha e Grande Mãe do k’ilombo, Akualtune, foi quem te deu esse nome. Pois ela já previa o seu importante destino. — Fez uma pausa e continuou:

— N’zambi M’pungu é o nome do deus supremo da criação dos seus antepassados no Reino do Kongo. E, pelo que vejo, essa história você já conhece muito bem. Agora, meu jovem, vamos! Ajude-me a armar uma fogueira antes que escureça completamente, porque hoje a lua subirá muito tarde.

N’zambi deu um pulo da pedra onde estava sentado, caminhando apressadamente até o jumento que se encontrava ao lado do pé de araçá. Desembainhou as cordas da baia e retirou os pedaços de pau para a fogueira. Enquanto isso, o velho Djeli fora catar alguns gravetos e folhas secas. Eles armaram a fogueira, tocaram fogo e sentaram junto a ela. Djeli pegou sua grande sacola de palha e retirou os seus utensílios e começou a preparar o café.

O sol já dormira completamente por detrás dos montes esverdeados da floresta. E a noite, com seus ruídos de pequenos animais e gritos repentinos em sequências de intervalos das aves noturnas, cigarras e rãs, imperou. Enquanto Djeli preparava o café, o jovem príncipe viajara longe nas chamas ardentes e no estourar dos galhos em brasa da fogueira. Imaginava como deveriam ser as noites na Terra-Mãe África, e como seria sua vida lá se não existisse a interferência dos europeus. E fora ainda mais longe em seus pensamentos com inúmeras perguntas sem respostas.

A água ferveu no bule de ferro que se encontrava sentado dentro da fogueira. Se derramando em inúmeras estouradas de bolhas fervorosas nos gravetos incendiados. Fazendo sequências de chiados que rompiam no silêncio da noite, disputando com os sons dos animais noturnos. Djeli retirou dois copos de barro dentro da grande sacola de palha e um pequeno pote com café pilado misturado com cardamomo e canela. Preparou-os e deu um dos copos a N’zambi. Logo, foi aprontar o seu cachimbo com sua mistura de ervas, e disse:

— Tenho algo esta noite para você, meu jovem.

Então, pegou uma folha seca de bananeira, cortou um pequeno pedaço retangular e mergulhou no copo do seu café por alguns segundos. Retirou e esfregou nas mãos até sumir o excesso do líquido. Colocou flores de cânhamo que ele tinha picado com as próprias mãos, enrolou e selou com um pouco de melaço de cana-de-açúcar, deu ao jovem e disse:

— Você vai precisar disso, meu jovem. É flor de cânhamo, nossos antepassados usavam para se conectar com o além. Essa erva sagrada tem o poder de abrir os nossos olhos e ouvidos espirituais, quando usada para adquirir conhecimento nos momentos oportunos. Isso vai fazer com que a história que vou lhe contar crie raiz e vida dentro de você.

N’zambi pegou o fumo, retirou um pequeno graveto em chamas da fogueira para ascendê-lo, dando uma tragada forte. E começou a tossir num ritmo de histeria, e Djeli o alertou:

— Vá com calma, meu jovem. Isso é forte. Trague suavemente e prenda a fumaça um pouco, depois solte bem leve, assim vai ser mais prazeroso.

Enquanto fumava, N’zambi começou a sentir de repente uma leve sensação de bem-estar e felicidade. Seguida de relaxamento e perda da definição de tempo e espaço. Bem como alteração da memória acompanhada de um maior fluxo de ideias. Gerando pensamentos mais rápidos do que a capacidade de falar, dificultando assim a comunicação oral. Mas aumentando e maximizando a concentração, o aprendizado e o desenvolvimento auditivo. Entrara no estado perfeito para assimilar o conhecimento oculto dentro dos contos e lendas, revelados pelo velho griot.

E Djeli, o fitando, perguntou:

— Como se sente, meu jovem?

N’zambi o encarou como se tivesse acabado de acordar. Então o velho sorriu, e disse:

— Fume mais até acabar. Mantenha-se alerta e tome seu café.

