O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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22. Capítulo 17 - פ (PE) A ORALIDADE

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

פ

PE

A ORALIDADE

 

Dias se passaram depois da primeira investida dos ataques k’ilombolas sob a liderança de N’zambi contra as fazendas e engenhos das colônias litorâneas. N’zambi, com sua recém-formada tropa de negros resgatados, que somavam mais de seiscentos escravizados, entre homens, jovens, crianças e mulheres, chegam ao Mokambo de Tabokas com várias armas, ferramentas, pratarias e ouro. Além de dezenas de mulheres e crianças brancas sequestradas.

Ao passo que seguia em direção a Tabokas, junto a toda aquela gente de felizes e infelizes, e os muitos despojos de guerra, N’zambi permanecia calado, refletindo minuciosamente sobre tudo o que lhe sucedera nos ataques. N’zambi, coberto do sangue dos seus opressores, lembrou-se da visão que teve junto a Dandara. Quando, ao encarar a Grande Estrela e elevar-se, viu que um dos colibris da cor das ametistas caíra no chão, esparramado numa poça de sangue.

Nessa lembrança oracular, N’zambi entendeu o porquê que também morreria em uma batalha sangrenta, caído na poça do seu próprio sangue. Em um pequeno ataque de consciência, lembrou-se das palavras que tanto lia nas Sagradas Escrituras na paróquia em Porto Calvo, que mais ou menos diziam: “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Viu-se mudado e indiferente a tudo que experimentara. Percebeu-se em meio a um abismo entre o que acreditava e o que vivenciara. Só quando sua teoria virou prática, quando a imaginação criou um campo de vida e morte, abrindo um terreno de batalhas sangrentas, foi que N’zambi entendeu a responsabilidade de ser um guerreiro k’ilombola.

Até aquela situação de horror e sangue, o príncipe de Palmares não entendia ao certo a importância crucial das batalhas para o K’ilombo. Sabia que agora reinaria entre a vida e a morte, sendo coroado em um Estado de Guerra, que era a N’gola N’janga. E refletindo seriamente sobre esse assunto, intentou defender com unhas e dentes as causas e os interesses dos povos oprimidos. Encarou as guerrilhas, elevando-as ao grau de máxima importância para sobrevivência do Estado de Palmares. Pois delas depende a segurança ou a queda desse reino africano, que já se tornara miscigenado no Novo Mundo.

Em meio àquela grande violência e muito derramamento de sangue, o príncipe de Palmares sentiu-se empossado por um espírito guerreiro, que o elevou acima do medo e de todo julgamento de bem e mal. Sua consciência de benignidade para com todos fora anestesiada por um sentido de luta pela liberdade do seu povo oprimido. O que antes para o seu entendimento era remorso transformou-se em fúria libertaria. E a partir daquele sangrento ataque às fazendas dos colonos, N’zambi em pouco tempo passou do desconhecido e pacífico príncipe de Palmares para o temível comandante guerreiro k’ilombola, Senhor das Guerras e de todas as suas demandas.

Já em Tabokas, N’zambi decide levar tudo o que conseguira no ataque, incluindo os escravizados libertos, as mulheres e crianças colonas, e todas as ferramentas, armas, joias e objetos, para a Cerca Real dos Macacos. Acreditava ele, com esses despojos e o exemplo de sua bravura, adquirir o apreço do M’wene K’ilombo, o seu tio N’ganga N’zumba. E ter o respeito dos Mazômbos, na grande Ordem K’ilombola.

No caminho em que percorria em direção à Cerca Real dos Macacos, os k’ilombolas dos muitos kraais e mokambos ficavam sabendo do feito heroico e corajoso de N’zambi. E nisso também se juntavam à comitiva do príncipe Guerreiro. De repente, a comitiva veio aumentando extraordinariamente a cada mokambo e kraal em que passava. Os muitos k’ilombolas entre homens, mulheres, jovens e crianças faziam um grande cortejo com tambores, pandeiros, buzinas, reco-reco e agogôs.

Os k’ilombolas já não se lembravam da última vez em que o K’ilombo fazia uma expedição libertária. E esse evento os animou bastante, fortificando a autoestima que os transformara em guerreiros e guerreiras. De repente o K’ilombo voltou a ser centro operacional da liberdade. E voltou a ter um grande líder libertário e corajoso. E todos saíam gritando e cantando repetidamente, atrás da grande comitiva:

— Viva a N’gola N’janga! Salve o nosso comandante guerreiro! Salve o M’wene K’ilombo! O profetizado das matriarcas k’ilombolas, a Rainha Akualtune e a Curandeira Akotirene. Salve o nosso N’ganga N’zambi.

Ao chegar com todo aquele alvoroço nos portões da Cerca Real dos Macacos. N’zambi adiantou-se, e gritou o mais alto para as sentinelas:

— Irmãos! Desejo falar com o M’wene K’ilombo. Trazemos muitas ofertas para o Grande N’ganga.

As sentinelas, vendo toda aquela gente, se espantou e rapidamente mandou mensageiros ao palácio do M’wene K’ilombo. N’ganga N’zumba, junto a toda sua parentela, os seus oficiais e conselheiros, foi em direção ao grande portão. E, lá chegando, viu uma grande multidão encabeçada por seu sobrinho, N’zambi. E pensou consigo mesmo o que viria ser aquilo.

