Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

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Kallien e eu estávamos em vagões separados.

Para o Sacrifício, não éramos um time. Não éramos amantes. Não éramos amigos nem mesmo conhecidos.

Éramos oponentes. E isso me assustava.

A possibilidade de que talvez eu enfrentaria Kallien de qualquer forma, me assustava.

Eu estava no quarto destinado a mim há alguns minutos e estava claro que aquele não era um dos trens que geralmente paravam nas estações dos vilarejos.

Ele não tinha assentos enfileirados em cada vagão. Na verdade, cada um deles era como uma casa enorme e majestosa. Se as janelas não nos mostrassem uma paisagem exterior borrada pela velocidade, eu poderia assumir que estávamos em uma casa convencional.

E os vagões... eles eram pelo menos umas duas dezenas. Era incrível como algo daquele tamanho conseguisse adquirir tanta velocidade.

Eu sabia de tudo isso sobre o veículo pois o criador daquele monumento aparentemente tinha um orgulho tremendo de seu trabalho que o impedia de deixar um cômodo sequer sem um quadro com algumas informações do trem. Seu tamanho, sua planta, sua velocidade máxima, sua capacidade de lotação, suas vunerabilidades inexistentes, suas saídas... E olha que aquele negócio tinha mais de 300 anos.

Meu quarto era do tamanho da minha sala e cozinha em Fortuna. Tinha bandejas de doces e petiscos, uma geladeira que não passava da minha canela em seu tamanho, uma televisão tão fina que parecia ser parte da parede. Um terço de uma das paredes era ocupado por um espelho ao lado de uma cômoda com duas gavetas onde se encontravam uma calça moletom, uma regata e um casaco que, obviamente, não serviam muito bem em mim e seriam meu pijama durante o tempo que eu ficaria por ali.

Obviamente porque nada ali era especialmente para mim, nem mesmo especificamente para uma garota. Os vagões eram sorteados alguns minutos antes que o trem chegasse em cada estação, ou seja, os vagões adjacentes ao meu eram ocupados por oponentes desconhecidos. Sem chance alguma para que eu encontrasse Kallien.

Eu não sabia porque estava desejando tanto que ele estivesse ali comigo. Talvez com ele ao meu lado eu poderia fingir que nada daquilo era tão estranho para mim.

Marjorie me aconselhou a utilizar e aproveitar o máximo de coisas e serviços que eu pudesse, pois quando eu chegasse ao Setor Superior, eu viveria apenas com o básico do básico até arranjar um Simpatizante.

Apesar de duvidar que esse "básico do básico" fosse algo semelhante ao que eu já tinha vivido, resolvi seguir o seu conselho para variar.

Demorei horas embaixo da ducha quente e lavei meu cabelo com os tipos mais variados de produtos. Usei sabonetes e hidratantes com aromas que eu nunca havia sentido e senti minha pele ficar tão macia quanto no dia do Pronunciamento. Escovei os meus dentes duas vezes seguidas só para aproveitar a sensação. Sequei meu cabelo com um objeto que lembrava uma arma de fogo grotesca e prendi um rabo de cavalo alto.

Guardei as roupas que meu pai me dera e coloquei as disponíveis para mim na cômoda fazendo ajustes para que não caíssem do meu corpo. Peguei minha bolsa de couro, a qual me foi permitida levar, e tirei uma tornozeleira, com vários pingentes pequenos com várias pedras brilhantes nela.

Era a única coisa da minha mãe que restou para mim. Ela usava no seu próprio pé no dia em que meu pai nos achou. Além de pedir que meu pai me resgatasse, ela foi capaz de pedir que ele me desse a tornozeleira. Usei a joia como gargantilha por alguns anos e quando ficou pequena demais guardei nessa bolsa pois tinha medo de colocá-la no tornozelo e perdê-la enquanto caçava. Porém agora não poderia arriscar deixá-la longe de mim.

Escondi alguns dos sabonetes cheirosos dentro da bolsa e tirei um caderno e uma caneta de lá.

Peguei alguns pãezinhos e resolvi explorar o restante do meu vagão.

Passei por todos os quartos, pela enorme cozinha, banheiros de uso comum e salas disponíveis. Contei janelas, portas e ainda consegui encontrar todas as saídas de emergência que consegui memorizar dos quadros de informações.