Passado um pouco de tempo, o preto velho Djeli pegou sua sacola de palha e retirou dela uma pequena moringa, que estava bem selada com uma tampa feita de borracha, produto das seringueiras, envolta em cera de abelha. E disse:

— Aqui está o professor dos Povos Huni Kui, os nativos habitantes das florestas.

N’zambi encarou aquela pequena moringa sem nada entender, e Djeli continuou a dizer-lhe:

— Nesta moringa mora Nixi Honi Xuma, o Curandeiro da Floresta. Um poderoso vinho, fruto de duas plantas de poder. Essa bebida foi me dada de presente por um mukaya, em uma das minhas andanças pelas floretas desta terra.

— O que é um mukaya? — Perguntou N’zambi.

— Um mukaya é o sacerdote dos Povos Huni Kui, “Aqueles Verdadeiros”, como são chamados. Esses homens, mukaya, levam uma vida totalmente sagrada. Não se alimentam de carne e nem podem ter relações com as mulheres. Tomam constantemente, a cada sequência de intervalos de dias, esta bebida sagrada, o Nixi Pae. Fumam e inalam fazendo uso das propriedades mágicas do Dume, o tabaco. Assim, realizam dentro deles o Muka, a substância amarga. E, por consequência, se comunicam absorvendo-se no Yuxin, o mundo dos espíritos. O Yuxin os leva a caminharem pela floresta, em longas andanças físicas. Aqueles que os veem caminhando por longos dias não entendem os motivos dessas andanças. Porque, quando retornam a suas moradas, não trazem nada consigo, nem caça e nem ervas medicinais. Pelo simples fato de que suas caminhadas físicas eram na verdade passeios espirituais dentro do universo de Yuxin.

Djeli levantou-se, pegou os dois copos de barro em que eles tomaram café e derramou neles um pouco de água para lavá-los. Depois de limpos, pegou a pequena moringa contendo o Nixi Pae. Com o seu pequeno punhal, retirou a cera de abelha que a selava. E também, cuidadosamente, retirou a borracha que a tampava. E, lentamente, preencheu os copos com o vinho sagrado dos Povos Huni Kui.

O preto velho chamou o jovem N’zambi para estar a sua frente. Retirou da sua sacola de palha um Mbara’Ká. Um instrumento de agitamento pela mão, feito de uma cabaça seca cheia de sementes, apoiada em um bastão de madeira em que se chocalha. Daí, limpou o seu cachimbo cuidadosamente com o dedo e socou nele apenas folhas de tabaco. Deu várias pitadas em seu cachimbo com a finalidade de gerar uma cortina de fumaça e seguiu defumando o jovem Príncipe. No objetivo de limpá-lo das influências dos maus espíritos.

E, enquanto o preto velho griot fazia esse ritual de purificação com as propriedades mágicas do tabaco e do agitamento constante do Mbara’Ká, seguia cantando na língua dos Povos Huni Kui uma canção que dizia: “Um mukaya dá e tira a vida. Para virar um mukaya, tem que entrar solitário na grande floresta e amarrar todo o corpo com a Envira. Deita-se na encruzilhada das trilhas que naturalmente foram abertas, com as pernas e os braços também abertos. Aí, primeiro vêm as mariposas noturnas, os Husu, e elas cobrem todo o seu corpo. Em seguida vêm os Yuxin, que comem os Husu até chegar a sua cabeça. Aí você o abraça com muita força. Com esse forte abraço o Yuxin se transforma em Murmuru. O Murmuru tem muito espinho. Se você tiver força e não o largar, o Murmuru vai se transformar em uma serpente, que vai se enrolar em todo o seu corpo. Você aguenta ser sufocado pela serpente, e ela, de repente, se transforma em uma onça. Você continua segurando essa onça, que com suas patas e dentes afiados quer te devorar. E assim você a segura, sendo valente, até que, sem você perceber, você segura o nada. Você venceu a prova, e daí você pergunta. Aí você explica que quer receber o Muka, e o Espírito te dá...”

