O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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23. Capítulo 18 - צ (TZADIK) O JUSTO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

צ

TZADIK

O JUSTO

 

— Um minúsculo ponto de luz se inflamou no escuro do imenso abismo. As trevas em sua vastidão não puderam contê-lo. Diante de toda aquela escuridão, o minúsculo ponto de luz se tornou o foco das atenções, atraindo toda sorte de criaturas noturnas com o objetivo de sugar, adquirir e ofuscar a sua luminosidade.

— Grande Mestre, o que isso significa? — Perguntou N’zambi.

— Não se abale passivamente. Não se deixe arrastar. Mantenha firme sua convicção interior. Conserve sua clareza de espírito. Eis que aí vem o grande confronto. Sua vontade tem que ser maior do que sua dificuldade, por isso, reme contra a maré permanecendo livre dos hábitos e costumes da maioria, e não gaste sua energia em criticá-los. Observe cuidadosamente o plano exterior, adaptando ou ignorando seus eventos, na superação das adversidades. Aja discretamente com modéstia sem interesses. Saiba de tudo com superioridade. Ignore todos com humildade. Em certas situações, mesmo sabendo, finja não saber. Não julgue o mal e nem o bem, apenas deixe que eles concluam o seu trabalho. O mal e o bem não passam de personagens mascarados atuando em um grande palco de teatro, só quando o espetáculo acaba é que se conhece as pessoas por detrás das máscaras. Apenas limite-se em conhecer o seu próprio mal e o seu próprio bem. Seja atento e nulo às opiniões alheias sem ser enganado, sendo fiel a si próprio na cultura do seu bom senso. Não se compare, siga o seu próprio caminho e permanecerá livre do erro que conduz à inveja. Seja senhor de si mesmo, e governe o mundo que te rodeia usufruindo das coisas boas e maravilhosas da vida, sem nada guardar e possuir. Reprima o mal. Promova o bem. Acredite com a fé inabalável daquele que tudo pode e realiza. Porque EU estou contigo!

 

∞∞∞

 

Secretamente, entretanto, três meses antes da data marcada de invadir Palmares. Carrilho estrategicamente decide em segredo adentrar, na calada da noite, as matas pernambucanas com sua tropa, dando início a sua empreitada expedicionária.

Carrilho constantemente se perguntava como poderia sair vitorioso em sua missão, com os escassos recursos a ele apresentados. Por isso arquitetava um plano, evitando longos combates para não causar uma grande quantidade de perdas em sua tropa. Também era uma das grandes preocupações do sertanista combater o refúgio dos negros sem causar grandes destruições físicas e humanas. Pois, em sua ambição, avaliara que cada indivíduo palmarino executado, cada animal morto e cada artefato de valor destruído causaria sérios prejuízos econômicos a sua campanha e a seu bolso. Dessa forma, decidiu evitar em suas táticas bélicas os incêndios, para não perder os muitos insumos valiosos que poderia angariar nessa guerra.

Pelos seus minuciosos estudos sobre as táticas de guerras dos negros alevantados, Carrilho percebeu que muitas das expedições enviadas a Palmares foram sabotadas ou derrotadas devido haver espiões ou simpatizantes palmarinos infiltrados nas tropas dessas campanhas. E, investigando mais sobre a inteligência espiã dos palmarinos, descobriu uma rede secreta de informantes habitando as casas dos senhores e governantes, formada pelos negros de dentro.

Os negros serviçais da casa-grande ouviam às espreitas tudo o que os seus senhores diziam. Depois de tomar nota das informações ouvidas, transmitiam às lavadeiras, ou aos capitães do mato, que trocavam essas valiosas informações por insumos palmarinos. Dessa forma, os k’ilombolas sabiam com antecedência os dias exatos que as expedições saíam em sua função, bem como também sabiam todas as informações das tropas com suas quantidades de soldos, armamentos e mantimentos.

Meditando nesses relatos Fernão Carrilho teve uma ideia inteligente, e resolveu usar a rede de espionagem palmarina contra ela mesma. Pela sua grande experiência sertanista em táticas de guerrilhas, Carrilho bem sabia que nas batalhas a quantidade superior ou inferior de soldos e armamentos não significava nada para vencer uma guerra.  E mesmo possuindo a quantidade bélica superior, como era o caso de Palmares, se não tivessem uma boa tática de guerrilha, não teriam nenhuma vantagem de vitória. O capitão Fernão Carrilho tinha o entendimento que na guerra é mais importante ser o mais inteligente, e não o mais poderoso.

Carrilho, em absoluto segredo, junto ao seu braço direito, o capitão Manoel Inojosa, arquitetou um plano mentiroso. Reuniu-se na câmara de Porto Calvo junto aos seus homens e os líderes pernambucanos. Escolhendo uma futura data fictícia para iniciar sua expedição, dizendo nesse falso dia pôr em prática a sua campanha. Além de Carrilho e Inojosa, nem os seus homens mais chegados, e nem também o governador e os líderes da capitania pernambucana sabiam da verdade por trás desse engodo, fazendo com que toda a população acreditasse e divulgasse essa falsa data.

Na divisa das matas com o povoado de Porto Calvo, depois de nove meses de preparativos com poucas provisões, menos armamentos e homens reduzidos, pois todos esperavam faltar ainda três meses para o início da campanha como fora combinado, Carrilho e sua tropa, composta de quase duzentos homens, sendo guiado pelo seu escravo informante que se fizera um k’ilombola, adentram as matas escuras subindo em direção a Palmares, sob a luz da lua cheia.

Por coordenação de Carrilho, o seu informante marcou alguns pontos nulos estratégicos dentro da floresta, longe das trilhas e caminhos frequentados pelos k’ilombolas, para servirem como postos de parada e descanso, até chegarem a Palmares. E, dentro das regiões palmarinas, o informante marcou outros três pontos nas matas, também em ambientes não frequentados, para servirem de postos temporários na elaboração das suas táticas de guerrilhas. Um posto ao norte de Porto Calvo estava próximo ao Mokambo de Akualtune, outro ao sul estava próximo à Cerca Real dos Macacos, e o último se fixava no centro entre os dois mokambos já citados e o Mokambo Guerreiro de Subupira, que se posicionava a oeste. Tudo isso estrategicamente pensado para que a expedição fosse bem-sucedida.

