Something Is Missing

Ninguém se da conta de que algo sumiu. Uma parte importante, que não pode ser substituída, essa parte se foi. Bem, talvez eles deem falta, mas são todos perfeitos, coisas como essas são guardadas e escondidas com sorrisos. A família daquela casa verde, no final da rua, eles sabem o que falta. Talvez por isso, eles prefiram ficar escondidos, não saem mais. Ninguém conversa sobre eles, também. Acham melhor não tocar no assunto, afinal de contas a mãe da família só faz chorar, e todos aqui deveriam sorrir. A outra garota, aquela da casa vizinha, ela também não sorri mais. Mas ela sai todos os dias na esperança de, por acaso, encontra-lo. Quem sabe, ela vire na esquina da rua e de cara com ele, com os fones de ouvidos, voltando pra casa.

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A foto colada no enorme cartaz da escola mostra um Caleb de catorze anos, o cabelos loiros embaralhados, o rosto mostrando um sorriso, a borracha do aparelho, o céu e os olhos dele, todos azuis.

Embaixo da foto, escrito em letras garrafais “Ainda temos esperança” junto com a assinatura de vários alunos. A escola ia fazer uma caminhada, sairemos distribuindo cartazes, batendo de porta em porta.

“Você deve sentir muita falta dele” – Kim põe a mão no meu ombro. – “Três anos realmente passam rápido não é?”.

“Você acha que ele esta vivo?” – Eu pergunto a ela.

“Acho sim. Com certeza” Ela sorri pra mim, esperando eu começar outro escândalo.

“Sabe de uma coisa? Esses últimos anos eu tenho vivido só disso”.

“Disso, o que?”

“Pensando no Caleb e esperando ele voltar. Se ele o quiser vai voltar, eu tenho que reagir, sabe viver”.

“Não precisa fazer isso, agente entende o quanto você sente falta...”

“Sinto, sim, mas tudo tem limite. De agora em diante eu vou priorizar outras coisas além dele”

“Se você acha que esta pronta”

Eu definitivamente não estava pronta. Mas as pessoas já estavam cansadas de me consolar, e eu estava cansada de tanto consolo, já que isso não ia trazê-lo de volta.

Kim me dá a mão durante a caminhada, depois de entregar um cartaz para uma senhora que estava na calçada.

“Sei que você disse que iria seguir em frente, então eu quero aproveitar pra te confessar umas coisas”

Eu olho pra ela

“Sei que isso não e coisa que se diga, mas se Caleb continua bem, meu deus, ele deve estar umpitél agora!”

Eu tento ficar séria, mas acabo rindo.

“Você não achava ele bonito?”

“Hum, eu não sei. Acho que nunca parei para pensar nisso”

“Bom, eu achava. Todas as meninas achavam. Mas ele estava sempre colado com você.”

“Vocês achavam que...”

“Por que você acha que agente tinha raiva? Nossa Amélia, como você é inocente!”

“Eu só...”

Ela riu. “Deixa pra lá. Imagina se agente bate numa dessas portas da vizinhança, e encontra-o sentado no sofá?”

“Seria legal. Um final feliz”

Kim suspira.

“Arrependo-me de ter tirado sarro de vocês naquela época. Se eu soubesse...”

“Se eu soubesse que ele iria desaparecer, eu não iria tirar os olhos dele.”

Entrego o cartaz pra uma dupla de babás andando com bebês. Sorrio e elas não lançam o olhar de pena que eu normalmente recebo. A sensação que chega é a de que as coisas iriam melhorar agora. Era assim que eu queria que Caleb fosse recebido quando voltasse, com um sorriso. 

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