Esperando o pior, uma revolta ou motim, o M’wene deu ordens aos seus guerreiros para estarem em posição de guerra. E, de cima de uma grande torre de vigia, falou bem alto para aquela comitiva k’ilombola:

— Irmãos! Qual o motivo dessa grande visitação e alvoroço?

N’zambi tomou a frente e gritando respondeu ao M’wene K’ilombo:

— Grande N’ganga, pela glória de nossos ancestrais africanos, trago com grande honra e coragem esses despojos, que foram resultados dos nossos ataques e saques nos engenhos da colônia. Além das muitas almas de mulheres e crianças brancas, e as almas de novos africanos livres. Tudo isso para presenteá-lo, ó Grande M’wene.

Ao ver aquilo, N’ganga N’zumba ficou desnorteado e completamente apavorado. Porque o acordo secreto, em pactos corruptivos e inescrupulosos, que fizera anos antes com alguns líderes colonos e senhores de engenho, fora inesperadamente manchado pelo ataque liderado por seu sobrinho.

N’ganga N’zumba já não mais fazia incursões libertárias, para não importunar os negócios de certos senhores de engenhos, dos quais recebia propinas. E só atacava certas fazendas, em jogos de interesses. Quando esses aliados colonos queriam destruir ou tomar posse de terras e mercadorias de outros senhores menos afortunados, em roubos e saques. E que, mesmo atacando certas fazendas e negócios dos colonos, não mais libertava negros escravizados. Persuadindo os k’ilombolas a aceitarem essa situação, dizendo que o K’ilombo não mais suportava novos residentes. Evitando uma possível superlotação e contingente populacional. Já que o K’ilombo também abrigava muitos escravizados que fugiam por sua própria conta.

Furioso, o M’wene K’ilombo, sem nada a dizer, deu as costas ao seu sobrinho e sua comitiva e foi reunir-se com os seus conselheiros e familiares. N’zambi e os seus seguidores, sem nada entender, diante daquela atitude do grande líder k’ilombola, ao vê-lo descer silencioso da torre de vigia, pensou que o M’wene estivesse vindo ao seu encontro, recebê-los pessoalmente.

Reunido aos seus muitos conselheiros e familiares, N’ganga N’zumba planejou matar seu sobrinho naquele mesmo dia. Apenas só arquitetava um plano de fazer com que a população não percebesse o assassinato. Tudo tinha que parecer um infortúnio acidente. E o M’wene K’ilombo se culpava por não ter feito isso logo quando recebeu o seu sobrinho, quando este regressou ao K’ilombo, fugindo do povoado de Porto Calvo onde vivia.

N’ganga N’zona, o grande chefe das armas, que era o senhor dos exércitos do K’ilombo, ao ouvir o plano de N’ganga N’zumba de receber N’zambi em seu palácio, em festa e agradecimentos para depois o matá-lo, ficou horrorizado e achou aquilo uma grande loucura. Logo, chamou um dos seus súditos, dando ordens para alertar o seu sobrinho N’zambi do grande perigo que o esperava.

N’zambi, que já esperava horas do lado de fora da Cerca Real dos Macacos, ao receber o mensageiro com aquela notícia absurda, ficou em profundo silêncio. E, meditando sobre, lentamente deu as costas partindo em retirada das cercanias do grande mokambo real. Os seus homens e o povo, sem nada entender, vendo que seu líder também nada falara, apenas o imitou. Seguindo-o em um grande cortejo de retorno a Tabokas.

Ao passo em que retornava, N’zambi, mesmo com o coração quebrado por ter sido rejeitado pela sua própria linhagem, manteve-se aparentemente forte. Depois de enfrentar pela primeira vez uma guerra e de se conhecer no campo de batalha, viu que podia ir muito mais além do que ele próprio imaginava. E, também, lembrando-se das palavras do preto velho griot Djeli, a respeito da observação dos seus sentimentos, mantinha-se no controle do carro puxado pelos cavalos selvagens. A única coisa que o preocupava naquele momento era ver o K’ilombo se dividir em dois lados. Por isso, ele se calou, nada falando para os seus homens de confiança a respeito da emboscada de N’ganga N’zumba para o matar.

Antônio Soares, sendo um homem astuto e vivido no mundo das intrigas e covardias, percebeu de imediato uma conspiração, quando viu o jovem do exército k’ilombola indo ao encontro de N’zambi e falando-lhe ocultamente. Ao ver a reação do Príncipe, que, sem motivos aparentemente claros, partiu em retirada, Antônio Soares intentou de que N’zambi corria risco de vida e que fora avisado por algum líder importante que o amava.

Antônio Soares, apressando os seus passos, com a finalidade de caminhar ao lado de N’zambi, ao alcançá-lo, disse:

— Os homens estão confusos, perguntando uns aos outros o porquê de você se retirar daquele jeito da Cerca Real dos Macacos.

N’zambi continuou caminhando sem nada a dizer. E Antônio Soares prosseguiu:

— Tudo bem que você não queira dar satisfações do que se sucedeu. Mas todos perceberam que N’ganga N’zumba o rejeitou no grande mokambo.