Seguindo em fila única uma trilha já aberta com facão pelo seu informante, Carrilho e sua tropa avançavam mais e mais subindo os morros florestais. Carrilho deu ordens aos seus homens para permanecerem calados e caminharem em passos lentos, evitando pisar em galhos ou qualquer coisa que pudesse causar estalos e barulhos. Por experiência em suas muitas expedições contra os gentis, o sertanista evitava causar certos alvoroços nos animais das florestas. Sabia ele que, pelo debandar dos pássaros, gritos dos macacos e fuga de alguns animais como onças, jaguares, raposas, gatos e cachorros do mato, os povos habitantes das florestas percebiam a vinda de intrusos a léguas de distância. E, por lerem toda essa movimentação agitada de animais nas matas, podiam saber até quantas pessoas mais ou menos formavam o grupo, e a que distância se encontravam.

Depois de três dias de longa e silenciosa caminhada, a expedição chega ao posto central, que estava marcado dentro da região dos Palmares. Carrilho e Inojosa não só esconderam dos seus homens a data da sua partida expedicionária, como também os seus planos e táticas. Tudo tinha que permanecer no mais absoluto sigilo entre Carrilho e Inojosa. Por isso foi que três dias antes Carrilho convocou os seus homens contratados para uma grande ceia, e, ao terminá-la, distribuiu imediatamente os armamentos e suprimentos, dizendo-lhes que naquele mesmo instante partiriam para Palmares, os surpreendendo.

Estrategicamente, Carrilho e seus homens se encontravam no ponto zero, como ele discriminou em sua tática de guerrilha. Exatamente no meio, entre a Cerca Real dos Macacos ao sul, o Mokambo de Akualtune ao norte, o Mokambo Guerreiro de Subupira ao oeste, e Porto Calvo que se encontrava bem distante ao leste.

Carrilho tirou um mapa de dentro de um recipiente em forma de tubo, feito de couro curtido, e deu a Inojosa para que esse o estendesse com suas mãos à frente de seu corpo. Pegou um graveto que se encontrava no solo para com ele dar instruções à sua tropa. E ordenou aos seus homens que se sentassem, sendo que apenas ele e Inojosa permaneceram de pé. E, fitando os seus homens, disse:

— Vejam! Estamos exatamente aqui. — O sertanista disse isso apontando com o graveto para o centro de uma grande cruz vermelha que dava formação ao mapa. E continuou:

— Como vocês podem ver, estamos entre a cruz e a espada. Encabeçando essa cruz está o perigoso Palmares, conhecido pelos negros alevantados pelo nome de Subupira. É lá que eles treinam para as guerrilhas e guardam os seus armamentos, sendo que os seus homens mais corajosos vivem lá. Devemos evitar esse Palmares ao máximo. Já aqui está o Palmares conhecido como Acualtune — Carrilho disse isso posicionando a ponta do graveto no braço norte da cruz, e continuou:

— Já neste outro braço ao sul fica o Grande Palmares conhecido como Macaco, que é onde habita o líder dos negros que se chama Ganga Zumba. Já o pé da cruz, a longa distância, está Porto Calvo.

Depois de mostrar o mapa para toda sua tropa, o capitão sertanista, pedindo silêncio e procurando a atenção de todos, disse:

— Como vocês bem podem ver, estamos em uma verdadeira cruzada. E rogo ao nosso Bom Senhor Jesus Cristo e a todos os santos que possamos sair bem-sucedidos nesta empreitada. — Em seguida seus homens em uma só voz, disseram:

— Amém! — E Carrilho continuou dizendo-lhes:

— O plano é o seguinte...

Enquanto isso, na Cerca Real dos Macacos, N’ganga N’zumba, junto ao Parlamento da Ordem K’ilombola composta pelos Mazômbos, chefes dos mokambos, alguns chefes de kraais e seus familiares, se preparavam para represar essa grande expedição que estava armada contra eles e que aconteceria dentro de três meses.

N’ganga N’zumba, junto aos seus três filhos guerreiros Acaiene, Tokulo e N’zambi, convocou em sua Morada Real os seus dois irmãos, o comandante guerreiro das armas do K’ilombo N’ganga N’zona, e N’ganga Muíça, o feiticeiro e curandeiro, para juntos discutirem os assuntos de guerra. E, tomando a frente, o M’wene K’ilombo disse:

— Irmãos! Vocês bem sabem o porquê dessa grande expedição ter se levantado contra nós. Há pouco tempo estávamos em paz e segurança, mas graças àquele idiota cria dos colonos hoje estamos nos preparando para um novo e grande confronto. Não quero que ele e os seus rebeldes entrem nessa causa. E, se ele ousar a desafiar minha ordem, depois que eu massacrar os colonos portugueses, eu juro que acabo com ele e os seus partidários. E, desta vez, não serei acalmado por vocês. Pois eu mesmo irei ao seu confronto.

— Irmão, você bem sabe que isso tinha que acontecer. Pois N’zambi fora profetizado por Akotirene, e aclamado M’wene por nossa mãe. — Disse N’ganga N’zona.

— Além disso, precisamos de toda força, ó Grande N’ganga. Pois vi no oráculo cabeças rolarem. Isso significa que grandes chefes do nosso povo cairão em batalha. Só rogo que não seja as nossas próprias cabeças. — Disse N’ganga Muíça em tom de tristeza.

— Parem de falar bobagens e de acreditar em crendices tolas. Temos uma tropa superior com mais de oito mil guerreiros preparados, muitos armamentos e várias armadilhas espalhadas pelas florestas. Já enfrentamos mais de trinta expedições como essa, e não é agora que cairemos. Mas N’zambi, esse impostor que vocês tanto defendem, nunca enfrentou uma expedição. — Disse N’ganga N’zumba em tons raivosos.

— Irmão, ele não é um impostor. Ele é sangue do nosso sangue e carne de nossa carne, filho da nossa irmã Sabina e neto de Akualtune. Lembre-se que ele também é um N’ganga. Pois, diferente dos nossos filhos, assim como nós, ele tem o poder e a honra de se levantar ao posto de um M’wene. E mais ainda, ele é aquele escolhido por nossos ancestrais do Kongo para nos trazer esperança. — Disse N’ganga Muíça.

— Também ele se tornou um grande guerreiro aclamado pelo povo. E cada vez mais o seu poder aumenta. E mesmo assim, ó grande M’wene, ele te honra ordenando aos seus partidários a te servirem e pagarem os tributos. Além de nos prover de toda sorte de alimentos, ferramentas e utensílios. — Disse N’ganga N’zona completando as palavras do seu irmão.

— Não! Quem vai me substituir é um dos meus filhos. Não esse pirralho criado dos colonos. — Rebateu N’ganga N’zumba em forte tom de voz.

