Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

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Kallien Steros.

Não derrubei uma lágrima.

Corinna Lestat.

Não disse uma única palavra.

Os escolhidos do vilarejo de Fortuna...

Apenas foquei em sentir os braços de Kallien em volta de mim.

...para o Sacrifício deste ano.

—Desculpa.- ele disse pela enésima vez.—Eu deveria ter te impedido de se inscrever.

Suas palavras não faziam sentido. Kallien sabia que exceto uma doença grave ou o casamento, nada me livraria das Audições. Contudo, deixei que ele se desculpasse.

O Sol brilhava a cada minuto mais forte e eu continuei sentada na praça. Ora Kallien me fazia companhia, ora Callandrea chorava por mim.

Entretanto eu estava...feliz. Satisfeita. Tinha noção de que minha vida não voltaria a ser como era—seja para o bem ou não— mas eu estava resignada. Como o olhar de Kallien para a lista com os nossos nomes.

Senti a presença de meu pai antes que ele segurasse meus ombros e me fizesse levantar para abraçá-lo.

Kallien Steros e Corinna Lestat. Os escolhidos do vilarejo de Fortuna para o Sacrifício deste ano. Que representem toda a força e coragem de sua terra natal, exalte seu governo e retornem com riquezas, honra e glória.

Meu pai também não chorava. Não tinha porque fazê-lo.

A única vez que meus olhos ameaçaram marejar foi quando a garotinha que chorava do outro lado da cabine no dia do Cadastro, veio me abraçar e me desejar boa sorte. Ela disse que tinha certeza de que eu voltaria e gostaria de um dia ter a mesma coragem que eu.

Fiz uma promessa silenciosa para que se um dia eu esquecesse todos os motivos para mudar aquele mundo, ainda sim eu me lembraria daquela garotinha. Me lembraria de como eu faria qualquer coisa para que ela não passasse o mesmo desespero daquele dia na cabine. E então aquilo me colocaria de volta nos prumos.

Teríamos 3 dias para recebermos as instruções básicas e viajarmos para o Setor Superior. Eu e Kallien. Em apenas daqui a três dias.

Só veria meu pai novamente quando o Sacrifício acabasse. Confiando em que tudo desse certo.

Se eu durasse.

Se eu sobrevivesse.

Como se estivesse lendo minha mente, meu pai disse:

—Você vai voltar. Sou orgulhoso por ter você e não te perderei tão facilmente.

Era quase meio-dia quando terminei de receber os bons desejos para a viagem, as promessas de oração e símbolos do vilarejo.

Um guarda, que tinha dentes tão afiados quanto de um animal selvagem, reuniu eu e Kallien para o primeiro pronunciamento com os escolhidos, que aconteceria logo após a nossa última bateria de exames.

Aquela figura era uma das coisas mais assustadoras que eu já vira, justamente pela sua forma física ser semelhante a dos humanos e deorum, entretanto sua essência era desumana. Feral. Brutal.

Kallien havia levado Callandrea consigo e eu levei o meu pai.

—Não conte sobre as canetas.- o último sussurrou no meu ouvido. —Não mencione, nem pense sobre sua altura. Não exiba seus sentidos aprimorados. Trabalhe sua mente para que você esqueça tudo isso enquanto eles estiverem em sua mente. Ou ao menos finja que todas essas coisas foram sonhadas por você.

Respirei fundo imaginando a dor de cabeça que aquilo me causaria. Literalmente.

Contudo, eu não poderia arriscar nada. Não agora que eu havia conseguido minha chance.

—Tentei achar alguma maneira para erguer um escudo ou uma camuflagem para esses... fenômeno,  mas não achei nada nos livros ontem à noite.

Eu estava prestes a chorar pelo esforço que ele estava fazendo por mim e pela minha segurança. Mais uma vez.

—Não deixe que usem essa dádiva contra você.- sua mão segurou a minha quando entramos no casebre que agora estava dividido em dois lados e o seu interior não condizia com o lado de fora velho e desgastado. Agora, com paredes limpas e de aparência firme, pelo menos o básico de decoração existia.

Aparelhos tecnológicos de filmagem formavam um emaranhado de fios e caixas pretas e telas enormes.

Magia transportara essas coisa para ali. Magia sendo exposta deliberadamente na frente de nossos olhos humanos. Olhei para as pessoas ao meu lado, com exceção do guarda gigante, que tinham a mesma expressão fascinada no rosto.

Magia. Magia o suficiente para arder meu nariz e causar uma leve pontada na minha cabeça. Também capaz de despertar algo em mim que fez a ponta dos meus dedos formigarem estranhamente.

