O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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6. Capítulo 2 - ב (BET) A MORADA

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ב

BET

A MORADA

 

— Você, que está procurando... Então procure até encontrar. Quando encontrar, você ficará confuso e, ao se confundir, ficará maravilhado com o que você achou, e tudo herdará...

— Onde posso achar? — Perguntou N’zambi — No céu? — Acrescentou.

E a voz disse:

— Se você procurar no céu, então os pássaros serão os portadores da verdade, e você terá que se ajoelhar perante eles, e eles serão o seu deus.

— E se eu procurar no mar, com os homens que navegam além do horizonte e veem coisas incríveis, eu ficarei maravilhado? — Perguntou novamente o jovem.

— Então, os peixes e as demais criaturas do mar serão o seu deus. — Disse a voz.

— E se eu procurar na terra e nos seus mais longínquos lugares, entre os muitos sábios homens que vivem no mundo? — Perguntou o jovem.

E a voz disse:

— Então, eles serão o seu deus.

— Então, onde posso procurar? — Perguntou o jovem, espantado.

— DENTRO E FORA! — Disse a voz.

 

∞∞∞

 

Suavemente, N’zambi despertou antes do cantar do galo. E ao abrir lentamente os olhos, logo ao longe, acima e em frente estava aquela que mais brilha. Solitária no lindo céu acinzentado da madrugada. Ele a encarou meio que confuso, entre o estar dormindo e o estar acordado, e sentiu-se maravilhado. Tentava se lembrar do sonho que teve. Sabia que era um daqueles sonhos reais que tinha constantemente, mas não se recordava de nada.

Cocoricó, cocó-ró-cocó cantou o galo. Ciu-fiu-fiu-fiu, assobiaram os passarinhos. Grasnados de patos, latidos dos cachorros e gritos de pavão e peru. Berros dos bezerros, cabras e bodes, e vários mugidos de vacas. O sol despontara por detrás das palmeiras de guariroba que cercavam o K’ilombo dos Palmares.

EU SOU! – Disse o dia.

O velho griot Djeli já estava sentado entre suas hortaliças, no seu banquinho de madeira de quatro pernas. A terra, mais preta do que ele, parecia um lindo céu de uma noite estrelada, reluzindo os primeiros raios solares nos minúsculos grãos de areia brancos espalhados por todo o solo negro. O jovem N’zambi levantou-se de sua rede, ainda meio tonto de uma pesada noite de sono. Olhou para frente da varanda da casa de taipa coberta de palha das hastes das folhas de guariroba, avistando ao longe o preto velho trabalhando em sua roça.

No final da roça, em frente à porteira e ao lado dos abrigos dos bodes, cabras, galinhas e demais aves, havia uma pequena kubata quadrada. Construída de madeira de maçaranduba e jacarandá, coberta com folhas de tabaco embutidas em fumo de corda penduradas ao teto. O jovem caminhou até o preto velho, que estava sentado em seu banquinho, agachando-se constantemente com as mãos e cabeça ao solo. E borrifando nas suas hortaliças com a boca uns goles de uma solução preta que tinha dentro de uma pequena moringa de barro.

Então, Djeli o avistou e disse:

— Bom dia, meu jovem! Tem café e água quente na kubata a sua frente, e banana da terra cozida também.

N’zambi respondeu ao preto velho sussurrando um bom-dia, ainda com uma voz rouca de sono, e foi a passos lentos até a casinha de madeira. Chegando lá, pegou um copo de barro e pisou com uma pedra uns grãos de café torrado, numa cuia também de pedra. Pegou um bule de ferro com água quente, que estava sentado numa pequena fogueira arrodeada de pedras de fogo. Colocou o pó e a água quente no copo e misturou com uma baqueta de ticum que se encontrava por ali. O cheiro do café subiu suavemente em suas narinas, misturando-se ao odor das folhas e rolos de tabaco que estavam pendurados por todo o teto da kubata. E uma leve sensação de prazer tomou conta do seu ser, numa manhã carinhosamente refrescante.

Djeli levantou-se do seu banquinho de madeira. Deu uma longa espreguiçada tão prazerosa, que até grasnou um “ai” demorado e roco. Enquanto abria os braços, cerrava os punhos e erguia-se nas pontas dos pés. Já fazia umas poucas horas que se encontrava sentado no seu banquinho de quatro pernas, agachando-se para lá e para cá.

Djeli virou-se e avistou N’zambi sentado dentro da kubata. Caminhou até ele e, ao chegar, pegou o seu copo de barro em que preparou o seu café. Tirou do teto um pequeno rolo preto de fumo de corda e pinicou um pedaço com um pequeno punhal dentro de uma cuia feita de casca de coco, junto a folhas secas de sálvia, alecrim, hortelã e flor de cânhamo. Tirou seu cachimbo feito da casca dura do coco catolé e um pequeno canudo de bambu, que estava sempre pendurado entre seus lábios. E socou a mistura dentro dele. Retirou um pedaço de brasa da fogueirinha onde se encontrava o bule e levou ao cachimbo dando algumas pitadas até acendê-lo.

N’zambi estava sentado à sua frente observando tudo o que o velho griot fazia. Djeli o encarou dando um leve sorriso, e seu rosto estava iluminado como o sol sutil da manhã. O jovem respondeu-lhe com um pequeno sorriso, e ambos deliciavam o gosto amargo do café. Djeli quebrou o silêncio que havia entre eles, dizendo:

— Esses pequenos caracóis, pulgões, lagartas pequenas, ácaros, cochonilhas e moscas brancas estão me dando muito trabalho. Depois de cinco dias de chuva, eles invadiram as minhas hortaliças, e todas as manhãs tenho que catá-los um a um. Mas hoje fiz uma corrente de sal grosso ao redor da leira para os caracóis não entrarem. E borrifei uma solução que preparei com cachaça, fumo de corda picado e água para afastar os demais insetinhos. Também deixei uns pezinhos de bredo e língua-de-vaca crescerem por fora da leira. Assim, eles terão comida suficiente para não devorar as minhas alfaces, couves, acelgas, qui-io-iô (manjericão-do-mato) e hortelã miúdo.

E N’zambi lhe perguntou:

— Você não tem uma mulher para ajudá-lo com todos esses afazeres?

E o velho respondeu:

— Você tem uma forma muito inteligente e direta de fazer perguntas sobre o particular do íntimo de uma pessoa, meu jovem. Perguntas por detrás de pergunta. Perguntas que matam curiosidades e revelam respostas sigilosas. Você aprendeu essa tática com os portugueses ou é fruto da sua inocência?

N’zambi o encarou meio que confuso, pois não fizera essa pergunta por malícia.

E Djeli continuou:

— Não fique constrangido, meu jovem.

Fez uma pequena pausa e o encarou com seriedade e disse:

— Sei que você é claro, e é por isso que veio até aqui. Pessoas como você não têm a capacidade de mentir, nem de serem cínicos e maldosos em seus atos e pensamentos, pois a expressão do seu rosto tudo fala.