— A verdade, ó grande M’wene, é que sua ambição o cegou. Você foi rejeitado pelos nossos ancestrais. Saiba que você pode guerrear contra todas as forças dos colonos, mas nunca contra a sua própria origem. Foi devido a isso que o grande Império do Kongo decaiu. Os nossos ancestrais estão com N’zambi. Você, ó grande N’ganga, cairá. E na sua queda N’zambi se erguerá. — N’ganga Muíça disse essas palavras de costas para N’ganga N’zumba, se retirando da sua morada.

— Não! Volte aqui. — Disse N’ganga N’zumba em tom de desespero para o curandeiro N’ganga Muíça, que cada vez mais se afastava.

E, olhando para os seus três filhos e o comandante N’ganga N’zona, disse em tom de revolta:

— Saiam daqui vocês também! Vão atrás daquele profetizado, se é isso que vocês querem! Me deixe só! Saiam!

N’ganga N’zumba bem sabia que fora rejeitado pelo espírito dos seus ancestrais. Fora excessivo em sua ambição, o que resultou na limitação de sua criatividade e bondade. A sua alegria de viver fora ofuscada pela sua severidade, e o ânimo que equilibra a vida nele desfaleceu. Ele impôs severos limites à sua natureza majestosa, o que resultou na decadência de sua solidariedade. Ele impôs várias limitações no seu reino, e seus súditos contra ele se rebelaram. Impôs restrições somente aos outros, enquanto a si mesmo as evitava, trazendo para si inúmeros ressentimentos alheios e resistência fraternal. Exigia muito dos outros e pouco de si mesmo, decepcionando seus adeptos e afugentando seus seguidores. Rejeitou em sua vida o progresso, a alegria e a esperança, não realizando uma forte ligação com o Sagrado e Eterno Contínuo que está acima e nem com o seu povo que está abaixo. Não fortaleceu os laços do bem. Não teve boa disposição. Não teve tolerância. Não teve o domínio de si mesmo. Sem enxergar as forças ajudadoras que movem montanhas, não arrancou o mal antes dele crescer e criar uma forte raiz em seu coração. E as trevas o dominaram.

Já estava próximo do meio-dia quando os tambores convocadores começaram a soar pelos mokambos do K’ilombo. N’zambi ainda se encontrava na pedra do monte quando ouviu os rufares de alerta. Esses grandes tambores tocados com largas baquetas de pau só eram entonados quando haviam perigosas invasões ou incêndios. Cada kraal possuía um tambor de alerta, assim, quando um tambor era tocado em um kraal, automaticamente os kraais mais próximos começavam a tocar, e consequentemente a contagiar outros kraais até todo o K’ilombo ser alertado.

Os tambores eram tocados em um código que só os guerreiros k’ilombolas sabiam identificar. Cada mokambo tinha um rufar específico do tambor, assim eles tinham o conhecimento em qual região estava o problema. Senão fosse por isso, era difícil saber para que mokambo as tropas k’ilombolas deveriam ir, pois em segundos os tambores rufavam em todo o K’ilombo.

Rapidamente N’zambi correu para sua casa, que ficava no outro monte. Chegando lá, encontrou os seus homens, que lhe disseram que os colonos invadiram o Mokambo de Akualtune. Ele pegou Dandara e seus filhos e os levou para a kubata onde dormiam. Ele puxou o colchão feito de folhas de bananeiras emendadas, envolto a um cobertor feito de fibra de cânhamo, que estava sobre uma porta de madeira do alçapão que ele mesmo construiu, já pensando nesses perigosos momentos em que tinha de proteger sua família. E, colocando os seus filhos dentro do alçapão, disse a Dandara:

— Fique aqui até eu regressar ou tudo estiver calmo. Tem muitas moringas com água, coquinhos secos e castanhas de caju em potes aí dentro. Se houver incêndios pegue as crianças e vá para o fundo do porão, e fique em mais absoluto silêncio. E não se preocupe, eu te prometo que voltarei.

Dandara o abraçou e o beijou. Depois desceu adentrando o alçapão, e disse:

— Tome muito cuidado, meu Amor. E que o nosso Criador, os seus ancestrais africanos e os espíritos das florestas estejam com você.

N’zambi olhou no profundo dos seus olhos e sem nada a dizer fechou a porta do alçapão e partiu em disparada para perto dos seus homens. Ao chegar, encabeçou a sua tropa, que já estava formada, e disse:

— Avante, homens, vamos com toda força contra esses invasores. Vamos proteger o nosso legado com a força dos nossos guerreiros ancestrais. Vamos lutar por nossa N’gola N’janga!

E, assim falando, marcharam em gritos por entre as matas em direção ao Mokambo de Akualtune.

No Palmares conhecido como Acualtune, o soldado Manoel Inojosa encabeçava a guerrilha contra os escravos alevantados. Esse foi o plano secreto do sertanista Fernão Carrilho, dividir as suas tropas em duas vertentes. Uma encabeçada por ele mesmo, e outra por seu melhor homem, Manoel Inojosa. O plano consistia em que a tropa de Manoel Inojosa marchasse para o braço norte da cruz, atacando o Palmares de Acualtune. Enquanto isso, Carrilho e sua tropa marcharia para o braço sul, em direção ao Palmares do Macaco, em que estava arquitetado outro plano muito mais sutil.

Carrilho e sua tropa, ao chegarem no posto sul, próximo ao Palmares do Macaco, enviam o informante com o objetivo de dizer ao Rei de Palmares Ganga Zumba que sabia o local exato em que estavam acampadas as tropas de reforços dos colonos invasores na floresta. N’ganga N’zumba, ao receber aquela informação, convoca os seus três filhos e sobrinhos, e alguns dos seus melhores guerreiros k’ilombolas, para que fossem fazer uma emboscada no acampamento dos colonos. Pois N’ganga N’zona, com todos os Mazômbos e guerreiros, se encontrava marchando, saindo do Mokambo de Subupira, para guerrear contra os invasores no Mokambo de Akualtune.

A jovem guerreira Acaiene, o guerreiro Tokulo e o guerreiro N’zambi, junto a sua tropa de guerreiros k’ilombolas, partem em missão adentrando as matas, seguindo o informante que se fizera fugitivo da colônia. E, ao caminharem se distanciando da Cerca Real dos Macacos, de repente foram surpreendidos por um grupo de colonos armados que os cercavam.

Quando Fernão Carrilho viu esses seres, uns mais negros dos que os outros. Negros com cabelos dos gentis, gentis com cabelos dos negros, e inúmeros rostos que nunca vira antes, espantou-se! Porque em toda a sua vida de sertanista nunca vira aquilo em tamanha proporção. Além de serem guerreiros e guerreiras fortemente armados e bem-dotados de corpo, que ele julgava ser de pura raça, nunca em sua vida vira tamanha beleza. Isso! Porque no que ele julgava ser Palmares um reduto dos negros fugidos, em verdade, já era a terceira geração dos miscigenados, desde sua fundação como um assentamento de refugiados.