No fundo do casebre, os dois caminhos divergiam e levavam à portas de lados opostos. Do lado esquerdo, duas figuras masculina davam um sorriso maldoso na direção de Kallien.

Do lado direito, Marjorie analisava até o último fio de cabelo do meu pai. Laeni estava ao seu lado com seu olhar calmo, mas intenso. Ela tinha um sorriso discreto nos lábios, mas que estranhamente era equivalente a braços abertos que convidam para um abraço. Me limitei a curva minimamente o canto da boca correspondendo ao seu sorriso.

"Eu realmente aceitaria o abraço, sabia?" sua voz ecoou na minha mente e eu fiz uma careta fazendo com que um riso escapasse de seus lábios.

Callandrea observava tudo com atenção antes de entrar na sala designada a Kallien.

Marjorie fez uma reverência estranha antes de abrir a porta atrás de si revelando uma sala majoritariamente branca que incomodou os meus olhos. Os móveis estavam organizados de maneira similar à cabine onde fiz os exames na Análise.

—Parece que finalmente chegou o dia de sua escolha, Corinna. Parabéns!- Marjorie disse enquanto dava tapinhas na cadeira onde eu deveria me sentar.

—Quero que saiba que estaremos aqui para ajudá-la e guiá-la para o sucesso em todos os seus desafios. - Laeni se sentou de frente ao aparelho que me diria praticamente todos os movimentos dentro de mim.

—Devo dizer que não vejo motivos para que vocês a parabenizem. Nunca vi ninguém sendo parabenizado enquanto está sendo encaminhado a um espetáculo de humilhação pública. - a voz do meu pai soou mais firme do que qualquer vez que eu tenha ouvido.

Laeni e Marjorie o encararam em silêncio e eu caminhei em direção à cadeira designada a mim.

"Posso ver onde você aprendeu a ter uma personalidade forte." Laeni mexia agilmente em teclas como se não estivesse invadindo meu espaço.

"Não estou bisbilhotando nada, apenas jogando palavras em sua mente e ouvindo as respostas que eu tenho certeza  que você faz questão que eu ouça. Nada de invasão."

Lancei-lhe um olhar severo enquanto ela colocava adesivos que estavam ligados  a fios na minha testa e tórax.

"Eletrodos. Eles se chamam eletrodos." ela respondeu minha pergunta silenciosa. "Servem para medir a atividade elétrica do seu cérebro e coração."

Dei um pequeno aceno de cabeça e então percebi que meu pai e Marjorie ainda debatiam.

—Vocês estão aqui porque foram mandadas para cá, não aja como se se importasse o suficiente com nosso povo ou com nosso vilarejo. Não ajam como se fossem proteger minha filha como se o último suspiro dela fosse o de vocês. - os punhos  de meu pai estavam fechados e Marjorie tinha as mão na cintura.  —Se ao menos fôssemos ricos, talvez vocês realmente  dedicariam alguns segundos de sua vida para protegê-la.

Marjorie respirou fundo e murmurou:

—Talvez eu realmente quisesse estar nos vilarejos mais ricos, pelo menos eles são educados o suficiente para acreditar em nosso comprometimentos para com os escolhidos.

Meu pai abriu a boca para falar alguma coisa, mas eu o interrompi:

—Pai...- ele murmurou desculpas para mim e ficou quieto.

Eu imaginava como ele deveria estar incomodado com toda aquela situação. Afinal, eu estava indo para outro lugar sem data de volta.

—Senhor Lestat, acredite ou não, iremos um dúvida proteger sua filha como se estivéssemos protegendo um dos nossos. Como se fosse nós mesmas. Podemos ter sido escolhidas a esmo para estarmos em Fortuna, mas quando nos comprometemos com algo, nós vamos até o fim. E ainda digo que somos muito mais recompensadas quando nossos Escolhidos chegam ao time dos vencedores do que quando são perdedores ou sofrem alguma adversidade durante o Sacrífico.

O jeito que ela falou "sofrer alguma adversidade" fez tremer algo não só em mim como em meu pai também, mas foi assim que ela pôs um fim na discussão.

  ❖ ❖ ❖  

Notas Finais:

hey, pessoal!

como vocês estão? o que acharam do capítulo?

deixem seu comentários, opiniões etc...

não se esqueçam de votar/favoritar e indicar para os amigos.

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PS: a mídia sempre vai ser uma música que me ajudou a escrever o capítulo, mas que não necessariamente é relacionada ao assunto do mesmo.

até mais

xx

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