O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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18. Capítulo 13 - מ (MEM) A FONTE

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

מ

MEM

A FONTE

 

Por muito ouvir dos k’ilombolas o quanto o seu tio e rei do K’ilombo se tornara uma pessoa arrogante e de temperamento explosivo. N’zambi sentiu que devia ter muita cautela e sabedoria ao se apresentar a N’ganga N’zumba e sua grande impetuosidade. Também levara em conta o fato de que N’ganga N’zumba e seus filhos sabiam da profecia de que N’zambi o substituiria mais cedo ou mais tarde no trono da N’gola N’janga. E N’zambi temia alguma represália por parte do seu tio ou de um dos seus filhos, pela ameaça que ele representava de ser o único e verdadeiro herdeiro ao trono de Palmares, profetizado e empossado pela Grande Mãe dos k’ilombolas, a Rainha Akualtune.

N’zambi sabia que seu tio sempre fora um bravo comandante guerreiro, e vencedor de muitas batalhas contra os colonos portugueses, espanhóis e holandeses. Ouvira do povo k’ilombola as histórias dos seus grandes feitos de heroísmo e de que, apesar da sua má conduta atual na administração do K’ilombo, o povo o admirava e o respeitava, e também o temia muito. Os mais antigos k’ilombolas contaram a N’zambi como o seu tio se consagrou ao cargo de Rei do k’ilombo ainda quando jovem. E como ganhara a admiração e o respeito heroico dos mais velhos negros rebeldes, que fundaram o assentamento guerreiro militar na floresta.

Contavam eles que, naquela época da formação do K’ilombo, o Conde e Marquês de Bastos, e também colono, D. Duarte de Albuquerque Coelho, que estava prestes a exercer o cargo de ser o atual governador da Capitania de Pernambuco, em substituição do lugar-tenente governador, D. Salvador Correia de Sá, convocou pela primeira vez a Vila de Olinda, o governador-geral do Estado do Brasil e membro da primeira nobreza portuguesa, D. Diogo Botelho. Com a presença do governador-geral, organizaram uma grande expedição comandada pelo oficial português, o capitão Bartolomeu Bezerra, no intuito de aniquilar o refúgio dos negros fugidos.

Naquela mesma época, o governador-geral D. Diogo Botelho já financiava uma expedição por parte dos jesuítas, contra uma tribo de nativos de nome Aymorés, que ameaçavam algumas vilas no sul da Capitania da Baía de Todos os Santos, além das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo. Os Aymorés eram também conhecidos pelos colonos portugueses como “Os Botocudos”, devido ao fato deles trazerem penduradas em suas orelhas e bocas formas grandes e arredondadas de madeiras. Os Botocudos eram nativos muito temidos não só pelos colonos portugueses, mas também pelas outras tribos de nativos Tupinambás. Pelo fato de não falarem o mesmo idioma, e por seus corpos serem robustos, e por serem gigantes, alguns medindo quase três varas de altura e dotados de grande força e estrutura física, além, é claro, de serem comedores de homens, canibais não por filosofia ou por práticas religiosas, e sim por hábitos alimentares, o que os tornavam povos tão temíveis e ameaçadores.

Contavam os k’ilombolas que a expedição comandada pelo oficial português Bartolomeu Bezerra entrou nas matas em direção à serra que abrigava o refúgio dos negros fugidos e nunca mais saíra. Além, é claro, do próprio oficial responsável pela expedição. Que estava temidamente apavorado, dizendo que um demônio os atacou, degolando seus homens de um a um, ao passo em que se aproximavam do reduto dos negros fugidos.

O governador-geral do Estado do Brasil D. Diogo Botelho, também apavorado com aquela notícia. Em que mais de quatrocentos homens foram degolados, e que investira fundos da coroa em armamentos e munições, que agora estava em posse dos refugiados, temendo algumas represálias por parte da coroa, e de como explicaria ao rei da Espanha e Portugal, Felipe III, como um bando de negros escravos desarmados obtivera tamanho êxito militar, escreveu uma carta ao monarca imperialista mentindo ser vitorioso e livre por ora da insolência desses escravos alevantados.