Carrilho percebeu-se com um valioso tesouro humano em suas mãos. Pela sua visão militar, Carrilho viu que, se pudesse ter aqueles fortes guerreiros palmarinos em sua tropa, nada os impediria de conquistar todo o Novo Mundo das Américas. As tropas de Fernão Carrilho já sabiam que os palmarinos eram homens e mulheres fortes. Por isso, os cercaram com espingardas arcabuz, modernos mosquetes franceses munidos de baionetas, e de toda sorte de arma de fogo de canos longos e curtos. Muitas delas equipadas com balas de pedras de sal, com objetivos de capturar, e não matar.

O seu plano deu certo! Tudo saíra como fora planejado. Na verdade, para Carrilho tudo saiu como sendo premeditado. Carrilho conclui o seu plano, fragmentando suas tropas, e mandando uma para cada braço da cruz. Sendo que as tropas enviadas ao braço norte foram comandadas por Manoel Inojosa, e as tropas enviadas ao sul, por ele mesmo. Ambas as expedições, que foram fragmentadas, marcharam em missão suicida. A expedição de Inojosa era uma expedição de ataque, enquanto a expedição de Carrilho era uma expedição de caça humana.

Carrilho ouviu do seu informante todos os procedimentos internos que os palmarinos tomavam quando eram ameaçados por uma poderosa invasão. E, com base nessa informação, arquitetou um plano para os surpreender. Enquanto as tropas de Inojosa atacavam no braço norte o Palmares de Acualtune, chamando toda a atenção dos palmarinos para aquela região. Carrilho e suas tropas armavam uma emboscada no braço sul, com o objetivo de sequestrar o grande líder Ganga Zumba. Porém, o líder palmarino não foi capturado, mas Carrilho capturou os seus três filhos, seus sobrinhos e alguns homens e mulheres guerreiras do seu apreço. O que julgou ser mais valioso do que sua pretensão de capturar o rei palmarino.

De posse daqueles valiosos palmarinos, Carrilho regressa para o posto central da cruz e manda um grupo de soldados em direção ao braço norte, para avisar Manoel Inojosa que o plano dera certo, e que ele poderia bater em retirada com suas tropas. Carrilho rapidamente desce para o pé da cruz, voltando para Porto Calvo com os palmarinos capturados. E, chegando lá, sem perda de tempo, forma uma tropa com mais de oitenta homens, enviando-os para reforçar as tropas de Manoel Inojosa no Palmares de Acualtune.

Já no Mokambo de Akualtune, N’zambi e seus guerreiros chegam antes das tropas k’ilombolas de N’ganga N’zona. Os colonos invadiram alguns kraais que foram abandonados pelos k’ilombolas, e cada vez mais ganhavam espaços dentro do mokambo. Cada mokambo tinha um Kraal Maior, que na verdade era uma grande fortaleza erguida por cercas de paliçadas duplas, com mais de oito varas de altura, comportando imensas torres com mais de quinze varas de altura. Era para lá que os k’ilombolas dos outros kraais iam se refugiar durante as invasões.

Manoel Inojosa, ao ver essa grande fortaleza, ficou abismado com a organização e tecnologia dos palmarinos. Sabia ele que fora mandado com suas tropas para uma missão de suicídio, por isso, ele e seus homens atacaram sem muito pensar. Encheram os seus corações de coragem e seus olhos lacrimejavam raiva. Sabendo eles que não tinham outra opção de sobreviver, senão, lutar para permanecerem vivos, deram o todo de si, avançando ferozmente contra os seus inimigos, destruindo tudo e todos que encontravam pela frente.

Enquanto as mulheres com suas crianças carregando alguns animais e pertences fugiam para a grande fortaleza, os valentes homens k’ilombolas avançavam sobre as tropas dos colonos com suas lanças, facões, espadas e escudos. E os colonos com suas armas de fogo os destroçavam. Essa era uma das muitas táticas de defesa k’ilombola, avançar suicidamente sobre as tropas dos colonos, para fazerem gastar o máximo de suas provisões armamentistas, para, quando chegassem até o Kraal Maior, estarem com pouca ou sem nenhuma munição.

Bravamente, Inojosa com seus homens avançavam cada vez mais até a grande fortaleza palmarina. Ao comando de N’zambi, suas tropas de guerreiros k’ilombolas só aguardavam os colonos se aproximarem um pouco mais do Kraal Maior, para os encurralar por detrás. Assim os colonos ficariam cercados, tendo em sua frente a grande fortaleza com inúmeros arqueiros, lançadores de pedras e arremessadores de lanças, contando também com vários nativos e suas venenosas zarabatanas, além de poucos homens munidos de arma de fogo. E, por trás, as tropas dos guerreiros de N’zambi munidas com todo poderio bélico k’ilombola.

Porém, ao chegar alguns reforços, as tropas dos colonos começaram a partir em retirada repentinamente. N’zambi, sem nada entender, deu voz de comando para seus homens avançarem, e foram perseguindo os colonos descendo os grandes morros florestais. Os soldados enviados por Carrilho chegaram, trazendo a mensagem para que Inojosa recuasse, pois Carrilho obtivera sucesso em seu plano.

As tropas de Inojosa foram sofrendo inúmeras baixas ao recuarem, os k’ilombolas estavam furiosos, desejando a cabeça de cada soldado colono. A perseguição só teve fim quando mais reforços chegaram de Porto Calvo, e o comandante N’zambi fora baleado na coxa da perna direita por uma bala perdida, que o deixou sem possibilidades de caminhar.

N’zambi regressa para o Mokambo de Akualtune carregado por seus homens. E, adentrando os portões do Kraal maior, encontra-se com os seus tios N’ganga N’zona, N’ganga Muíça e uma legião de guerreiros k’ilombolas. N’ganga Muíça, vendo o seu sobrinho baleado, rapidamente começa a tratar do seu ferimento com os seus conhecimentos medicinais. A sorte de N’zambi foi que a bala não ficara alojada em sua perna, entrara e saíra, apenas causando uma grave lesão muscular perto da sua virilha.

Enquanto o curandeiro N’ganga Muíça tratava do ferimento de N’zambi. O comandante guerreiro N’ganga N’zona conversava com seu sobrinho, procurando entender o que realmente acontecera. Questionando o porquê de os colonos atacarem com poucos homens em uma missão suicida, e depois se retirarem em uma fuga sem o menor sentindo, já que eles se encontravam vantajosos no ataque com a vinda de mais reforços.

