O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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7. Capítulo 3 - ג (GIMMEL) O EFEITO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ג

GIMMEL

O EFEITO

 

Já fazia algumas décadas desde que os cristãos ibéricos europeus começaram a erguer as suas capitanias hereditárias coloniais no Novo Mundo, dando formação ao Estado do Brasil, unidade administrativa da América Portuguesa, que também compreendia algumas terras ao norte da América, a Ilha de Terra Nova e o Labrador, quando um grande grupo de africanos escravizados se rebelou, nos engenhos das províncias do Recôncavo, no distrito de Nossa Senhora da Purificação e Santo Amaro, na Capitania da Baía de Todos os Santos, e fugiu para o norte, em direção à Capitania de Pernambuco.

Esses africanos há muito tempo estavam planejando uma fuga massiva. Mas não dispunham de armas e nem tinham referências para onde ir, depois da rebelião ser bem-sucedida. Porém, contavam com uma grande vantagem, em que a maioria deles era da mesma etnia e falava a mesma língua. Já que os portugueses tinham como tática agrupar os negros em pequenos grupos linguísticos diferentes, para evitarem motins e rebeliões. Sendo assim, ficava muito difícil a comunicação entre eles.

Esses africanos se uniram planejando fugir do trabalho forçado. E, nas lavouras de cana-de-açúcar, como também nas senzalas, disfarçaram os seus treinamentos para guerra em forma de dança. Nas plantações dançavam com seus facões e estrovengas, nos intervalos do árduo trabalho. E dentro das senzalas batucavam com pedaços de paus e com as palmas das mãos e dançavam dando pequenas cambalhotas, giros e movimentos com as pernas para o ar.

Quando os mestiços capatazes que vigiavam as senzalas olhavam para dentro delas, viam apenas esses negros dançando, cantando e gritando. Então, eles se perguntavam uns para os outros:

— Como esses negros escravos têm energia para dançarem a noite toda desse jeito, depois de ter trabalhado o dia todo como animais nas lavouras de cana e nos engenhos?

Porém, eles não sabiam que aquela dança era uma luta e treinamento de guerra disfarçado.

Até que chegou a oportunidade em que esses africanos escravizados conheceram um frustrado mestiço capitão do mato, filho de uma nativa tupinambá que foi violentada pelo colono dessa fazenda. Esse mestiço tinha passado para o lado dos negros por revolta ao seu progenitor, que o desprezava e o tratava como um de seus capatazes. Então, esse capitão do mato planejou uma forma de ganhar o total prestígio do seu pai. Armando uma emboscada contra ele para depois salvá-lo em um ato heroico. Esse também conhecia muito bem as trilhas e caminhos tanto das matas fechadas, como das estradas de viagens, em que os portugueses usavam para transitarem por entre as capitanias.

A única forma dos negros terem uma oportunidade de confronto vitorioso era nas lavouras de cana-de-açúcar. Já que essas lavouras se concentravam em espaços abertos, ao lado dos rios e das matas fechadas. Pois os engenhos, que eram outro ponto de concentração dos negros no trabalho, ficavam dentro das províncias muito próximo à casa-grande, e esse fator não era vantajoso para a fuga.

Os africanos planejaram trabalhar dobrado no plantio da cana-de-açúcar, com a finalidade de fazer uma grande colheita, em que se necessitasse agrupar a maioria dos negros escravizados da região. Chegando o dia da grande colheita, o colono teve que contratar mais negros de outras três fazendas. Ele estava tão empolgado com o sucesso dessa empreitada, que nem pensou na possibilidade de uma revolta. Pois a quantidade de escravizados ultrapassava o triplo do triplo de seus capatazes armados.

Os capatazes agruparam os negros em grupos de filas, de forma que uma grande e pesada corrente era presa a uma coleira de ferro pendurada nos pescoços desses africanos. Sendo assim, uma única corrente passava de coleira em coleira, de pescoço em pescoço agrupando esse povo oprimido em linhas de quarenta homens. Assim, eles tinham quinze filas de escravizados que formavam seiscentos homens. E havia dois capatazes armados com arcabuzes e chicotes responsáveis para cada fila: um capataz caminhava na frente, direcionando-os, e o outro capataz caminhava atrás da grande fileira de escravos, observando-os.

