Angels I- Wings

"Conviver com anjos lhe faz querer ter asas!"

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10. Capítulo 10- Romeu e Julieta

Hoje é o dia dos testes para a peça de teatro, eu estou muito ansioso, já decorei todas as falas para o príncipe de Verona. Eu me levantei cedo e fiquei treinando até a hora do café.

            Chegou a hora do grande teste. Esperei a Liz chegar, segurei em sua mão e entrei dando um suspiro.

- Boa Sorte, Pepi!

- Boa Sorte, Li- Disse sorrindo.

            - Bem, agora que todos já chegaram. Podemos começar o teste. - Involuntariamente olhei para o A que tenho tatuado em minha mão e depois apenas me concentrei no que a Zoe tinha para nos dizer - Quem aqui decorou as falas?- Levantei a mão como todos os outros alunos. - Decoraram de bobeira!- Todos se entre olharam achando aquilo loucura.

- Como assim professora?- Disse imediatamente.

-Um artista é feito de desafios, e eu estou ensinando isso a vocês.

A Fanning começou a rir como alguns outros alunos, alguns entraram em desespero e eu simplesmente estava curioso então perguntei:

-Qual será o nosso desafio?

-Pergunta inteligente, Pedro. O Desafio de vocês será inventar um novo Romeu e uma nova Julieta, em duplas, um menino e uma menina.

-Como você acha que a gente pode fazer isso, criar um personagem novo em alguns minutos?

-Eu confio na capacidade de vocês! - Olhei para a Liz que estava sorrindo para mim, inevitavelmente sorri também. Enquanto ouvia muitos gritando para decidirem as duplas, eu sabia a minha pelo olhar. Era como se algo nos avisasse que tínhamos que fazer aquilo JUNTOS.

            -Pensou em alguma coisa?

-Acredita que sim!

-Sério?

-Fala, princesa!

-Vamos misturar grandes contos para criar nosso Romeu e nossa Julieta.

-Misturar todos os contos, contando a história do Romeu e Julieta?

-Sim. Que tal se fizéssemos, um menino e uma menina, ele filho da Dama de Copas e de Stayne e ela filha da Alice e do Chapeleiro?

- Alice e o Chapeleiro Maluco? – Perguntei rindo.

- Sempre achei que os dois deviam terminar juntos! – Retrucou um pouco irritada.

- Achei perfeito! – Disse sorrindo e ela fez o mesmo.

            Juntos, contamos à professora a nossa versão de Romeu e Julieta, não tínhamos combinado tudo, porém improvisamos acrescentando personagens, falas e emoção. Era tão mágica a forma como as minhas palavras e as delas pareciam se complementar e a maneira de nos entendermos pelos olhos.

            A Zoe parecia adorar cada palavra do que dizíamos, no momento ela viajava pelos contos de Alice no país das maravilhas, Cinderella, Bela e a Fera, Chapeuzinho Vermelho, Peter Pan, e tantos outros contos fantásticos, mas sempre mantendo a essência de Romeu e Julieta.

Eu realmente estava entretido com as palavras de Li que soavam sempre harmônicas, como se escondessem a tragédia que logo viria. Estava também, atento a suas falas porque sabia que quando ela concluísse seu raciocínio seria minha vez de criar e imaginar. E assim se sucedeu nossa história.

Ao terminarmos a história nossa professora sorriu

-Vocês se lembram do dia em que vocês estavam passando o texto e eu passei pelo corredor e disse que tinham o que precisava? - Assentimos com a cabeça. - Hoje, só tive a certeza de que vocês serão o casal perfeito!

 Eu com certeza amaria ser o Romeu, mas eu não conseguiria ficar tão perto dela, a dizendo aquelas palavras. Seria torturante para mim. Pensando nisso, protestei

-Zoe, eu gostaria de interpretar o Príncipe de Verona.

- Bem, eu não posso decidir por você, não entrarei no palco. Eu só gostaria de apresentar a melhor nova versão de Romeu e Julieta, com os melhores atores. - Respirei fundo e resolvi fazer uma proposta - O que você acha de manter a Liz como a Julieta e escolher um novo Romeu. Eu posso o ajudar e ajudar a você na direção da peça. Caso você não mude de ideia eu o interpreto. - Ela suspirou, e logo sorriu triunfante.

- Já tenho meu Romeu e minha Julieta!” Zoe piscou para a Liz que apenas sorriu. Depois nossa professora prendeu no quadro de avisos um panfleto com a nova data de testes.