N’ganga N’zona andava para um lado e para o outro, dizendo:

— Muito estranho esse ataque repentino dos colonos, antecipando sua expedição que viria sobre nós daqui a três meses. Tem algo de muito sombrio por detrás disso. Não consigo entender a lógica desse ataque suicida.

— Os colonos vieram em poucos números, e em grandes desvantagens, avançando fortemente contra nós. Havia uma margem de vinte guerreiros k’ilombolas de Akualtune para cada colono, antes de nós aqui chegarmos. Eles atacaram numa velocidade brutal, com uma eficiência surpreendente. Quando estrategicamente esperávamos que eles se aproximassem do Kraal Maior, para lançarmos as nossas contraofensivas os encurralando. Surpreendentemente! Quando vieram mais reforços, eles recuaram sem nenhum motivo, batendo em retirada. — Disse N’zambi em gemidos, deitado em uma maca feita de gravetos, palhas das guarirobas e folhas secas de bananeiras.

— Creio que essa pequena campanha colona serviu como manobra para eles estudarem a forma de como lutamos e se comportamos nas invasões. Estamos diante de um capitão colono estrategista, corajoso e muito perigoso. — Disse N’ganga N’zona, ao se sentar num banco ao lado da maca que estava N’zambi.

— Nunca vi homens tão velozes e corajosos. Também eles se agrupavam de uma forma onde um soldado protegia o outro. Enquanto uns tomavam a frente atirando, outros colocavam munições em suas armas, e, depois delas serem carregadas, avançavam passo a passo, enquanto os da frente recuavam para reabastecer de munição as suas longas espingardas. Tudo isso sem se importar com as lanças e flechas contra eles atiradas. — Disse N’zambi.

— Isso é o que acontece quando colocamos os nossos homens em uma missão suicida. Pelo fato de não ter como escapar ou recuar diante de um confronto desigual, onde estão em grandes desvantagens bélicas. Eles, por questões de sobrevivência, vencem o seu medo e se transformam em verdadeiras armas de guerras, que destroçam qualquer coisa que venha pela frente. — Disse N’ganga N’zona.

— Nunca vimos armas como aquelas antes, ele as apoiavam no solo por uma vara com uma forquilha em cima, provavelmente por serem pesadas, possibilitando uma boa mira com um disparo certeiro. Também essas potentes armas possuíam facas em suas pontas, em que muitas vezes eram utilizadas como lanças. Infelizmente não conseguimos capturar nenhuma delas, além de alguns arcabuzes. —  Disse N’zambi.

— Já ouvimos falar dessas armas antes, por alguns franceses que nos pediram refúgio na Cerca Real. Elas são os famosos mosquetes com baionetas, mais eficazes do que o arcabuz. Pelo visto, já chegaram novos carregamentos bélicos na colônia. Esse momento é de muito perigo para nós. — Disse N’ganga N’zona.

— E agora o que vamos fazer? — Perguntou N’zambi

— Ainda não sei. Mas você sofre grande perigo. O M’wene K’ilombo está louco e ele quer sua cabeça. — Disse N’ganga N’zona.

— Os nossos ancestrais abandonaram N’ganga N’zumba. Ele não tem mais a sabedoria e compreensão que tinha antes. Fala e age como um louco, e a tristeza o dominou. Prefere ficar sozinho, e se sente muito ameaçado com sua presença, N’zambi. — Disse N’ganga Muíça, enquanto enfaixava a perna de N’zambi com tiras de pano, envoltas em unguentos e folhas das muitas ervas medicinais.

— Mas qual o porquê de tanta raiva contra mim? O que é que eu fiz? — Perguntou N’zambi.

— Todos sabem que você é o escolhido pelos nossos ancestrais para nos libertar. E, desde o dia em que você nasceu, N’ganga N’zumba se sentiu ameaçado de não poder herdar a linhagem dos M’wenes. Assim como nós, você nasceu um N’ganga. O atributo de N’ganga só é dado aos filhos dos M’wenes, ou a um descendente dos M’wenes escolhido por nossos ancestrais. Todo N’ganga pode ascender ao cargo maior de um M’wene e imperar sobre o seu povo. Mas, pelo fato de você ser de uma geração mais nova do que nós, sendo escolhido pelos nossos ancestrais, no futuro você deverá herdar o trono. Devido a isso, N’ganga N’zumba, mesmo sendo um M’wene, perdeu o direito hereditário de passar o trono para os seus descendentes. Por isso que nenhum dos seus filhos podem ser um N’ganga. Devido à nossa lei, ditada pelos nossos antepassados do Reino do Kongo, o N’ganga escolhido pelo espírito dos nossos ancestrais, independentemente de ser filho do atual M’wene, é que será o novo M’wene. — Disse N’ganga Muíça.

— Por isso, N’zambi, é que N’ganga N’zumba deseja te matar. Você é o pesadelo dele que retornou, quando achávamos que você tinha morrido naquele grande incêndio, que dizimou muitos dos nossos. E o seu retorno confirmou para nós que realmente você é aquele a quem nossos antepassados escolheram. — Disse N’ganga N’zona.

— Então, o que devo fazer? — Perguntou N’zambi.

— Nada! Deixe que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer. Porque nós não passamos de peças movidas pelos deuses. Como você foi profetizado, você é agora guiado. E mais cedo ou mais tarde você será o novo M’wene, por ordem da natureza do seu próprio ser. — Disse N’ganga Muíça.

— Agora só lhe resta descansar, para que você se recupere desse ferimento, que por sorte só lhe presenteará com uma bela cicatriz. — Disse N’ganga N’zona com um belo sorriso em seus lábios.

Dias depois, Carrilho, alguns dos seus homens e os sequestrados k’ilombolas chegam ao povoado de Porto Calvo. Os senhores das câmaras que financiaram a expedição de Fernão Carrilho ficaram admirados pelas conquistas do sertanista, em tão pouco tempo que fora enviado a Palmares. Essa foi a expedição mais rápida e mais eficaz que eles já financiaram. Ao verem os palmarinos bem tratados e bem-feitos de corpos, sendo homens musculosos e mulheres esbeltas, tendo entre eles negros de olhos verdes ou azuis, brancos com traços faciais e corporais dos negros, em que eles apelidaram de “sararas”. Negras de longos cabelos lisos ou cacheados, e gentis com a pele totalmente negra. Ficaram maravilhados com aquela gente limpa, e de beleza exótica.

