Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

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10. ¨9¨

 

 

❖   

Fui bem sucedida na tarefa de esconder toda "anormalidade" em mim, durante o exame.

Pela primeira vez tive acesso aos meus resultados dos exames, que, por sinal, foram excelentes. Palavras de Marjorie, pois eu não consegui entender uma palavra presente na minha ficha, muito menos gráficos.

Ela disse que eu tinha uma saúde invejável e só precisava melhorar minha alimentação precária.

Eu estava deitada no colo de meu pai esperando me chamarem para melhorar o meu estado estético enquanto Kallien ainda estava no exame, mas eu não sabia o motivo da demora.

Laeni disse que logo eu estaria em casa, pois não havia muita coisa em mim para mudar e ela acreditava que eu não aceitaria as mudanças gritantes, de qualquer forma.

Marjorie disse que seria doloroso de certa forma, mas eu achei que ela só queria me assustar. Amaldiçoei-me mentalmente por não ter preparado meu psicológico enquanto eu sentia cada pelo indesejado sendo arrancado de mim. Fora o constrangimento de ter quatro ou mais pessoas observando partes minhas que nunca seriam expostas publicamente.

Tentaram me convencer a cortar drasticamente meu cabelo. 20 centímetros. 15 centímetros. 10 centímetros. Logo eles desistiram da negociação e resolveram ao parar minimamente as pontas.

Propuseram que eu deixasse solto. Não concordei. Argumentaram que não tinha lógica eu mando pelo tão longo se eu esconderia o seu comprimento. Mas eu era irredutível.

Suspiros, suspiros e suspiros. Eu o queria preso no alto de minha cabeça como estava anteriormente, me ofereceram uma trança. Por fim, fizeram um coque de altura média e deixaram algumas mechas soltas passeando em meu rosto.

A roupa também foi um problema. Vestidos floridos como os de Callandrea. Vestidos que não me deixavam respirar. Vestidos que me deixavam respirar demais. Vestidos que cobriam demais. E os que cobriu de menos ou absolutamente nada. Enfim, vestidos. Nunca fui fã deles.

Eu podia jurar que uma das pessoas que estavam me arrumando tinha fogo de verdade nos olhos por minha causa.

Ouvi o murmúrio desta mesma pessoa:

—Que os céus ajudem essa menina a ganhar o apoio de algum Simpatizante.

Marjorie entrou dramaticamente na sala e eu a cumprimentei com um:

— Quero calça e camiseta.- ouvi mais suspiros ao meu redor e algumas pessoas tinham seu queixo no chão coberto de vestidos.

Marjorie arqueou uma sobrancelha, tocou o queixo com indicador e estreitou os olhos:

—Creio que não temos nada desse estilo para você.

—Você está de calça e camiseta, qual o problema se eu usar algo do tipo?-cruzei os braços.

—Não quero dizer que você não possa usar, quero dizer que geralmente as escolhidas anseiam por usar os nossos vestidos. Não preparamos nenhuma calça ou camiseta para você aqui neste momento.

—O que Kallien irá vestir?- Marjorie estreitou tantos olhos que viraram linhas finas brilhantes.

—Calça e camiseta?-ela leu minha expressão e disse baixinho — São roupas masculinas.- mas eu continuei encarando-a.— Sabe que mais da metade dos Simpatizantes são homens que não se sentirão atraídos por você se aparecer assim.

Dei de ombros.

—Não tenho a mínima intenção de atraí-los.-Marjorie sorriu de lado e fez um gesto displicente com a mão.

—Que seja.

A camiseta era de um material macio e eu não me cansava de tocá-lo. Ela quase chegava no meio das minhas coxas. Era branca. A calça era um jeans mais resistente e mais pesado que eu já havia experimentado. Era como se acrescentasse quatro quilos a mais nas minhas pernas. Entretanto, não reclamei, estava mais confortável do que se eu estivesse usando um daqueles vestidos.

Minhas botas velhas e gastas não foram substituídas apenas lustradas. Elas combinavam mais com o conjunto do que as sandálias de salto que separaram para mim. Callandrea me repreendeu durante muitos minutos pelas minhas escolhas.

Eu me analisava no espelho de corpo todo. Meus cabelos pareciam mais hidratados e brilhantes do que em toda minha vida. Minhas bochechas estavam coradas, meus lábios, com um brilho incolor e minha pele, numa coloração uniforme. Tudo graças aos milhares de produtos aplicados em mim.