Ainda era noite quando a empreitada chegou ao canavial. O colono também decidiu ir, para ver de perto o sucesso do seu negócio. O céu acinzentou anunciando a chegada do sol, e aquela que mais brilha imperou solitária no imenso céu. Então, os capatazes soltaram os negros de suas coleiras. Os escravizados pegaram suas ferramentas. Uns tinham facões, outros empunhavam foices, estrovengas e cordas. E, rapidamente, antes que os capatazes pensassem em segurar suas armas de fogo, que ainda estavam penduradas em suas costas, em bainhas feitas com tiras de couro, os africanos, com rasteiras, pontapés e pezadas derrubaram os capatazes e deceparam a cabeça de um a um com suas ferramentas. Em menos de dois minutos só sobrou o colono, que via tudo aquilo apavorado.

Eles pegaram o colono, estenderam uma corda numa coluna de madeira da choupana onde guardavam as ferramentas, taparam a sua boca, o amarraram e o prenderam. Pegaram as armas, munições e todas as ferramentas que podiam e adentraram mata afora. Lá, encontraram o capitão do mato dentro da floresta, que arquitetou todo esse plano de fuga, falando somente que deixassem seu pai vivo e em boas condições.

O capitão do mato, rapidamente, pegou um dos facões melados de sangue de um dos escravizados. Ordenou aos outros negros que pegassem suas ferramentas banhadas de sangue e sujassem a sua roupa e pele. E foi correndo concluir o seu plano, de encontrar o seu pai que estava amarrado na choupana. Chegando lá, o desamarrou, dizendo em tons de desespero que encontrou os negros fugidos e que lutara bravamente contra eles, quando eles planejavam o matar tocando fogo na choupana. E foi assim que o mestiço capitão do mato conquistou o apreço do seu pai, o colono.

Dessa forma, os negros chegaram à Capitania de Pernambuco, onde invadiram cinco fazendas matando todos os capatazes e colonos e saqueando tudo que encontravam e que podiam carregar, além de levarem consigo outros negros que eram escravizados nessas fazendas. Adentraram nas matas da capitania pernambucana. Até chegarem a um pequeno acampamento abandonado pelos nativos guaranis que se localizava em uma região montanhosa cercada por uma densa e verde vegetação. Contendo árvores de fruta-pão, biribeiras, pau-d’arco, maçarandubas e jacarandás, entre outras árvores frutíferas e de madeiras boas para construção. Todas elas envolvidas entre as grandes palmeiras solitárias de guariroba, o que dificultava o acesso aos morros florestais.

Ocuparam esse acampamento e deram o nome de Cerca dos Macacos, por estar repleto de micos. Esses foram os primeiros indícios do que depois com a chegada da Princesa Akualtune e o griot Djeli se tornou a Cerca Real dos Macacos, a Província Real da N’gola N’janga, ou o K’ilombo dos Palmares.

As lembranças desses primeiros guerreiros africanos ficaram gravadas na história de Santo Amaro. Onde os escravizados e os seus descendentes que se achavam ali preservaram as táticas de guerra ou danças guerreiras desses heróis africanos, que logo veio a ser conhecida como a capoeira e o maculelê. E também a partir desse momento muitos africanos viram que era possível lutar e, assim, fugir dos seus opressores, desencadeando uma sequência de revoltas em toda a Capitania da Baía de Todos os Santos e Pernambuco e, consequentemente, em outras capitanias.

O K’ilombo dos Palmares atingiu seu auge e se constituiu como um estado africano independente na colônia portuguesa do Novo Mundo, graças à ocupação dos holandeses na Capitania de Pernambuco. Que passou a se chamar Nieuw Holland, a Nova Holanda. Na mesma época da formação do K’ilombo dos Palmares, o Reino de Portugal ficou sob o domínio do Reino da Espanha. Assim, também o Estado do Brasil, colônia portuguesa no Novo Mundo, ficou sendo controlado pelos espanhóis.

Esse fato desencadeou uma sequência de guerras, invasões e ocupações nas colônias portuguesas provocadas pelos holandeses. Pois estes já estavam em guerra há algum tempo com os espanhóis. E, com o domínio do Reino da Espanha sob as colônias portuguesas, o comércio do açúcar que existia entre o Reino de Portugal e o atual Reino da Holanda, recém-formado pela união das sete províncias dos países baixos da Europa, foi vetado pelos espanhóis, bloqueando economicamente as atividades comerciais dos holandeses no continente europeu.

