Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

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❖  

Meu pai agora me encarava mais silenciosamente do que  quando lhe contei que o meu primeiro ciclo havia chegado,

Para as minha visão e audição melhorada significativamente, ele havia me dito que era o resultado da caça. Apesar de que, com todos os seus anos a mais de experiência, seus sentidos não se comparavam aos meus.

Para os meus centímetros a mais, ele havia me dado a hipótese que a minha fase de crescimento chegou tardiamente. Apesar de eu já ter tido uma mudança de altura considerável há cinco anos e não ter crescido mais desde então. Até agora.

Mas, para aquilo ele não tinha resposta. Não tinha uma desculpa e nem mesmo uma hipótese.

Ele apenas me observava silenciosamente enquanto nossa minúscula mesa era tomada por réplicas das canetas que Laranja materializou nas Audições.

—Pare- ele disse finalmente no momento que canetas começaram a cair no chão por falta de espaço na mesa. Suspiro longo saiu de seus lábios. —Como... Desde quando faz isso?

—Fiz isso hoje de manhã. Esqueci minha caneta no quarto e fiquei um pouco irritada com a possibilidade de ir ao andar de cima novamente então uma dessas apareceu do meu lado, como se sempre estivesse ali.- contei também de como as respostas da Análise pularam na minha frente no momento em que bati os olhos na folha.

Ele ainda estava focado nas dezenas de canetas em cima da mesa.

—Como aprendeu a fazer isso?- fiquei em silencio por alguns segundos.

"Acho justo que tenha um segredo meu, não?"

"Parece que agora tenho dois segredos com você."

As frases de Laeni se repetiram na minha mente. Por mais insignificantes que poderiam ser, eu não tinha o direito de expor seus segredos. Não poderia dizer que havia visto Laeni materializar e desmaterializar diversas vezes uma caneta idêntica àquelas durante as Audições.

Apenas dei de ombros:

—Apenas aconteceu. Não sei explicar.- o olhar de meu pai não era desconfiado, era preocupado. Preocupado comigo. Aquilo foi muito pior.

Ele respirou fundo antes de perguntar:

—Acha que tem alguma possibilidade de você ser escolhida amanhã?- seu tom revelava que ele rezaria para qualquer coisa que o ouvisse para que o meu nome não estivesse na lista de amanhã.

Não depois de ver o que eu estava me tornando. Não depois do que eu demonstrei. Não depois do que eu revelei a ele. Era perigoso demais.

—Participo disso há oito anos. Acho que se tivesse algo em mim que os interessasse eles já teriam me escolhido.- disse sem crer muito nas minhas palavras. Principalmente depois da minha conversa com Laeni.

"Posso dizer que o propósito desse ano não tem nada a ver com o propósito original."

"Queremos respostas."

Meu pai apenas assentiu com a cabeça como se tentasse realmente acreditar no que eu disse. Pegou nossos pratos e os levou para a pia a poucos metros de nós.

Comecei a juntar as canetas. Por curiosidade, tentei fazer com que uma delas desaparecesse.

Funcionou.

Continuei juntando-as manualmente numa caixa. Não sabia se havia um estado de choque mais intenso no interior do meu pai do que o que estava em seus olhos quando as fiz aparecer. Não queria descobrir aquilo no momento.

—Tudo vai se acertar.- ele deu um beijo na minha testa quando eu me preparava para subir a escada estreita e velha para o segundo andar. —Por enquanto, não conte isso a ninguém.

Fiz um sinal afirmativo com a cabeça e lhe desejei uma boa noite seguida de um "Eu te amo".

Ele respondeu de volta e me lançou um olhar que dizia que o sono essa noite não seria parte de seus planos e que ele iria vasculhar todas as informações que tínhamos para descobrir o que havia de errado comigo.

Já no meu quarto, espalhei todas as canetas no chão e formei fileiras.

"Posso dizer que o propósito desse ano não tem nada a ver com o propósito original."

Laeni estava se tornando aos poucos a voz dos meus pensamentos.