Fez outra pequena pausa, deu um gole no seu café e continuou:

— Sabe! Minha história com as mulheres é tão confusa como o seu olhar de agora.

O preto velho deu uma pitada forte no seu cachimbo, o tirou da boca e soprou para o alto um monte de fumaça acinzentada. Fez uma expressão de quem iria falar algo muito sério e disse:

— Ainda em toda essa vida, e em todo esse mundo pelos lugares em que já andei, não encontrei para mim nenhuma mulher perfeita aos meus olhos e ao meu coração.

Fez-se um pequeno silêncio. E N’zambi o indagou:

— Mestre, como é uma mulher perfeita?

— Nunca chame um homem de mestre sem conhecê-lo muito bem, nem o julgue pela sabedoria de suas palavras, nem o chame de Bom Homem. Pois existem cobras que se fazem de pombas só com o objetivo de entrar no pombal e depois devorá-las. E existem homens que se fazem de mestres só para usurpar. E ninguém é bom no mundo dos maus, imperfeitos e sujos. O homem é feito de ações e suas palavras são para justificar o que fazem. Repara na água e não no copo! Existem muitos copos de ouro e de prata, trabalhados habilidosamente com seus adornos de pedras preciosas. Mas, porém, em seu interior há água suja e venenosa. Os verdadeiros copos são os transparentes, pois em suas simplicidades revelam aos olhos a pureza de sua água. E só existe um BOM! Que é Aquele que habita os corações dos perfeitos e puros e que os transforma em Homens Bons, O CRIADOR PAI-MÃE-FILHOS — advertiu o preto velho griot, e continuou — Me chame de Djeli, pois assim seremos um. Nem mestre e nem discípulo, apenas UM.

N’zambi, um pouco constrangido, seguiu em silêncio, e o preto velho disse:

— A mulher perfeita é aquela que sabe tudo sobre as coisas dos dois mundos, e deles faz um mundo só. Aquela mulher sábia que sabe todas as coisas do corpo e do coração, do mundo e do espírito, do visível e das coisas que se fazem invisíveis aos nossos olhos.

O preto velho griot deu uma pitada no seu cachimbo e continuou:

— Um dia, em terras longínquas, encontrei uma mulher muito bela. Bem-feita de corpo e de formas suaves. Dessas mulheres lindas que todo jovem como eu, naquela época da vida, desejaria ter. Ela era sapiente das coisas da carne e desse mundo visível, mas ignorava as coisas que se fazem invisíveis aos nossos olhos de carne. Não sabia nada do espírito e era muito festeira, faladeira e espalhafatosa, e isso fazia com que eu me afastasse cada vez mais dela. Até que a deixei.

Fez-se uma pausa, outros goles de café e pitadas no cachimbo, e continuou:

— Saí dos grandes e famosos reinos e fui viver nos vilarejos, em meio à gente simples e humilde. E um dia encontrei uma mulher linda, de beleza simples e singela. Não tão desejada aos olhos dos jovens, mas uma bela garota. Pois sua beleza era oculta aos olhos carnais. Essa mulher sabia tudo sobre o mundo que se faz invisível aos nossos olhos, e vivia uma vida espiritual intensa. Era uma jovem curandeira e rezadeira. Conhecedora dos poderes ocultos que habitam nas ervas, nos metais e nas pedras, e também cozinhava como ninguém. Mas ela não sabia se comportar perante o mundo e as suas armadilhas, por isso, só vivia em casa, ficando trancada nela mesma e reservada do mundo lá fora. Também essa mulher não podia viver ao meu lado, eu era um jovem de muitas andanças e aventuras, e essa mulher não podia me acompanhar. Então, dessa vez com muito pesar, também a deixei.

Fez-se uma breve pausa, Djeli deu um grande gole no seu copo de café e continuou:

— Até que em uma das minhas andanças eu encontrei a mulher perfeita aos meus olhos. Essa mulher sabia de tudo, e de tudo sabia. Nunca até hoje em toda a minha vida, meu jovem, eu encontrei uma mulher tão perfeita e completa como aquela.

Fez-se um silêncio, e não havia mais pitadas e nem goles de café. Então, o jovem perguntou:

— Djeli! Por que você não ficou ao lado dela, já que essa mulher era tão perfeita?

O velho se levantou, olhou profundamente nos olhos do jovem e calmamente disse:

— Ah! Meu jovem líder, ela também estava à procura do homem perfeito.

E juntos riram e deram grandes gargalhadas até saírem lágrimas dos seus olhos. Fez-se uma grande pausa e o silêncio imperou. Até que N’zambi disse:

— Nada e nem ninguém é perfeito nesse mundo.

— Como assim, nada e nem ninguém é perfeito nesse mundo? — Perguntou Djeli.

— O Padre Antônio que me disse isso, que nada e nem ninguém é perfeito nesse mundo. — Disse N’zambi.

— Meu jovem, saiba que você aprendeu com esse padre a primeira e a maior das mentiras do enganador e dos enganadores, que nada e nem ninguém é perfeito nesse mundo. Foi essa mentira que destruiu o primeiro reino, dos povos alados dos céus e das estrelas. E agora corrompeu o segundo reino, que é o nosso reino. Pois foram essas mentiras que destruíram os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães, que eram perfeitos e absolutos sem se darem conta disso. Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sabiam que a perfeição não era uma coisa, e sim um estado. Um estado de espírito em que todos podiam sentir e concordar harmoniosamente. Um estado que transcende todos os sentidos, porque é o todo de tudo e o absoluto. Sendo que nada há além da perfeição que se encontra submersa por detrás de todas as realidades e fábulas. A perfeição está presente em todas as coisas, e é a luz que ilumina todas as coisas. A perfeição é o conhecimento da verdade que há por detrás de todas as coisas. A perfeição é a harmonia e a harmonia é a perfeição. Onde estiver harmonia haverá perfeição. Onde dois, ou três, ou mil concordarem em um só intento haverá perfeição. Tudo que de natural existe foi feito pelo Pai e Mãe de Todas as Coisas Existentes, Aquele que Criou o Todo e o Tudo. Sendo essa Poderosa e Grandiosa Energia e Fonte Criadora a essência da mais pura e perfeita perfeição. Todas as coisas criadas e manifestadas por essa Centelha Vivificante que habita no todo de tudo são perfeição também. Lembre-se sempre, meu jovem, que fomos criados à imagem e à semelhança da mais pura e perfeita perfeição. Então, o que nos faz sermos imperfeitos e acreditarmos nessa mentira de que nada e nem ninguém é perfeito nesse mundo?

