Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

0Likes
0Comentários
3660Views
AA

7. ¨6¨

A casa de Callandrea ainda pertencia ao seu último falecido marido. Era uma da mais confortáveis das quais ela havia virado proprietária e também era uma das maiores. O senhor com quem ela havia se casado havia falecido há apenas seis meses e Callandrea teve que ser rápida ao pôr novamente um anel de noivado no dedo a fim de se livrar da inesperada Audição de inverno.

Seu luto foi embora aos poucos. Após o primeiro mês, ela ia a eventos públicos, no segundo, usava jóias, do terceiro em diante ela iria substituindo as peças de roupa preta por algumas mais floridas e atraentes.

Callandrea tricotava uma manta nova para mim na exuberante poltrona no canto da sala.

—Ailani chegou na casa de papai ontem praticamente com um informativo contendo uma foto sua e uma proposta de recompensa para quem aparecesse com sua linda cabeça em mãos.— ela mexia seus dedos delicados cada dia com mais habilidade.

—Acredito que seja por causa do colar...— eu comecei e Andrea olhou para mim por debaixo dos cílios volumosos.

—E que colar! Sei que Kallien nunca se esforçou para ser discreto sobre vocês dois, mas acho que depois disso o nome de vocês estão correndo por todo o vilarejo.

—E então lá se vai todo o meu trabalho com a discrição.— eu disse num tom de brincadeira bem diferente da preocupação que escondia por dentro.

—Olha, Corinna, você é minha melhor amiga, entretanto Kallien ainda é meu irmão e gosta de você de uma maneira que, eu tenho certeza, não vai gostar mais de ninguém na vida. Ele ama você. De verdade. Então se você sabe que nunca vai conseguir corresponder à altura, deixe-o ir. Não lhe dê falsas esperanças.

Senti uma onda quente tomar conta do meu corpo, mas respirei fundo. Por que todos achavam que eu tinha dado alguma esperança a mais sobre nós para Kallien?

Contudo, se eu estivesse no lugar de Callandrea e não soubesse de tudo, eu teria dito a mesma coisa.

—Andrea, Kallien está ciente desde quando tudo isso começou que eu nunca prometi um sentimento para ele. Nunca prometi nada mais do que algumas horas de distração em algum depósito abandonado. Ele também não me prometeu nada mais do que isso.— eu me joguei, por fim, no sofá macio que praticamente me devorava entre os seus tecidos.

—Não foi por falta de vontade... mas eu te entendo, é só que... eu apoio você e essa independência feminina, mas será que é tão difícil para você acreditar num futuro onde todos nós estamos juntos como uma família de verdade, feliz e estável? Não somos o suficiente para você?

Era possível sentir uma ponta de mágoa em sua voz.

O problema certamente não era eles.

O problema era que eu não conseguia acreditar naquela falsa ideia de estabilidade. Quanto tempo demoraria para que os que estivessem no controle tirasse isso de nós? Nossos representantes humanos não começariam a pensar mais em nós do que já "pensavam" naquele momento.

Não.

Eu queria lutar até conseguir o que todos nós merecíamos. Até conseguir a verdadeira estabilidade.

Ou morreria tentando.

Além disso o problema era eu. As coisas estranhas que vinham acontecendo comigo desde o ano passado, no meu aniversário de 17 anos. A família de Kallien e Callandrea era cética ao extremo, apesar de não desrespeitar os Deuses e sua prole, eles não faziam esforço para ficar perto deles.

E se eles interpretassem essas mudanças em mim como negativas? Se me acusassem de bruxaria, feitiçaria, ou pior, de ser um deles? Embora esse pensamento fosse ridículo.

Parte de mim me dizia que Kallien não encostaria, nem deixaria que encostassem um dedo em mim. Porém essa era a parte que também resolvia ignorar todos esses acontecimentos peculiares.

—Não, Andrea.— falei finalmente.— Não é nada disso. Eu que talvez não seja o suficiente para vocês. 

❖ 

Minha respiração e meus batimentos cardíacos agora eram parte dos barulhos da floresta. Pequenas algas acariciavam meus calcanhares convidando-os a tocar o fundo do lago. Meu corpo retesou e abri os olhos sentindo os raios de um sol de fim de tarde os atingirem.

Respirei profundamente fechando-os novamente ao apoiar minha cabeça em alguma pedra da margem.

Aceitei o convite das algas e apoiei os calcanhares sem dificuldades, o que foi uma surpresa.

Talvez essa parte tenha se tornado mais rasa. Talvez.

Entretanto, com esse pensamento eu apenas estava enganando a mim mesma. Minhas calças ligeiramente mais curtas nos tornozelos confirmavam isso.

