O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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21. Capítulo 16 - ע (AYIN) O VISIONARIO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ע

AYIN

O VISIONARIO

 

Na manhã bem cedo, N’zambi despertou decidido a lutar pela causa do seu povo africano escravizado e sentiu que já era tempo de executar o seu plano. Acordou Antônio Soares junto aos outros quatro rapazes k’ilombolas e desviou-se do caminho em direção à Cerca Real dos Macacos, indo direto para o litoral. Antônio Soares, junto aos quatro rapazes k’ilombolas, perplexos, nada entenderam daquela decisão inusitada de N’zambi, e o questionou:

— N’zambi, para onde estamos indo?

— Atacar as fazendas do litoral. Conseguir armamentos e libertar nossas irmãs e irmãos africanos.

— Mas, N’zambi, isso é loucura. Devemos primeiro recrutar mais k’ilombolas e conseguir armamentos também. Eu sei de um lugar no Mokambo de Amaro que podemos conseguir muitas armas de fogo e munição.

— Não! — Exclamou N’zambi em um tom de voz firme e decidido. — Vamos conseguir tudo sem as armas do exército k’ilombola. Assim, N’ganga N’zumba não terá argumentos para nos desfavorecer, dizendo que conseguimos esse grande feito roubando as suas armas e recrutando os seus homens.

— Mas isso é impossível! Vamos morrer agindo assim.

— Cale-se, demônio! E não se acovarde, Antônio Soares. O impossível só será inacessível se assim você acreditar. Tudo é possível para o homem de fé decidida. E as coisas que se dizem impossíveis é o que agora eu mais almejo.

— Você tem um plano?

— Ainda não. Mas vamos chegar de tocaia e estudar toda a geografia do lugar. Marcar trilhas de fuga, vigiar e observar o que acontece nessas fazendas. Passaremos alguns dias ao redor das matas que cercam essas vilas litorâneas. Depois, quando obtivermos todas as informações devidas, atacaremos.

— Você é louco, homem!

— Louco! Por que sou louco? Ou será que coragem, fé e força são loucuras? Coragem, fé e força são ferramentas para serem usadas quando delas precisamos. Loucura é não saber que dispomos dessas ferramentas, que são mais poderosas do que qualquer arma de fogo e assim, nos acovardar diante das intempéries da vida. Acreditar e sentir no coração que já é, já se tem e que pode. É a magia e o segredo de fazer tudo acontecer, meu amigo.

N’zambi disse isso colocando a mão no ombro de Antônio Soares e o encarando no profundo dos seus olhos. E, se afastando, subiu numa pedra e, olhando para os cinco homens à sua frente, disse em tom firme de voz:

— Vocês estão preparados para irem comigo, enfrentar o medo que há dentro de vocês? Pois eu também estou com muito medo. Nunca entrei em uma batalha antes. E eu garanto que, se nós agora vencermos esse medo, venceremos os nossos opressores nessa batalha. Eu posso ver nossas mãos vitoriosas erguidas para cima, com os nossos punhos cerrados e banhados de sangue dos nossos malfeitores. Eu consigo sentir a alegria e ouvir os gritos de vitórias e agradecimento dos nossos irmãos e irmãs, pelo fato de os termos libertados. Quebrando, assim, as correntes dos seus pescoços, mãos e pés. Eu sinto no mais profundo do meu coração, e vejo todos nós nesse mesmo lugar de agora, dando graças e louvores aos nossos antepassados ancestrais e ao Pai e Mãe de Toda a Criação. Por nos conceder a vitória de voltarmos dessa empreitada são e salvos. Vocês acreditam nisso?

E todos, encorajados pelas palavras de N’zambi, gritaram com todas as suas forças:

— Sim! Nós acreditamos!

E, assim, de imediato, eles começaram a planejar, treinar e confeccionar armas primitivas de guerra. Como atiradeiras de pedras, arco e flecha e algumas estólicas, que nada mais eram do que uma espécie de lança fina um pouco maior do que uma flecha, com três penas fixas em sua traseira, que era arremessada através de um pequeno bastão do tamanho de um antebraço humano, com um gancho em uma das suas extremidades, que servia como um propulsor, prologando o braço humano e multiplicando sua força, aumentando, assim, a velocidade inicial de lançamento dessa lança de médio porte, podendo atingir o seu alvo a mais de duzentos passos de distância.