Depois que o preto velho Djeli concluiu o ritual de purificação, pegou os dois copos, deu um dos copos a N’zambi e, juntos, beberam o vinho dos espíritos das florestas. Ao beberem, se sentaram acomodando-se ao redor da fogueira.

Djeli retirou da sua sacola um pequeno tambor, feito do tronco da palmeira de guariroba encorado com pele de bode, e começou a tocar uma batida lenta e suave que imitava os ritmos do coração. E cantava uma música na língua dos nativos Povos Guarani, que aprendeu com um velho amigo Karaí, que dizia assim:

 

“Quem me dera ser como os povos do passado

Possuir o coração de um guerreiro

Ouvir as vozes das florestas

Sentir o vento no cabelo...

 

Quem me dera ver o céu na floresta estrelado

Dançar com o meu povo ao redor do fogo

Ouvir dos feiticeiros as histórias dos antepassados

Louvar ao Grande Espírito os desafios que tem me dado...

 

Quem me dera sobreviver da caça

Pescar nos rios, cruzar as matas

Alimentar o meu povo com o fruto dos meus esforços

Possuir somente o necessário e dar graças ao que é nosso...

 

Quem me dera conviver com pequeninas criaturas

Seja no brejo, no regato, nas montanhas ou na mata escura

E poder observar as maravilhas daquele mundinho

Apreciando um ser Elemental em forma de redemoinho...

 

Quem me dera nascer naquele tempo

Em que a vida era mais valiosa do que as posses

Onde cada ser possuía o seu real valor

E cada novo dia era motivo de louvor

 

Quem me dera!

 

Nunca ser chamado de ÍNDIO ou classificado como um SER HUMANO

Não aceitar as crenças e costumes do homem branco

Não me corromper com suas mentiras e ganâncias

Não dar valor aos seus objetos, nem usar suas vestes e fragrâncias

Não buscar dinheiro, ouro ou prata na destruição das matas

Não punir nenhuma vida, nem jogar nenhuma praga...

 

Quem me dera viver em Paz, Amor e Harmonia

Aproximar-me do conhecimento e viver com alegria

Voltar à vida dos meus antepassados

Fazer de novo da floresta o meu mundo, meu reinado

Viver a vida como um bravo guerreiro...

 

E saber que o seu real valor

Não está nas posses...

Nem nas vestes...

Nem tampouco no dinheiro...

 

Quem me dera!”

 

Majestosamente, a lua começou a se levantar ao som do tambor, dos animais noturnos e do estalar dos gravetos na fogueira. O jovem N’zambi encontrava-se em um mundo de sons e sentidos que nunca experimentara antes. De repente, tudo era mais nítido, as coisas tinham mais sentido, cor e vida, e tudo conversava em um bailado maravilhoso e mágico. O velho Djeli, fixando seu olhar na grande lua, ao som do tambor, começou a contar:

— `Owe ni Ifá Ipa òmòràn ni ímò ó... `Owe ni Ifá Ipa òmòràn ni ímò ó... `Owe ni Ifá Ipa òmòràn ni ímò ó...

Disse Djeli repetidamente em língua iorubá, que significa: ‘Ifá fala sempre por parábolas, e sábio é aquele que sabe entendê-las’, e continuou:

 

— No princípio existia um lugar... em que nada do que existe hoje havia e existia...

Esse lugar é o primeiro mundo, que se chama Orún...

No Orún, o primeiro reino, só existiam os seres de luz e a Grande Fonte Luminosa. Que é o Ser Supremo, que criou o todo e o tudo e deu existência a todas as coisas que hoje existem...

Esses seres luminosos eram um só em comunhão ao Grande Espírito Supremo. E só uma coisa diferenciava uns dos outros, apenas os brilhos dos seus corpos e a cor da luz que eles emanavam...

Esses seres eram completos e perfeitos em união e reverência à Grande Fonte Luminosa. E manifestavam no Orún um grande baile luminoso, que formava um redemoinho em espiral repleto de todas as cores que se possa imaginar...