Tabbris, minha égua, estava inquieta trotando até onde a corda amarrada a ela permitia. Bufava como se estivesse impaciente. Não a culpava. Era inverno e o frio já estava alcançando até mesmo aquele bosque distante onde raramente se via neve. Localizado no limite de nosso vilarejo, era também o bosque onde passei minhas primeiras e últimas horas junto a minha mãe.

Uma das únicas razões porque eu sobrevivi era o clima ameno dali.

Tabbris continuava impaciente pois minha manta não a protegia eficientemente da brisa fria.

—Só mais alguns minutos, Tab, então sairemos daqui.

De fato, a temperatura havia caído drasticamente nos últimos minutos e os fracos raios de sol quase poente não aquecia o necessário.

Se os dias fossem esfriando mais, logo aquele pequeno lago congelaria como todos os outros restantes no vilarejo. Com sorte, eu não estaria mais por ali.

Os frutos do Sacrifício eram apelativos. Após semanas desafiando, aceitando desafios de "oponentes" e sendo expostos a adversidades, apenas quatro saíam "ilesos". Eu seria uma delas, quando fosse escolhida.

Esses quatro humanos tinham liberdade de andar entre vilarejos e até mesmo de perambular pelo Setor Superior. Poderiam até mesmo residir lá se conseguissem, é claro, resistir a tensão de serem observado como animais enjaulados para exibição. Além de voltar com uma boa quantia de riquezas para casa e ter a possibilidade de um dia ser Representante dos Humanos no governo.

O restante voltavam para casa arrasados, deficiente ou doente. Quando voltavam. Não havia regras contra que um oponente matasse o outro.

Mergulhei uma única vez no lago sentindo a água congelante como navalhas na pele. Emergi já apoiando meus braços na margem do lago dando impulso para sair.

Tremores me atingiram diversas vezes quando pisei na terra seca. Inexplicavelmente, ali fora estava muito mais frio do que dentro da água. Tabbris tinha motivos para estar irritada.

Eu já estava parcialmente seca, exceto por minhas roupas íntimas, quando um graveto se quebrou. Havia tantos barulhos no bosque que aquele graveto se quebrando seria insignificante comparado aos outros sons. Porém naquele momento não foi.

—Quem está aí?— minha voz saiu um pouco trêmula devido à temperatura, e não obtive resposta. Kallien não fazia brincadeiras como aquelas depois que fiquei quase um mês sem encontrá-lo. Callandrea não se aventuraria até ali e meu pai, apesar de caçador experiente, não faria esforço para ser silencioso quando queria me encontrar.

Peguei minha calça e minha blusa penduradas em um dos galhos de uma árvore e as vesti.

—É bom que você se esconda bem até eu ir embora ou terá que fazer algum esforço para voltar para casa.— eu disse para o vento me sentindo um pouco idiota.

Poderia ser apenas um animal ou uma madeira podre finalmente se partindo, mas algo dentro de mim praticamente gritava que aquele som fora causado por um pé como o meu.

Chacoalhei a cabeça. Deveria ser um daqueles meninos pervertidos do vilarejo.

Arranquei a manta do lombo de Tabbris e passei os braços nas mangas.

—Preparado?— gritei repentinamente para que se assustasse.

Quando ouvi novamente outro graveto sendo esmagado, percebi que meu plano funcionou, entretanto não fiquei mais calma. Poderia ser qualquer tipo de pessoa.

Uma respiração brusca soou como um xingamento e eu olhei para os lados.

Uma respiração. Uma respiração como a minha. Não como a de Tabbris, não como a de qualquer outro animal. Como a minha, como a de alguém.

Pus o primeiro pé na cela e montei na égua de pelos tão escuros quanto o breu, soltando a corda que a prendia à arvore.

Cavalguei calmamente entre as árvores mais próximas e Tabbris parou justamente onde dois gravetos quebrados se destacavam no chão. Menos de dez metros de onde eu estava no lago.

A égua trotou euforicamente novamente enquanto eu me inclinava e tocava na árvore à nossa frente. Não havia nada nem ninguém ali, nem por perto.

Ignorei o pensamento de ter ouvido um suspiro de alívio quando fiz com que Tabbris virasse em direção ao caminho que nos levaria para casa.

❖ ❖❖ 

 

Notas Finais: hey, pessoal!

como vocês estão? o que acharam do capítulo?

deixem seu comentários, opiniões etc...

não se esqueçam de votar/favoritar e indicar para os amigos.

me sigam no twitter: @whodat_emmz

até mais

xx

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...