Também, cada um trazia consigo algumas armas de defesa pessoal, em que eram extremamente habilidosos. Antônio Soares trazia em sua cintura duas garruchas e uma cartucheira de couro, com umas poucas munições. Além de sempre trazer em sua cintura um katar, que negociara quando ainda era capitão do mato, com um mercador português que trazia iguarias, armas, ferramentas e utensílios das Índias Orientais. O katar é uma adaga composta por uma lâmina de dois gumes, fixadas a um bracelete apoiado pelo punho cerrado. Essa afiada lâmina, ao ser empunhada, dava uma nova formação ao braço, estendendo-o. Era muito usado pelos mercenários das Índias Orientais, para executar suas vítimas com muita velocidade, precisão e silêncio. São perfeitas para perfurar escudos e armaduras. E também eram utilizadas para cortar carne e matar bois com extrema facilidade.

M’panzu era habilidoso com a zarabatana, uma arma que consiste num tubo originalmente de madeira, pelo qual são soprados pequenos dardos, setas ou projéteis envenenados com o curare. Veneno extraído das plantas das florestas que imobilizava imediatamente a vítima. Uma vez que a reação venenosa se iniciava nos músculos do pescoço, seguia para os músculos da nuca e depois descia para os músculos dos membros superiores e inferiores. Posteriormente atingia o diafragma e os músculos cardíacos. Sendo o intoxicado morto depois por asfixia. A zarabatana era confeccionada utilizando o caule de uma palmeira de nome paxiúba, com três a cinco varas de comprimento e de duas polegadas de diâmetro. O tronco era partido longitudinalmente, a sua medula era removida e as duas partes eram unidas novamente com o auxílio das fibras e das seivas extraídas das cascas de algumas árvores. A parte com o bocal era mais larga, e a arma afinava em direção à outra extremidade. A flecha da zarabatana, que media de um palmo e meio a dois palmos de comprimento, era feita do cerne de algumas palmeiras. A ponta era meticulosamente afinada, e na sua base ia um chumaço de paina, uma fibra natural semelhante ao algodão oriunda dos frutos da paineira, em que se ajustava ao diâmetro interno da zarabatana.

Toko era muito habilidoso com as atiradeiras de pedra, a funda. Uma arma de arremesso constituída por uma correia de couro ou corda dobrada feita das cascas verdes de biriba, em cujo centro é colocada a pedra que se deseja lançar.

Miala tinha uma habilidade incrível com arremessos de punhais e azagaias. Uma lança de porte médio constituída por uma haste de madeira, contendo uma ponta de pedra ou de ferro bem afiada.

Já N’kanga era hábil em manejar o arco e flecha.

E N’zambi não tinha muitas habilidades com armas para guerra. Mas aprendera a usar bem o facão que ganhara do preto velho griot Djeli. Tornou-se muito habilidoso com essa ferramenta, na colheita de madeiras para construção e abertura de trilhas pelas matas densas da serra em que abrigava o K’ilombo. Além, também, de manejar muito bem o facão para caçar e se defender dos muitos animais selvagens, como os jaguarés e as cobras. E, também, das muitas habilidades que adquiriu nas danças de guerra com o facão, nas animadas festas e batucadas circulares, que imperavam nas noites escuras e enfogueiradas dos mokambos. Em que jogava e se divertia com os seus amigos k’ilombolas, dançando o Maculelê.

Também todos os moços eram hábeis nas lutas corporais. Pois os k’ilombolas, por costume, diversão e necessidade, todas as noites se reuniam em seus kraais para dançar, brincar e lutar a tradição dos primeiros africanos libertadores. O que veio a ser conhecido muito tempo depois como a Capoeira. Era através desta tradição, com que transformavam o seu tempo livre de diversão e brincadeiras em uma perigosa luta, que os k’ilombolas se mantinham sempre em disposição e preparados para guerra, que constantemente os rodeava. E era também através desta tradição que os guerreiros Mazômbos descobriam os mais hábeis e fortes jovens, para formarem seu exército k’ilombola.