Assim, o Orún resplandecia uma beleza de maravilhas de luzes e cores, que nem um baú repleto de pedras preciosas multicoloridas, irradiadas pelos raios solares que penetram em uma janela dentro de um quarto escuro, podia emanar...

A Grande Fonte Luminosa, O Deus Todo-Poderoso, O Primeiro e o Último, que além dele não há outro deus. É conhecido pelos povos iorubás pelos atributos de Olódùmarè, que quer dizer “Aquele Luminoso que possui o imenso brilho que ninguém pode alcançar”. Ou Olórun, que quer dizer “Aquele Luminoso que impera no Céu”. Ou simplesmente Olófin, que quer dizer “Aquele Luminoso que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores” e também Olodúm, que quer dizer “Aquele Luminoso que é o senhor dos destinos”...

Os habitantes do Orún, os seres luminosos criados por Olódùmarè, eram chamados Imolè...

Os Imolès eram uma comunidade de seres de luz regidos por um único Rei, Olódùmarè. Tendo alguns ordenadores templários que eram chamados Funfuns. Esses seres eram assexuados, pois eram à semelhança de Olódùmarè...

Os Funfuns foram os primeiros seres luminosos criados por Olódùmarè, e os seus corpos são transparentes como os cristais, e as suas luzes são de cor branca, como as luzes das estrelas...

Olódùmarè, “Aquele que é não criado”, antes de criar o Orún, era inconcebível e inimaginável...

Era o tudo e era o nada, e não era o tudo e não era o nada. Pois nem o tudo, nem o nada ainda não veio à existência...

Olódùmarè, o solitário não criado, de repente, movimentou-se em si mesmo e começou a inflar-se, gerando em si mesmo a EXISTÊNCIA. E a EXISTÊNCIA era a LUZ...

Olódùmarè inflamava e se expandia cada vez mais, e mais, e mais, e mais. A partir desse momento, Olódùmarè existiu dentro de si mesmo, e o nada se tornou o todo dentro dele mesmo...

A EXISTÊNCIA era o primeiro PENSAMENTO de Olódùmarè, o sonho da Criação...

Olódùmarè prendeu o PENSAMENTO por uma eternidade de oito ciclos, e ao longo dos ciclos Olódùmarè se expandia cada vez mais. No final do nono ciclo e no início do décimo ciclo eternário, Olódùmarè não conseguiu mais se conter. E saiu de dentro de si o èmí, um sopro entoado pela primeira vez, que deu origem ao òfurufú, a PALAVRA. E a PALAVRA era a VIDA. E Olódùmarè disse bem alto, pronunciando:

EU SOU!

Olódùmarè explodiu ao pronunciar “o sopro entoado”, o èmí. Expelindo para fora de si a PALAVRA, o òfurufú...

E a PALAVRA se fez EXISTÊNCIA, e Olódùmarè, olhando a EXISTÊNCIA, se viu pela primeira vez. Pois a EXISTÊNCIA ainda não tinha forma definida, porque a EXISTÊNCIA estava dentro de Olódùmarè. E era Olódùmarè...

A PALAVRA estava com Olódùmarè no princípio, e, Olódùmarè era a PALAVRA. Por meio da PALAVRA, Olódùmarè gerou todas as coisas criadas e nada do que veio à EXISTÊNCIA veio a ser sem a PALAVRA, que era Olódùmarè...

A PALAVRA veio a ser a FONTE DA LUZ. E dessa PALAVRA todas as criaturas, coisas e formas se iluminaram. E a LUZ brilhou pela primeira vez nas trevas, essa LUZ veio a ser a VIDA, e a VIDA compreendeu o Todo e o Tudo, e Olódùmarè veio a ser, expelindo-se para fora de si mesmo...

A EXISTÊNCIA agora estava fora de Olódùmarè. Mas Olódùmarè estava agora dentro e fora da EXISTÊNCIA que se tornou LUZ...