O Reino da Holanda, ameaçado, partiu para o contra-ataque, criando duas companhias de invasão e ocupação. Uma voltada para as colônias espanholas do oriente e outra para as colônias do ocidente. Depois de quase vinte anos com o sucesso da ocupação das colônias do Oriente, os burgueses holandeses juntaram fundos e investiram todos os seus esforços na ocupação das colônias do Ocidente que ficavam no Novo Mundo. Reunindo uma frota com vinte e seis embarcações, composta por uma tripulação de quase três mil e quinhentas pessoas, cuja maioria era de soldados, a companhia holandesa voltada à ocupação do Ocidente, um ano depois da sua fundação, chegou à capital da colônia do Estado do Brasil, o distrito de São Salvador.

Os colonos portugueses estavam totalmente despreparados e indefesos. O distrito de São Salvador foi facilmente tomado, pois o governador-geral do Estado do Brasil, Diogo de Mendonça Furtado, não tinha tropas de soldados suficientes para guerrear contra os holandeses. Um ano depois dessa investida, os holandeses foram obrigados a se retirarem da Capitania da Baía de Todos os Santos. Pois os colonos portugueses pouco a pouco formaram tropas de ataques de guerrilhas, fazendo investidas de surpresa aos invasores holandeses e evitando os grandes combates, já que não dispunham de armamentos e soldados suficientes para uma guerra direta.

Enquanto isso, o Rei da Espanha, Felipe IV, compôs uma frota de cinquenta e dois navios, com aproximadamente treze mil homens preparados para guerra. E, quando chegaram a São Salvador, os holandeses se viram encurralados tanto pela terra, com as táticas de guerrilha dos colonos portugueses, como pelo mar, com a esquadra espanhola. Com essa derrota, os holandeses, que já tinham seus recursos financeiros em baixa, pela falta do comércio do açúcar, viram-se em grandes prejuízos econômicos, não podendo contra-atacar e nem investir mais recursos na companhia voltada ao Ocidente.

Então, os holandeses decidiram de alguma forma conseguir fundos e organizaram uma esquadra pirata, com a função de assaltar as frotas comerciais espanholas que vinham do Oriente. E obtiveram um grande sucesso roubando uma frota carregada de prata. Com o montante de prata que eles conseguiram do assalto, investiram tudo numa grande e poderosa esquadra, que era mais que o dobro da primeira. Composta por cinquenta e seis embarcações, e muito mais de oito mil tripulantes, para ocupar definitivamente a colônia ocidental portuguesa no Novo Mundo. Cinco anos depois de sua derrota na Capitania da Baía de Todos os Santos, os holandeses estrategicamente decidem atacar e ocupar a Capitania de Pernambuco. Pois essa capitania era a mais rica da colônia, devido à superprodução de cana-de-açúcar.

O governador da Capitania de Pernambuco, D. Duarte Coelho Pereira, mandou chamar da Espanha o seu neto Matias de Albuquerque para defender Pernambuco contra as investidas dos holandeses. Também, como acontecera na Capitania da Baía de Todos os Santos, Matias de Albuquerque não dispunha de tropas e nem tampouco de muitas armas para defender a província dos ataques holandeses. E, sabendo do que aconteceu com o governador-geral na Capitania da Baía de Todos os Santos, que foi preso no seu próprio palácio e depois mandado como um prisioneiro de guerra para o Reino da Holanda pelos invasores, resistiu um pouco e depois decidiu fugir para o interior das matas.

Onde criou um reduto, que chamou de Arraial do Bom Jesus, tornando-se o principal foco de resistência contra os invasores holandeses. Utilizando também a tática de guerrilha, que de pouco a pouco minava as forças holandesas. Houve cinco anos de muitas batalhas e disputas entre os colonos portugueses e os invasores holandeses. E as táticas de guerrilhas dos colonos estavam obtendo grandes vantagens, e os holandeses sofriam grandes baixas em suas tropas.