N’zambi nada respondeu, e Djeli prosseguiu:

— O nosso sentimento de culpa. O apego que temos pelos prazeres dos sentidos. O medo. O ego. E a pena que sentimos de nós mesmos, meu jovem. Onde nos limitamos a justificar e aceitar os nossos erros e falhas, fingindo ser a perfeição uma coisa impossível, ou dando à perfeição um caráter egocentrista, que se encaixe no nosso sentido do que é perfeito aos nossos desejos ambiciosos de posse e status, ou seja, ter ou ser. Dando créditos a uma falsa crença, de ser a perfeição só acessível a um deus ou a homem santo. Só para nos livrarmos da responsabilidade que temos perante a vida e o nosso Criador de sermos santos, perfeitos e justos, assim como ELE também o É.

— E o que, então, é a imperfeição, Djeli? — Perguntou o jovem príncipe.

— A imperfeição é uma mera ilusão. Embora pareça existir, ela não tem vida em si mesma e nem imagem própria. Apenas se disfarça encoberta no manto da mentira. A imperfeição não passa de uma discordância e desarmonia que gera a ignorância. E a ignorância gera a separação do homem com o próprio homem, e com o meio ambiente em que vivemos. A imperfeição é não aceitar as coisas naturais da vida e sempre procurar modificá-las. Em verdade eu te digo, meu jovem, o que é perfeito para o homem é imperfeito para a natureza, e o que é perfeito para a natureza é imperfeito para o homem, e essa dualidade é a ilusão que gera a ignorância e a imperfeição. Para o nosso gênero humano, a ordem natural das coisas é vista como um caos. Não aceitamos essa ordem natural e procuramos sempre organizar as coisas ao nosso sentido de perfeição. Mas o que verdadeiramente ignoramos é que nesse tentar “organizar” as coisas ao nosso redor estamos pondo em desordem a natureza das coisas e do meio ambiente em que vivemos. Olhe para os vilarejos em que vivemos, meu jovem, agora compare com as matas virgens e florestas nativas. O que vemos é uma dualidade confrontante. Eu te digo que nem a mais pura tribo dos habitantes das florestas pode fugir a esse confronto. A nossa espécie é tão alheia a toda essa natureza, que, para sobrevivermos aqui, temos que matar, interferir e destruir. Não nos adaptamos a esse reino como os outros animais, cujos corpos, mesmo vivendo nos ambientes quentes ou frios, se adéquam a eles. Tendo mais pelos ou menos pelos devido ao clima e região. Também eles não precisam interferir e destruir o seu habitat natural para terem abrigos, e aqueles que pouco interferem é para gerarem certa harmonia ambiental. Além do mais, suas necessidades alimentares estão dentro de um equilíbrio populacional das muitas e variadas espécies que habitam neste mundo. Mas nós, como uma das muitas espécies que habitam nesta terra, não nos adaptamos a esse meio ambiente, meu jovem. Nós interferimos, destruímos e matamos para viver aqui. Expulsamos as criaturas nativas do seu habitat natural para morarmos. Derrubamos as centenárias árvores para construirmos as nossas habitações, fortificações e utensílios. Matamos desequilibradamente aniquilando as espécies para nos alimentarmos. Roubamos suas peles e os seus ossos para nos vestirmos, calçarmos e construir nossos utensílios, ferramentas e instrumentos de guerras ou musicais. E, assim, nos diferenciamos dos outros animais que dividem este reino conosco. Adaptando os diversos ambientes desse mundo às nossas necessidades e vontades, e nunca nos adaptando a eles. Dessa forma, nós nos fazemos tão cruéis, que, pelo fato de não possuirmos predadores naturais que nos ameacem, nos transformamos nos predadores de nós mesmos. Pelo fato de uma raça se sentir superior a outra raça, só pela cor de sua pele, posses, posição e status social.

Respondeu Djeli, e acrescentou:

— Mas, no fim, os bons serão os vencedores. Porque, mesmo neste mundo onde o mal insiste em propagar que nada e nem ninguém é perfeito, eles se fazem perfeitos! Pois, em seus corações, ações, sentimentos e palavras, a perfeição do Criador se manifesta na Criação, totalmente perfeita. Apenas, meu jovem, saiba que a perfeição é ordem natural das coisas. E a ordem natural das coisas é o caos. Se a dona de casa soubesse disso, parava de guerrear com os seus afazeres diários. E entenderia que varremos a casa, limpamos as louças e lavamos as roupas para que todas essas coisas se tornem novamente a serem sujas, constantemente. E, assim, ela descobriria o segredo que há por detrás de todas as coisas e pararia com suas queixas diárias, por causa da sua histeria de limpeza. Então, tudo ficaria mais fácil e alegre, em harmonia e perfeição absoluta.

— Djeli, se nós somos tão maus assim. Então, qual é a razão de existirmos? — Questionou o jovem príncipe.

— No princípio não éramos assim tão maus, meu jovem. Mas, de uma coisa posso te falar, não existe nenhuma razão lógica para agora existirmos. Senão simplesmente reaprender a amar os nossos semelhantes, o nosso habitat e a nossa vida em comunhão total com toda natureza e todo o universo, coma todas as coisas criadas, todas as coisas existentes e com nosso Criador PAI e MÃE, que é a essência de tudo e de todos. Sendo que a única razão de estarmos hoje vivos e respirando, apesar de todas as nossas maldades, ignorâncias e atrocidades, é o INFINITO AMOR que o Criador tem por nós. Nos dando a cada novo dia, a cada vida humana que nasce e a cada respiração uma nova chance de sermos santos e perfeitos, assim como ELE o É. Em seu imenso e absoluto perdão, amor, paciência e esperança.

— Djeli, me conte como será o fim. Pois li na Bíblia que será um dia de dores e sofrimentos, pesares e tormentos. Até o Padre Antônio tinha medo dessas profecias. — Disse N’zambi.

— Verdadeiramente, meu jovem, esse padre mesmo se condenou. Quem tem medo do fim são aqueles que ignoram o verdadeiro sentido do princípio. E esses homens temerosos serão pisados e destruídos por ele. No fim, a perfeição voltará a reinar sobre a criação. Então, os vitoriosos, por mais que o vento sopre forte contra eles, por mais que o peso do mundo caia sobre os seus ombros, eles sempre se manterão fortes. Pois cada um deles sabe que, no fim dessa jornada, eles herdarão o reino de Pura e Eterna Perfeita Perfeição. Mas, me diga, meu jovem, como você quer compreender o fim sem primeiro procurar saber do princípio? Não seja um homem tolo como esse Padre Antônio, que não sabe distinguir o fogo e o candeeiro. Pois onde houver Luz haverá Fonte Luminosa, e onde houver candeeiro haverá fogo, e, assim, ambos se fazem um e se tornam perfeitos. Procure primeiro saber de onde provém a fonte e onde se encontra o candeeiro. E você dominará a luz e o fogo, e eles te servirão para abrir os seus olhos contra essa escuridão de ignorância, que permeia sobre os mais amados de toda a criação. Aprenda sobre o princípio e você saberá como será o fim. Esse é o segredo que revela o Sagrado e Eterno Contínuo. O Saber Ancestral dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães.