Muito diferente dos seus negros escravos e dos seus vassalos gentis. Que sofriam várias mutilações e deformações em consequência do pesado trabalho forçado e dos severos castigos. Como as várias deformações da cabeça e dos membros superiores e inferiores, causadas pelo abuso excessivo de cargas como tabuleiros, baldes, pedras e tijolos. E pelas constantes surras, queimaduras, cicatrizes e o peso dos aguilhões que deformavam os seus rostos, pescoços, costas, peitos, barrigas, dedos, pés e mãos. Além de sofrerem várias doenças que enfraqueciam e envelheciam prematuramente seus corpos, pela falta de higiene em sua alimentação e em suas acomodações. Roubando-lhes toda alegria, saúde e motivação pela vida. Pois a tristeza de alma e coração os tornava seres debilitados, feios, deficientes e decadentes desde a tenra infância.

O governador D. Pedro de Almeida fortificou uma casa em Olinda, onde aprisionou o grupo de palmarinos. Pedro de Almeida sabia que tinha uma grande fortuna em suas mãos. Pois, dentre os prisioneiros, havia importantes membros da família real palmarina. Como os três filhos do rei, alguns sobrinhos e alguns chefes importantes, além de grandes guerreiros e guerreiras. Sendo esse grupo composto de quase cinquenta palmarinos entre homens e mulheres.

A expedição de Carrilho obteve grande triunfo, mas não trouxera lucros imediatos tanto para ele como para os seus soldos e os senhores das câmaras das vilas e povoados que o financiavam. Sendo que o seu maior triunfo de guerra fora tirado das suas mãos pelo governador e enviado à capital pernambucana. Palmares nem sequer sofreu graves baixas, e ainda as vilas e povoados próximo ao reduto dos negros alevantados, como Porto Calvo, estavam agora sobre grandes ameaças de invasões e contra-ataques, como resposta à expedição que sequestrara os membros da família real palmarina.

Cinco dias se passaram depois da invasão colona, e os guerreiros k’ilombolas sob o comando do filho mais velho de N’ganga N’zumba, o comandante guerreiro Tokulo, até então não regressaram a Cerca Real dos Macacos. N’ganga N’zumba, N’ganga N’zona e N’ganga Muíça estavam preocupados e atemorizados, se perguntando o que acontecera com os seus filhos. Rapidamente organizaram uma grande busca nas baixadas florestais, entre a Cerca Real dos Macacos e o Mokambo de Akualtune. Ao passo que procuravam vestígios dos jovens guerreiros nas matas, encontravam alguns pertences pessoais dos k’ilombolas. Como colares, braceletes, brincos e pulseiras que formavam uma trilha até Porto Calvo. Essa era uma das manobras de comunicação dos k’ilombolas, para, por meio dos seus pertences propositalmente perdidos, avisarem que foram capturados e para que direção os colonos os levaram. Assim, perceberam de imediato que os seus guerreiros foram encurralados e levados vivos pelos colonos.

Com a captura dos seus amados filhos, N’ganga N’zumba e os seus dois irmãos ficaram apavoradamente abalados. Houve uma grande tristeza que afetou a todos na N’gola N’janga. Gritos de desespero e choros ecoavam além das paliçadas da Cerca Real dos Macacos, substituindo os tambores que ao fim de uma batalha anunciavam uma possível paz.

Os irmãos N’gangas não sabiam o que fazer. Temiam invadir Porto Calvo e causar a morte dos seus filhos amados, mas este não era um momento apropriado para se evitar um grande confronto. Porém, como enfrentariam corretamente esse grande problema que os ameaçava sem gerar graves desastres. O momento era de muita cautela e reflexão.

O clima também se tornara tenso nas colônias da Nova Lusitânia pernambucana. Com a posse dos familiares do rei Ganga Zumba, os pernambucanos se encontravam temerosos de uma possível revolta palmarina, que podia desencadear a mais sangrenta batalha que a colônia portuguesa jamais tivera nas terras do Novo Mundo. O governador D. Pedro de Almeida, muito preocupado, decidiu de imediato mandar embaixadores a Palmares, para negociar com Ganga Zumba um acordo de paz e um possível tratado de relações.

Fernão Carrilho, percebendo uma grande oportunidade de relacionamentos com os palmarinos, resolveu encabeçar essa expedição diplomática. Além do mais, Carrilho se tornou conhecedor dos caminhos seguros que o levariam à grande capital palmarina. E, devido a sua experiência sertanista de capitão das entradas, sabia muito bem como se relacionar com os gentis e os negros fugidos. Também Carrilho sabia que poderia obter inúmeras vantagens pessoais nesse relacionamento. Seria o único colono a conhecer o mundo palmarino, que era uma incógnita no meio da sociedade pernambucana. E, dessa forma, manteria tratos comerciais ocultamente com os palmarinos, ganhando benefícios dos dois lados sociais.

Carrilho com sua expedição diplomática representando não só a colônia, mas a coroa portuguesa, pois lhe foi concedido às pressas o título de representante do Reino de Portugal, parte em direção a Palmares com quinze homens de sua confiança, pelo mesmo caminho que fora antes em sua campanha de guerra. O sertanista sabia que estava correndo graves perigos, mesmo assim ele sabia que esse desafio podia trazer grandes oportunidades. Seria preciso um pouco de sorte e muita habilidade para superar a raiva dos líderes palmarinos e poder persuadi-los com um acordo que favorecesse os interesses da colônia.

Porém, Carrilho era dotado de virtudes extraordinárias, tinha a devida determinação correta, pois agia com muita ética priorizando os princípios educativos do bom diálogo. Que consistiam em primeiro ouvir e depois falar. Respeitando o momento certo, a tonalidade de voz certa, a expressão facial e gesticulação correta de acordo com cada palavra pronunciada, manipulando ocultamente os sentimentos da assembleia ou da pessoa com quem se comunicava, com o seu método de olhar na boca de quem fala e na raiz do nariz de quem ouve. Além de ter integridade e confiança pessoal, Carrilho não permitia que sua ganância e os seus demais sentimentos de posse ou poder colocassem tudo a perder em sua oratória ou diálogo. Como era o caso dos ambiciosos senhores pernambucanos. Carrilho bem sabia que este tempo de perigo trazia consigo boas dádivas, se assim soubesse aproveitá-lo.

Três dias de uma longa caminhada se passaram, Carrilho, ao se aproximar das cercanias do Palmares de Macaco, pediu aos seus homens que se agrupassem e levantassem a bandeira portuguesa e viessem marchando com a marcação de um tambor, que um dos homens trazia em sua cintura.

Os k’ilombolas que ali se encontravam, ao ouvirem por entre as matas a marcação do tambor, pegaram suas armas e foram averiguar que barulho era aquele. E viram soldados portugueses vindo em sua direção. Cautelosos, os k’ilombolas, que se encontravam em grande maioria, viram que aquele punhado de soldados não os ameaçava. E, com suas flechas, lanças e poucas armas de fogo apontadas para eles, esperaram que se aproximassem.