Estava em frente à última porta restante que, por um acaso, era ao lado do meu quarto, mas que eu não tinha reparado antes. Era de vidro, mas eu não era capaz de enxergar o outro lado e não consegui concluir para onde aquela porta poderia levar.

Se eu não tivesse a analisando tão concentrada, não teria reparado nos três toques ritmados que davam a cada aproximadamente dois segundos.

Aproximei-me lentamente da porta ouvindo os toques quando, de repente, ouvi um "Bu" abafado e uma batida única e forte que me fez pular para trás com um grito embaraçoso.

Meus olho se focaram de maneira estranha naquele instante e era como se o vidro escurecido tivesse sumido. Uma figura alta, forte e morena ria do outro lado apesar que estar surpreso. Aproximou o rosto do vidro e disse baixinho:

—Chegue mais perto.— obedeci ainda que meio receosa. —Do seu lado esquerdo tem um leitor. Ao lado dele, tem uma pequena caixa. Abra-a e aperte o botão vermelho.

Estreitei os olhos.

Não podíamos perambular por outros vagões. Era um teste.

O moreno pareceu entender o meu silêncio e balançou a cabeça:

—Não, não. Não vou te meter em enrascada, prometo. Já fiz isso antes. Aperte.

Abri a caixinha.

Não. Não faça isso. Minha mente alertava. Você quer morrer antes de chegar ao Setor Superior?

Afastei a mão, olhei nos olhos do garoto que parecia um pouco mais velho do que eu.

—Confia em mim.

Respirei fundo. Olhei para os lados e para trás me certificando. Apertei o botão e fechei os olhos esperando o barulho ensurdecedor. Mas ele não veio.

Ouvi apenas um barulho de uma porta automática abrindo e fechando. Um vento frio me fez encolher com as mãos no rosto.

Senti um corpo quase pressionando o meu.

—Graças aos Céus! Isso sim é uma temperatura aceitável para um humano.—Sua voz era baixa mas firme. —Ei, olhe para mim. Você não vai morrer agora, você só desativou a porta, acalme-se e observe.

Ele tirou as minhas mãos do rosto e puxou a porta para o lado com uma das mãos e ela abriu, empurrou novamente para o lado contrário e ela fechou.

Depois de sua demonstração, eu olhei de verdade para o garoto na minha frente.

Todos os anos que eu acrescentara em sua idade na minha mente, desapareceram em seu sorriso.

Ele assoviou.

—Você é ainda mais bonita e séria pessoalmente. — senti meu rosto esquentar. —Prazer, Conall.

Ele estendeu a mão, mas eu não apertei de primeira.

—Prometo que não é um teste, nem algo parecido.— seu sorriso ficou maior e eu segurei sua mão ainda hesitante.

—Prazer, Corinna.— suas mãos calejadas contrastavam com sua pele de aparência impecável banhada pelo Sol. Antes que ele pudesse trazer à tona o episódio do vidro ficando transparente do nada, eu disse: —Bem, não é permitido andar entre os vagões.

—É, eu sei.— ele deu de ombros.—Mas já visitei pelo menos uns cinco e ainda estou vivo. Acho que nossos superiores não estão dando muita atenção a essa regra no momento.— Conall começou a balançar seu corpo para frente e para trás, ressaltando a pequena distância que um do outro.

Eu estava praticamente o encurralando entre mim e a porta.

—Oh, me desculpe.— Conall apenas fez um gesto desleixado com a mão.

—Tudo bem se eu ficar aqui por um tempo? Se me encontrarem prometo que digo que você não tem nenhuma relação comigo, mas é que meus examinadores são o pior tipo de ser que existe. E, de alguma forma, eles acabaram descobrindo que eu odeio o frio e ligaram o sistema de refrigeração na maior potência possível. Junte o ódio pelo frio com ódio por ficar sozinho e pronto, aquele lugar ficou insuportável para mim.

Ele falava tudo muito rápido e eu tive que segurar o riso.

—Você não prefere ter essa conversa no meu quarto? Alguém pode aparecer e...

—Claro, claro! Como se eu fosse recusar um convite desses.

❖❖❖

Notas Finais:

como vocês estão? o que acharam do capítulo?

deixem seu comentários, opiniões etc...

não se esqueçam de votar/favoritar e indicar para os amigos.

a playlist da história está em construção : https://open.spotify.com/user/emmy_lopez259/playlist/1sEYWtEU41bW6n6HIcvnpm

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até mais

xx

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