— Você pode me contar sobre o princípio? — Perguntou N’zambi.

Djeli pegou o seu cachimbo, socou nele mais um pouco da mistura que restava na cuia de coco, acendeu e deu algumas pitadas. E disse:

— Existem várias histórias sobre o princípio, meu jovem. Cada povo e cultura tem a sua forma de contar sobre o princípio, e cada uma revela uma verdade sobre ele. Pelo seu pedido, hoje lá no monte contarei uma história que julgo ser de muito proveito sobre o princípio. Aprendi este belo conto com o último dos antigos e verdadeiros Babaláwo, quando eu vivia entre os povos iorubás, onde agora é o Reino do Dahomey.

— O que é um Babaláwo? — Perguntou N’zambi.

— São chamados de Pais da Luz pelo povo iorubá. São os sacerdotes de Ifá, o Oráculo do Destino desse povo. Conta a lenda que um mensageiro chamado Aluwaiá perambulava de reino em reino à procura de uma solução para os terríveis problemas que afligiam a todos, tanto os seres orgânicos como os seres inorgânicos. Aluwaiá fora aconselhado pelo Grande Espírito Criador de Todas as Coisas Existentes a ouvir todos os relatos que contassem os mais variados dramas vividos pelos seres humanos, pelos seres alados, assim como por animais, árvores e plantas, pedras e montanhas, e os outros seres invisíveis que dividem a nossa amada Ama Terra com os homens e as mulheres. Relatos que contassem sobre a felicidade e o sofrimento. As vitórias e as derrotas. As glórias alcançadas e os insucessos sofridos. E todas as dificuldades da vida pela manutenção do bem-estar e da saúde, bem como todas as felicidades que alegram o espírito e alma dos seres. Todos esses relatos a respeito dos fatos do cotidiano, por menos importantes que pudessem parecer, e todas essas narrativas tanto das mulheres e dos homens poderosos, como dos povos subjugados e oprimidos, tinham que ser devidamente consideradas. Aluwaiá deveria estar atento também aos relatos sobre o caminho correto que todo ser humano tinha que percorrer para encontrar a Luz. Assim fez ele, reunindo um número incontável de histórias. Realizada toda essa empreitada, Aluwaiá obteve diante de si todo o conhecimento necessário para o desvendamento dos mistérios sobre a origem e governo do universo e da natureza, sobre o desenrolar do destino dos homens, mulheres e crianças. E sobre os caminhos da luta cotidiana, contra os infortúnios que a todo o momento ameaçam a cada um de nós. Ou seja, o elogio e a culpa, o ganho e a perda, o prazer e a dor, a fama e a vergonha, a riqueza e a miséria, a saúde e a doença, a benção e a maldição, o conforto e a desgraça, a vida e a morte, o início e o fim. Todo esse saber foi dado a um Imolè de nome Òrúnmìlà, o Grande Sacerdote de Ifá. Que depois foi transmitido aos seus seguidores, os sacerdotes do Oráculo de Ifá, que são os Babaláwo ou Pais dos Mistérios.

Disse o preto velho griot olhando em direção a sua roça, como se tivesse encarando o além. E, levantando-se de um pedaço de tronco de árvore em que estava sentado, falou:

— Vamos, meu jovem, hoje temos muito trabalho e será melhor começar antes do sol ficar forte. Hoje ganhei um importante ajudante me dado pelas mãos do destino, para plantar as Três Irmãs.

— Três Irmãs?! — Exclamou N’zambi sem nada entender.

— Venha e você entenderá. — Disse o preto velho.

Juntos se levantaram. Djeli pegou algumas ferramentas e caminharam até um campo de terra avermelhada que tinha no fundo da casa. E disse:

— Veja essa terra como está tão dura, precisamos quebrá-la e afofá-la.

Começaram a trabalhar e araram toda a terra com suas picaretas e enxadas. Depois adubaram toda terra fofa com esterco de galinha, das vacas e dos bodes. Fizeram pequenas inúmeras covas na profundidade de um punho, com três palmos de distância de cada uma, e Djeli falou:

— Pronto! Espere aqui só um momento enquanto vou pegar as Três Irmãs.

Então, o velho caminhou até a casa e voltou com três sacos de pano, e disse:

— Aqui estão elas. — Mostrando os sacos para N’zambi, e continuou a dizer:

— Aqui há três tipos de sementes. Abóbora, feijão e milho. Elas são chamadas de Três Irmãs, pois, quando são plantadas juntas, uma ajuda e cuida da outra. Além de ambas gostarem do mesmo solo, clima e tempo. Foram graças a essas três sementes, que a vida social do homem se desenvolveu sobre esta terra, que os colonos europeus chamam de Novo Mundo. Assim, com a fartura do milho, do feijão e da abóbora, os povos nativos habitantes das florestas deixaram de lado suas vidas nômades de caçadores e se fixaram na terra. Criando suas primeiras comunidades de assentamento, na construção de melhores habitações para os seus repousos. Nisso, eles obtiveram mais tempo para pensar, refletir, analisar, imaginar, e assim criar. Depois que plantavam as Três Irmãs, restavam-lhes muito tempo até a colheita. E durante esse tempo em que eles precisaram habitar juntos as suas plantações, para dar-lhes a devida manutenção e proteção, começaram a observar o ambiente em que estavam assentados e prestaram muita atenção em como os animais e insetos se comportavam. Viram como os pássaros faziam os seus ninhos, nos entrelaçamentos dos pequenos galhos e cipós. Viram como os insetos e outras pequenas aves construíam suas habitações com o solo, umedecendo-os com as suas salivas. E, a partir dessas observações, meditando e estudando a natureza de todas as coisas, puderam, também, recriar coisas para facilitar as suas vidas, em suas novas habitações. Que agora não mais serviam só para o repouso. Mas se tornaram os seus lares fixos. E esses lares fixos se tornaram as suas moradas, sendo o corpo dos seus corpos, entendido como o segundo corpo. Devido a isso, eles inventaram muitos objetos e ferramentas para as suas variadas necessidades. Aprenderam com os insetos a trabalhar a arte do barro, construindo inúmeros utensílios de cerâmica. Desenvolveram estudando com as lagartas e aranhas a tecelagem, para fazerem suas vestimentas. E, assim como os pássaros, deram utilidades às palhas e aos cipós, para construírem as suas diversas cestarias, facilitando, dessa forma, o transporte dos seus insumos alimentares. E, quando viram que suas vidas se tornaram mais fáceis e comunais, pelo trabalho comunitário em suas novas sociedades de assentamento, tinham tempo de olhar para a natureza e para o universo de uma nova forma, e de uma nova maneira. Pois eles se transformaram em seres pensantes, imaginativos e criativos apenas com a observação do meio ambiente em que se assentaram. Meditando em todo trabalho de sobrevivência em que se empenhavam as inúmeras e pequenas criaturas que os envolviam. E começaram a questionar: Como o universo e a natureza são tão perfeitos e abundantes? E como tudo isso funciona? E quem é o responsável pela criação, desenvolvimento, inteligência e manutenção de todas essas coisas existentes? E, assim, essas primeiras sociedades de assentamento desenvolveram as suas primeiras cerimônias e ritos religiosos, na busca das muitas respostas e soluções que eles desconheciam, por terem tempo de admirarem o absoluto e o imenso de todas as coisas naturais e universais. E o milho e o feijão eram secados e armazenados por longos períodos, enquanto as abóboras eram utilizadas para fazer caldos e sopas. Suprindo as necessidades alimentícias desses primeiros povos de assentamento, durante as estações chuvosas e frias. E, por consequência, os nascimentos aumentaram, e a vida pululou e se prolongou por essas terras.