A esse respeito, N’zambi disse:

— Ele é o Grande N’ganga, o M’wene K’ilombo. E tem o direito de fazer o que quiser.

— E você, o que vai fazer? — Perguntou Antônio Soares.

— Agora farei também o que quero. Serei um líder verdadeiro para o meu povo. Administrarei um Mokambo. — Disse N’zambi, olhando nos olhos de Antônio Soares.

— Mesmo sem a permissão do M’wene K’ilombo e dos grandes Mazômbos? — Questionou Antônio Soares.

— Tenho a permissão dos meus antepassados, do Grande Espírito Criador de todas as coisas e do povo. — Respondeu N’zambi olhando profundamente para frente.

— Então! Vejo que teremos dois K’ilombos. — Afirmou sorrindo Antônio Soares.

— Não! Já foi dito que uma casa dividida por ela mesma não pode se manter de pé. Honraremos o nosso grande líder k’ilombola N’ganga N’zumba. Pagaremos a ele impostos e lutaremos nas suas causas. — Disse N’zambi com firmeza de voz.

— Mesmo sabendo que ele quer te matar? — Disse Antônio Soares com um sorriso malicioso nos lábios.

N’zambi, sem nada a dizer, adiantou-se. Deixando Antônio Soares para trás, fingindo nada ter ouvido.

Antônio Soares, acreditando ser essa atitude de servidão, uma grande fraqueza de liderança do jovem à sua frente, arquitetava em sua cabeça planos ardilosos para fazer de N’zambi o M’wene K’ilombo. E, assim, ambiciosamente, ter a primazia de ser também um grande líder de forte influência em Palmares.

Nesse ínterim, a carta de manifesto k’ilombola escrita por N’zambi e assinada com o punho cerrado melado de sangue chega às mãos do governador pernambucano, D. Pedro de Almeida. Ao lê-la, e sabendo do massacre e do saque que dizimou as fazendas, engenhos e alguns povoados litorâneos da sua capitania, ficou furioso. E, rangendo os dentes, quase espumando de raiva, rasgou em miúdos pedaços aquele manifesto que o confrontava. E jurou para si próprio ainda no seu governo exterminar do mapa da sua capitania o refúgio dos negros fugidos de Palmares, dizendo:

— Chega! Farei isso, nem que seja a última coisa que eu tenha que fazer na minha vida.

Reunindo em um grande conselho de prioridade máxima os seus regimes governamentais e militares, os cidadãos mais influentes e os comerciantes importantes das vilas e povoados pernambucanos, o governador D. Pedro de Almeida propôs contratar um hábil e experiente sertanista, famoso por exterminar alguns ajuntamentos de negros fugidos na Capitania da Baía de Todos os Santos, dando-lhe a patente de Capitão-Mor da guerra de Palmares.

Este sertanista chamava-se Fernão Carrilho. Conquistador, explorador e aventureiro que se embrenhava pelo sertão, pelo interior da colônia e de suas capitanias em busca de riquezas como prata e ouro. Além de oferecer prestações de serviços particulares aos senhores e governantes, no desbravamento de novas terras conquistadas pela redução, extermínio e às vezes pacificação das populações nativas e k’ilombolas.

Fernão Carrilho, apesar de ser um sertanista muito temido, tinha um temperamento agradável, provido de uma impressionante educação, que lhe rendia uma sagacidade inteligente de conseguir tudo o que queria apenas dialogando. A esse respeito, algumas pessoas diziam que ele era conhecedor de magias, rezas e encantamentos. Preferia mediar as suas conquistas pacificamente, e só utilizava da violência quando o diálogo não funcionava. Sendo um homem de princípios, bom senso, palavra e fé decidida.

Quando jovem, ainda habitando na casa dos seus pais, era um garoto travesso, cheio de brincadeiras e molecagens julgadas como sendo de mau gosto, que incomodavam muito os habitantes do povoado e cercanias onde morava, na Capitania da Baía de Todos os Santos. Em verdade, Fernão era um garoto dotado de uma inteligência e criatividade extraordinárias, muito à frente dos outros garotos de sua época. E, por não ser bem compreendido, era julgado por ser um menino travesso. O que na verdade foi no que ele se transformou em sua adolescência, em revolta a essa incompreensão e discriminação.

Fernão foi um adolescente tão revoltoso e violento, que o seu pai, Pedro Carrilho, pelo fato de o compreender muito bem, porque em sua juventude sofrera do mesmo mal, planejou inteligentemente uma forte lição, que futuramente mudaria o destino do seu filho para sempre. Pedro Carrilho pegou uma corda de forca e pendurou numa das pilastras de madeira da casa em que construirá recentemente. E, toda vez que vinha um vizinho, ou qualquer outra pessoa que fosse fazer reclamações das asneiras que o seu filho aprontava, em más companhias e bebedeiras, o velho pai, calmamente, levava o seu filho até a pilastra com a forca e, com toda calma e simplicidade de um velho sábio, dizia:

— Fernão, seu pai já está muito velho e enfermo, e a qualquer dia desses pode morrer. Você tem sido muito injusto e desobediente com o seu velho pai. Nunca obedecendo os meus pedidos. Mas, diante dessa forca, eu quero que você jure pelo Deus Todo-Poderoso que habita os céus que, quando o seu velho pai morrer, e você, em bebedeiras e asneiras, gastar tudo o que eu te deixei de herança, e mais nada lhe sobrar, até o ponto de você vender a própria casa em que agora mora, não lhe restando nem teto nem cama para dormir, te peço encarecidamente que você venha até essa pilastra e se enforque. É a única coisa que o seu velho pai quer de você.