Saímos da sala, estávamos indo em direção ao quarto dela em silêncio. Fanning segurou meu braço me fazendo parar á sua frente “Pê, porque você não aceitou o convite para ser o Romeu?” “Eu não ia conseguir.” “Claro que iria! Você consegue tudo o que quer!” Sorri, mas logo me lembrei dos motivos pelos quais eu havia recusado o papel. A Fanning parecia perceber minha angustia, ela segurou minha mão, fitei seus olhos que estavam atentos aos meus. “Sabe, quando eu disse que você interpretaria um príncipe de Verona perfeito?” Balancei a cabeça afirmativamente “Então eu disse isso porque sabia que você tinha o porte, a elegância e o charme de um príncipe.” Sorri e isto bastou para que ela continuasse “Mas principalmente porque se você fizesse o Romeu, eu ia me perder nos seus olhos e esquecer tudo.” Eu realmente fiquei bobo com as palavras dela e a abracei. “Você é a melhor amiga de todos os tempos!” Sussurrei em seu ouvido. Eu não sei como, mas até o silêncio dela me envolve e me acalma. Ela puxou minha mão, me levando ao jardim. Sentamo-nos em um banco. Liz me começou a fazer cafuné na minha cabeça e então deitei a cabeça em seu colo. “Sabe, Pepi, eu ia amar contracenar com você!” “Eu também!” “Por que você não faz o Romeu?” “Li, eu não posso!” “Por quê?” Eu realmente não podia ser totalmente sincero em minha resposta. “Porque você é você!” Ela começou a rir “Louca?” “Sim! As melhores pessoas são!” Ela sorriu e apertou minhas bochechas! “De todos os loucos do mundo o melhor é você!” Ai como é bom ouvir isso dela, mas ao mesmo tempo um dia ela vai me matar fazendo isso.

Ficamos horas conversando sobre assuntos aleatórios, sobre as estrelas e sobre o céu, falamos sobre tudo mesmo. Sem realmente terminar nenhum assunto. Foi como no dia do avião, ela me fazia sentir que já a conhecia desde sempre. O sorriso perfeito dela me acalmava e os olhos dela me faziam flutuar.

- Pedro? – Ela perguntou me acordando de meus devaneios.

- O quê?

- Eu acho que sei quem faria o Romeu perfeito. – Sorri tristemente, eu sempre quis fazer o Romeu, mas não com ela sendo a Julieta, eu sendo quem eu sou, ou melhor, o que eu sou, e além de tudo ela sendo a namorada do meu primo – Na verdade eu acho que só você seria um Romeu perfeito, mas como não podemos cogitar isso. O Josh! Ele canta muito bem, tem coragem, carisma e é lindo!

- Claro! Seria brilhante! Você é um gênio! – Respondi com um tom animado, falso, mas ela não perceberia eu sou um bom ator. Por que o Josh? Sim, ele tinha todas aquelas qualidades. Mas muitos outros meninos tinham e eles não roubariam o coração dela.

No dia dos testes chamamos o Josh. E fizemos nossa proposta para a diretora-ex-professora-ZOE. Depois de ver a apresentação do Josh ela nos respondeu:

- Olha vocês me saem melhor que o esperado. Dão-me o meu ator principal, meu príncipe de Verona e minha linda Julieta de mãos beijadas e ainda escrevem meu roteiro. Olha é melhor vocês pararem antes que eu me acostume!

Nós três gargalhamos. E seguimos para os testes. Todos foram maravilhosos. Ao final da apresentação Zoe anunciou os papéis, alguns reagiram mal, outros davam pulos de alegria. Todos haviam conseguido um papel. E Zoe parou revoltado com os que reagiram mal

- O Personagem não faz o artista, o artista é quem faz o personagem. – Suspirou e completou – Há pessoas que brilham independente de tudo. Tem quem faça um personagem como o Boticário e consiga ser lembrado para sempre. Então se lembrem de que o brilho vem de vocês e não do personagem.

Assim nossa diretora saiu batendo os pés e todos ficamos em silêncio absorvendo suas palavras.

 

Dois meses se passaram, estávamos todos muitos ansiosos para o grande espetáculo. Meu primo além de ter uma voz maravilhosa, atuava muito bem. Com certeza ele seria um grande artista em alguns anos.

Hoje eu a Kate, a Liz e o Edward vamos andar de bicicleta.  Nós quatro estávamos cada vez mais próximos. A Kat era maravilhosa, ela tinha um sorriso perfeito, era atenciosa, companheira e divertida. Nós dois ficamos algumas vezes, mas nada sério. Até porque o meu coração não pertence a ela. O Josh vivia fazendo surpresas românticas para a Li. Ela parecia estar feliz. É isso que importa, não é? Todos felizes.

