Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

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Nossos olhos não eram dignos da luz do dia no Setor Superior. Aparentemente.

Caminhamos por pouco tempo na superfície. Logo, nosso grande grupo estava dividido em várias partes. Cada uma descendo por longas escarias pouco iluminadas.

Não era porque o Sacrifício não havia começado que nossa avaliação também não. Os degraus tinham espaço para duas pessoas cada. Kallien caminhava calado ao meu lado. Ele não havia tentado nenhuma outra aproximação além do roçar de braços lá em cima.

Conall, de segundo em segundo, dava um tranco em seu percurso me fazendo trombar em suas costas firmes e, por consequência, fazendo Mattia esbarrar nas minhas. Acabávamos amaldiçoando-o e ele acabava rindo.

Laeni e Marjorie não estavam mais próximas a mim, agora guiavam junto com outros Examinadores nosso grupo. Fearis e outros seguranças e serventes guardavam nossa retaguarda.

A cada lance o cheiro de magia se tornava mais pungente e eu torcia meu nariz. Também, era a única a fazê-lo.

A bagunça começou quando todos os grupos terminaram a descida. O ar era pesado ali embaixo, mas não interferia em nossa respiração. Ainda não.

Os Escolhidos enfiavam-se sem ordem alguma atrás dos outros. Em um minuto, eu não era mais capaz de encontrar Mattia ou Conall. Nem mesmo Kallien.

Acalme-se. Dizia a mim mesma. Só seguir os outros.

Não estávamos mais em fila indiana. Éramos uma razoável multidão caminhando pelos corredores mal iluminados. Esquerda. Direita. Direita. Direita. Uma dúzia de portas quase passavam despercebidas nesse percurso. Portas dupla e majestosas. Provavelmente entraríamos por algumas delas em nossa estadia.

Os corredores se tornavam mais escuros a cada virada. Empurrões e tropeços estavam se tornando comuns. Meus pés ágeis faziam um bom trabalho, mas era difícil querer andar pelos outros. Depois do terceiro empurrão da mesma pessoa, resolvi olhá-la e perguntar se havia algo errado.

Um garoto de feições cruéis me encarava com um sorriso duvidoso. A maioria de seus dentes brancos estavam a vista. Não precisava ser um gênio para saber que ele esbarrava de propósito.

Do lado oposto, outro garoto tinha a mesma expressão para mim e caminhava cada vez mais próximo. Reconheci ambos por um instante.

Ranthal, vilarejo de Mors, parte dos Massacradores. O nome do segundo não vinha à minha mente mas sabia que ele era do vilarejo Oniro, também dos Massacradores. Mais três me cercavam. Dois pela frente e um por trás.

—Corinna, não é?—Ranthal foi o primeiro a se pronunciar quando o ritmo dos meus passos diminuiu consideravelmente. Um olhar me garantia que os seguranças não estavam prestando tanta atenção em nós assim.

—Sou Ranthal.— ele continuou enquanto estendia a mão em cumprimento. Não apertei em resposta. Seu sorriso se alargou, se é que aquilo era possível. Ele recolheu a mão. —Kallien nos contou sobre você.

Com uma expressão repugnante, um de seus amigos completou:

—Bastante.—seu sotaque prolongava o 's' enquanto ele me avaliava de cima a baixo.

Não estremeceria por aqueles animais. Respire fundo. Continue andando.

Assim que comecei a seguir os conselhos da minha mente, uma mão segurou o meu ombro.

—Você não fala, selvagem?—Ranthal provocou.

—Pelo jeito que ela olha para as câmeras, só consegue rosnar.—algum deles disse.

A essa altura o resto dos Escolhidos estavam no fim do corredor. Os seguranças não guardavam minhas costas.

—Ela pode rosnar o quanto quiser, desde que não entre em nosso caminho.— Ranthal gesticulou para quem quer que tivesse dito.—Ainda não sabemos suas intenções, gracinha. Porém, fique esperta, não poderá nos ignorar para sempre.

Ele apertou um pouco mais meu braço antes de me soltar com um impulso para frente. Seus infelizes amigos riram, eu poderia cuspir na cara de cada um deles, revelando que eles não tinham ideia do quão selvagem eu poderia ser, mas não seria um passo inteligente. Não agora.

Deixaria o confronto para a arena.

