Something Is Missing

Ninguém se da conta de que algo sumiu. Uma parte importante, que não pode ser substituída, essa parte se foi. Bem, talvez eles deem falta, mas são todos perfeitos, coisas como essas são guardadas e escondidas com sorrisos. A família daquela casa verde, no final da rua, eles sabem o que falta. Talvez por isso, eles prefiram ficar escondidos, não saem mais. Ninguém conversa sobre eles, também. Acham melhor não tocar no assunto, afinal de contas a mãe da família só faz chorar, e todos aqui deveriam sorrir. A outra garota, aquela da casa vizinha, ela também não sorri mais. Mas ela sai todos os dias na esperança de, por acaso, encontra-lo. Quem sabe, ela vire na esquina da rua e de cara com ele, com os fones de ouvidos, voltando pra casa.

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11. 11

Os próximos dois dias passaram se arrastando. Caleb era cada vez mais adorado pelo colégio, as pessoas não paravam de comentar o quão forte, talentoso e simpático ele era, ou havia se tornado. Nós nunca tínhamos a chance de conversar, não que ele estivesse tentando. Parecia que a palavra de Caleb havia se tornado lei. Se ele me ignorava, então todos os seus súditos deveriam fazer o mesmo. Com a exceção de Kim, todo o “alto escalão” da sala havia voltado ao velho costume de me ignorar e a me chamar de Mortícia. Talvez eu até saiba quem começou com essa ideai, mas não quero acreditar.

Mesmo com a situação atual, deixei Kim me convencer a ir a festa do lago. Aceitar sair com Kim incluía deixar que ela me vestisse, penteasse e decidisse a que horas chegaríamos. Então cá estou eu, de vestido curto e salto alto, “atrasada com classe”. Kim se deixou distrair com as fofocas da festa, e eu acabei ficando só. Sai da área coberta e fui andar em volta do terreno do lago, que estava vazio a não ser pelos casais que se escondiam nas sombras. Entre eles, talvez apenas de relance, apenas minha impressão, eu vi Caleb com alguém.

Desconfortável com a situação, me afastei o mais rápido possível, parando para descansar num banco do outro lado do lago. Encostei-me, tentando tirar a imagem da minha cabeça. Depois de certo tempo consegui me distrair com o reflexo das luzes coloridas na agua. Assustei-me com a sombra que apareceu por trás de meu reflexo, e ao me virar, dei de cara com Thomas, um dos jogadores do time, visivelmente bêbado.

– Eai, Mortícia – Ele disse enquanto dava um sorriso. O modo como me olhava me deixava desconfortável. Thomas estava perto demais, numa posição insinuante demais. Levanto do banco e começo a andar novamente, tentando sair do seu caminho. Mas Thomas continuou se aproximando, o hálito de bebida me ardendo os olhos.

– Seu amiguinho voltou não é?- A voz dele soava embargada

– Voltou. E ele não é meu amigo

– Oh o que foi? Vocês brigaram foi? Brigou com o namoradinho? Cadê ele agora?

– Eu não sei. Ele não é meu namorado.

– É mesmo? Bom talvez ele não se importe se...

–Por que você não cala a boca?

Eu o empurrei e me afastei. Torci para que ele não me agarrasse, e ele não fez. Mas por um segundo que me virei, eu o vi me seguindo.

– Espera Mortícia, ainda quero conversar.

Apressei o passo, pensando ter uma vantagem, mas Thomas devia ter pernas longas, pois me segundo ele já estava ali do meu lado de novo.

– Ei por que a pressa?

Eu o ignorei. Mudei meu caminho rapidamente, subindo na ponte que atravessava o lago, tentando voltar à área mais movimentada, mas Thomas continuou me seguindo e bloqueou meu caminho novamente.

– Eu te fiz uma pergunta Mortícia.

–Sai da minha frente

– Eu te fiz uma pergunta

– Me deixa passar!

Ele riu.

– Qualé Mortícia, chega de joguinhos.

– Como é?

– Sabe o que é. Está frio aqui fora, só eu e você. Vem aqui..

Eu pensei em correr, mas agora Thomas estava segurando as minhas duas mãos. Eu estava pressionada contra a cerca da ponte. Meu instinto me dizia pra correr, chuta-lo, mas eu não conseguia, era difícil até gritar. A cabeça dele foi se aproximando mais, e eu fui recuando ainda mais. Uma das mãos de Thomas tocou a minha perna, e foi o bastante para me tirar do choque. Aproveitei minha mão livre para acerta-lhe com um tapa, mas esta foi uma das piores ideias que eu podia ter. Thomas se irritou, e soltou um grunhido troglodita antes de me empurrar da ponte. Meu corpo tombou sobre a cerca e cai sobre a agua fria do lago. Afundei por uns segundos, e quando voltei à superfície, encontrei uma multidão em volta do lago, rindo de mim. Eles não viram Thomas tentando me assediar. Eles viram a Mortícia desastrada caindo na agua.

Envergonhada, não me restou nada a não ser nadar para a margem, enquanto a multidão abria caminho para mim. Não encontrei Kim, que deveria ser minha carona, então resolvi sentar-me no meio fio, sem nenhuma disposição para voltar à festa, mesmo que o vestido secasse. Fiquei ali, olhando os meus dedos até que alguém pôs uma toalha sobre meus ombros.

 

– Eles já esqueceram o que aconteceu - Caleb disse enquanto sentava ao meu lado

– Pensei que não falasse mais comigo

– Tenho estado meio ocupado. Mas estou feliz que tenha vindo

– Faz parte do time agora não é? Não parece bem você

– Eu gosto

– Você não gostava de esportes antes

– E você não gostava de festas e nem andava por ai de vestido curto

– E porque isso te incomoda?

– Talvez pelo mesmo motivo que você se incomoda comigo

Ficamos num silencio desconfortável, pelo menos evitamos a discursão que estava para começar. Observei Caleb chutar um pedrinha no asfalto. Era isso oque ele fazia quando procurava palavras para disser, se distraia, fingindo que não se importava.

– O que estou querendo dizer é que nós mudamos

– Você com certeza mudou.

– Eu tenho estado meio perdido esses dias

–Pude notar

–Não sei por que isso tem acontecido. Tenho certeza de poucas coisas.

– Do que você tem certeza?

Eu não sei por que, eu queria poder empurra-lo ou dar lhe o tapa tão merecido, mas quando Caleb me beijou, eu não consegui fazer nada a não ser beija-lo de volta.

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