Dessa forma, o jovem N’zumba sozinho derrotara uma grande expedição atacando homem a homem e tomando as suas armas e munições. Ele foi aclamado por todos os negros refugiados no assentamento militar na floresta, se tornando o N’ganga N’zumba, O Grande Rei do K’ilombo dos Palmares. Por esses motivos, N’zambi, por uma dose de cautela e receio, desvia-se do caminho para ir a Cerca Real dos Macacos, pelo qual se encontraria com o seu tio N’ganga N’zumba. Retornando, assim, a seu lar no Mokambo de Tabocas.

Lá, ele pensava em descansar alguns dias ao lado dos seus filhos e de sua esposa Dandara, e meditar sobre tudo que viu e passou em sua grande jornada pelo K’ilombo. Enquanto N’zambi fazia o seu percurso, trilhando em seu jumento o caminho de retorno para casa, meditava na emoção que sentiu ao ter seu primeiro filho, e na experiência e aprendizado de se tornar pai pela primeira vez. E lembrou-se da conversa que teve com o preto velho griot Djeli, de como era forte o sentimento de ser pai.

Certa vez, enquanto ele e Djeli trabalhavam na horta, o preto velho lhe perguntou:

— Diga-me, meu jovem príncipe, como você se sente em agora ser pai?

N’zambi sentou-se no solo, tirou do bolso da calça um pequeno saco de couro contendo uma mistura de ervas, enrolou numa palha de milho fazendo um cigarro. Pediu ao velho griot o seu cachimbo que se encontrava sempre aceso pendurado aos seus lábios. Acendeu o seu cigarro de palha e, enquanto fumava, falava da sua experiência num tom de voz compassivo, dizendo:

— Chamo minha experiência de pai a experiência de Deus. Pude perceber muitas coisas da vida e de mim mesmo vendo o crescimento e desenvolvimento do meu filhinho Hu’y Tata Motumbo.

Fez-se uma breve pausa, enquanto N’zambi levava à boca o seu cigarro de palha, deu uma forte tragada, assoprando para cima uma fumaça acinzentada, e continuou:

— No início, logo quando ele nasceu, parecia para mim que ele ainda não estava aqui, quando digo “aqui” falo deste mundo, acho que estava em parte. Não existia muita expressão da parte dele, além de muito sofrimento, e pude ver que nesses primeiros dias de vida tudo é dor. E como dói! O maior problema era a coisa com gases, a experiência de ingerir algo pela primeira vez, o leite materno causava uma revolução interna muito grande, às vezes ele chorava estridentemente por horas, e as noites eram mais dolorosas para mim, e mais ainda para a Dandara.

N’zambi deu outra tragada em seu cigarro de palha, e continuou:

— Algumas mulheres diziam que para aliviar os problemas de gases na criança, Dandara não devia comer certos alimentos. Eu particularmente não acreditava em nada disso, acho que era o processo da vida acontecendo, até o pequenino se acostumar em ingerir alimentos e aprender a eliminar os gases.

O jovem príncipe deu um sutil sorriso e continuou:

— Pronto! Daí passou esse processo, e pude vê-lo descobrindo as suas mãozinhas, era mágico para ele abrir e fechar as mãos, acho que nesse momento o seu espírito estava aprendendo a se comunicar com o seu corpo. Assim, pude perceber que tudo que somos no início de nossas vidas são os nossos olhos e nossas bocas. Acho que é o primeiro contato com a vida material. Ele olhava suas mãos constantemente e se maravilhava, virava de um lado a outro, mas não tinha coordenação e nem conseguia segurar um objeto sequer. Quando ele aprendeu a utilizar essas duas ferramentas poderosas tudo se transformou. Daí pegava tudo e levava para a boca. Queria sentir tudo, e a maneira de sentir verdadeiramente é provar com o paladar, como se tudo fosse um alimento, e verdadeiramente percebi que de certa forma tudo é alimento. Incrível, Djeli! Como podia aprender da vida, apenas observando o desenvolvimento da própria vida.

Djeli sorriu e disse:

— Continue, meu jovem, continue.

