Sequestro

Uma pequena peça a narrar a cruel experiência de Lindenberg, um policial afastado, que busca encontrar seu neto, único e raptado, para evitar que algo pior o aconteça.

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1. Sequestro - Capítulo Único


     Um sonho inquieto o fazia rolar de um lado ao outro na cama. O suor formava já uma poça ao seu redor. As feições se retorciam em um olhar de sofrimento.

     Não era essa a primeira vez que sofria com tal sonho. Oh, não. Tal visão o incomodava desde o dia que lhe acometeu, pois por suposto, essa era uma memória de um acontecido.

     Incomodava-o extremamente reviver a cena. Era nítido, completamente realista. Ele observava o mundo girar lentamente enquanto à bala, disparada de seu revólver, atingia o abdômen de um garoto de não mais de 16 anos.

     O incidente, há quatro anos, foi o motivo de sua saída da polícia. Exercendo sua função por aproximadamente 20 anos, disparou sua arma contra centenas de pessoas, porém, essa única vez, esse disparo mal calculado, que acabou por drenar a vida de um inocente, o fez desistir de seu cargo.

     Então, três anos após o ocorrido e quando tal ferida parecia já cicatrizada, a vida lhe acerta uma nova pedra: a morte de sua família. Sua esposa, filho e nora. Todos de uma vez.

     Sozinho agora, seu neto era o único que lhe restava.

****

     Com passos rápidos cruzava uma travessa de uma movimentada avenida e vira à esquerda na Rua Sage, em direção a um pequeno café no final da mesma.

     Tomando para si a mesa mais distante possível, senta pesadamente, acenando para o garçom que logo veio ao seu encontro. Ordenado o café preto e sem açúcar, o funcionário deslizou entre uma pequena quantidade de mesas e submergiu de volta a cozinha com a anotação em mãos.

     Vendo-se sozinho novamente, Lindenberg pôs-se a observar nervosamente o movimento à sua volta. A banca de jornal do outro lado da rua era seu ponto de entrega. Ah, sim, pois a maleta que carregava em mãos continha certa importância em dinheiro vivo. Vinte mil dólares.  As mãos, suadas e trêmulas, repousavam sobre essa e o contato com o metal gélido, lhe causava calafrios.

     Sua mente o transportava ao dia anterior, em um flashback nítido e massacrante. A cena formava-se então a sua frente, sem barreiras e, envolto em tal drama, revivia a cena novamente:

 

     Acordou com um estridente som vindo da sala. Levantando-se de sobressalto, maldiz quem tivera a audácia de lhe telefonar a tal hora da manhã e se dirige a sala, um cômodo ao lado.

     Checando o display, um número desconhecido é evidenciado na pequena tela. Levando o aparelho a altura da orelha, pronuncia um claro "pois não" ao ouvinte.

     "Acaba de se levantar, certo? Posso dizer pela embriaguez de sua voz, Lindenberg." - uma voz conhecida, porém não notável, ecoa através da linha.

     "O que deseja?" – Pergunta, quase desconcertado com o teor da voz. "Posso ajudar?" - completa.

     "Claro! Pois foi para isso que lhe telefonei, não? Mas, antes de qualquer outra informação, desejaria prender toda tua atenção em mim e, não há melhor método que lhe atrair com algo que estimas mais que sua própria vida. Então, se deseja estar ciente dos acontecimentos, peço que cheque seu e-mail o mais rápido possível. Há uma certa surpresa a te esperar."

    Uma risada abafada se ouve. A expressão congelada que o policial ornava ao ouvir tais palavras se transformou em uma feição duvidosa. 

    "É uma forma imperativa demais para uma propaganda. Não acha que é agressiva demais?" Um tom incrédulo soou na voz de Lindenberg ao entoar a frase.

    "Acredite meu amigo; Essa não é, de forma alguma, uma propaganda. Se dúvida, sugiro então, que faça como pedi. Não há de lhe custar nada."