Fernão Carrilho, ao ouvir essas palavras absurdas do seu pai, achava que o velho já estava caducando. E, sem dar a menor importância ao que seu velho pai dizia, continuava em bebedeiras e asneiras. Pois Pedro Carrilho nunca usou de violência ou demais agressões para educação do rapaz.

Morrendo Pedro Carrilho, Fernão profeticamente fizera quase tudo o que seu pai lhe disse. Gastou toda a sua herança em bebedeiras e festas com os amigos e as raparigas. Sendo que a única coisa que Fernão não fez, pelo medo da promessa que seu pai insistia que ele fizesse, foi vender a casa. E, toda vez que via aquela pilastra com a forca, dizia para si mesmo:

— Nunca prometi ao meu velho pai me enforcar nessa pilastra. Por isso, nunca venderei essa casa, nem que eu passe fome ou fique no perrengue.

Alguns dias se passaram, e Fernão, caminhando pelas margens do Rio de São Francisco, encontrou um dos ajudantes do seu pai, ao qual devia dinheiro, devido a alguns serviços prestados na sua fazenda, depois da morte de Pedro Carrilho. O jovem ajudante, que se chamava Francisco de Aguiar Lobo, vendo-o, disse:

— E aí, Fernão! Cadê meu dinheiro?

— Eu não tenho agora, mas lhe prometo que vou te pagar em breve.

— Em Breve! Já faz meses que você me fala a mesma coisa. Quer saber! Vou te matar e ficar com sua casa.

Assim falando, Francisco avançou em cima de Fernão e os dois saíram se embolando pelo chão em socos, cotoveladas e arranhões. Fernão, por instinto de defesa, pegou uma pedra de médio porte e deu uma coronhada no lado esquerdo da cabeça de Francisco com tanta força, que o jovem à sua frente levantou, saindo falando coisas sem nenhum sentindo, até desmaiar e morrer ali mesmo. Fernão, ao ver Francisco morto, apavorou-se! Cometeu o seu primeiro assassinato mais ou menos com quinze anos de idade. Rapidamente, pegou o cadáver do jovem e desaguou no leito do rio de São Francisco. Foi correndo para sua casa e, adentrando-a, se encostou na porta que continha a pilastra onde estava a forca. Pegou uma garrafa de cachaça que estava pela metade e bebeu de uma só vez.

Ofegante, e com o coração batendo fortemente acelerado, Fernão olhou para aquela pilastra e, vendo a forca que seu pai fizera, disse em voz alta:

— Nunca cumpri minhas promessas para com você, né, Papai? Mas essa promessa que o senhor me pediu muitas vezes com toda sua calma, toda vez que eu me metia em encrencas, cumprirei agora!

Sem muito pensar, Fernão puxou um banco alto de madeira com quatro pernas. Subiu. Colocou a forca em seu pescoço e rapidamente empurrou o banco com os pés, enforcando-se.

Porém, para sua maior surpresa ao se enforcar, caiu no chão esparramado. Sendo que em seguida uma chuva de moedas de ouro e prata o banhava. Seu pai fizera uma pilastra oca repleta de moedas de ouro e prata, onde colocou a corda daquela forca. Ao se ver com toda aquela riqueza e abençoado pela dádiva de se ter uma segunda vez para recomeçar, Fernão abandonara a casa do seu pai, deixando-a para a família do seu ajudante que por legítima defesa assassinara. Prometendo por toda a sua vida não fazer nenhum mal a qualquer indivíduo de nome Francisco.

E, também, prometeu para si mesmo, jurando pela alma do seu pai, que nunca mais na sua vida uma gota de cachaça entraria em sua boca. E que de cada moeda que recebera do seu amado pai faria cem moedas iguais. Tonando-se a partir daquele dia um jovem responsável, vindo a ser um astuto empreendedor e valente bandeirante. E foi assim que Pedro Carrilho, com toda a sua sapiência, mesmo depois da sua morte, educou o jovem Fernão.

Fernão se tornara um desbravador tão famoso e temido na Capitania da Baía de Todos os Santos, que logo chamou atenção do governador-geral do Estado do Brasil, D. Alexandre de Sousa Freire. Que o contratou para destruir alguns mokambos no sertão de Jeremoabo e nas baixadas do rio Sergipe, dando-lhe a sua primeira patente de oficial sertanista, capitão das entradas. A partir daquele momento em que Fernão Carrilho recebera do governador-geral a sua patente de oficial, ele começou a receber inúmeras propostas de trabalhos. Tanto de caráter particular, em serviços prestados para senhores e mercadores, como também prestações de serviços para os governantes e eclesiásticos.