Djeli retirou as sementes dos sacos, despejou dentro de uma cuia e disse:

— Para cada cova temos que colocar três sementes de milho e duas de feijão. Já da abóbora colocamos apenas uma semente.

Explicava ele enquanto fazia, e continuou a dizer:

— O milho precisa de três sementes. Pois há poucas sementes fortes no meio de todas essas sementes. Sendo assim, pelo menos em cada cova teremos de um a dois pés de milho extremamente fortes. Agora do feijão colocaremos apenas duas sementes, para garantir que vai ter, pelo menos, um pé de feijão em cada cova. Geralmente o feijão é forte, e raramente a semente não vingará. Já da abóbora não precisamos de muitos pés, pois ela predomina por todo o solo. Por isso, é aconselhável colocar uma semente em cada cova, ou em intervalos de uma a duas covas, e as que vingarem já servirão.

Juntos colocaram as sementes dentro das covas, fecharam com terra, e Djeli deitou por cima do solo semeado uma camada fina de folhas verdes das árvores, que ao secarem umedeceriam o solo pelo fato de elas conterem água, e também serviam para não deixar o solo exposto diretamente ao vento e ao sol, evitando a perda de água por evaporação, climatizando as leiras para abarcar os diversos organismos que adubam o solo, deixando-o vivo e saudável.

Depois de todo o trabalho, o sol já estava ardente e o calor do meio-dia se tornara um pouco insuportável para ambos. Caminharam até a casa e se sentaram numa parte coberta do quintal. Djeli pegou dois copos de barro e retirou água de uma moringa que se encontrava ali por perto. Deu um copo de água fresca a N’zambi, e juntos se sentaram em um grande banco de madeira, que estava encostado na parede de barro da casa de taipa e adobe. E Djeli falou:

— É lindo ver as Três Irmãs crescerem juntas. O milho é a primeira semente a romper sua cápsula e quebrar a terra acima. Logo depois vem o feijão, e em seguinte a abóbora. O milho crescerá em linha reta como um bastão. Ele sugará toda a força do solo, o deixando fraco e sem nutrientes, e logo suas raízes ficarão expostas ao sol, o que tornaria a planta frágil. E se não fosse ajudada pelas suas duas irmãs, o feijão e a abóbora, logo o milho morreria sem dar muitos frutos, sendo que exigiria do agricultor um segundo arremate de terra e adubo para que a plantação não fracassasse. Mas, com essa técnica, que aprendi com dois nativos tawantinsuyu que se refugiaram aqui no k’ilombo, obtive bons resultados nas colheitas, especialmente as do milho. O feijão, ele crescerá usando o pé de milho como haste, e em troca devolverá à terra todo nutriente que o milho retirou. Também o ajudará em sua polinização. Pois o feijão, ao crescer subindo pelas hastes do milho, chegará até a antera, que é a flor masculina que fica no topo da planta. Então, com o seu peso e o dançar contínuo do seu crescimento, o feijão envergará a antera, que liberará o seu pólen para cair sobre os cabelos das jovens espigas das outras plantas de milho, e assim fertilizarem-se. Pois cada cabelo da espiga de milho corresponde a um grão de milho na espiga. Sendo que o pólen da antera de uma planta tem que cair sobre toda a cabeleira da espiga da outra planta. Só assim teremos espigas com grãos completos, fartos e sadios. A abóbora, com suas longas folhas rasteiras, protegerá o solo e as raízes do milho contra a luz solar e o vento rasteiro. Além de eliminar outras pequenas plantas roubadoras de nutrientes da roça, como o capim-bravo. E assim, meu jovem, teremos milhos saudáveis com espigas grandes, além de feijão e abóbora, sem precisar dar muita atenção à plantação. Assim, as três irmãs se completam e nos ensinam que a união das diferenças é a chave para toda bonança e prosperidade de uma nação. Porque, como já te falei antes, onde dois ou três diferentes estiverem reunidos para um só intento, nada lhes será impossível.

Djeli o encarou como de costume, deu um leve sorriso e silenciou. O jovem N’zambi estava maravilhado com as tantas sabedorias práticas, como também existenciais que tinha o preto velho griot. E sentia uma leve sensação de beatitude ao seu lado. Muito diferente da sensação de desprezo e de discriminação que sentia quando estava morando com o Padre Antônio. Em que era tratado muitas vezes como um serviçal, fazendo tudo que ele mandava e seguindo as muitas regras e prioridades de afazeres diários, na paróquia em que viveu os últimos nove anos.

N’zambi se sentia nascendo novamente. Depois de nove anos de gestação, preso no ventre da colônia portuguesa na Capitania de Pernambuco, fora obrigado a amadurecer precocemente, diante dos muitos acontecimentos negativos que sofrera ao ser violentamente arrancado do K’ilombo dos Palmares. E pela vida insignificante que levava juntos aos colonos, os opressores do seu povo.

Porém, sempre se manteve forte em espírito. Pois sabia que agora ele seria o pai e mãe de si mesmo. Por isso, se empenhava para ser o mais esperto e inteligente, entre os outros coroinhas de pele branca do Padre Antônio. E também, por isso, recebia do padre muito mais responsabilidades nos afazeres da paróquia, sendo que se tornara o braço direito do Padre Antônio, e seu pretendente a coroinha número um.

Enquanto N’zambi estava emaranhado em seus profundos pensamentos. O preto velho Djeli observava o jovem, que se encontrava com os olhos fixos ao chão. Djeli sabia que a vida não fora leve com N’zambi e que as batalhas mais difíceis ainda só estavam prestes a começar. Porque esse é o destino dos filhos da Grande Estrela.

O jovem N’zambi quebrou o silêncio dizendo:

— Tive um sonho muito real essa noite, mas não consigo me lembrar de muita coisa. Só me recordo que estava sentado na beira de um poço de água, que ficava ao lado da paróquia em que eu vivia em Porto Calvo. E uma forte e bela voz saía de dentro dele e me falava muitas coisas maravilhosas, e eu conversava com ela. Só me lembro das suas últimas palavras, que diziam: DENTRO E FORA.