Tudo isso graças a um mestiço senhor de engenho chamado Domingos Fernandes Calabar, neto pela parte materna de uma nativa guarani com um africano e filho de um colono português. Calabar, como era conhecido, obtinha um profundo conhecimento de todo o território da Capitania de Pernambuco, e quase de toda a colônia. Conhecedor tanto das terras, montanhas, matas virgens e de toda vegetação como também das praias, ilhas e arquipélagos, rios e mangues. Com a ajuda de Calabar, Matias de Albuquerque expulsou os holandeses de Olinda, a sede administrativa da capitania pernambucana. Uma das duas grandes vilas invadidas foi totalmente incendiada pelos próprios invasores holandeses ao abandonarem. Fugindo, os holandeses se concentraram no povoado dos Arrecifes dos Navios, a Vila de Recife.

Calabar era um homem ativo, sagaz e empreendedor. E foi ele que mais contribuiu para o crescimento e desenvolvimento socioeconômico e militar do K’ilombo dos Palmares. Pois este servira de mediador entre as colônias e o K’ilombo, contrabandeando e comercializando mercadorias e insumos entre eles. Foi assim que Calabar enriquecera na Capitania de Pernambuco, se tornando em pouco tempo, de um simples capitão do mato, em um poderoso senhor de engenho. Entretanto, esse crescimento repentino de Calabar, comercializando mercadorias do K’ilombo dos Palmares, incomodava muito os colonos e senhores de engenhos portugueses, que se sentiam, no momento, dependentes dos favores e benefícios prestados por essa transação. Pois sabiam que Calabar estava enriquecendo de forma ilegal, com mercadorias contrabandeadas dos negros fugidos.

Assim, eles estavam esperando o momento certo de prender Calabar e tomar tudo o que ele possuía. E Calabar, inteligente como era, sabia de tudo isso. Por isso, sempre tinha uma carta por detrás das mangas em seu relacionamento com os colonos portugueses, pegando-os pelos seus mais ambiciosos interesses e necessidades. Mas isso fazia com que a vida de Calabar sempre fosse agitada e desconfortante, e também Calabar arquitetava um plano para se livrar de alguma forma dos seus adversários.

A Capitania de Pernambuco se tornou a maior e a mais rica área de produção de açúcar do mundo, e todo seu intento estava voltado para essa produção. Por esse motivo, muitas outras pessoas e colonos de outras capitanias que não foram tão bem-sucedidas imigravam com objetivos de ofertas de empregos e boas oportunidades, formando, assim, inúmeras vilas e povoados.

Com a aglomeração de pessoas na Capitania de Pernambuco, os insumos para as necessidades básicas estavam se tornando escassos. Faltavam variedades de alimentos e utensílios, e muitos sobreviviam da caça, da pesca e mariscaria, o que beneficiou muito o K’ilombo dos Palmares, onde os africanos, em parceria com alguns nativos, desenvolveram grandes produções agrícolas no cultivo do milho, mandioca, feijão, batata-doce, banana, entre outros alimentos.

Também os k’ilombolas produziam derivados da cana-de-açúcar, como cachaça, melaço, rapadura e doces variados. Como também o fabrico de móveis, ferramentas e utensílios de madeira, metal e barro. Além de artesanatos e rústicas vestimentas, que com a ajuda de Calabar se tornou um grande polo comercial de mercadorias alimentícias, utensílios e utilidades. Que supriam as necessidades internas de algumas capitanias da colônia, inclusive a de Pernambuco, e mais tarde se beneficiaram também os holandeses.

Calabar estava à frente das tropas de guerrilhas dos colonos portugueses. Ele foi ferido gravemente pela segunda vez, em um ataque à Vila dos Arrecifes dos Navios, refúgio dos holandeses. Durante essa batalha, Calabar se viu abandonado pelos seus conterrâneos, que fugiram e o deixaram caído no chão sem socorrê-lo. Enquanto ele gritava por ajuda, o comandante Matias de Albuquerque deu ordens aos seus homens para o abandonarem e o deixar perecer ali em uma poça de sangue. Essa era a tática de Duarte Coelho, que deu ordens ao seu neto dizendo:

— Coloque Calabar à frente das guerrilhas, pois há muito tempo estamos tentando nos livrar dele, e agora surgiu a oportunidade certa. Logo ele sucumbirá em uma das batalhas. E se por acaso ele ficar gravemente ferido e não puder andar, o abandone. Para que esse porco morra por ali.

Era noite de lua cheia quando as tropas dos colonos portugueses partiram em retirada da batalha. Calabar, gravemente ferido no abdômen e abandonado, clamou por forças e foi se arrastando até as matas fechadas que cercavam a Vila dos Arrecifes dos Navios. Chegando lá, arrancou algumas ervas-de-santa-maria que se encontravam por ali, mastigou-as e colocou no seu ferimento, e deitou-se embaixo de uma grande árvore até o raiar do sol.