Abriu caminho pelos sertões para expedição da implementação do Regimento das Minas de Prata Itabaiana, representado pelo fidalgo e grande conhecedor de jazidas de prata D. Francisco de Castelblanco. E, por isso, também acompanhou a expedição para descoberta de novas minas de prata na serra do Picaraçá, encabeçada por Jorge Soares de Macedo, primo e ajudante do Fidalgo Castelblanco.

O sertanista chegou à Capitania de Pernambuco alguns meses depois do ataque k’ilombola às vilas litorâneas. Fernão Carrilho, de posse da sua patente de Capitão-Mor, para liderar a guerra com o objetivo de destruir Palmares, contrata em sua maioria os mesmos homens que lutaram nas expedições de guerrilhas contra a ocupação holandesa. Entre eles estavam capitães-do-mato, homens experientes em guerrilhas e ataques, nativos conhecedores da geografia local, além de tomar posse de alguns negros escravizados das fazendas de certos senhores que contribuíam com dinheiro e mão escrava para a campanha de aniquilar Palmares.

Entre os seus soldos contratados estava um experiente combatente chamado Manoel Inojosa, que acabara de regressar das lutas contra os Nativos Tapuias no sertão. E que antes estava em Angola, atuando no resgate às forças do então governador D. André Vidal de Negreiros.

Várias reuniões com os maiorais da Capitania de Pernambuco foram convocadas pelo governador D. Pedro de Almeida para preparar e financiar a campanha de Fernão Carrilho. O sertanista, vendo que essas inúmeras e cansáveis reuniões em nada davam, pelo contrário, só trazendo divergências e desavenças entre os seus participantes, movidos pela insatisfação de verem os seus interesses pessoais frustrados pelos interesses do governo, sendo que também não estava nem um pouco satisfeito com a proposta que D. Pedro de Almeida lhe ofereceu, para pôr em pratica essa grande empreitada, e percebendo o limite autoritário do governador pernambucano e as suas lideranças governamentais, perante as câmeras municipais coloniais, que era formada por grupos de grandes produtores, comerciantes e influentes fazendeiros com títulos de capitães, decide reunir-se particularmente com as câmaras de cada vila e povoado, para consecução do seu ofício. Tratando diretamente com os senhores de engenhos, fazendeiros e representantes interessados na campanha contra Palmares.

Carrilho, meticulosamente estudando em toda reunião o perfil de cada participante, chegando a conhecer quem verdadeiramente tinha o poder de mandar e desmandar nas decisões de maiores interesses da Capitania de Pernambuco, identificou alguns principais homens de maior influência e fora reunir-se com eles em um secreto concílio amistoso, na câmara do povoado de Porto Calvo, que se transformou na sede das campanhas de guerra contra Palmares. Estavam presentes nessa reunião o Capitão-Mor de Porto Calvo, Sibaldo Lins, o Capitão-Mor de Alagoas, João da Fonseca, o Capitão-Mor do Rio de São Francisco do Sul, Clemente da Rocha Barbosa, entre outros chefes e homens importantes dessas principais vilas e povoados.

Porto Calvo, por ser uma das poucas regiões mais prósperas e seguras do sul da capitania pernambucana, Graças aos seus inúmeros e grandiosos engenhos de açúcar, pertencentes à família Lins, descendentes do desbravador e também sertanista Cristóvão Lins, se tornou o centro operacional da expedição de Fernão Carrilho. A família Lins tinha inúmeros motivos para exterminar de vez aquele reduto dos negros fugidos. Pois cinco anos atrás os k’ilombolas de Palmares incendiaram quase todos os campos de plantações de cana-de-açúcar dessa poderosa família de senhores de engenho. Isso aconteceu em represália a uma das muitas e fracassadas campanhas financiadas por essa família, sob o comando do Capitão-Mor Antonio Jácome Bezerra, para destruir Palmares. Assim, os Lins se tornaram os maiores financiadores das campanhas de Fernão Carrilho, cuidando de toda a sua logística e suprindo todas as necessidades armamentistas e alimentares das tropas.

Oito meses se passaram depois daquela primeira expedição que N’zambi realizara nas vilas e povoados litorâneos. Depois daquela campanha libertária k’ilombola, a N’gola N’janga nunca mais fora a mesma. N’zambi ganhara o apreço dos k’ilombolas dos mokambos de Tabokas. E os dois mokambos em um grande concílio, em que estavam presentes os chefes de todos os kraais e o povo, decidiram unir-se ao príncipe guerreiro. Destituíram dos seus cargos de poder os dois chefes maiorais dos mokambos, e elevaram o príncipe guerreiro da linhagem dos antigos M’wene Kongos ao cargo maior. Sendo o Príncipe de Palmares, o novo administrador dos mokambos de Tabokas, que pela sua união se tornou o Mokambo Unido de N’zambi, ou simplesmente Mokambo de N’zambi, como ficou conhecido.

N’zambi continuou a fazer periodicamente expedições libertárias. Mas dessa vez não atacava as fazendas saqueando-as, nem levava nenhum colono ou colona de sequestro. E só usava da violência quando era necessário. Apenas atacava as senzalas à noite, e de dia atacava as lavouras libertando o seu povo africano do muito sofrer e do muito trabalhar. Assim, N’zambi os livrava! Levando-os para o seu mokambo. E para cada expedição libertária deixava uma carta em que estava escrito um manifesto de liberdade do seu povo negro. A imagem de N’zambi em tão pouco tempo se tornara notória em toda N’gola N’janga, como também em todas as senzalas, engenhos, casas, povoados e vilas pernambucanas. Seus grandes feitos, palavras e condutas voavam longe e rápido como o vento, nas bocas dos muitos negros escravizados e nativos. Os africanos em seus muitos ritos religiosos assemelharam N’zambi a Xangô, o Deus da Guerra e da Justiça.