Minha pele estava macia, minhas unhas, cortadas e limpas. Até os calos das minhas mãos foram suavizados ao máximo.

Eu parecia viva. Esperançosa.

Desejei que todos os meus amigos, vizinhos e todo o resto também tivesse, um dia, a possibilidade de se aparentar assim.

"Eles terão." pensei comigo mesma. Lutarei até o meu último dia de vida para isso.

Ouvi passos espaçados e desritmados e me virei para encontrar alguém que não era, de maneira alguma, o Kallien que eu conhecia. Olhei-o de cima a baixo.

Ele também usava botas, mas as suas eram novas. Suas calças eram de um jeans mais escuro e o deixavam mais robusto. A barra de sua camiseta estava com uma parte casualmente para fora da calça. A camiseta era cinza claro e mal cobria os braços musculosos, fortes e atraentes de Kallien.

Ele caminhava olhando para o chão enquanto o senhor, que havia o esperado mais cedo em frente à sala destinada a ele, parecia dar-lhe algumas instruções.

Fazia muito tempo que eu não via os cabelos cor de areia de Kallien penteados daquela maneira formal e meticulosa.

No instante que seus olhos encontraram meus pés, ele parou de andar. E eu poderia apostar que ele havia parado de prestar atenção em outra coisa que não fosse eu.

Seu olhar subiu até meu rosto e eu, estranhamente, conseguia ouvir seu coração bater mais alto mais rápido. Mais alto e mais rápido, mesmo considerando a distância.

Ele respirou fundo e o senhor ao seu lado percebeu que não haveria, em alguns segundos, espaço para ele ali.

A cada respiração eu e Kallien nos expandíamos mais e mais, até o momento em que ocuparíamos toda a sala.

—Voltarei em 15 minutos para o pronunciamento. Estejam prontos....e inteiros.

O clique da porta se fechando foi o único barulho por alguns segundos.

Aquela era a primeira vez que nos víamos, sem contar mais cedo, depois da nossa briga e depois que tínhamos acabado com tudo que não fosse a amizade entre nós.

Mas ali estava ele. Desconcertado como se tivessem colocado-o num corpo de outra pessoa. Entretanto, seu olhar ainda era o mesmo que me fazia arrepiar e sentir um incômodo na barriga.

Era com aquele olhar que eu percebia porque eu havia permitido que chegássemos naquele estágio perigoso.

Naquele momento, olhando-o naquele corpo, como se ele fosse outra pessoa, como se estivéssemos em outro contexto, eu o queria.

E o seu olhar também me mostrava que ele me queria também. Sempre quis.

Toquei o seu rosto porque apenas imaginar se sua pele estava tão macia quanto a minha, não era o suficiente. Kallien fechou os olhos e eu aproveitei a sensação de nossas peles recém tratadas uma contra a outra. Ele queria sentir a mesma coisa, pois suas mãos passaram pela barra de minha camiseta e acariciar um cada lado de minha cintura.

Também fechei os olhos.

Senti seu corpo se inclinar em minha direção e seu nariz roçou o meu pescoço.

—Você está linda.- um riso escapou dos meus lábios enquanto eu tentava Enxergar como aquela roupa poderia me fazer parecer linda. Não tive muito tempo para pensar sobre isso quando senti seus lábios nos meus em um beijo urgente e repleto de desculpas, como se ele pudesse alterar de qualquer forma, o que o destino preparou para nós.

Agora tudo estava em nossas mãos.

Ou nos esforçaríamos o suficiente para fazermos parte dos quatros afortunados que subiram no pódio como exemplo de honra e glória.

Ou um de nós perderia o outro.

Na pior das hipóteses, voltaríamos juntos, porém arrasados.

—Eu sei que disse que ficaríamos na amizade.-ele disse a sentimentos a minha boca—Mas eu não sei como serão as coisas quando chegarmos lá. Não sei se permitirão que eu a veja ou que interaja com você e isso me deixa louco e eu só preciso...

Juntei nossos lábios novamente.

Distração. Éramos desde sempre isso um para o outro: distração.

Era o que precisávamos naquele momento.

  ❖ ❖ ❖  

 

Notas Finais: 

hey, pessoal!

como vocês estão? o que acharam do capítulo?

deixem seu comentários, opiniões etc...

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até mais

xx

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