Quando clareou o dia, uma tropa holandesa saiu adentrando as matas para uma incursão de rotina, encontrando Calabar desacordado e inconsciente debaixo de uma árvore. Viram que ele estava gravemente ferido e o levaram para vila, onde trataram os seus ferimentos e o aprisionaram. Porquanto, eles muito bem sabiam quem era Calabar.

Calabar, que se viu traído pelos seus conterrâneos pernambucanos, com os quais lutou bravamente por dois anos, desertou para o lado dos holandeses. E assim também a vantagem que os colonos portugueses tinham mudou de lado. Pois, com o conhecimento profundo que tinha Calabar, os holandeses se viram vitoriosos em muitas batalhas, e também viram suas necessidades básicas, como alimentação, vestimentas e utensílios, serem supridas com o comércio das mercadorias do K’ilombo dos Palmares, que agora os beneficiavam.

Com a contribuição de Calabar, os holandeses passam a conquistar mais e mais territórios nas colônias do Novo Mundo. Tomaram as vilas de Goiana e de Igaraçu, a ilha de Itamaracá e até o forte do Rio Formoso. Calabar estava furioso com os seus patrícios colonos e, quanto mais ele os vencia, mais sede ele tinha de enfrentá-los, e mais era sua alegria por motivos de vingança. Calabar recebeu dos holandeses o grau de capitão, e deram a ele um pequeno navio e armamentos. Ele convocou alguns homens de sua confiança para se aliarem, além de nativos e outros mestiços como ele.

Calabar fez uma proposta, prometendo prata e armamentos ao K’ilombo dos Palmares para aderirem à luta contra os colonos portugueses. Mas a Rainha Akualtune rejeitou o seu pedido, sabendo por experiência própria do que vivenciara no Reino do Kongo como é perigoso se unir aos europeus. Pois eles davam com uma mão e, em seguida, retiravam o triplo do dobro com a outra. Entretanto, a Rainha Akualtune, por apelo de Calabar, consentiu que ele levasse alguns negros que topassem ser contratados por ele.

Com um pequeno navio e sua recém-formada tropa, Calabar faz uma incursão até a Capitania do Rio Grande e lá conquista o forte dos Três Reis Magos e destrói completamente o engenho do Ferreiro Torto. E o domínio dos holandeses se estendeu da Vila dos Arrecifes dos Navios, na Capitania de Pernambuco, até a Capitania do Rio Grande.

As tropas de Matias de Albuquerque, compostas por cerca de oito mil homens, foram forçadas a retirar-se cada vez mais da Capitania de Pernambuco. Os holandeses continuamente avançavam no domínio da capitania, criando postos e fortalezas de guarda para cada vila conquistada. Calabar era um mestre na arte da guerrilha, sabia que essa tática era a arma dos mais fracos em meio aos mais fortes. Por isso, prevenia o seu superior, o comandante holandês Picard, para terem mais ações de incursões contra os colonos portugueses. Já que eles estavam numa posição inferior em armamentos e homens, o que os tornava mais perigosos e ofensivos.

Também Calabar, por sua sede insaciável de vingança, prometeu para si mesmo destruir todos os colonos portugueses. E, para concretização do seu plano vingativo, ele persuadia o comandante Picard para tal, sem medir nenhuma consequência. Calabar e Picard, acompanhados de trezentos e oitenta homens, acamparam próximo ao povoado de Porto Calvo, com o objetivo de invadi-lo. Isso preocupava bastante o comandante Matias de Albuquerque, porque Porto Calvo era um povoado que supria todas as necessidades básicas das suas tropas, e também servia de refúgio para os ricos colonos portugueses e suas famílias, além de ser o mais velho povoado da região fundado pelos portugueses.

Os moradores do povoado estavam apavorados diante da ameaça de invasão dos holandeses. Então, um homem do povoado, chamado Sebastião do Souto, que era oleiro, fabricante de telhas, foi ao encontro do comandante Matias de Albuquerque com um plano de se aliar às tropas holandesas para armar uma emboscada contra eles. Matias de Albuquerque gostou muito da ideia. Pois muito bem sabia ele que os holandeses tinham o costume de confiar em qualquer pessoa que se dizia desertar para o lado deles. Dessa forma, arquitetou uma armadilha para pegar Calabar, Picard e seus homens.