     Disposto a encerrar tal incômodo logo, ele se dirige ao pequeno escritório, localizado a frente do quarto principal. O pequeno local era abafado e escuro, resultado de grandes cortinas escuras que pendiam em camadas das grandes janelas de vidro, antes sempre abertas. O ambiente claustrofóbico era morada de uma estante cheia de livros antigos, uma escrivaninha escura, uma cadeira surrada e um desktop quase antiquado.

     Ligando rapidamente o monitor, a área de trabalho aparece em um primeiro plano. Abrindo o e-mail, há apenas uma entrada. Sem prestar atenção a mais nenhum detalhe, clica sobre o mesmo.

      Há apenas um anexo. Intitulado "Vingança", o vídeo rapidamente mexe com o emocional do policial.

    Seu neto, único e amado, aparecia amarrado a uma cadeira. Um corte em sua cabeça ainda com indícios de sangue e sua feição, distorcida em dor, deixaram Lindenberg completamente atônito. O garoto de doze anos, com lágrimas correndo por sua face, chamava pelo avô e perguntava, em desespero, onde estava. O cenário, escuro e decrépito, passava ainda mais temor ao conteúdo.

    Mantinha a ligação correndo até o momento e, trêmulo, leva o aparelho à orelha, tentando entender o que ocorria.

    "M-mas... Mas que merda está... O- o quê está acontecendo aqui?" - sua voz sumia e falhava, reflexo de seu nervosismo.

    "Ótimo! Vejo que agora está centrado." Uma pausa. Dramática - "Não há muito que dizer. Já lhe mostrei tudo o que tenho. Depende de você agora se interessar em ajudar."

 

        O garçom, chegando com uma bandeja, sob a qual repousava uma única xícara, o acorda de seus devaneios. Ainda longe em pensamentos, apenas acena com a cabeça enquanto o funcionário do café volta a desaparecer. Bebendo um gole, sente o amargo descer por sua garganta. 

     Lembra-se exatamente das exigências do desconhecido. Deveria deixar a maleta abaixo de um banco, logo ao lado de uma banca de jornais no centro da cidade. Deveria esperar meia hora e, só então, deveria voltar para casa.

    Dizia o sequestrador que, se o fizesse assim, teria seu neto de volta.

    Terminado o conteúdo da xícara, levanta e, deixando uma nota sobre a mesa, atravessa a rua calmamente. Prestava atenção em cada pessoa ao redor. Não havia ninguém ali que parecia estar de olho em suas ações.

    Senta-se então no banco e põe a maleta aos pés do mesmo. Fecha os olhos por alguns segundos, que se estendem por eternidades e então, tão súbito como quando havia chegado, levanta e acena para um táxi que apontava à esquina.

    Dando o endereço de sua casa ao motorista, pede para que ele demore cerca de quarenta minutos até o local indicado. O taxista aceita sem hesitar, afinal, era apenas mais dinheiro ganho. 

     Finalmente raciocinando, Lindenberg se acha ridículo por agir à mercê de emoções. Ele, em seus cinquenta e um anos de idade, sempre fora alguém calmo e reflexivo. Pensava centenas de vezes antes de agir. É claro que, por se tratar de seu neto, a possibilidade de perdê-lo o assustava mais que qualquer quantia a ser paga em dinheiro.

     Dinheiro esse que não lhe era difícil de conseguir. O acidente de carro que matou seus entes, foi causado por um "filhinho de papai", como diria. Apenas um inútil que vivia sobre a riqueza dos pais. A fim de acobertar a história, tal família lhe pagava um auxílio mensal. Além do mais, recebia uma gorda quantia do governo, por todos os anos de serviços prestados.

     Divagando, não percebia a paisagem mudar através das janelas do carro. Concentrava-se apenas em se condenar por não ser tão presente quanto desejava. Mesmo que amasse a seu neto, a visão do garoto o fazia lembrar-se de seu filho. A ordem natural da vida não era assim. Os filhos devem enterrar os pais, não o oposto. Não era como se evitasse o garoto. Apenas não convivia com ele o quanto gostaria. Jantavam juntos e, por vezes, passeavam nos finais de semana. Nos outros dias, a criança ficava com uma babá, enquanto ele se mantinha em seu escritório a ler, seu único hobby sobrevivente a tantos desastres.