Munidos de suas armas e de grande determinação, os seis moços partiram em uma jornada de semanas, cruzando as densas matas, em direção à costa marítima da capitania pernambucana. Lá chegando, depois de três semanas de uma longa, perigosa e cansativa caminhada pelos densos morros e florestas, acamparam numa região florestal que beirava os manguezais, distante das vilas e fazendas. Pois já era tardinha e a noite não demorava a chegar. Passada a noite e bem cedo antes do sol nascer, N’zambi, Antônio Soares, N’kanga, Miala, Toko e M’panzu já estavam todos preparados e empunhados com suas armas de guerra. Os seis moços k’ilombolas camuflaram os seus corpos com a lama acinzentada do mangue e depois os cobriram com as folhas verdes e os cipós das árvores. Daí, com muito cuidado, partiram beirando o litoral, por entre as matas e vegetações, chegando na área conhecida pelos colonos como Sesmaria Jaguaribe.

Como planejado, se assentaram nas vegetações costeiras às fazendas e aos engenhos daquela região por quatro dias. Minuciosamente estudaram os mais relevantes aspectos dos seus habitantes. Como os seus afazeres diários, os mais importantes pontos comerciais e de trocas, a guarda colonial e a casa das armas, as vias e caminhos de acesso às vilas e fazendas, bem como espaços comunais mais frequentados, ou menos movimentados durante o dia e a noite, obtendo informações precisas para o ataque e a fuga.

Com a posse de toda essa informação, e antes de iniciar o primeiro ataque, decidiram primeiro sequestrar um negro escravizado que se encontrava sozinho no início da manhã, pescando em uma canoa por entre os manguezais. Eles o sequestraram e o levaram para dentro das matas, com o propósito de ter mais informações internas das fazendas e engenhos da Sesmaria de Jaguaribe. Já que suas análises foram estudadas de fora, vigiando-os, em cima das copas das altas árvores que beiravam as vilas. Este homem negro, aparentando mais de quarenta anos, se chamava Nicolau. Sendo ele um escravo feitor, título esse que os senhores de engenhos e fazendeiros colonos davam ao escravizado que administrava os seus escravos na produção, trabalho e conduta social.

Nicolau era um escravizado nascido e criado na Fazenda de São Bento de Jaguaribe. Propriedade dos monges beneditinos, que se constituía de uma capela onde vários habitantes da região se reuniam em suas práticas católicas religiosas. Em que também havia uma olaria, onde fabricavam telhas, louças, vasos, entre outros utensílios de cerâmicas. Um engenho de farinha de mandioca. Uma casa onde se produzia sal. E também dispunham de uma área agrícola em que cultivavam arroz, feijão, milho, mandioca, cânhamo, entre outros legumes e hortaliças, e muitos viveiros de animais. Além de possuírem um dos principais fornos de cal da capitania pernambucana, popularmente conhecido como: Forno de Cal de São Bento.

De início Nicolau se recusou a dar informações à incursão k’ilombola de N’zambi. Mas, sob pressão dos k’ilombolas, ele aceitou a contribuir. Fazendo um apelo e impondo apenas a seguinte condição: de que eles poupassem a fazenda dos beneditinos dos seus ataques, dizendo ele ser os monges homens piedosos com sua gente escravizada, dando-lhes certos direitos, liberdades e deveres sociais que nenhuma outra fazenda ousaria em lhes conceder.

Ao ouvir isso, Antônio Soares o questionou:

— Como pode esses monges serem homens bons e piedosos? Já que você consta de uma certa idade, e nem uma carta de alforria lhe concederam.

Antônio Soares disse isso, pois ele, sendo antes capitão do mato, bem sabia que os senhores escravagistas de bom coração davam cartas de alforria aos seus escravizados que ultrapassavam a idade de quarenta anos, já que não era muito comum para a maioria dos escravizados chegarem até essa idade, em virtude da fadiga do trabalho árduo, má alimentação e precárias condições de higiene em suas senzalas, que defasavam os seus ânimos, bem-estar e, assim, as suas saúdes.

E Nicolau lhe respondeu:

— Eu não sou alforriado por minha própria escolha e vontade. Os monges resolveram em um conselho entre eles me conceder tal condição. Mas, porém, eles não tinham outra pessoa capacitada como eu para administração dos trabalhos. Então, eles me pediram para ficar, sendo que eu dispunha de toda liberdade como um homem livre. Por isso vocês me encontraram sozinho, a essa hora da manhã, pescando.

Ouvindo isso, N’zambi investigou:

— Me diga, Nicolau, como os monges tratam o nosso povo em seus domínios?