Entretanto, eles não pareciam querer esperar. Quando me deixaram em paz e começaram a seguir o caminho do último Escolhido que virava a esquina, tentei me mover, mas me vi presa no lugar.

Tentei com mais afinco e percebi o que me impedia. A parte de trás da gola da minha camiseta estava bem presa um fio grosso de alumínio que escapava de algum lugar da parede. Puxei mais um pouco e ouvi o tecido se partir minimamente.

Era possível ver o brilho interno do suposto Galpão quando abriram a porta. Não poderíamos ficar sozinhos pelos corredores, se me encontrassem, eu não conseguiria nem imaginar qual seria a punição. Ou eu ficava ali e esperava pelo pior ou transformava minha camiseta em retalhos.

Não era como se eu tivesse muita escolha.

Passos calmos foram ouvidos pelo corredor. Meu corpo retesou involuntariamente.

—O que faz aqui?— a voz soou atrás de mim antes de dar a volta e parar em meu campo de visão. —Sabe que não pode ficar perambulando sozinha.

Perambulando? Ele só poderia estar cego.

Levantei a cabeça analisando toda a sua estrutura no processo.

Suas botas bem lustradas e de couro de boa qualidade conseguia reluzir no escuro. Sua calça era de um tom escuro que eu não conseguia definir ali e estava sob uma túnica que se ajustava a cada forma do seu corpo. Ele era praticamente do meu tamanho. Quer dizer, meu novo tamanho. Seu rosto era algo de se admirar. Todos seus traços eram bem definidos e suaves, se ele pudesse ser comparado a uma pintura, o autor teria feito cada detalhe com dedicação e delicadeza. Seus cabelos eram de um castanho arenoso que pareciam ser tão intocáveis que fugiriam ao toque. Entretanto, o que chamava atenção era os seus olhos. Verdes como uma floresta fértil e abençoada, verdes como se esmeraldas tivessem sido lapidadas para estarem ali.

—E então?— ele disse ao cruzar os braços me tirando do transe.

Ele era um Deorum sem dúvidas. Era perigoso, poderia me matar em segundos... mas ainda não o tinha feito

—Estou presa.—apontei sem muita simpatia para a gola da minha camiseta.

—Ah.— ele pareceu compreender arregalando os olhos por poucos segundos. —Vou te ajudar, mas você me dará sua palavra que não contará isso para ninguém.

Qualquer coisa para sair daqui. Qualquer coisa para sair de perto de você.

Não tirei minha atenção dele quando deu a volta novamente, posicionando-se a minhas costas para me soltar.

—Relaxe, não vou fazer nada com você. Aliás, você deveria estar preocupada com sua própria espécie, claramente isso foi obra de um deles.— com dedos ágeis senti minha prisão afrouxar.

Estava pronta para correr quando senti a liberdade por completo, mas uma mão me segurou no lugar e me virou para encará-lo.

Encaramo-nos por alguns instantes.

—Senhorita Lestat, não tão rápido. Preciso de sua palavra, não é permitido que tenhamos contato com vocês antes da Cerimônia de Boas Vindas ou ambos sofreremos as consequências.

Olhei para sua mão em meu braço, para seus olhos e então para seu rosto por completo. Imaginava se na luz normal, ele seria ainda mais irreal do que na iluminação precária.

—Você a tem.— foi a única coisa que me permiti dizer, nem mesmo esperando ver o fim de seu sorriso simples que lançara para mim. Parti em direção ao Galpão que já fechava as portas.

Fui recebida por uma Laeni exasperada na entrada.

—Onde você estava? Sabe que não pode ficar andando sozinha por aí.

Por que todo mundo tinha a ideia que eu queria andar por aí desacompanhada no escuro onde vários Deorum andavam livremente? Eu não era suicida.

Entretanto, eu sabia que ela só estava preocupada.

—O que houve com sua camiseta?— ela sussurrou notando que alguns dos Escolhidos nos acompanhavam com os olhos.

Nós poderíamos não ter poderes, mas era uma habilidade dos humanos fingir que continuávamos seguindo nossas vidas enquanto prestávamos atenção nas dos outros.

—Alguns engraçadinhos acharam que era divertido me prender no corredor.— desviei o olhar da direção de Ranthal que piscava para mim e seus aliados idiotas. Ele mesmo mataria todos eles quando tivesse a primeira oportunidade.

—Ignore-os. O desafio começa no Sacrifício, não aqui.— ela deu um tapinha nas minhas costas me incentivando a ir tomar posse de uma cama.