Talvez eu me encaixasse nesse novo propósito. Droga, mesmo aquilo podendo ser uma ameaça para mim naquele momento, eu queria me encaixar no novo propósito. Parte de mim queria ver o meu nome naquela lista ao amanhecer.

A outra parte hesitava ao observar, uma a uma, as canetas desaparecendo sob o meu olhar. Evaporando como uma ilusão de ótica que chegava ao fim.

Acho que adormeci logo após fazer a última delas de mover alguns centímetros e desaparecer completamente.

Ainda estava escuro quando prendi a trança restante em Brasília da parte de trás da cabeça. Eliminei a poeira inexistente na minha roupa pela quinta vez e escutei cada degrau da escada ranger aos meus pés.

Meu pai dormia entre livros e anotações em um móvel que não chegava a ser um sofá, nem mesmo uma cama.

Cheirei o leite restante na garrafa sobre a pia. Teria que ordenhar mais antes de sair finalmente. Preparei a mesa do café da manhã com o pai seco que tínhamos, uma geleia velha e logo voltei com um balde com leite suficiente para encher três garrafas médias. O primo de Kallien passaria para nós entregar alguns pães, mas eu não estaria mais ali.

Beijei a bochecha do meu pai antes de sair de casa.

Já havia algumas pessoas acordadas no caminho à praça central e o número só aumentava conforme eu me aproximava. Pessoas choravam, mas, surpreendentemente, não era de tristeza.

Avistei Kallien olhando resignado para a lista. Dali dava para perceber que apenas dois nomes preenchiam a folha. Ótimo, ninguém havia se revelado dessa vez.

Qualquer que fosse a família dos escolhidos, elas tinham aceitado bem.

"Criança não serão escolhidas nesse ano."

Pais se abraçavam aliviados. Laeni dissera a verdade afinal.

Voltei meu olhar para Kallien ainda encarando a lista de costas para mim.

Três mulheres em sua volta.

Uma acariciava suas costas e essa era Callandrea. Duas  choravam em cada ombro dele e essas eram sua mãe e sua noiva.

Meus joelhos fraquejaram.

Ele havia sido escolhido.

A multidão à minha frente se dividiu em duas metodicamente formando um corredor. Não conseguia distinguir feições, meus olhos ardiam.

Ele havia sido escolhido.

Kallien iria para o Sacrifício. Meu amigo Kallien. Meu confidente Kallien. Meu amante Kallien. Não se casaria daqui a alguns dias com a mulher que chorava copiosamente em um dos seus ombros. Ele estaria no Sacrifício.

Kallien pressentiu minha presença é de virou para mim.

Lágrimas ameaçavam cair dos seus olhos vermelhos.

Dei um passo em sua direção, depois outro e outro. Parei. Franzi a testa.

Kallien não choraria por ser escolhido. Esse era um desejo dele assim como eu desejava.

Então ele desvencilhou das mulheres e correu até mim me tomando nos braços, afundando a cabeça em meu pescoço, molhando minha camiseta com suas lágrimas. Eu não disse nada apenas o abracei de volta.

—Desculpa- ele sussurrou no meu ouvido e então eu vi.

Eu vi o mundo em nossa volta. Eu vi as feições das pessoas que abriram o corredor para que eu passasse. Eu vi a mãe de Kallien me lançar um olhar de apoio. Eu vi Ailani ficar calada e lançar um olhar de compaixão para a mulher que seu noivo abraçava. Vi Andréa liberar as lágrimas e desviar o olhar.

Então, finalmente, a lista a poucos metros de mim.

Ignorei o texto ridículo que preenchia quase todo o papel e foquei no par de nomes no fim da folha.

O par de nomes conhecidos. O par de nomes que andava junto desde criança. O par de nomes que passavam de boca em boca por causa de um colar.

Um dos nomes era o de Kallien.

O outro era o meu.

  ❖ ❖ ❖  

Notas Finais: hey, pessoal!

como vocês estão? o que acharam do capítulo?

deixem seu comentários, opiniões etc...

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PS: a mídia sempre vai ser uma música que me ajudou a escrever o capítulo, mas que não necessariamente é relacionada ao assunto do mesmo.

até mais

xx

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