N’zambi sorriu e continuou:

— Às vezes ele sorria, mas seu sorriso era meio que inconsciente, pois sorria quando começava a ter sono, e dormia a maior parte do tempo, acho que era muito cansativo aqui, preferia estar no mundo imaterial. Quando queria alguma coisa, chorava, nisso aprendi que o desejo é uma forma de sofrimento. Mas realmente os problemas começaram quando ele aprendeu a engatinhar. Daí pude ver o quanto o desejo pelo que é perigoso e arriscado é o natural do ser humano. Pois o menino só se interessava em ir de encontro ao que colocasse sua vida em risco, como: colocar o dedo nos buracos da parede de taipa, em que se encontravam os insetos perigosos, como os escorpiões e as lacraias. E engatinhar em direção às escadas e precipícios, no caso os da própria cama, e mexer em coisas perigosas. Vi, Djeli, que quando crescemos não nos tornamos muito diferentes, o perigo nos atrai de uma forma que nem percebemos, em nossas escolhas e em nosso querer.

N’zambi levou o seu cigarro de palha à boca, mas este se encontrava apagado. Pediu novamente o cachimbo aceso do preto velho, acendeu, deu uma tragada e continuou:

—  Daí pude entender o que você me disse tempos atrás, que o nosso amado Pai-Mãe muitas vezes utiliza da ignorância de muitas coisas para proteger os seus filhos amados das paixões que possam empregar as suas almas. E via como Hu’y Tata Motumbo ficava irritado, esperneava e chorava, quando eu o tirava de uma situação perigosa, como tirar uma faca ou uma pequena pedra de sua mão, e coisas desses tipos que causam riscos de vida aos bebês. Daí também eu compreendi quando eu ficava triste e me irritava, quando eu perdia algo que achava ser bom na minha vida. E nisso, vi que o meu Pai-Mãe Amado estava me protegendo de algum dano qualquer, e agradeci a Ele/Ela de coração por isso, e ao meu filho Hu’y Tata Motumbo por me revelar esse segredo.

— Quando o Pai e Mãe de Toda Criação tira algo do seu alcance, Ele não está te punindo, mas apenas te dando a oportunidade de deixar suas mãos livres para receber algo melhor. — Disse Djeli, acrescentando às palavras de N’zambi. E o jovem príncipe continuou:

— Uma coisa muito interessante que eu aprendi com Hu’y Tata Motumbo foi o verdadeiro significado da palavra paciência, e vi que paciência é o mesmo que proteção. Pois todas as vezes que eu fazia comida para ele, colocava-o dentro de um barril de madeira, e ele no início odiava e gritava e chorava. Ele não entendia o porquê de ficar preso nesse barril com cavilhas e tudo. E num desses momentos que eu preparava a comida e ele chorava, me veio uma luz dessas que eu sempre tive com Hu’y Tata Motumbo. Ele não sabia que eu estava fazendo aquilo para o bem dele, ele só podia compreender o momento daquela prisão entediante, mas depois que eu chegava com a deliciosa comida, ele se alegrava. E vi claramente que todas as vezes que me sentia preso a uma situação desconfortável, em que eu gritava e esperneava, era que o meu amado Pai-Mãe estava preparando algo de especial para mim. Em que me colocou nessa situação desconfortante, para eu estar protegido de todo mal. Pois, enquanto ele preparava esse algo em especial, ele não podia cuidar de mim, por isso ele me colocava em uma certa “prisão”, justamente para minha proteção. Daí, eis que compreendi a paciência de todas as coisas.

N’zambi deu o último trago no seu cigarro de palha, que já estava queimando as pontas do seu dedo, jogou a ponta do cigarro fora, e continuou:

— Atualmente, Djeli, eu educo o meu filho com muitos NÃO! E agora estou refletindo nisso seriamente. Depois que ele começou a andar com quase dez meses de vida, tudo ficou mais arriscado. As ferramentas corporais que ele descobriu só o levam para sua morte.

O preto velho griot deu um leve sorriso e falou:

— Nós seres humanos criamos muitas ferramentas, e atualmente muitas delas nos levam à morte. Haverá um tempo, meu jovem, em que essas ferramentas evoluirão, e as coisas que antigamente eram consideradas como proibidas serão consideradas lícitas. O Pai e Mãe de toda Criação parou de nos dizer NÃO! Assim como no momento certo você parará de dizer NÃO ao seu filhinho. Saber usar as pernas e as mãos é bom, mas quando elas nos levam à perdição e à morte, é aí que está mal.

