Lovin' Dead

Um passado. Um acidente. Uma garota, uma sobrevivente. Um presente inacreditável. Um garoto. Várias lembranças e apenas... Um futuro.

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3. Dois

Era difícil respirar. Meus braços doíam e a cada inflada meus pulmões queimavam. Parecia que aquela sensação nunca iria passar. Eu lembrava do que havia acontecido. Digo, eu me lembrava do que tinha acontecido até o momento em que agradeci ao desconhecido e notei que ele não estava mais lá. Acho que depois eu desmaiei, não me recordo.

Ainda com os olhos fechados, tateio o que parece ser um colchão. Uma cama. Abro os olhos. Meu quarto está escuro. Minha mente continua inundada pela dor física e pelos flashes não só dos acontecimentos de algum tempo atrás, mas do desastre. No fundo, sinto como se eu estivesse desesperada para me agarrar a alguma conexão entre os fatos.

- Jane! Finalmente!

Bethany senta-se na beirada da cama. A expressão estampada em seu rosto era de preocupação. Seu nariz estava vermelho e os olhos, úmidos. A fina linha de seus lábios estavam trêmulos. Ela havia chorado. 

- O que aconteceu? 

Minha voz sai como num sussurro rouco; até eu acabo me assustando. Eram raros os momentos em que eu me sentia fraca, sem vontade de seguir em frente. Porque no final das contas, tudo que eu vinha fazendo desde o desastre era seguir em frente. Talvez todo o esforço não estivesse valendo a pena. A preocupação no rosto de Beth era evidente, até exagerada. 

- Eu e Will encontramos você desmaiada e encharcada no píer. Você dormiu desde então e só acordou agora. Meu Deus, eu estava tão preocupada com você, parecia que nunca mais iria acordar!

- Desculpe - sussurro de olhos fechados, cansada demais para tentar mantê-los abertos. 

- Como assim "desculpe"? Você quase me matou de susto, Jane!  Você não pode simplesmente se afogar, desmaiar e dar um susto desses e pedir desculpas! Já passou pela sua cabeça o que poderia ter acontecido se tivesse ficado lá, jogada no píer?

A voz de Beth aumentava a cada palavra fazendo uma dor surgir no fundo do meu crânio crescer e ecoar pela minha cabeça. Fecho os olhos com mais força. Só queria ficar mais umas horas sozinha, na tranquilidade do silêncio. Mas é claro, isso parece não ser possível.

- B-Anny - Will a levanta segurando seus ombros.

"B-Anny" é um apelido que Will criou carinhosamente para Bethany. Eu os achava completamente feitos um para o outro, uma conexão que nunca seria interrompida. Era como se um completasse o que faltava no outro. E eu admirava isso. 

- Acho que a gente devia deixar a Jane descansar um pouco mais. Ela enfrentou um medo enorme hoje... O sufoco deve ter sido grande. E ela está cansada demais para conversar.

- Mas...

- Que tal uma pizza? Por minha conta hoje!

Seja lá o que Bethany fosse argumentar, deixou para outro momento. Sabia exatamente que ela estava se arrependendo de ter pegado pesado, mas achava melhor não dizer nada. Enquanto Will a guiava para fora do meu quarto, ele virou-se, deu uma piscadela com o olho direito e lançou um sorriso antes de fechar a porta. 

Finalmente. Silêncio. 

Alguns flashes voltavam à minha mente e eu tentava, de alguma forma, ver o rosto do homem que havia me salvado. Não era possível que ele tenha mergulhado e o capuz continuasse intacto. Droga! Eu odiava ser do tipo que não presta atenção 24 horas por dia.

Minha mente estava à mil, havia confusão; a dor afetava minhas memórias.

Relaxei os ombros e deixei que minha mente descansasse mais um pouco para poder usá-la novamente. Respirei fundo. Uma vez, minha mãe me disse que a melhor saída para lembrar de alguma coisa é não fazer esforço. Como se quanto mais tentasse lembrar, a coisa se esvaísse até que o cérebro a esquecesse por completo, como algo sem utilidade.

Lembrar dela às vezes me desmorona. Senti uma lágrima rolando pela lateral do meu rosto; quente e úmida. Sinto saudades. Sinto falta das pessoas que mais pude amar na vida. Queria tê-las aqui comigo. Queria que nada disso estivesse acontecendo. Queria poder ser uma garota normal, como todas as outras. Viva, por dentro e por fora. 

Sinto um sorriso brotar nos lábios ao lembrar do sorriso de Jeremy. O cabelo castanho claro penteado num topete pequeno e sem volume fazia com que seu rosto ganhasse um ar quase angelical. Queria ainda poder atacá-lo com aquelas arminhas de água como quando fazíamos quando éramos pequenos. Nunca mais vou poder fazer isso. Nem abraçar meu pai durante as tempestades. Nenhum deles. Porque eles estão mortos. Minha família. Se foi para sempre. 

Foi então que minha mente se iluminou. Uma lembrança. Olhos. As bolhas de oxigênio causadas pelo meu desespero enquanto lutava para respirar há horas, atrapalhavam a visão, mas ainda assim consegui ver. Eram olhos lindos. Azuis, como o céu que há tempos não se vê por aqui. 

Naquele momento tive uma certeza. Eu não me esqueceria daquele par de olhos. Mas iria encontrá-lo novamente. Só não sabia quanto tempo levaria até nosso próximo encontro.

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