Lívia e os ladrões

"Devo ter cochilado pois quando finalmente abro os olhos há pouca luz e começa a chover. Como poderia chover depois de uma tarde daquelas? E aonde está Gregório?
Um pânico instantâneo me toma. Ele não me deixaria sozinha."

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1. A minha parte da história

Eu não sou uma rebelde, mas ser filha da realeza tem seu lado ruim.

Será uma linda tarde de outono e eu quero sair para aproveitar o sol e o vento gelado.
Mas eu preciso estar presente nos eventos que me mandam, vestir as roupas que fazem para mim e sorrir para todos aqueles estranhos que se sentam à mesa. Digo, nossos convidados.
- Já está acabando? - Pergunto aos sussurros à mamãe.
- Acabou de começar, Lívia - Ela me olha como quem está desapontada, mas ainda assim com uma certa compreensão - Se você se comportar, poderá sair depois que acabarmos, mas só um pouco, antes do anoitecer - Ela respondeu com a delicadeza de uma rainha, que eu conheço bem como deve ser, só não pratico.

 

A tarde está tão maravilhosa quanto eu imaginava que estaria, depois da prévia que tive pela janela hoje cedo.

- Princesa Lívia, por favor! - Gregório me chama quando começo a correr.
- Gregório, eu já pedi para não me chamar de Princesa quando não estivermos em casa. Tenho pouco tempo e muita coisa para aproveitar, venha logo! - Eu digo, sem deixar de correr.
- Mas Lívia... - Ele não completa a frase.
- Sem "mas", vamos!

Na minha clareira preferida eu corro como uma louca, em círculos. Um prazer bobo, mas ainda assim um prazer, já que eu tenho poucos momentos do lado de fora. Caio deitada, ainda ofegante, naquele colchão de folhas secas e fecho os olhos.

Devo ter cochilado pois quando finalmente abro os olhos há pouca luz e começa a chover. Como poderia chover depois de uma tarde daquelas? E aonde está Gregório?
Um pânico instantâneo me toma.  Ele não me deixaria sozinha.

Então ouço passos vindo do outro lado da clareira. Me viro e vejo tochas que já se apagam por causa da chuva. Eles não estão de branco, não são servidores do Rei. Procuro um lugar para me esconder, agradecida por ter mudado meu vestido claro por roupas escuras.

Eu sei voltar para casa sozinha, mas precisaria passar por onde os estranhos estão. Eles pararam, já que ficaram sem luz. Estão conversando e eu consigo ouvir um pouco do que dizem.

- Ela não pode ter ido longe, o guardinha estava por perto quando o encontramos - Um dos homens disse.

Não!

- Não pode ser difícil capturar uma garota, ela é praticamente uma criança - O outro respondeu - Não precisávamos ter vindo em dupla, um só daria conta do serviço.
- Você sabe que não somos nós que fazemos as regras, cale a boca e vamos logo encontrar a maldita garota, ou não teremos nossa recompensa!

Tento ser o mais silenciosa possível mas quando caminho tudo estala, folhas e galhos secos abaixo dos meus pés. Minha única escolha é correr o mais rápido que posso.

Não olho para trás, mas sei que me ouviram.

Não tenho coragem de saber o quão perto estão, mas consegui alguma vantagem saindo na hora certa. Estou muito apavorada.

O que querem de mim?

Corro floresta adentro, pelos lugares que nunca andei. Pela distância que já percorri, não sei mais voltar para casa.

Sinto que o caminho fica mais íngreme, minha curiosidade e o medo não aguentam mais e me fazem olhar para trás. Não vejo sombras, nem ouço ruídos além dos meus e da chuva.

Quando me viro, meu corpo se impulsiona pra frente, e eu estou caindo. Caindo de um lugar alto, meu corpo rola diversas vezes pelo chão agora encharcado, meu braço prende em algo, e quando finalmente solta eu rolo mais algumas vezes e sinto uma pancada.

Tudo fica escuro.

 

 

Mãos geladas tocam o meu rosto e eu abro os olhos devagar.

- Menina, como você veio parar por essas bandas? – Uma voz espantada fala comigo. Sou pega de surpresa.

- Chovia muito, estava cansada, já não aguentava mais correr... – Eu começo a responder com uma voz estranha, mas hesito.
E eu ainda estou sonolenta e cansada, na verdade cansada até de falar. Sei que caí em algum lugar, estava muito escuro e eu fui rolando pela terra molhada. Devo ter batido com a cabeça, não me lembro de muita coisa até aqui, apenas do meu sangue escorrendo quente por minha testa e a dor lacerante em meu braço miúdo.

- De onde você é, menina? Você se lembra do nome de alguém?  – A senhora me pergunta.
Apenas balanço a cabeça em sinal negativo.
Ela deve ter feito um grande esforço para me trazer até aqui, provavelmente sem ajuda. E  cuidou de mim, porque sinto uma pontada na testa e meu braço ainda dói, mas não insuportavelmente.

- Bem, você terá que passar o resto da noite por aqui, pelo visto. Não se preocupe, aqui você estará segura dos males da floresta. – Novamente ela tenta me reconfortar.
Me deito novamente e, por algum motivo, não acredito que os males da floresta sejam o meu maior problema.