Djeli disse:

— Ele está te preparando.

— Ele quem?

— O Espírito está te preparando para ser um dos filhos daquela que mais brilha, e assim preparar o caminho para o retorno do conhecimento do Sagrado e Eterno Contínuo. Pois o Espírito vem chamando muitos homens para essa missão, mas nem todos querem ou podem. Espero que você seja forte, meu jovem, e não o decepcione, como o seu tio N’ganga N’zumba fez, ao se render aos poderes e riquezas deste mundo. Pois você me lembra muito o seu tio quando era jovem. E o Sagrado e Eterno Contínuo também esperava por ele. E ele o rejeitou. E, por sua vez, o Sagrado e Eterno Contínuo também o abandonou, deixando-o à mercê de seus desejos e paixões mundanas. ELE/ELA, O ABSOLUTO GRANDE ESPÍRITO TODO-PODEROSO, que criou todas as coisas existentes neste mundo e no outro mundo, te prepara agora para assumir o Reino da N’gola N’janga.

Fez-se uma pausa. E Djeli perguntou a N’zambi:

— Me diga, meu jovem. Desde quando você vem tendo sonhos assim?

— Desde sempre. Tenho tido sonhos tão reais e confusos, e coisas estranhas acontecem. Coisas boas e coisas ruins. — Disse o jovem.

Djeli se aproximou de N’zambi, arrastando-se pelo banco de madeira, virou-se e colocou suas mãos nos ombros do jovem, o encarou com um olhar forte, e disse:

— Você precisa estar consciente enquanto sonha, meu jovem. Precisa controlar as suas ações, pensamentos e palavras no sonho. É preciso estar lúcido dentro dos seus sonhos, para que tire proveito deles e possa compreender o que o Sagrado e Eterno Contínuo quer te revelar. Apenas quando você estiver dentro do sonho, o encare como uma realidade e se esforce para estar consciente de tudo que acontece ali.

— Por que sonhamos, Djeli?

— A pergunta certa, meu jovem, é: Por que dormimos? Pois o sonho é consequência do dormir.

Djeli virou-se, firmou seu olhar a sua frente, e continuou:

— O conhecimento do Sagrado e Eterno Contínuo baseia-se em fazer de duas coisas uma só. O superior como o inferior e o inferior como o superior. O acima como o abaixo e o abaixo como o acima. A direita como a esquerda e a esquerda como a direita. O velho como o novo e o novo como o velho. O dentro como o fora e o fora como o dentro. O dia como a noite e a noite como o dia. A fêmea como o macho e o macho como a fêmea. O branco como o preto e o preto como o branco. Separar essas coisas é viver o esquecimento do Sagrado e Eterno Contínuo. Se você, meu jovem rapaz, fizer do dois uma coisa só, então conseguirá domar a si mesmo. E, se você reinar sobre si mesmo, reinará sobre o todo. E então obterá a inteligência para separar o sutil do bruto e o sujo do limpo. Aí as maravilhas deste mundo e de todas as coisas criadas se revelarão a ti. Pois, para controlar as coisas que neste mundo se fazem separadas, primeiramente deve obter o conhecimento do uno.

Djeli fez uma breve pausa, e continuou a dizer:

— Há dois mundos, meu jovem. O mundo visível aos nossos olhos, que é o mundo orgânico, e o mundo invisível aos nossos olhos, que é o mundo inorgânico. No tempo dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães, toda vida reconhecia estes dois mundos como sendo uma coisa só, que por adaptação se manifestava em duas versões distintas, mas que se completavam. Pois o velho e primeiro mundo antes de nós foi o mundo invisível, o inorgânico. E o nosso mundo visível, o orgânico, surgiu desse mundo invisível aos nossos olhos de carne, para que se manifeste a perfeição pela união harmônica das experiências individuais e coletivas de todas as coisas criadas. Em sentimentos, sensações e emoções oriundos dos prazeres e das dores sensoriais. E assim somos nós, visível e invisível, orgânico e inorgânico, e vivemos nos dois mundos. Por isso é que toda vida orgânica dorme, para que possa se manifestar no inorgânico, e nos conceda perceber existencialmente que primeiro somos seres espirituais tendo experiências materiais. E a vida nesse mundo visível logo se extinguirá, mas no mundo invisível somos como imortais. Todas as coisas neste mundo têm dois sentidos. E a sabedoria é ver o dois (2) no um (1) e o um (1) no dois (2). E ter a inteligência e o bom senso para distinguir entre ambos, a verdade de cada coisa.

— Então, o mundo dos sonhos é o mundo do invisível?

— Em parte. Verdadeiramente é uma das pontes por que se pode chegar até lá.

Disse Djeli e continuou:

— Com o esquecimento do Sagrado e Eterno Contínuo, as pessoas se prenderam muito a este mundo, e seus pensamentos se cristalizaram a só essa vivência material, supondo ser a única realidade existente. Por isso, quando dormem, muitas vezes não se lembram de nada ou de muita coisa ao acordarem. Ou sofrem pesadelos quando estão prestes a romperem a barreira dos mundos. Por medo do desconhecido de não conseguirem assimilar outra realidade pela qual estão arraigados, e acordam. Outros até atravessam a ponte dos mundos, mas depois ficam com tanto pavor, que acordam mesmo estando no outro mundo, e ao acordarem ficam paralisados em seus leitos, sem poderem se mexer. Apenas só seus olhos se abrem, mas não conseguem ter controle sobre o seu corpo, pois ainda estão fixos no outro mundo. E mesmo acordados veem visões, vozes e coisas espantosas. E ficam com tanto medo, que até param de respirar por pânico. Até que regressam a este mundo totalmente, e ficam espantados com o acontecido, pensando que foram possuídos por espíritos demoníacos.

O preto velho griot deu uma breve gargalhada em quanto falava e continuou:

— Até para os iniciados no Sagrado e Eterno Contínuo essa tarefa de cruzar os mundos não é tão fácil, meu jovem. Há também muitos perigos se não tiver uma orientação e proteção certa, perigos de morte e perda de consciência também. Os lunáticos que o digam. Pois, assim como este mundo tem lugares, pessoas e animais perigosos, o outro mundo também tem. Porque tudo que existe aqui existe lá também. Mas com outra forma e sentido.

— Outro sentido... Como assim, Djeli?

— Você já percebeu que em um sonho não existe nenhum controle das situações e ações. Não existe nenhum nexo entre o que você faz e o que acontece. Sendo que o efeito não tem nenhuma relação com a causa. O que erroneamente julgamos como sendo isso confusão. Essa confusão é um estado em que a razão e a precisão dos fatos, que gera a ação e a reação, perdem todo o sentido. Coisas que julgamos estranhas, horríveis, maravilhosas, impossíveis e imagináveis acontecem. E por essa falta de conhecimento, por não podermos assimilar essa realidade de possibilidades infinitas, sem regras, sem leis, sem metas e não reativas, que, quando estamos realmente experimentando a lidar com esse mundo de absurdos, infelizmente acordamos em grande susto e espanto, julgando a quebra dos conceitos vivenciais mundanos e materiais como sendo terríveis pesadelos.