- Vamos? – Uma Darwin totalmente empolgada disse e pulou em cima de mim.

- Só se for agora! – Concordei dando-lhe um beijo na bochecha.

- Demorei muito?

- Imagina Kate, só esperamos uns 40 minutos! – A Liz disse fazendo careta.

Nós chegamos ao parque, era muito bonito. As árvores eram grandes e saudáveis, em meio a elas uma trilha de areia.

- Vamos apostar uma corrida? – Desafiou Josh.

- Eu acho isso meio arriscado. – Li comentou baixinho.

- Pronto para perder? – Retruquei entrando na brincadeira.

- Eu topo! – A Kate disse empolgada.

- Acho que só eu sou contra essa brincadeira.

- Fanning, se você acha arriscado não brinca, amor. – Josh murmurou para a sua namorada.

- Li, quer ser a juíza? Assim você não corre nenhum risco.

- Pode ser, Pê. Eu acho isso arriscado, mas não só pra mim. Eu acho que vocês podem se machucar.

O Josh deu de ombros e montou em sua bicicleta. Eu sussurrei no ouvido dela:

- Então me deseja sorte.

- Se cuida!

Montei em minha bicicleta e a Kate montou na dela.

- Preparados?

- Sim- Respondemos em coro.

- Preparar, Apontar e... Já!

Saímos pedalando o mais rápido que podíamos. Eu estava ganhando, Josh vinha logo atrás e a Kate estava sendo deixada para trás. Foram cinco voltas disputando a liderança com meu primo. Até que... Ele tentou me ultrapassar e o pneu das nossas bicicletas colidiu ambos caímos da bicicleta. Eu tentei o salvar. Mas parecia não dar certo. Ouvi um grito da Li:

- Pedro! Josh! Vocês estão bem? – A queda não foi muito longe da linha de chegada onde a Fanning marcava as voltas.

Kate parou sua bicicleta. Minha visão ainda estava meio turva. Consegui ver que o Josh estava de pé apoiado no ombro da Darwin.

- Pedro?!

- Li? – Falei baixo.

- Você consegue ficar em pé?

- Sim. Eu acho... – Ela me estendeu a mão e eu me levantei. Estava fraco, mas não por ter caído. “Pessoas” como eu não ficam fracas por causa de quedas. Acho que forcei de mais minha mente tentando salvar o Josh. Mas não funcionou.

- Foi mau, cara! Desculpa se eu não tivesse tentado te ultrapassar...

- Josh, relaxa! Eu estou bem e você? – Disse preocupado com ele.

- Também, mas minha perna está doendo muito.

- Vamos para o hospital? – Kate sugeriu vendo os gemidos de dor do Ed.

- Como? – Liz perguntou preocupada indo em direção a ele para analisar a sua perna.

- De bicicleta. – Sugeri, ela me olhou e veio em minha direção.

- Você consegue pedalar?

- Consigo. Eu levo o Cat.

- Parker! Você bateu a cabeça naquela pedra, não é possível. Aliás, você realmente bateu. Outra pessoa ainda estaria desacordada. Você quer levar seu primo depois deste tombo?

- Li, eu acho que vai ser necessário. – Ela olhou nos meus olhos, acariciou minha cabeça e cochichou.

- Ok! Mas toma cuidado. Sério. Eu não quero perder meu namorado – Ela suspirou – Nem o meu melhor amigo.

Apenas assenti com a cabeça e fomos para o hospital.

Assim que chegamos, fomos atendidos e o médico se aproximou de nós perguntando o que acontecera, quem se machucara e outras perguntas de rotina.

            - Então Dr. Fleming, os meninos e a Kate estavam apostando uma corrida, o Josh tentou ultrapassar o Pedro, as bicicletas colidiram e os dois caíram. O Josh caiu em cima da perna e o Pedro bateu a cabeça em uma Pedra.

            - Os dois poderiam me acompanhar?

-Não doutor. Eu não me machuquei, não precisa ocupar um médico comigo. As pessoas necessitam mais deles que eu.

- Pepi, é melhor você ir. – A Liz sussurrou e meu ouvido, ninguém resistiria ao pedido dela. Mas eu tenho medo de ir ao médico e ele descobrir alguma coisa.

- Fanning, eu acho que não é necessário.

            Ela suspirou e assentiu com a cabeça.

            O médico voltou e nos avisou que o Josh tinha luxado a perna e teria que ficar em repouso por uma semana e depois não poderia fazer esforços. Ficaria com a perna enfaixada por cinco semanas.