O plano de Matias de Albuquerque consistia em que Sebastião se infiltrasse no acampamento dos holandeses persuadindo-os a atacar. Levando-os, entretanto, para uma emboscada. Sebastião vai ao comandante holandês Picard dizendo haver mudado de lado, e o convenceu a atacar as tropas de Matias de Albuquerque, dizendo terem apenas não mais de duzentos homens. Com a cilada armada, nela caem Picard, os seus homens e também Calabar, que são feitos prisioneiros.

Os homens de Matias de Albuquerque pegaram o traidor Calabar e o esquartejaram. Tomaram as partes do seu corpo e penduraram nas paliçadas das suas fortalezas, como alerta que essa seria a pena para qualquer um que se aliasse aos holandeses. Com essa perda, os holandeses armaram uma incursão maior comandada pelo comandante Arciszewski, para a conquista definitiva do povoado de Porto Calvo, que foi bem-sucedida. E lá prestaram homenagens ao Capitão Calabar. A quem eles deviam muitas das suas conquistas. E esse foi o fim do mestre de guerrilhas, o bravo Domingos Fernandes Calabar. A quem também os k’ilombolas de Palmares efetivamente deviam grande parte do seu sucesso socioeconômico e militar.

Depois de dois anos desses acontecidos. Os holandeses se constituem como os novos donos das terras da capitania pernambucana, bem como de povoados e vilarejos de outras capitanias. E, para administrar essa empreitada, os holandeses enviam para o Novo Mundo o Conde Johann Moritz von Nassau-Siegen, mais conhecido como Maurício de Nassau. Com a morte de Calabar, o K’ilombo dos Palmares rompeu sua relação comercial com os holandeses, e estes se tornaram seus inimigos, já que estes eram os novos colonos e opressores dos povos africanos escravizados nas feitorias e engenhos.

Também os holandeses, para ampliarem seus campos de plantação de cana-de-açúcar, agora cobiçavam o território dos k’ilombolas, que, com o crescimento repentino, chegava a ser do mesmo tamanho do Reino de Portugal. Além de cobiçarem também os próprios negros k’ilombolas, que eles chamavam de boslopers, “corredores-das-matas”, para mão de obra escrava.

Esses valentes corredores traziam sempre pendurados em seus pescoços inúmeros colares de amêndoas dos coquinhos de licuris. Frutos de uma das palmeiras nativas que imperavam nas serras da região da capitania pernambucana. Esses colares serviam para alimentação desses corredores k’ilombolas enquanto partiam em missão, ou na hora da fuga. Assim, podiam correr por horas e se alimentarem ao mesmo tempo, comendo as amêndoas de licuri, que davam formação ao colar, suprindo suas necessidades energéticas. Já que essa pequena amêndoa contém em sua composição grandes quantidades de gordura vegetal.

Sem as mercadorias e insumos do K’ilombo dos Palmares, a vida se tornara difícil para os colonos holandeses, que tinham que suprir por si mesmos as suas necessidades alimentícias e básicas. E estes tomaram algumas providências contra o k’ilombo. Então o capitão Baro e o capelão Blaer atacaram Palmares respectivamente um ano após o outro, com escassos resultados.

A primeira incursão foi realizada a mando de Baro. E os k’ilombolas, utilizando das táticas de guerrilhas, se esconderam estrategicamente atrás das grandes árvores. E atacaram quando os inimigos se aproximavam pouco a pouco do K’ilombo, dizimando suas tropas passo a passo e os vencendo facilmente.

Já a segunda incursão holandesa enviada a Palmares foi sob liderança do padre Jan Blaer de Vreeswijek, aldeia da província de Utrecht, na Holanda. Porém, eles ficaram surpresos ao chegarem ao local e não depararem com os negros revoltosos e suas ciladas. Pois os k’ilombolas estrategicamente mudaram a forma de sua tática de guerrilha. Deslocando os seus kraais e mokambos para outras regiões, fazendo com que os holandeses dessem voltas em círculos, como se estivessem dentro de um labirinto.