Djeli viu que o jovem ficou um pouco assustado com o que dissera e falou:

— Não se preocupe com isso agora, meu jovem. Você tem um bom coração, e as pessoas de bons corações sempre terão proteção. Pois o Criador e os seus seres de luz as protegerão. Apenas mantenha-se puro e a pureza o encobrirá com sua glória. Mantenha-se bom e as más companhias se afastarão. Pois, assim como os homens bons detestam os homens maus, também os maus detestam estar em companhia dos bons. Mantenha-se justo, e a proteção e a verdade, que são as armas luminosas da justiça, sempre estarão ao seu favor. Pois, para proteger uma boa alma justa, o Criador e os seus seres luminosos moverão todo mundo, toda natureza e todo universo ao seu favor.

Djeli parou de falar sobre aquele assunto. Pois sabia que, assim como um pequeno copo de barro não pode conter toda água de uma moringa, o jovem N’zambi no momento não suportaria mais dos seus ensinamentos. Então, disse:

— Vá descansar um pouco nas redes da varanda da casa, meu jovem. O sol está muito forte. Eu vou preparar algo para comermos.

N’zambi foi fazendo o que o preto velho griot dissera.

Djeli foi caminhando até o galinheiro para pegar uma de suas galinhas que já estava pronta para o abate. Ele fez um pequeno buraco no chão da terra avermelhada do seu quintal, pegou a galinha, olhou para o céu e disse:

— Grande e Poderoso Pai e Mãe de Todas as Coisas Criadas. Ofereço-vos o retorno do espírito desta vida que nos deu para que nos possa servir de alimento.

Então, o velho cortou o pescoço do animal e fez outras pequenas incisões pelo corpo da ave. O pendurou em um pequeno poste de madeira, que se encontrava onde antes tinha cavado com as mãos um pequeno buraco na terra abaixo. E o deixou ali, arrodeado de pequenas fogueiras que faziam fumaças, para afastarem os insetos e as moscas, até que todo o sangue caísse dentro do buraco, e a terra se embebedasse.

Enquanto o velho Djeli trabalhava no preparo da comida, seus pensamentos rodopiavam em sua cabeça a respeito do jovem príncipe e da sua missão. Ele sabia que desta vez não podia fracassar em seu propósito, e na promessa que tinha feito à Rainha Akualtune, filha do Rei do Kongo. De preparar um grande líder, que libertaria o seu povo negro dos seus opressores aqui no Novo Mundo. Para que retornasse à Terra-Mãe África levando todo o seu povo escravizado, enfrentando os colonos e reedificando o Grande Império do Kongo.

Em verdade, Djeli sabia que as coisas não eram assim tão simples, como a promessa que tinha feito à grande mãe dos k’ilombolas. Djeli, pelo longo tempo que estava no Novo Mundo, compreendera que a missão de N’zambi era muito maior que só libertar os negros escravizados do Reino do Kongo e regressar à Terra-Mãe África. Até porque o K’ilombo já se tornara multirracial e multicultural, e, além de tudo, miscigenado.

Djeli sabia que o significado dessa missão era para os dias vindouros. E, por isso, não só preparava um grande líder guerreiro libertador. Mas também, um grande rei, e um grande homem para todos os povos ali presentes e suas gerações. Djeli sabia que N’zambi era um dos filhos daquela que mais brilha.

Djeli chegou ao Novo Mundo acompanhando a Princesa Akualtune. Depois de ela ter sido capturada por ter se rebelado contra os colonos portugueses, numa grande e final batalha que aniquilou de vez o Reino do Kongo. O grande Império do Kongo se originou na região de M’pemba Kasi, da união de cento e quarenta e quatro tribos, mais ou menos cinco séculos antes da invasão europeia na Terra-Mãe África. Em que a própria palavra “kongo” tem a sua raiz etimológica na língua ki’kongo, no sentido de “se unir” ou “ligamento”. Dessas tribos que se uniram, foram escolhidas em uma grande cerimônia religiosa de culto aos antepassados, nas margens do Grande Rio K’wilu, doze famílias de sangue e linhagens nobres para estabelecerem o Lum’bu, uma espécie de parlamento detentor do poder. Em que criaram as divisões de poderes militar, executiva e legislativa. Estabelecendo no novo reino que se formava o primeiro imperador, o M’wene Kongo, N’tinu Wene.

Essa primeira dinastia composta pelas doze famílias reais foi toda sepultadas na primeira capital do Império do Kongo, que se chamava N’si K’wilu, fundada no Vale K’wilu. Desde então, esse solo se tornou sagrado para os povos do Kongo. Essa região da capital de N’si K’wilu se tornou tão santa, que os kongoloses nem sequer tinham a coragem de olhar para ela, com medo de se amaldiçoarem ou morrerem. Apenas os grandes sacerdotes do Kongo antigo podiam pisar naquele solo sagrado.

A partir de então, o Reino do Kongo foi conquistando mais e mais tribos, reinos e regiões, se tornando um grande império africano. Formado por nove províncias e três regiões centrais, em que consistia o Reino de N’goyo, que originalmente era o reino da tribo Woyo, o Reino do Ka’Kongo, fundado pelos próprios kongoleses, e o Reino do N’si Ya Luangu, formado pelas tribos que falavam o ba’kongo, um dialeto provindo da língua ki’kongo. Também eram subjugados e vassalados ao grande Império do Kongo o Reino de Ma’tamba, o Reino de N’dongo ou N’gola, pelo qual provinha a descendência real da parte materna da Princesa Akualtune, em que viviam os povos M’bundo, falantes da língua Ki’bundo. Além de outros muitos reinos, tribos, chefarias e hordas de grupos linguísticos dispersos.

No entanto, devido a sua grande e rápida expansão, os chefes kongoleses cada vez mais foram perdendo o controle do seu império. E muito antes da chegada dos europeus o grande Império do Kongo já se encontrava em diversos conflitos internos. Se dividindo territorialmente pela consequência de muitas guerras civis, o que resultou na separação dos seus territórios meridionais. O que depois facilitou em muito a invasão portuguesa, espanhola e holandesa. Em que os subgrupos fragmentados do Reino do Kongo se uniram a esses reinos europeus para reforçarem sua força militar e domínio, em conquistas de regiões e influências dentro do grande reino africano. O que resultou na sua decadência como um grande império, na sua defasagem como um reino unido e na sua descaracterização cultural, religiosa e étnica africana, se autoeuropeizando.