 

Ao acordar, noto que estou sozinha no casebre bem cuidado. Olho pela janela. É uma bela manhã de outono e pela posição do sol, sei que ainda é cedo.
Agora as coisas estão mais esclarecidas em minha mente, mas tudo o que aconteceu foi realmente confuso. Gostaria de me movimentar e ir embora, mas ainda não me sinto totalmente disposta e decido ficar quieta até a senhora voltar. Qual seria o nome dela?

Não muito tempo depois ouço vozes se aproximando do casebre. A senhora não está sozinha. Fico alarmada, mas quando adentra sua companhia não está mais lá. Estaria eu ouvindo coisas?

- Bom dia, menina! Como você está? – Preciso descobrir o nome dessa senhora.

- Bom dia! – Tento parecer mais disposta do que realmente estou – Estou muito melhor. Obrigada por ter me ajudado, Dona...

- Berenice, esse é meu nome. Mas pode me chamar de Nice.

- Ah, sim. Obrigada, Dona Berenice. – Tento ser cordial.

- Está com fome? Trouxe algumas frutas para o desjejum. – Ah, sim. A dor atenuou a fome, mas agora esta ganha força.

 

- Dona Nice, a senhora foi muito gentil, obrigada de verdade. – Agradeço, pronta pra partir, mesmo que ainda não esteja cem por cento melhor, e que não tenha ideia de como voltar.

- Não há de quê, menina. Mas você está pensando que vai aonde? – Ela me questionou, mas com bondade nos olhos.

- Tenho que encontrar minha casa, meus pais devem estar procurando por mim. - Eu respondo.

- Ah, e estão sim, com toda certeza. - Ela faz um gesto apontando para fora da casa - Tem pelo menos uns dez homens lá fora à sua procura.

Olho espantada, lembrando dos homens que me seguiram na noite passada.

- Não precisa ficar com medo, são servidores do Rei. - Ela me assiste com olhos questionadores, como se perguntassem se eu não sei que o Rei é meu pai.

- Claro, quem mais poderia ser? - Dou um meio sorriso e saio do casebre ainda intrigada.

Quando vejo Gregório, corro para dar um abraço em meu amigo e ele protesta.

- Princesa Lívia, por favor! - Aquela fala de sempre, mas desta vez é um pedido para que eu me afastasse de seu braço quebrado.

- Gregório, perdão! O que aconteceu com você? - Estou realmente aliviada e confusa.

- Você está machucada... - Ele começou, mas como se despertasse de um devaneio, terminou sua frase com a voz firme - Princesa Lívia, seus pais aguardam seu retorno, precisamos nos apressar.

- Claro - Eu olho para Dona Berenice, ela assente para nós, respondo com o mesmo movimento em agradecimento. Seguimos os demais servidores que vieram nesta busca.

 

- Gregório, preciso saber o que houve ontem! - Eu afirmo.

- Não tenho autorização para falar a respeito deste assunto. - Ele responde e minha reação é de incredulidade. COMO ASSIM não tem autorização?

Mas sei que sem a autorização do Rei ele não me falará nada, nem sob tortura. Me permito mergulhar em meus pensamentos e pego meu cordão, como de costume. E então me dou conta de que meu cordão não está comigo.

- PAREM! - Eu grito.

Os servidores continuam como se eu nada tivesse dito.

- Princesa, temos ordens a respeitar e não podemos parar agora. - Gregório me responde calmo, como se estivéssemos voltando da clareira normalmente.

- Gregório, eu o perdi. O cordão da princesa. Não posso voltar sem ele. Eu nunca o tiro. - Sussurro, suplicando.

- Mandarei buscarem pelos lugares em que estivemos ontem, você estava muito eufórica e deve ter deixado cair pelo caminho. Poucas pessoas andam por esses lados da floresta, logo o encontraremos, não se preocupe, só não podemos voltar agora, Lívia.

Gregório é objetivo e frio em suas palavras, não é de sua natureza ser tão impassível comigo, mas relevo devido às circunstâncias.

 

Ao chegar em casa encontro Rosa à minha espera, ela me dá um abraço forte, como o abraço de uma mãe.

- Eu estava tão preocupada, Lili! - Ela diz quase chorando - O Rei e a Rainha estão à sua espera na Sala do Rei, mas você precisa se arrumar.

Finalmente tomo um banho e coloco roupas limpas, mas é muito estranho a mudez de todos para comigo.

- Rosa, por que estão todos calados?

- Princesa, o que aconteceu ontem foi muito sério, mais do que pode imaginar, mas só por fazer esta afirmação já estou me comprometendo. Recebemos ordens para não dizermos nada a respeito. Faça como se nada soubesse.

 

Entrei na Sala do Rei sabendo que o que seria dito mudaria muita coisa a meu respeito. Só não esperava ouvir as explicações macabras e desumanas que ouvi. A partir de hoje, provavelmente não poderei mais sair, verei todas as manhãs apenas por minha janela até eu completar quinze anos.

Gostaria de poder fugir, mas isso não mudará o que eu sou. Aonde eu for, serei sempre a princesa de Angra.

Algum dia precisarei tomar decisões e abdicar de vontades minhas pelo meu povo, pensarei em coletivo e não individualmente. Mas agora, e por mais um ano, preciso deixar de viver para continuar vivendo.

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