N’zambi completou mais ou menos a idade de vinte oito anos, estando agraciado dos muitos conhecimentos sendo a ele ofertados. Isso por ser lapidado nas muitas experiências de vidas dos seus antepassados. Ao ouvir e relatar, valorizar e transmitir o Entendimento Ancestral dos velhos povos, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães.

N’zambi, sendo o senhor do seu mokambo, transformando-se no grande líder k’ilombola adestrador de homens e mulheres nas guerras libertárias, ao caminhar sozinho em plena noite sem lua, em direção à pedra do monte onde o seu Professor costumava contar suas muitas histórias, lembrou-se carinhosamente do preto velho Djeli. E, sentado na grande pedra, varria com os olhos a vastidão do céu procurando a Grande Estrela, aquela que mais brilha. Encontrando-a, nela fixou sua atenção, recordando-se das conversas que tinha com o preto velho griot. E em especial, por ocasião do seu dia natalício, lembrou-se do dia em que perguntou a idade do seu tutor, dizendo:

— Quantos anos você tem, Djeli?

— Nós guardiões do Sagrado e Eterno Contínuo, assim como os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães, não contamos os anos nem vivemos pelo seu acúmulo de dias.

— Então, é um erro contar os nossos anos de vida?

— Não é que seja um erro saber da nossa idade, mas a forma que hoje se interpreta a contagem dos nossos dias de vida é que está errada.

— Como assim, Djeli?

— Os nossos Primeiros Pais e as Nossas Primeiras não contavam os anos e nem os dias. Mas observavam os ciclos. E viviam e evoluíam através desses ciclos, que mais ou menos chegam a ser o acúmulo de sete anos, pelo calendário gregoriano de hoje. Então, a cada sete anos, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães percebiam que algo mudava em seu ser. Percebiam uma mudança tanto de dentro como de fora dos seus corpos, e viam que a cada ciclo Eles e Elas se tornavam uma nova pessoa. Com novos conceitos, novas visões de mundo e novos gostos e interesses. Os pensamentos da trajetória de vida dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães não eram uma linha reta do tempo progressiva ou regressiva como as pessoas entendem ser hoje. Eles e Elas entendiam a trajetória de suas vidas como o desdobramento da espiral. Evoluindo, crescendo e transcendendo em ciclos de expansão, até se perder no grande vazio da morte. Quando a consciência se liberta do casulo de carne, alçando voo para uma nova vida de muito maior liberdade.

— Isso significa que a cada sete anos eu sou uma nova pessoa?

— Do seu nascimento até os sete anos, que compreende o primeiro ciclo, sendo a primeira volta que desenrola a espiral, você adquiriu certos conhecimentos específicos que mudaram a sua percepção de ver o mundo, te fazendo interagir com mais maturidade. Dos sete aos quatorze anos, você inicia o desenrolar da segunda volta da espiral, estando no segundo ciclo. Já aos quatorze anos você se tornou uma pessoa completamente diferente, comparando com aquele menino de sete anos. Daí por diante você se renova ou recomeça a cada ciclo vivido, aos vinte um... vinte oito... trinta e cinco... quarenta e dois... quarenta e nove e por aí vai.

Agraciado pelas suas lembranças, N’zambi resolveu passar aquela noite meditando sentado na pedra do monte. Fortificava-se na sabedoria dos ancestrais do seu povo, recordando-se das suas muitas memórias, na imagem do preto velho griot Djeli.

Depois da expulsão dos holandeses, havia grandes interesses por parte dos governantes, senhores de engenhos, fazendeiros e demais mercadores para destruição do imenso refúgio dos negros fugidos. O fim de Palmares representava para a colônia, principalmente para a capitania pernambucana, o tão sonhado sossego aos ataques e saques que sofriam os seus negócios. Além, também, de cobiçarem as terras palmarinas para estender as suas plantações, tomar posse dos seus diversos animais e se apropriar da população negra e nativa para mão de obra escrava.

Com a nova crise do açúcar, causada pelo aumento excessivo da sua produção nas colônias portuguesas e espanholas, fazendo com que o seu preço caísse absurdamente nos mercados europeus, tornando essa mercadoria um insumo de consumo popular, a situação na capitania pernambucana, por ser o maior produtor de açúcar da região, se agravava a ponto de deixar os senhores de engenhos em grandes dificuldades financeiras. Também houve um consequente aumento de impostos por parte da coroa portuguesa e dos governadores das capitanias coloniais. Isso em consequência da baixa do açúcar na Europa, e posteriormente dos dotes pagos à coroa inglesa, referentes aos acordos de paz, realizados depois da derrota dos holandeses nas terras do Novo Mundo.