     A paisagem continuava a transmutar, e agora o bairro de classe média-alta emergia por trás de um pequeno vale de pinheiros. Seus quarenta minutos chegavam então ao fim. Acordando de sua distração, observava os médios portões de ferro despontarem a esquina, enquanto o táxi diminuía a velocidade chegando a um cruzamento. Olhando mais atentamente, percebe que os portões estão, na realidade, abertos.

     Metendo as mãos nos bolsos, agarra duas notas de cem e as joga sobre o banco do carro, abrindo a porta desesperadamente e correndo em direção a casa, sob o olhar atônito do taxista. Transpõe a pequena distância até ao portão e logo em seguida até a porta, também entreaberta.

     Não respirava, hiperventilava. Empurrando a porta de madeira com força, faz um som metálico redundar pelos cômodos, resultado do choque das aldravas, enquanto grita por alguém. A casa, seriamente silenciosa e envolta em uma atmosfera sombria, nunca lhe pareceu tão cinzenta. Vence os poucos metros que separam o hall de entrada da sala em segundos. O mundo parece lhe girar mais lentamente. Cada movimento faz seu corpo pesar mais.

    A ânsia pelo reencontro, a esperança e o medo se tornam um misto de emoção e receio em seu peito. Um saudável e memorável cheiro transborda o ambiente. Uma fragrância adocicada e quase embebedante  provem da sala de jantar. Ultrapassando o balcão entre ambos os cômodos, cai de joelhos ao chão.

     Não acreditava no que via. Um gosto azedo lhe sobe a garganta. Um vômito amarelado, mais bile de qualquer comida, é expelido. Esfrega os olhos, tentando se convencer que tudo não passa de um miragem, um truque de sua mente. 

      O corpo do garoto, seu amado neto, fora meticulosamente sentado em uma poltrona, com parte do dinheiro aos seus pés e algumas notas espalhadas pelo quarto. Em seu rosto, inchado e cheio de escoriações, o semblante carregado e amedrontado, inspirava ao terror sofrido. Em suas mãos, cruzadas sobre as penas, havia um envelope, endereçado a Lindenberg.

     Pedindo perdão ao amado, retira o envelope de suas mãos, o abrindo cuidadosamente. O conteúdo fazia certo volume. Uma foto estampava o rosto conhecido de um certo garoto. Aquele que o policial, acidentalmente vitimou. Uma outra porção de fotos, mostrava o mesmo garoto, em vários ângulos, com o sangue a manchar as roupas e a rua sob ele. Um pequeno bilhete, imprimido em letras garrafais e nítidas, era a única coisa restante no envelope.

     " TODAS AS FOTOS SÃO DE MEU IRMÃO. SABES QUANTAS RECEBI? ELE ERA APENAS UM JOVEM. NENHUM DINHEIRO FOI CAPAZ DE SALVA-LO. A JUSTIÇA DO HOMEM PODE FALHAR. A MINHA, DOERÁ." 

     Derrotado, o mundo parece-lhe parado. A atmosfera pesa sobre sua cabeça. Seu cérebro revive todas as cenas do dia. Tudo lhe vem à mente, lhe atormentar. Jogando-se aos pés do neto, abraça a si mesmo, sozinho no mundo.

     O único que lhe restava foi tomado por algum psicopata em busca de vingança. E a culpa, sem dúvidas era sua. 

     Tomando o corpo gélido nos braços, põe-se a chorar, tal qual uma criança, arrependendo-se dos seus atos.

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Obs.: Se encontrar qualquer erro de gramática e/ou concordância, favor avisar. Apesar de ter revisado o texto milhares de vezes, alguns erros podem passar em branco. Perdão por qualquer um.

Nota da Autora: Esse conto foi escrito para um trabalho proposto em sala de aula. Todos os personagens e acontecimentos listados são fictícios e, qualquer semelhança com pessoas e/ou instituições reais, são mera coincidência.

Todos os personagens e tramas foram construídos por mim. Talvez, daqui a algum tempo, modifique algumas partes, ou até mesmo adicione mais detalhes.Só o tempo dirá. 

 

Obrigada por sua atenção e por ler!

Att.: Totoki

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