E a LUZ era a VIDA. A VIDA ganhara corpo e forma. E quando a VIDA observou Olódùmarè, o seu criador, a VIDA ganhara também CONSCIÊNCIA. E dessa CONSCIÊNCIA surgiu o SENTIMENTO. E esse SENTIMENTO foi o AMOR, em forma de um singelo sorriso...

E Olódùmarè amou a VIDA. E desse AMOR a FELICIDADE raiou iluminando a CRIAÇÃO. E dessa LUZ surgiu a HARMONIA. E a HARMONIA manifestou a PERFEIÇÃO. Então, Olódùmarè disse:

“— VOCÊ É MEU PRIMEIRO FILHO. ATRAVÉS DE VOCÊ EU VIM A EXISTIR E FIQUEI CONHECIDO. EU ESTOU EM VOCÊ E VOCÊ ESTÁ EM MIM. SOMOS UM SÓ, POIS SEM VOCÊ EU NÃO EXISTO, E SEM MIM VOCÊ NÃO PODERIA EXISTIR. EU TE VEJO PORQUE VOCÊ ME VÊ. EU TE SINTO PORQUE VOCÊ ME SENTE. MEU PRIMOGÊNITO, MEU ESPÍRITO ESTÁ LIGADO AO SEU, E O SEU AO MEU, POR TODA VIDA E QUALQUER ETERNIDADE.”

Olódùmarè, depois de dizer essas palavras, o chamou de Obàtálá, que quer dizer “Rei Supremo de luz branca acima de tudo e de todos”.

Obàtálá, rei supremo e filho único de Olódùmarè, foi coberto de um véu de luz majestosamente branco. Olódùmarè, vendo o seu filho amado que flutuava solitário no espaço como a Grande Estrela de todas as tardes e manhãs, aquela que mais brilha, disse:

“— VAMOS, MEU FILHO, E CONSTRUAMOS UMA CASA PARA QUE JUNTOS POSSAMOS HABITAR.”

E Olódùmarè, junto a Obàtálá, edificou o Orún. Depois da edificação do Orún, Olódùmarè percebeu que Obàtálá necessitava de um ser semelhante a ele, para coagir e interagir. Pois Olódùmarè não tinha forma definida, podendo ser qualquer coisa, e ele se manifestava a Obàtálá de diversas formas e maneiras. Sendo que Obàtálá não tinha nenhuma referência dele próprio, porque não havia ainda na criação um ser semelhante a ele. Então, Olódùmarè disse:

“— VAMOS, MEU FILHO, SOPRAREI SOBRE VOCÊ O ÈMÍ, O MEU HÁLITO.”

Olódùmarè, ao soprar o èmí sobre Obàtálá, fê-lo girar como um redemoinho. E, ao girar, parte de si desprendeu-se dando origem a outro corpo. Porém, esse corpo estava estático e sólido como uma rocha porosa. Vendo-o, Olódùmarè disse:

“— AGORA SOPRAREI SOBRE ESSA FORMA O MEU ESPÍRITO, O ÒFURUFÚ, MEU AR DIVINO. PORQUE MEU ESPÍRITO É A PALAVRA DA VIDA, E DOU LUZ A TUDO QUE QUERO.”

Olódùmarè soprou o seu òfurufú sobre a forma sólida e acinzentada, e ela ganhou Luz e Vida. E da mesma forma que fez com seu filho único Obàtálá, o encobriu com um manto de luz de cor branca...

E Olódùmarè o chamou de Èsú’Yangí, que significa “A esfera porosa que ganhou movimento”...