Como o esperado, as melhores estavam ocupadas, porém Conall acenava discretamente da última cama desocupada no final do Galpão.

O lugar não ia muito além do nome. As paredes eram de um cinza sem graça e sem decoração. As camas estavam dispostas da maneira mais simples possível, algumas com colchões mais novos que outros, mas todos eram cobertos com uma colcha fina e lisa. Por razões óbvias, não havia janelas, apenas aberturas minúsculas por onde passavam os dutos de ventilação. A parede do outro lado, era ocupada por mais camas, mas duas portas se destacavam. Uma era para o banheiro compartilhado e a outra deveria ser onde os Examinadores ficariam, a julgar que só eles entravam e saíam de lá.

—Não conseguimos guardar outra para você, metade de nós quase já morria só por causa de uma cama. —Mattia foi a primeira a dizer enquanto enrolava um fio solto da colcha entre os dedos.

—Obrigada.— disse sentando-me entre os dois.

O colchão mais parecia uma folha de papel e, pelo o desgaste, aquela cama era uma das mais antigas ou uma das mais usadas. Numa segunda olhada, percebi o porquê. Bem no canto da cabeceira, um pequeno monitor, do tamanho da palma da minha mão, quase se camuflava por completo. Ele mostrava uma imagem de uma floresta bem parecida com a que eu visitava em casa, só que mais viva e mais...mágica. No canto da tela uma palavra dizia "Tarde Baixa" então pressupus que aquela representação era em tempo real. Pelo menos eu não perderia a noção dos dias ali.

—Você sumiu do nada, mas conseguimos mantê-la próxima a nós.—Conall disse se esticando sobre a cama. —Estaremos a duas camas de distância de você.

Ergui a cabeça para conferir, mas acabei encontrando o olhar de Kallien que estava localizado na cama a minha frente. Ótimo.

"Kallien nos contou sobre você." "Bastante." Lembrar das palavras daqueles imbecis era o suficiente para querer vomitar em Kallien, mas me contive e desviei o rosto.

Os dedos de Mattia passaram suavemente sobre o rasgo de minha roupa que era maior do que eu imaginava.

—Espere um pouco, tenho algo que pode te ajudar.—ela disse e caminhou até sua cama.

—Consegue acreditar que estamos aqui finalmente?—Conall perguntou cutucando minha costela.

—Agora precisamos garantir que sairemos.— respondo dando um sorriso de canto para ele que se levanta e me abraça de lado.

—Sairemos sim. Juntos. Eu, você e Mattia e então dominaremos o mundo. Juntos. Eu posso sentir.— nós rimos juntos e Mattia logo voltou com um rolo de linha de costura e agulha.

—Sabe dar ponto?— ela perguntou e eu assenti com a cabeça. Conall deu espaço para nós, enquanto ela amarrava minha manta ao redor do meu corpo e eu tirava minha blusa sob ela.

A manta conseguia cobrir todo o meu tronco e ninguém além de nós reparou o que acontecia. Nós e Kallien que observava tudo calado e atento.

Passei a linha pela agulha sem muitas dificuldades enquanto Conall e Mattia divagavam sobre como seria nossos horários até o início do Sacrifício.

Eu acrescentava algumas observações vez ou outra, mas não deixei de notar quando Kallien levantou e se juntou aos seus aliados. Uma onda de decepção passou por mim.

—Ai.— reclamei baixinho com a picada da agulha em meu dedo. Apenas Mattia percebeu e também olhava admirada para o meu dedo quando a gota de sangue que se formava no meu indicador desapareceu de súbito e sem explicações.

Balancei a mão rápido fingindo que limpava o líquido agora inexistente na colcha escura. Pelo arquear de sobrancelha de Mattia, ela não tinha comprado nada daquilo.

—Terminei.—disse rapidamente e entrei no assunto de Conall.

Entretanto, eu tinha certeza que nada escapava facilmente dos olhos ligeiros de Mattia.

❖❖❖

 

Notas Finais:

como vocês estão? o que acharam do capítulo?

Estou pensando em deixar os capítulos, mais compridinhos como esse, oq acham?

deixem seu comentários, opiniões etc...

não se esqueçam de votar/favoritar e indicar para os amigos.

a playlist da história está em construção, mas já está disponível no link: bit.ly/hosplaylist

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até mais

xx

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