Ouvindo isso, N’zambi disse:

— Com muito cuidado deixo o meu filho experimentar as coisas. Só nos momentos perigosos tiro algo de suas mãos, ou tiro ele da direção errada em que seus pés o levam, e ele chora e esperneia. Então, Djeli, pude compreender que a vontade de nosso amado Pai-Mãe nunca irá nos levar aonde a sua Graça não irá nos proteger. Em algum momento, Djeli, eu pensei que o nosso amado Pai-Mãe nos abandonou. Mas acho que nestes tempos atuais em que profetas e enviados se ocultam, o nosso amado Pai-Mãe está nos deixando experimentar por nós mesmos os efeitos de nossas escolhas. Pois tudo já foi dito e revelado. Sinto que nós já crescemos! Agora como parte de nosso aprendizado, só nos resta escolher o que fazer com todas essas ferramentas e bagunças que criamos.

O preto velho griot Djeli, com um enorme sorriso no rosto, vendo que o seu pupilo se tornara um homem sábio e maduro, disse colocando suas mãos levemente nos ombros do rapaz:

— Eis aí o nosso livre-arbítrio, meu jovem. Eis aí o nosso livre-arbítrio. Nisso me lembro de uma frase, em que um velho bêbado k’ilombola sempre dizia em sua loucura: “Se Deus me desse o seu poder, de certo eu mudaria o mundo. Mas como Ele só me concedeu a sua sabedoria, prefiro deixar tudo como agora está”.

E assim prosseguia N’zambi retornando à sua casa, acompanhado de suas maravilhosas lembranças em companhia ao preto velho griot Djeli. N’zambi, ao se aproximar do monte em que morava, viu os seus dois cachorros, Kuarahy e Jasy, correndo ao seu encontro pelas trilhas das baixadas. Ele se ajoelhou, e os dois cachorros pularam em cima dele, lambendo sua boca e abanando os rabos. Ao se aproximar da porteira da grande paliçada que cercava o monte onde morava, ele avistou a linda moça Dandara com uma pequenina criança no colo, gritando bem alto, dizendo:

— Crianças! O papai chegou!

E os seus três filhos correram alegres descendo o monte em sua direção, enquanto Dandara, com um grande sorriso no rosto, gritava:

— Cuidado, crianças!

N’zambi abraçou os seus filhos fortemente, os cobriu de beijos e os colocou nos braços, carregando-os enquanto subia o monte por entre as plantações de hortaliças do seu farto jardim comestível. Chegando no alto, colocou as crianças no chão e foi ao encontro de Dandara, que alegremente chorava, dizendo:

— Olha aqui, papai, sua primeira filhinha, que nasceu no tempo em que você estava ausente. O nome dela é Oryba, que na língua dos nativos quer dizer Alegria. Pois, quando ela nasceu, me trouxe alegria, afastando a tristeza da saudade e da solidão que senti na sua ausência.

N’zambi, sem nada dizer, com lágrimas em seus olhos, pegou a pequenina em seus braços e a embalou. Enquanto ele admirava o fruto feminino do seu amor, Dandara cantava uma doce canção, na língua dos nativos guaranis, que dizia:

 

“Carreguei em mim uma semente

Não de planta, mas de gente

Que tão logo veio nascer

 

Ela brotou num dia lindo

Como o raiar do Sol veio surgindo

E de luz veio me preencher

 

Trouxe consigo um presente

Que é o que traz toda semente

O Amor pelo viver

 

Trouxe também um recado

Não falado, mas pensado

Que no seu sorriso pude perceber

 

E com um gesto carinhoso

Te trouxe para o meu leito

Te ajeitei no peito

E pude te sentir

 

Na reação daquele momento

Me faltaram palavras e esvaziaram os pensamentos

Meu corpo estremeceu-se com o fluxo dos sentimentos

E o único gesto que me restou

Foi o de te olhar e te sorrir

Então pude perceber

Que você nasceu para mim

Para me fazer feliz”

FIM DO DÉCIMO TERCEIRO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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