Èsú’Yangí foi a primeira forma viva individualizada do universo. Pois Èsú’Yangí fora retirado diretamente de Obàtálá, sendo por natureza inferior a Obàtálá, o primogênito de Olódùmarè. E Olódùmarè, disse:

“— ÈSÚ’YANGÍ, VOCÊ SURGIU DE OBÀTÁLÁ E AGORA VOCÊS SÃO IRMÃOS. VOCÊ DEVERÁ HONRAR SEU IRMÃO MAIS VELHO E RESPEITÁ-LO COMO SUPERIOR A VOCÊ. POIS SEM ELE VOCÊ NÃO PODERIA VIR A EXISTIR. PORÉM, EU TE FIZ À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, E TAMBÉM TE ENCOBRI COM O MESMO VÉU DE LUZ QUE O ENCOBRI, PARA QUE VOCÊS SEJAM UM SÓ PERANTE MIM. MAS SEU IRMÃO É O MAIOR, POR SER ELE À MINHA IMAGEM E TER PROVINDO DE DENTRO DE MIM, PORQUE EU O GEREI E ME MANIFESTEI ATRAVÉS DELE. PORTANTO, HONRA E AMA A ELE COMO VOCÊ DEVE HONRAR E AMAR A MIM. ESTE É O ÚNICO MANDAMENTO QUE LHE DOU.”

E Olódùmarè disse a Obàtálá:

“— MEU PRIMOGÊNITO, VOCÊ SABE QUE O MEU ESPÍRITO ESTÁ EM TI, E ATRAVÉS DE TI TODAS AS COISAS VIVAS SERÃO CRIADAS. E ENCHEREI TODO UNIVERSO DE VIDA ATRAVÉS DE TI. CUIDA ASSIM DO TEU IRMÃO, POIS ELE É FRUTO DE TI, AMA-O COMO VOCÊ ME AMA E EU TE AMO, AMA-O COMO VOCÊ DEVE AMAR A SI MESMO PELA MINHA VIDA EM TI. ESTE É O ÚNICO MANDAMENTO QUE TE DOU. POIS A COROA DA VIDA É SUA, SENDO TU MESMO REI SOBRE TODA A VIDA.”

Depois de dizer essas palavras e dar os seus primeiros mandamentos aos dois. Olódùmarè se retirou do meio deles e os observava, pois ele mesmo já sabia o que havia de acontecer com a criação...

Obàtálá e Èsú’Yangí eram puros como as criancinhas, pois ainda não havia maldades na criação...

Juntos caminhavam, dançavam e brincavam no Orún, e Olódùmarè sempre os vigiava. Até que pela primeira vez surgiu uma desavença entre os dois, pois Obàtálá queria dançar, e Èsú’Yangí queria brincar...

Olódùmarè, vendo essa desavença, foi até eles para interrogá-los, e disse:

“— MEUS AMADOS FILHOS, QUAL O PORQUÊ DESSA DESAVENÇA ENTRE VOCÊS DOIS? VOCÊS DEVERIAM ESTAR FELIZES, UM EM COMPANHIA DO OUTRO.”

Obàtálá, então, disse:

“— Tudo isso foi por causa de Èsú’Yangí, pois estávamos brincando o tempo todo, aí eu falei para ele que eu não queria mais brincar, e chamei-o para dançar e ele não quis.”

Èsú’Yangí disse em resposta a Obàtálá:

“— Já tínhamos dançado antes de brincarmos, e eu não queria mais dançar.”

Olódùmarè ouvindo-os, percebeu que nesse momento havia dois mundos. E que sempre existiria rivalidade entre eles pelas divergências de suas vontades. E isso o preocupou. Pois a sua criação não se tornará harmônica, e sem harmonia não poderia existir a perfeição. Olódùmarè pensou por um momento e disse:

“— ALGUM DE VOCÊS DOIS VAI TER QUE SE RENDER A FAZER O QUE O OUTRO QUER. QUEM SERÁ?”

Obàtálá, então, disse:

“— Eu sou o primeiro. E sendo eu o primeiro, Èsú’Yangí tem que fazer a minha vontade.”

Èsú’Yangí também disse:

“— Eu sou o seu irmão, portanto você tem obrigações comigo, pois provim de você, e por isso, você tem que me servir.”

Então, eles viraram as costas um para o outro, como sinal de não se rederem um à vontade do outro...