Akualtune era filha do M’wene Kongo, M’vemba-a-N’kanga N’tinu, rei supremo do M’banza Kongo, que fizera um acordo com os portugueses e converteu-se ao catolicismo, adotando o nome de batismo de Álvaro V. A jovem princesa, revoltada com a atitude dos M’wene Kongos de se submeterem política e religiosamente às crenças e costumes dos europeus, sendo subjugados à coroa portuguesa, e assim adotando nomes e deuses estrangeiros, rebelou-se.

Abandonou o palácio real no M’banza Kongo com alguns de seus súditos e conselheiros, entre eles se encontrava o velho griot mandinka Djeli. E então fora se refugiar nas cercanias das florestas da região de Dembos. E lá formou um reino independente e acampamento guerreiro militar, que tinha como nome N’gola K’ilombo. Onde abrigava mais de dez mil guerreiros rebeldes, os preparando para guerra. Esses primeiros guerreiros foram chamados de Mazômbo.

Akualtune lutara bravamente contra os colonos europeus e alguns reinos kongoleses e n’golanos aliados aos portugueses, onde participara de várias batalhas. Mas fora derrotada em uma grande e final batalha sangrenta contra os colonos portugueses, que dividira e defasara todo o Reino do Kongo. Em que ela e os seus guerreiros Mazômbos se aliaram ao M’wene Kongo, N’vita-a-N’kanga, conhecido pelo nome de batismo de D. Antônio I do Kongo. Essa violenta e sangrenta batalha, em que morreram mais de cinco mil guerreiros do Reino do Kongo, entre homens e mulheres, e em que também foi capturado e decapitado o M’wene Kongo, seus súditos e seus familiares pelos invasores portugueses, ficou conhecida como a Batalha de M’bwila. Em que a Princesa Akualtune também fora capturada, banida do Reino do Kongo e transformada em escrava.

Trazida ao Novo Mundo dentro de um tumbeiro, também conhecido como navio negreiro pelos colonos portugueses. A Princesa Akualtune, junto ao velho griot Djeli que sempre a acompanhava e a protegia, e muitos dos seus guerreiros Mazômbos desembarcaram na ilha do Arraial da Ponta das Baleias, próximo à capital da colônia do Estado do Brasil, o distrito de São Salvador, na Capitania Hereditária da Baía de Todos os Santos. A ilha do Arraial da Ponta das Baleias era imensa. Repleta dos nativos Tupinambá e muitas vilas criadas por padres jesuítas. Em que catequizavam esses nativos que chamavam a ilha pelo nome de Itaparica, que em sua língua Tupi, etimologicamente, significa: “Cerca feita de Pedras”. Devido às quantidades de corais que arrodeavam o seu litoral.

Os colonos portugueses chamavam a ilha de Itaparica de Arraial da Ponta das Baleias. Porque ali matavam muitas baleias, retirando o seu óleo para fazer argamassa, que utilizavam nas suas primeiras construções de tijolos de pedras. E também se alimentavam e alimentavam os seus escravos com a carne desses grandes peixes mamíferos.

A ilha também servia para desembarcar os tumbeiros, que vinham lotados de africanos escravizados. Em que muitos chegavam ali doentes e semimortos pela fadiga da viagem, por más acomodações e uma má alimentação. Nesses navios negreiros, os africanos escravizados eram cruelmente acomodados nos seus porões sujos e escuros, onde constantemente permaneciam presos em grupos com grossas correntes de ferro. Cada embarcação trazia em média quinhentos africanos amontoados. O mau cheiro imperava por todo o porão, e quase nem havia espaços para movimentações. Embora os tumbeiros fossem grandes embarcações, os portugueses marranos cristãos-novos e criptojudeus que eram os comerciantes mercadores de escravos, junto aos povos árabes, superlotavam os navios, para comportar o maior número possível de africanos escravizados. Os africanos permaneciam na ilha até se restabelecerem, ganharem peso e boa aparência. Depois eram levados ao mercado de escravos na capital-província de São Salvador.

A princesa e o griot foram comprados juntos, por uma boa quantidade de cana-de-açúcar e tabaco. Por um colono que tinha propriedades no sul da Capitania de Pernambuco, para servirem em sua própria casa como criados. Pois ambos falavam português, e o velho griot era conhecedor de aritmética, agricultura, astrologia, construção de abrigos e de ferramentas metalúrgicas, medicina natural, alquimia, entre outras muitas sapiências. Foi a pedido de Djeli que o colono também comprou a princesa, pois este só se interessou apenas pelo homem negro mandinka.

Os negros mandinka, por conhecerem a arte da escrita e aritmética, e por serem mais instruídos que os outros negros escravizados, pelo fato de muitos deles serem negros islamizados, eram escolhidos pelos feitores para exercerem funções de confianças, e cargos superiores nos seus empreendimentos. Também os mandinka exerciam a função de capitão do mato. Trabalho esse desprezado pelos colonos da classe operária, por ser considerado de última categoria, servindo muitas vezes para fazerem os trabalhos sujos da guarda policial da colônia. Em que capturavam os negros escravizados fugitivos que adentravam as matas, para depois entregá-los aos seus feitores mediante a recompensa. Contudo, gozavam de um pouco de prestígio na colônia e na classe escrava, por serem negros semilivres, com o direito de ir e vir transitando, assim, por toda a colônia. E, por esse fator, se julgavam superiores aos outros negros cativos, sendo seus capatazes. E, por muitas vezes, eram mais cruéis do que os próprios colonos. Pois ficavam também encarregados de castigar os outros negros escravizados, e até também de poderem comprar cartas pessoais de alforria, e assim terem licenças para também possuírem escravos. Formando suas empreitadas pessoais de capitães do mato.

Na Capitania de Pernambuco, todos os escravizados souberam quem era a Princesa Akualtune e as histórias dos seus feitos heroicos contra os colonos portugueses na Terra-Mãe África. Porque Djeli propagara o seu conhecimento, contando os seus atos heroicos. E os habitantes de um refúgio de negros, que se localizava em uma região totalmente de difícil acesso, por estar em meio à mata fechada, repleta de palmeiras de guariroba, estavam planejando como iriam libertá-la e levá-la até esse reduto.

A Princesa Akualtune estava servindo na fazenda colona como escrava reprodutora. E já estava grávida de seis meses, carregando em sua barriga o atual rei de Palmares N’ganga N’zumba, quando os refugiados invadiram a fazenda e mataram o colono, toda a sua família e os seus capatazes. Levando assim todos os escravizados para o cerco na floresta. Akualtune tornou-se a grande Rainha e Mãe do K’ilombo dos Palmares, que chamava carinhosamente de N’gola N’janga, que na língua ki’bundo, etimologicamente, significa: “Pequeno Reino”.

Na N’gola N’janga, a Rainha Akualtune tentou reproduzir no Novo Mundo os costumes, crenças e modos de vida do Reino do Kongo, e também suas táticas de guerrilha contra os seus opressores.

FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).  

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