Esta incursão acabou se tornando desgastante e apavorante para os holandeses. Pois os k’ilombolas, disfarçados, vestindo-se com galhos e folhas, espreitando por entre as pedras e árvores, esperavam o momento em que os seus adversários descansavam para atacá-los de surpresa, sem lhes darem direito à luta. Sem perspectivas de vitória e suas tropas, alimentos e armamentos sofrendo várias baixas, o capelão e também comandante Jan Blaer bateu em retirada.

Depois dessas duas derrotas humilhantes que os holandeses sofreram ao atacarem o K’ilombo dos Palmares, desistiram de confrontá-los. Pois as suas maiores preocupações eram como defender as suas vilas e povoados conquistados contra as investidas dos espanhóis e dos colonos portugueses. Assim, o K’ilombo dos Palmares teve alguns anos de tranquilidade. Até os colonos portugueses retomarem a posse das suas colônias, depois de um acordo de paz entre o Reino da Holanda e o Reino de Portugal. Quando o Reino de Portugal se libertou do domínio espanhol.

Portugal era um dos reinos mais antigos da Europa. Antigamente chamado de Portucale, pela formação do Condado Portucalense, que emergiu ao longo do processo da reconquista da Península Ibérica pelos cristãos, durante a invasão muçulmana. O recente Condado Portucalense teve essa denominação derivada do nome da sua capital, Porto Cale, que nos primórdios foi um antigo povoado Celta chamado de Cale. Em que depois se assentaram os povos fenícios, cartagineses, lusitanos, entre outros.

Durante a Segunda Guerra Púnica, os Romanos se estabeleceram definitivamente na Península Ibérica, começando por conquistar as feitorias e núcleos urbanos dos Cartagineses. Na sequência desse processo, também Cale foi conquistada e rebatizada com o nome de Portus Cale. Depois, com a decadência do Império Romano na Península Ibérica. Portus Cale passa a ser um território do Reino Suevo, formado por povos de origem germânica, que invadiram a Península Ibérica juntamente com os povos vândalos e os povos alanos, sendo em decorrência anexado ao reino dos povos visigodos, se convertendo na sexta província do Império Visigótico.

Quando as tropas islâmicas oriundas do norte da África cruzaram o estreito de Gibraltar, penetrando na Península Ibérica, vencendo na sangrenta Batalha de Guadalete os visigodos da Hispânia, que já se constituíam em maior parte de cristãos católicos romanos, Portus Cale passa para o domínio dos Mouros Árabes. Os reinos ibéricos formados pelas monarquias feudais cristãs organizaram um movimento que visava à reconquista dos seus antigos territórios, invadidos pelos povos islâmicos. E a partir desse momento emergiram muitas batalhas em que os cristãos ibéricos se viram vitoriosos, como a Batalha de Covadonga.

Batalha essa em que os cristãos ibéricos simularam uma derrotada fuga, fugindo e adentrando as florestas em direção à gruta de Covadonga, atraindo os africanos muçulmanos, que se julgavam vitoriosos, para o local exato onde estava armada uma grande cilada. Ao som de uma trombeta, surgiram por entre os rochedos os guerreiros cristãos, que dizimaram os africanos muçulmanos e os renegados godos, com tiros e lançamentos de pedras e grandes rochas. Também obtiveram grande sucesso na Batalha de Auseba. Onde foram vingados os valentes cristãos que pereceram na Batalha de Guadalete, nas margens do Rio Chrysus, com a morte de vinte mil sarracenos.

Mais tarde, com a derrota dos mouros árabes, emergiram os reinos cristãos ibéricos. O primeiro reino cristão foi o Reino das Astúrias, depois o Reino de Leão e o Reino de Navarra. Dando origem aos conseguintes reinos e condados, que principiaram as bases do que depois viriam a se tornar os definitivos reinos imperialistas de Portugal e Espanha.

Desde o início da criação do Reino de Portugal, os seus reis e sua gente apreciavam o grande mar e os seus frutos. Sendo que as primeiras navegações no atlântico foram iniciadas pelos tartessos, nome pelo qual os gregos conheciam a primeira civilização do Ocidente. Desde os tartessos, os portugueses utilizavam pequenas embarcações, que eram chamadas de barcas ou barinéis, para navegarem no mar Mediterrâneo e nas costas do grande Oceano Atlântico. Essas primitivas embarcações eram conduzidas sem a necessidade da leitura das posições dos astros, pois seu condutor, através de um método conhecido como cabotagem ou singradura, dependia apenas do conhecimento que tinha com relação à rota a ser seguida.