Olódùmarè, vendo que a coisa só piorava, percebeu que a igualdade individualizada entre os dois criara a rivalidade. E, dessa forma, decidiu criar outro ser em aparência como a deles, mas diferente. Pois Obàtálá e Èsú’Yangí eram assexuados, mas em semelhança masculina.

Assim, enquanto os dois se encontravam de costas, Olódùmarè pegou um pouco de luz dos seus corpos e fez surgir no meio deles um ser de beleza sublime e de forma afeminada...

Este ser também de luz branca era tão lindo e de grande pureza, que ninguém o poderia resistir. Este ser surgiu das divergências de Obàtálá e Èsú’Yangí. E Olódùmarè o chamou de Odùduwà, que quer dizer “Aquela que jorra a harmonia do Criador”. Assim, Olódùmarè se retirou e os deixou.

Obàtálá e Èsú’Yangí de repente ouviram por detrás de si um choro, e, virando-se os dois ao mesmo tempo, depararam-se com um ser luminoso de beleza encantada, e juntos maravilharam-se. E Obàtálá perguntou:

“— Quem é você e por que chora?”

“— Meu nome é Odùduwà. Estou chorando porque vocês não querem brincar e dançar comigo.” — Respondeu...

Èsú’Yangí, disse:

“— Eu quero brincar.”

“— E eu quero dançar.” — Disse em seguida Obàtálá.

E juntos brincaram e dançaram. Foi assim que Olódùmarè, o Senhor de toda Criação, apaziguou as primeiras divergências no Orún. Pois agora a criação se tornara perfeitamente harmônica...

Olódùmarè decidiu criar outros seres de luz para popular o Orún, e assim fez, gerando a sua corte real de Imolès Funfuns, “Aqueles de Luz Branca”...

Os principais Imolès Funfuns, eram Obàtálá, que foi o primeiro, sendo este o rei de todos os Imolès,  Èsú’Yangí, representando a disputa dual que movimenta o uno, Odùduwà, a trindade da harmonia que traz a perfeição, e por consequência Eteko, Akiré, Olúorogbo, Ògiyán, Olufan, Oko, Òkè, Lòwu, Ajagemo, Olúwofín, Pópó, Eguin, Jayé, Olóbà, Obaníjìta, Alajere, Olójó, Oníkì, Onírinjà, Àrówú, Ko, entre outros Funfuns. E, os criando, Olódùmarè se retirou...

Os Imolès Funfuns viviam em perfeita harmonia com o seu Criador no Orún. Mas sentiram algo faltando na criação, e não sabiam o que era. Algo como sentir fome, mas não existir comida. Sentir sede, mas não existir bebida...

Então, todos, de mãos dadas, se reuniram no centro do Orún, em um grande círculo invocando a presença de Olódùmarè. Perguntando que coisas era essa que faltava? Que vazio era esse a ser preenchido?

Olódùmarè, o sem forma que adquire todas as formas, o não criado que criou o todo e o tudo, ascendeu em uma grande chama de luz extremamente branca no meio dos seus filhos. E, quando isso aconteceu, a sua grande, potente e poderosa luz atravessou os corpos cristalinos dos Imolès Funfuns, gerando por detrás deles as maravilhas das muitas cores. Transformando o Orún em um universo mágico de um grande e circular arco-íris multicolorido. E Olódùmarè, disse:

EU SOU!

E ao pronunciar a sua grande e poderosa presença, todas as cores adquiriram vida, e novos Imolès multicoloridos vieram a existir no Orún. Preenchendo o vazio que faltava dentro e entre os Imolès Funfuns...

E esses novos seres multicoloridos foram chamados Irun Imolè.

E esse vazio que faltava no Orún era o que conhecemos hoje como os SENTIMENTOS...

Pois cada cor manifestada despertara nos Funfuns os variados sentimentos que no princípio todos eram de ordem positiva. A partir desse momento, os SENTIMENTOS se tornaram os alimentos dos Imolès, e suas vidas agora giravam em torno deles.

FIM DO QUARTO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).  

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