Devido a esse quadro de decadência financeira que inundava a Capitania de Pernambuco, a guerra de Palmares representava uma pedra no sapato dos colonos pernambucanos. As campanhas com suas tropas requisitavam das vilas e povoados muitos mantimentos, munição, escravizados, nativos e fundos financeiros para o pagamento dos soldos e capitães. Como também, consequentemente, geravam atrasos nas suas produções agrícolas e mercantis, pelo fato dos seus maiorais estarem atarefados com toda a logística da guerra.

Apesar da destruição de Palmares ser de interesse comum dos colonos pernambucanos, muitos dos senhores de engenhos e demais proprietários de terras e negócios, preferiam estabelecer um pacto de convivência com os k’ilombolas, pagando elevados dotes para não serem por eles importunados. Sendo que também pagavam inúmeros impostos à coroa, e ainda eram obrigados a contribuírem financeiramente para custear as campanhas contra Palmares, deixando as lutas como tarefa das autoridades governamentais.

A coroa portuguesa, de mãos atadas diante de uma grave crise comercial europeia, se queixava continuamente perante os governadores-gerais das suas colônias de vários problemas financeiros. Exigindo exageradamente dos colonos e proprietários de negócios mais e mais impostos. Chegando ao ponto de alguns colonos proprietários de engenhos de Porto Calvo e demais vilas e povoados pernambucanos arrematar as joias do ornato de suas mulheres em praça pública, para quitar suas dívidas com Lisboa.

Ao mesmo tempo, terríveis epidemias assolavam as colônias, debilitando os seus moradores. E inúmeras revoltas, também, por parte dos nativos, que eram chamados pelos colonos de “gentis”, dizimavam muitos recursos e soldos. Imbuídos em sérios e graves problemas, era necessário um milagre para aliviar a situação dos colonos pernambucanos. E esse milagre estava representado na figura do sertanista Fernão Carrilho, com sua campanha de colocar um ponto final em Palmares.

Perante todos esses fatores negativos que assolavam a Capitania de Pernambuco, a posse dos bens do K’ilombo, incluindo suas terras, população, riquezas, artefatos agrícolas e artesanais, representava para o governo, líderes militares e senhores mercantis uma grande fonte de riquezas, que os livraria dos seus muitos problemas financeiros, o que atrapalhava em muito as campanhas expedicionárias, complicando as mediações do capitão Fernão Carrilho, pelos jogos de interesses e cobiças entre os cabedais da inveja, que disputavam o seu quinhão com unhas e dentes, nas reuniões para aniquilação de Palmares.

Carrilho se viu em meio a um labirinto sem saída. Mas não pensava em desistir daquela difícil empreitada, pelo fato daquela campanha lhe render inúmeros prestígios na colônia. E, vendo as divergências dos líderes e governantes que o financiavam, achou inúmeras brechas para também enriquecer com a destruição de Palmares. Angariando terras, negros escravizados, gentis e possibilidades de encontrar jazidas de ouro e prata naquelas serras palmarinas.

Sendo um experiente sertanista, Carrilho procurou conhecer quem eram os seus inimigos e quem os liderava. Tomou nota de todas as expedições que haviam sido enviadas a Palmares, como os primeiros cercos portugueses até a expedição do oficial português Bartolomeu Bezerra, por determinação do então governador-geral do Estado do Brasil Diogo Botelho; as duas tentativas de invasões holandesas; as três consecutivas expedições financiadas pelos Lins, encabeçadas pelos capitães Brás da Rocha Cardoso, Jácome Bezerra e Antônio Dias; a expedição de João de Freitas da Cunha; e as duas últimas expedições fracassadas, organizadas pela mesma câmara de governantes e capitães das vilas e povoados de Porto Calvo, do Rio de São Francisco do Sul e Alagoas, que financiava a sua campanha.

Diante de todo esse conhecimento histórico, e com os relatos de alguns combatentes e capitães dessas expedições, Carrilho avaliou os erros e os acertos, os fracassos e os sucessos dessas empreitadas. Também fora entrevistar alguns negros fugidos que foram capturados nessa expedição, mas não obteve nenhuma informação valorosa, e entrevistou alguns gentis que pouco colaboraram.

Entretanto, secretamente Carrilho corrompeu um negro escravizado para ser um espião em Palmares, em troca de uma carta de alforria. E este, chegando à Cerca Real dos Macacos dizendo ter se libertado de um engenho e fugido, retornava a Porto Calvo de três em três meses, com um dossiê de informações a respeito de todos os aspectos da vida do grande refúgio dos negros. Munido de toda informação que julgou ser necessária, e após nove meses de preparativos, com todas as dificuldades financeiras e partidárias diante da sua campanha. O capitão Fernão Carrilho, mesmo com sua tropa, provisões e armas reduzidas ao que havia sido combinado nas reuniões, conseguiu alguns recursos que jugou ser por ora suficiente para iniciar sua expedição a Palmares.

E, encorajando os seus homens, que não estavam nem um pouco satisfeitos perante o efetivo pagamento que também foi reduzido, sendo inferior ao contratado nas reuniões com os maiorais das câmaras pernambucanas, disse:

— Homens, esse pagamento prometido a vocês pelas câmaras pernambucanas não passa de gorjeta diante dos muitos despojos que podemos angariar nessa guerra. Se nos empenharmos ao máximo e vitoriosos pormos fim a Palmares, seus negros fugidos e gentis rebeldes, prometo-lhes um quinhão de terras para que cultivem suas culturas, negros para os seus serviços, honra para sua estima e gentis para suas guardas e mulheres.