Os navegantes portugueses, movidos pela sua paixão pelo mar e já sabedores que, ao cruzarem a linha do horizonte, não cairiam em um grande abismo repleto de bestas e monstros, como pregavam os sacerdotes católicos, decidiram cada vez mais se aventurarem além das costas do grande Atlântico. E aprimoraram seus métodos de navegação, no rigoroso estudo da astronomia, matemática e construções de instrumentos e naves maiores e mais resistentes.

Os estudiosos portugueses, imbuídos dos conhecimentos dos seus antigos colonizadores árabes, utilizaram da matemática e da aplicação da trigonometria para calcular as suas rotas. E assim, astronomicamente, criaram instrumentos de navegação, como o astrolábio, que era usado pelos árabes para previsão do futuro, transformando-o em um instrumento portátil capaz de mostrar a posição da embarcação em relação ao sol, substituindo as precárias bússolas, pois seu mecanismo era enganado pela atração das movimentações das cargas de metais nos portos ou pelo simples deslocamento dos canhões dentro do navio.

Assim, aperfeiçoaram os mapas e as cartas marítimas, tornando-os mais confiáveis com o uso de tabelas e cálculos matemáticos, contendo paralelos de referências, avaliando as distâncias em relação a estes, bem como a determinação da latitude onde se encontravam. Sendo que as longitudes eles só passaram a conhecer muitos séculos depois, com as suas grandes navegações exploratórias. Criaram também unidades de velocidades que batizaram como nó. Devido ao se dar nós em uma corda estendida a certas distâncias equivalentes ao cumprimento do casco do navio em alto-mar.

Porém, para tal façanha das navegações intercontinentais atlânticas, os portugueses criaram tecnologias de ponta para sua época. Sendo que a grande novidade foi a criação das caravelas, que eram embarcações pequenas, ágeis e mais fáceis de manobrar, sendo mais utilizadas para explorações costeiras nas novas terras descobertas. E as grandes naus, que eram um barco imenso com capacidade para quinhentas toneladas, contendo galeões que possuíam compartimentos para canhões, além de possuir pouco casco acima da linha da água. As naus foram os primeiros navios construídos para guerra em alto-mar, e o formato do casco era parecido com os antigos navios a remo, as galés, só que em tamanho maior. E seu uso mais comum era transportar as inúmeras cargas de iguarias, insumos, pedras e metais preciosos, além de tecidos, tinturarias, incensos e temperos, e toda sorte de coisas produzidas e extraídas de suas colônias.

Esses barcos eram fabricados para funções específicas, em que utilizavam em uma mesma embarcação de duas tecnologias de velas. Como a vela redonda, que só permitia viagens com ventos de popa, e a vela latina, para andarem com vento lateral. Desta forma podiam navegar independentemente da direção do vento, dobraram os tamanhos das velas e eliminaram o remo, que eram usados na navegação da época, reforçaram os cascos construindo-os com muito cuidado e perspicácia, utilizando madeiras de oito ou mais tipos de árvores diferentes, com uma espécie de madeira para cada parte da estrutura. Essas árvores eram cortadas sob a influência da lua, de preferência na lua escura, ou noite sem lua, como chamavam na época, e em determinadas horas do dia. Pois, quando há noites sem luas, o amido das árvores desce para a terra, sendo que a madeira fica amarga para os cupins e demais insetos que a consomem. Sendo também que os troncos eram cuidadosamente tratados, ao serem amarrados por alguns dias dentro do mar, nas praias, e depois enterrados por longos períodos nas areias secas e quentes, longe das águas do mar, para serem ressecados, se tornando madeiras leves, apropriadas para resistir à umidade e à corrosão pelo salitro.

Desta forma, os portugueses se tornam os donos dos mares, com embarcações fortemente armadas e impenetráveis, além de rigorosos mapas e instrumentos de navegação altamente tecnológicos para sua época. Desbravando novas terras, entre continentes e arquipélagos. Sendo os primeiros europeus a pisarem em massa nos solos orientais e certas regiões da África e do Novo Mundo das Américas. Influenciando com sua língua e cultura os muitos povos, abrindo caminhos para uma nova globalização colonial marítima, mercantilista, escravagista e religiosa.

FIM DO TERCEIRO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).  

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