E Nicolau disse:

— Os monges beneditinos nos permitem formar uma família. Nos casamos em sua fé católica e, quando nos unimos, recebemos o direito de construir uma casa nas terras da senzala. Às mulheres com mais de quatro filhos é reduzida a carga de trabalho, tendo elas tempo de cuidar das crias. E as que têm mais de sete filhos podem escolher o tempo que quiser para trabalhar, geralmente elas são as lavadeiras de roupas, costureiras ou cozinheiras. Os monges educam e brincam com os nossos filhos, os ensinam a ler e escrever. E, quando veem que algum deles tem um potencial especial, os incentivam a trabalhar fora da fazenda para outros colonos e, com o dinheiro ganho, eles guardam em economias para depois comprarem as suas cartas de alforria. Nossos trabalhos são bem divididos, não sobrecarregando ninguém. Temos, além das datas religiosas, um dia na semana de descanso, isso além do dia santo para eles, que é o domingo, portanto, não trabalhamos também no sábado. E, ao chegarmos à idade de trinta e cinco anos, nos é dado o direito de trabalhar por dinheiro, sendo que todo arrecadamento é nosso. Assim, uns economizam para pagar sua alforria, antes que os monges lhe concedam com a idade de quarenta anos. Outros juntam em economias para, quando estiverem alforriados, comprarem terras e escravos. Outros também economizam para, quando chegarem na idade de serem alforriados, comprarem seus filhos e filhas como escravos deles, para viverem em liberdade.

Ouvindo isso, N’zambi lhe disse:

— Nicolau, me leve até eles. Quero ver as coisas que você me disse de perto. E se assim for, como suas palavras falam, pouparemos essa fazenda de todos os nossos ataques presentes e futuros.

Antônio Soares, ouvindo isso, disse a N’zambi em tom forte de voz:

— N’zambi, não faça isso! E se esse homem estiver mentindo e isso for uma emboscada. Em toda minha vida que vivi com os colonos, nunca vi tamanha generosidade deles com o nosso povo.

N’zambi, puxando Antônio Soares para um lugar reservado, disse-lhe em tom baixo de voz:

— Calma, homem! Eu tenho um plano. Direi que estou com mais de dez mil guerreiros k’ilombolas acampados nas proximidades das matas. Assim, também conseguirei algo para comermos e nos fortificar. Pois amanhã atacaremos as fazendas e engenhos. Também nessa fazenda dos beneditinos recrutarei homens e mulheres para nossa causa e, assim, seremos mais fortes. Confie em mim!

— E se isso verdadeiramente for uma emboscada, e eles o prenderem, e o entregarem às autoridades?

— Se eu não voltar antes do anoitecer, ataque aquela fazenda.

E assim fez N’zambi, partindo dali com Nicolau até a Fazenda de São Bento de Jaguaribe. Chegando lá, entraram apressadamente na casa-grande, e Nicolau foi ter com os monges, enquanto N’zambi aguardava no salão.

Reunidos os beneditinos no salão da casa, um dos monges o questionou:

— Quem é você? Ouvimos de Nicolau que é um dos negros fugidos de Palmares.

— Eu me chamo N’zambi, o Príncipe da N’gola N’janga e neto da Rainha Akualtune, filha dos M’wene Kongo africanos.

— Então, tens sangue real. — Disse um deles, e acrescentou perguntando — O que você quer de nós?

— Eu vim comprovar se o que Nicolau me falou é verdade. E, se for, eu os pouparei do grande ataque que planejo executar neste lugar, para libertar o meu povo africano, levando-os para a N’gola N’janga.

Ouvindo isso, um dos muitos monges que estava ali presente o questionou ironicamente:

— Como você sozinho e mais cinco homens pretendem atacar essas vilas, com toda a forte guarda que ela tem?

— Você fala isso porque Nicolau só viu seis de nós. Mas ao todo somos dez mil. Dez mil homens e mulheres k’ilombolas, que estão em guarda por toda circunferência das matas que cercam este lugar. Eu vim na frente porque, ao contrário dos seus covardes líderes, nós reis e rainhas, príncipes e princesas das muitas nações africanas, temos por costume encabeçar as nossas guerras e batalhas, mostrando ao nosso povo com toda a nossa coragem o porquê que somos os seus líderes.

Ouvindo isso, os monges se fecharam em círculo falando baixo uns para os outros:

— O que vem a ser isso?

— Há muito tempo não vemos os negros fugidos atacarem as fazendas novamente.

— Será que estão planejando uma grande revolta, pois agora eles são muitos.

E, virando-se para N’zambi, um deles falou:

— Pois, então, pergunte aos escravos. E vá ver com os seus próprios olhos o quanto eles são felizes convivendo conosco.