Com os soldos satisfeitos pelas suas promessas, Carrilho apressou-se em alavancar suas tropas para expedição contra Palmares. Também, além dos despojos conseguidos nessa guerra, ambicionava a posse das vinte léguas de terras palmarinas, prometidas a ele pelo governador D. Pedro de Almeida.

Apesar das preocupações de N’zambi, o K’ilombo dos Palmares se encontrava politicamente dividido. E uma fronteira cultural partidária emergiu no território k’ilombola, dividindo-o em dois grandes polos políticos. A região do norte compostas pelos mokambos de Amaro, Akotirene, Dambrabanga e os dois mokambos de Tabokas que se fundiram estava sob a liderança de N’zambi. E a região do sul composta pelos mokambos de Akualtune, Subupira, Engana-Kolomim, Osenga, Andalakituche e a Cerca Real dos Macacos estava sob a liderança de N’ganga N’zumba.

Sendo que N’zambi incentivava todos os kraais dos mokambos em que liderava a continuarem servindo e pagando seus impostos ao Grande Rei, N’ganga N’zumba, afirmando para os seus seguidores ter a N’gola N’janga um só M’wene K’ilombo. Mesmo recebendo todos os impostos do K’ilombo do norte, N’ganga N’zumba planejou ardilosamente atacar N’zambi em seu mokambo. O M’wene K’ilombo só não deu andamento a esse ataque porque o Parlamento da Ordem K’ilombola não permitiu. Desconsiderando esse absurdo ataque civil, em que chegaram à conclusão de o Grande Rei já estar insano, devido aos muitos anos de combate e sua idade avançada.

N’ganga N’zumba, desde que se tornou o M’wene K’ilombo, não tinha mais ânimo pela vida. Depois que foi rejeitado pelo Sagrado e Eterno Contínuo, já não conseguia ouvir as vozes dos seus ancestrais africanos. Tornando-se um homem ambicioso, corrompendo todos os ideais libertários da causa k’ilombola, em pactos financeiros com colonos. Além, também, de avassalar alguns dos muito negros que fugiam para o K’ilombo em busca de liberdade.

Quando jovem, também fora educado pelo ancião Djeli e criado pela curandeira Akotirene. Fora treinado na arte das táticas de guerrilhas florestais, junto aos nativos habitantes das florestas e os negros fundadores do K’ilombo. Cresceu adquirindo um grande saber, até ter a primazia de substituir a sua mãe na administração da N’gola N’janga. Porém, sua decadência veio com o nascimento do seu sobrinho N’zambi. Pelo qual o grande oráculo do K’ilombo, representado na pessoa de Akotirene, revelou a Akualtune que o libertador do povo africano estava prestes a chegar, com a gravidez da sua filha, a princesa Sabina.

Daquele dia em diante, já não importavam para os grandes chefes e o povo palmarino os grandes feitos de N’zumba. Pois toda atenção dos k’ilombolas estava naquela criança prestes a nascer, que se tornaria o libertador do povo negro. A rainha Akualtune decretou sete dias de festa depois que N’zambi nasceu. Pois fora ela quem primeiro ouviu e propagou a profecia do oráculo k’ilombola. Foi decidido pelo Parlamento da Ordem K’ilombola que o jovem seria educado na arte da guerra e de todo conhecimento oculto dos africanos. Pois o enviado libertador seria rei e sacerdote ao mesmo tempo. Encarnando numa só pessoa as decisões de estado e religião.

Mas, para o desespero dos k’ilombolas e tristeza da rainha Akualtune, que depois veio a desfalecer, a criança N’zambi, o prometido dos espíritos ancestrais africanos, foi sequestrada e dada como morta pelos colonos portugueses, no grande incêndio provocado pela primeira das três expedições promovidas pela família Lins, que destruiu boa parte de Palmares.

Devido a essa grande tragédia que sofreu a N’gola N’janga, a rainha Akualtune, com a perda de alguns dos seus filhos e muitos dos seus bravos guerreiros, vendo a esperança do seu povo morrer, com a suposta morte do menino profetizado, perdeu suas forças internas e o seu vigor físico desfaleceu. Logo, veio a adoecer e depois de alguns anos veio a falecer de tristeza. Fazendo com que o seu primeiro filho, N’ganga N’zumba, que já há muito tempo tomava as decisões importantes da N’gola N’janga, por ser o comandante das armas, se tornasse o grande e primeiro M’wene K’ilombo.

Com a morte da Grande Mãe K’ilombola, a N’gola N’janga nunca mais fora a mesma. O que era o símbolo de liberdade para o povo negro escravizado se tornou em um complexo Estado Africano com um chefe hereditário e autoritário, súditos com autonomias e cargos administrativos, além de muitos vassalos. Que para sobrevivência do Estado era preciso fazer parcerias e consolidações com os nativos habitantes das florestas, e algumas vilas e povoados da colônia portuguesa, devido a seu grande crescimento naturalmente repentino e desorganizado.

FIM DO DÉCIMO SÉTIMO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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