Ao se aproximar, Carrilho levantou a mão direita e o tambor deixou de marcar. E, se vendo cercado de palmarinos bem armados, disse:

— Vim em paz, em nome da coroa portuguesa. E desejo falar com o rei de vocês, sua majestade Ganga Zumba.

Os k’ilombolas, sem nada entender o que viria ser aquilo, falaram em dialetos uns para os outros, para que os soldados portugueses não pudessem compreender. Então, um grupo de k’ilombolas saiu correndo em direção à Cerca Real dos macacos.

Carrilho e seus homens permaneceram imóveis e pasmos de medo, fardados com as roupas do soldo português, repletas de muitos botões e emblemas, além de carregarem em suas cabeças chapéus de fino veludo preto e vermelho, chamando muita atenção dos palmarinos, que, curiosos, os cercavam, tocando suas vestimentas e dando muitas risadas entre si. Naquele momento, cercado por aqueles bárbaros palmarinos, Carrilho já não mais pensava em suas grandes realizações futuras, por conta dessa expedição diplomática, mas apenas sair bem-sucedido daquela situação desconfortante por si só já era o suficiente.

Avisados sobre a presença dos colonos, o M’wene K’ilombo, junto ao comandante guerreiro N’ganga N’zona, o curandeiro N’ganga Muíça e muitos guerreiros k’ilombolas partem em direção ao local onde eles se encontravam. Chegando lá, os k’ilombolas, ao verem o M’wene K’ilombo, o saldaram, se afastando dos soldados colonos.

O M’wene K’ilombo se aproximou em silêncio, encarando Carrilho e sua pequena tropa. Carrilho se sentiu intimidado com a presença de N’ganga N’zumba, pois nunca vira um negro tão grande e forte como ele. O rei estava vestido como um verdadeiro guerreiro k’ilombola, e acima da sua cabeleira branca tinha uma cabeça empalhada de um jaguar, com uma pele que encobria os seus ombros até a metade de suas costas. Carrilho, vendo que o líder palmarino nada falara, adiantou-se e disse:

— Ó rei dos Palmares D. Ganga Zumba, viemos aqui em paz em nome do nosso rei, D. Afonso VI de Portugal, e pela junta governativa do Estado do Brasil composta pelos governadores D. Agostinho de Azevedo Monteiro, D. Álvaro de Azevedo e D. Antônio Guedes de Brito, e pelo governador da Capitania de Pernambuco, D. Pedro de Almeida, para juntos tratarmos de um acordo de paz. Venho aqui também relatar que todos os seus familiares e vassalos se encontram em plena saúde e em bons tratos na Vila de Olinda.

N’ganga N’zumba, ouvindo falar de seus familiares, se enfureceu, partindo para cima de Carrilho violentamente. Mas, ao se aproximar, fora barrado por N’ganga N’zona, que o levou para um lugar reservado, e disse:

— Calma, irmão! Vamos ouvir os colonos. Além do mais, eles disseram que os nossos filhos estão em segurança. Eles querem negociar e vieram em nome do rei deles. Vamos levá-los para Cerca Real, e ver o que ele nos tem a oferecer.

N’ganga N’zumba, sem nada dizer, acalmou-se, regressando junto a N’ganga N’zona para perto dos colonos. Carrilho e seus homens estavam desesperados, pensando no que viria depois. O M’wene K’ilombo deu ordens aos seus guerreiros para que levassem os soldados colonos para a Cerca Real dos Macacos. Ao passo que Carrilho e seus homens foram se aproximando da vila real, ele avistou uma imensa muralha construída de adobe, envolta por uma cerca de paliçadas dupla por dentro e por fora da grande muralha. Além de conter valas repletas de estacas de paus afiadas, envolvendo a primeira cerca de paliçadas dupla, Carrilho ficou maravilhado ao entrar naquela imensa cidade murada e cercada, onde pequenos fortes de paliçadas envolviam grandes torres de madeira, que se encontravam espalhados e intercalados por toda a muralha, servindo como base militar na hora da guerra.

N’ganga N’zumba deu ordens para que prendessem os soldados em um desses fortes, mas deixou o capitão Fernão Carrilho livre dizendo:

— Não se preocupe com os seus homens, eles serão meus prisioneiros até negociarmos a troca deles por nossos filhos e guerreiros. Você ficará livre dentro dessas muralhas, até eu decidir o que farei com você.

— Grande rei, temos um prazo para regressarmos. — Disse Carrilho.

— E o que acontecerá se vocês não regressarem dentro desse prazo? — Perguntou N’ganga N’zumba.

— Sinto muito, grande rei, mas acontecerá o pior. Pois somos embaixadores da coroa portuguesa. — Disse Carrilho se prostrando e olhando para o chão.

N’ganga N’zumba, sem nada dizer, se retirou para sua morada junto aos seus familiares e comandantes, dando as costas para Carrilho. O sertanista, sem nada entender, se sentiu frustrado. Pois viu que o rei Ganga Zumba não era de falar muito e, por isso, Carrilho não obteve a oportunidade de persuadi-lo em um diálogo.

Não sabendo bem o que fazer, Carrilho decidiu conhecer o modo de vida e cotidiano dos palmarinos. Tirou seu chapéu de oficial da cabeça para não chamar muita atenção e caminhou pelas ruas e vielas daquela vila fortificada. Aproximando-se dos pequenos fortes que envolviam as torres, viu por entre as brechas das paliçadas muitos guerreiros palmarinos com escudos e espadas de madeira, gladiando com um grosso poste de pau cravado ao solo, em fortes treinamentos. Viu que os guerreiros treinavam com lanças, arcos e flechas, e vários tipos de armas para dominar uma ampla gama de conhecimentos e técnicas de combate. Além de dominarem inúmeras técnicas de lutas corporais, que os preparavam física e psicologicamente para o ambiente da guerra.

Carrilho ficou sabendo que, depois da batalha, a caça é o que era de mais sagrado para um guerreiro palmarino. Pois, pela lei dos palmarinos, para ser um guerreiro dos seus exércitos, primeiro um homem ou uma mulher tinha que ser um hábil caçador ou caçadora. Isso era um teste, para que os comandantes contassem com homens e mulheres corajosos e bem treinados. Pois a caça exigia da pessoa um bom condicionamento físico, e um bom condicionamento emocional também. Já que o caçador tinha que matar as suas vítimas e depois dilacerá-las, estando em contato constante com o seu sangue e suas as vísceras. Para que nas batalhas isso não os surpreendesse, causando choques psicológicos e emocionais que os debilitariam na guerra.