Diante disso, N’zambi também falou:

— Sim, vou vê-los. Mas, também, quero levar alguns homens e mulheres fortes para nos apoiar em nossa causa libertária.

Diante disso, os monges mais uma vez se reuniram em círculo, e já não mais cochichavam, mas falavam em latim. Tendo em mente que o jovem negro à sua frente não saberia do que estavam falando:

—  Et si mendax est.

— Et tunc impugnare hostium satius uisum.

N’zambi ouvindo-os, respondeu em tom firme em claro latim, dizendo:

— Vos verbum meum quod non percutiat. Não se preocupem! E também faço isso para proteção de vocês, e do meu povo que habita entre vós. Pois se assim não fizesse, os outros colonos falariam que vocês tiveram pactos conosco neste ataque, e os matariam e também ao meu povo. Pois vocês seriam a única fazenda que não sofreram baixas de saques. Portanto, depois que eu sair com alguns dos seus escravizados, será melhor que façam uma pequena bagunça neste ambiente, quebrando alguns vasos e destruindo algumas coisas. Para que eles pensem que primeiro passamos por aqui.

Os monges, vendo que ele falava latim e estava certo no que disse, sendo ele verdadeiramente um homem de sangue nobre, não lhes restando mais opções a lhe contestar, pasmos e cautelosos, emudeceram. E lhe foi feito de acordo como desejado.

E, assim, N’zambi escolhe entre os escravizados da Fazenda de São Bento de Jaguaribe mais de setenta fortes africanos entre homens e mulheres. Que escolheram por sua própria vontade seguir o príncipe de Palmares. Nisso, pegam todos os armamentos e ferramentas afiadas que encontram na fazenda. Se abastecem com alguns mantimentos e silenciosamente penetram nas matas, indo ao encontro dos seus companheiros k’ilombolas.

Na manhã seguinte e antes do sol se levantar, N’zambi, acompanhado de Antônio Soares, os quatro jovens k’ilombolas e os escravizados libertados da Fazenda de São Bento de Jaguaribe, se preparam para o ataque ao nascer do sol. O sol lentamente se levanta, junto às batidas dos corações fortemente acelerados dos negros revoltosos. E, quando no imenso céu só lhe restava a estrela que mais brilha, N’zambi, a encarando fortemente, diz:

— Já é hora! Vamos! Ataquemos!

Os ataques começaram justamente na fazenda de engenho de Inhamã. Cercada, ocupada e dizimada, tendo os escravizados dessa fazenda sido somados aos negros revoltosos. O grupo passa de menos de cem escravizados para mais de duzentos. Depois seguem silenciosamente deixando um rastro de sangue pelas matas, para o engenho de Caetés. Ocupado esse engenho e mortos todos os capatazes e colonos, em uma violenta e rápida batalha sem deixar testemunhas, apenas poupando as crianças e mulheres, que levavam como cativas, os negros passam rapidamente de mais de duzentos homens e mulheres para mais de trezentos.

Embrenham-se mais uma vez pelas matas, e N’zambi, vendo que eles eram muitos, escolheu dentre eles os mais fortes e decididos a combater. E deu ordem para Miala pegar os mais jovens, as crianças e os velhos, as mulheres e os restantes dos negros, juntos aos despojos saqueados das fazendas, e partirem em direção ao Mokambo de Tabokas. N’zambi, junto a Antônio Soares e os outros três jovens k’ilombolas, que encabeçavam um grupo de mais ou menos cem homens e mulheres revoltosos, seguiram em ataque às fazendas e engenhos de Paratibe e Utinga, dizimando as suas guardas, saqueando suas fazendas, roubando e incendiando suas casas comerciais e armazéns.

E, assim, libertou muitos negros africanos que se encontravam escravizados nessas fazendas. E, ao sair, incendiou todas as suas vilas e engenhos. Em meio a toda aquela desgraça de gritos, choros, sangue e fumaça, N’zambi escreveu um manifesto de liberdade do seu povo negro, assinando com o carimbo do seu punho cerrado, usando o sangue dos colonos como tinta. Deixou esse documento na posse do único sobrevivente colono, que ele liberou para ser testemunha da fúria k’ilombola. Esse indivíduo ao ser liberto, saiu desesperado, correndo pelas estradas empoeiradas de areia e barro, sem ao menos olhar para trás.

FIM DO DÉCIMO SEXTO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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