Caminhando pelas largas avenidas, Carrilho viu aglomerados de pessoas de todas as cores e tamanhos, por entre barracas e tendas de madeira, negociando coisas entre si. Lá havia inúmeros artefatos, desde potes de barros a finas indumentárias e vestimentas coloniais. Havia ferramentas para agricultura, armas brancas e também armas de fogo. Inclusive viu algumas armas de fogo da sua expedição anterior sendo negociadas entre um homem branco e um homem negro.

Carrilho também viu inúmeros pelourinhos espalhados por toda a vila, sendo que em alguns havia pessoas presas a eles. E viu também um indivíduo ser levado para um pelourinho que se encontrava ao seu lado. Essa pessoa fora punida a estar presa três dias e três noites a um pelourinho por colocar pesos a mais em uma balança em que negociava grãos de milho e feijão. Também pegaram os pesos e a balança e penduraram em seu pescoço, para alertar o motivo pelo qual ele se encontrava no pelourinho, sendo que as pessoas, ao passarem pelos prisioneiros no pelourinho, além de xingarem e gozarem de suas caras dando grosseiras gargalhadas, arremessavam em suas cabeças frutas e verduras podres, entre outros pequenos objetos e alimentemos, como pedaços de pau, terra, pequenas pedras, esterco animal e ovos podres. Tudo isso para os envergonharem publicamente.

Carrilho ficou sabendo que a punição no pelourinho era para aqueles que cometeram pequenas infrações. Nos casos de infração grave, como grandes roubos ou furtos, a depender, a pessoa era marcada com cortes em cruz nas suas bochechas e na testa ou tinham suas mãos e pés decepados. Nos casos de assassinato e bruxaria, as pessoas pagavam com a vida. E as cadeias eram só para os colonos prisioneiros de guerras e sequestrados, ou para pessoas importantes da família real, chefes e comandantes de kraais e mokambos que cometeram infrações.

Palmares era muito diferente do que Carrilho e muito dos colonos achavam. Era uma sociedade surpreendente, cheia de cores e vida. Suas feiras eram imensas, supridas com toda a sorte de coisas e alimentos que a terra e o homem podiam produzir. Havia grande desenvolvimento agrícola e mercantil. Carrilho encontrou grandes olarias, engenhos de açúcar, produções de queijos e salames defumados e algumas casas de metalurgia. Também encontrou pequenas manufaturas de tecido e até tinturarias, em que os palmarinos utilizavam de corantes vegetais extraídos das sementes, folhas e madeiras, acrescentando urina envelhecida, com a qual produziam a amônia, para fixar as cores dos corantes nos fios de paina ou algodão, que confeccionavam as suas coloridas vestimentas.

Em todo lugar que Carrilho andava havia muitos animais. A vida dos palmarinos dependia muito deles, sendo que cada animal cumpria uma determinada função específica. Em geral a maioria dos palmarinos tinha galinhas, gansos e porcos, que conviviam em um mesmo ambiente. Esses três animais eram muito comuns, pois os seus criadores, além de lucrar com as suas carnes e derivados, faziam tratos com os lavradores de frutas e legumes, de modo que os dois lados se beneficiavam. Em um sistema que os criadores chamavam de engorda e os agricultores chamavam de limpeza.

A engorda ou a limpeza consistia em soltar os porcos, os gansos e as galinhas nas terras, ou regiões que precisavam serem limpas, para darem sequência aos processos de cultivos de alimentos. Assim, o local onde se iniciaria uma horta ou uma nova etapa do plantio era cercado e lá colocavam os porcos, os gansos e as galinhas para trabalharem ciscando e fuçando a terra. Esses animais devoravam e trituravam tudo o que tinha nessa região cercada. Além de adubarem a terra com seus excrementos e afofarem o solo com suas pisadas, ciscadas e fuçadas.

Geralmente, os agricultores colocavam esses animais em terras que já foram cultivadas, logo depois da colheita, pois ainda restavam grandes quantidades de alimentos, como folhas, palhas, plantas, caroços, raízes, frutas ou legumes estragados, ou que não eram bons para o consumo humano, sendo que o trabalho desses animais consistia em limpar a terra comendo esses dejetos, para que os agricultores pudessem reiniciar o plantio. O que também beneficiava em muito os criadores dos porcos, gansos e galinhas. Engordando os seus animais a um custo zero.

Havia muitos homens e mulheres trabalhando com burros, que traziam grandes fachos de lenha. A lenha era o combustível essencial, não só em Palmares como também na colônia. Ela era utilizada em quase tudo, servindo tanto para as fogueiras domésticas no preparo dos alimentos como também para os fornos das olarias, para os fornos de pão, a forja do ferreiro e os engenhos. Em Palmares havia grandes construções feitas de adobe, só para armazenar essa valorosa fonte de combustível.

Bois e vacas eram muito comuns e muito valiosos em Palmares. Servindo tanto para puxar os arados como para puxar os carros de cargas e, também, principalmente, para movimentar as engrenagens da atafona, como eram chamados os engenhos de açúcar movidos a tração animal. Além de também, haver muitas alçapremas, que eram os engenhos movidos pela tração humana. Pelo fato de não se ter naquelas regiões montanhosas braços de rios para abarcar um Engenho Real, movido pela força d’água, as alçapremas eram utilizadas pelo exército palmarino para fortificar ou disciplinar os seus soldos.

 As vacas eram valiosas para produção de alimentos lácteos, como coalhadas e queijos. Os Palmarinos não consumiam muito a carne bovina, pelo fato desses fortes animais serem muito úteis no trabalho pesado. E, no caso da vaca, além de procriar, gerando muitos lucros, produzia o leite que era sagrado para alimentação k’ilombola, na elaboração de seus muito derivados.

Carrilho estava admirado pela organização e pela sabedoria da sociedade palmarina. Viu que tudo isso fora fruto de uma tolerância, ao somarem os muitos saberes dos muitos povos e das muitas raças que ali existiam. E que a miscigenação não somente era aparentemente física, como viu ao capturar aqueles exóticos palmarinos na sua primeira expedição. A miscigenação em Palmares envolvia todos os setores da sua complexa sociedade. A miscigenação em Palmares era a sua base, a sua economia, a sua proteção e a sua cultura.

E, movido por um pleno transe intelectual em sua análise contemplativa, Fernão Carrilho libertou-se por ora de sua vaidade colona e deixou ser levado pelas circunstâncias de um mundo maravilhoso, onde a cor da pele e a origem racial de nada valiam, sendo que a sabedoria das culturas ali somadas era só o que existia.

FIM DO DÉCIMO OITAVO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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