Nós assentimos e prometemos cuidar dele. Logo ele saiu com a perna enfaixada e uma muleta e nós voltamos para escola. Agora teríamos que explicar para a diretora, como fomos ao hospital, porque ele quebrou a perna e como saímos da escola sem que ela percebesse.

            - Pedro?

- Eu.

- Como vou fazer o Romeu? – Putz! Tinha me esquecido da peça. E agora?

- Não sei. Vamos ter que falar com a Zoe.

 - Vamos?

- Você não. Tem que repousar. Eu e a Liz a chamamos e a Kat fica aqui com você.

Ele bufou, olhou para a Liz.

- Cuida do meu primo. Ele não quis se consultar.

- E Kate, você cuida do meu, porque ele é um péssimo ciclista.

As meninas riram. E logo saímos. Procuramos cerca de trinta minutos pela nossa diretora, mas não a encontrávamos em lugar algum. Fomos para a lanchonete porque aquela procura nos deu fome. E encontramos a Zoe.

- Querida Diretora, precisamos falar com você!

- Vish! Acho que isso não vem boa coisa.

Ela sentou-se em uma mesa e nós a acompanhamos.

- Zoe, o Josh quebrou a perna. – A Fanning disse docilmente.

- Como? Falta um mês para o nosso show. E vocês me dizem que o meu protagonista quebrou a perna?

Assentimos, sem-graça. Ela nos encarou por algum tempo, até que abriu um sorriso.

- Pedro! É o destino. Você vai ser o meu Romeu!

- Mas...

- Não tem “mas”. Você conhece o Romeu melhor que todos. Você e a Liz escreveram essa história. Ou você faz o Romeu, ou não vai ter peça!

- Ele aceita. – Liz disse apertando minha mão.

- Eu sabia que ia aceitar.

- Professora, eu sou o príncipe de Verona.

- Posso te contar um segredo?

- Claro!

- O príncipe tem ator substituto, o Romeu também e sempre foi você.

Ótimo, eu estava ferrado. Como ia aguentar interpretar o Romeu com a Liz ao meu lado? Eu terei mais do que nunca me controlar. Se quebrar a regra, serei punido severamente.

- Pelo espetáculo?

- Pelo espetáculo. – Sorri desanimado.

A Zoe saiu da sala e eu fiquei quieto. Pensando. Até a Liz me abraçar.

- Amor?! Você não está feliz por fazer o Romeu.

- Amor? – Eu ri – Estou, sempre quis fazer o Romeu.

- Então porque você está com essa carinha triste?

- Por nada. – Sorri forçadamente.

- Pedro, eu te conheço melhor que muita gente. Eu sei que você esta escondendo algo de mim. – Ela suspirou e depois de um silêncio tomar conta do ambiente ela finalizou – Você precisa de tempo, né?

Assenti com a cabeça e ela se retirou. Eu não sabia o que fazer. Não tinha o que fazer, eu seria o Romeu e ela a Julieta. Realmente essa história de amor proibido me persegue.

Os dias se passaram e depois de muito treino chegou o nosso grande dia.

Eu estava ansioso, mal dormira na noite anterior. Acordei com a Liz me chacoalhando no quarto.

- Bom Dia, meu Belo Adormecido! – Fiz uma careta e enfiei o rosto no travesseiro. – Anda levanta ROMEU.

Levantei-me quase dramaticamente, como se ela estivesse me fazendo sofrer muito. Ela pegou meu travesseiro e arremessou na minha cara.

- Liz, como você é agressiva! – Disse forçando uma cara de dor.

- Pedrinho, eu não acredito que é HOJE. O NOSSO grande DIA! – Ela disse pulando em meu pescoço, em um abraço extremamente confortável.

- Também não. Tudo vai dar certo.

- Tem como não dar? – Ela sorriu de orelha a orelha. Apenas retribui tal ato. – Vai se trocar menino. Eu estou te esperando! Enquanto isso, vou acordar o Josh.

Peguei minhas roupas no armário ainda sonolento e troquei-me rapidamente e fui para o quarto. Onde todos estavam acordados.

- Pelo jeito você não acordou só seu namorado. – Disse em um tom divertido.

- Ocorreram alguns imprevistos. – Li sorriu.

- Acho que devia controlar sua namorada. – Chad disse encarando Liz.

- Chad, com você era pior! – Ela falou meio que por impulso e ele corou.

- Calma, Liz Lee Fanning e Chad Bell já se pegaram? – O Dan gritou para quem quisesse ouvir e ambos coraram.

- Nós namoramos... Há dois anos, mas depois a Li terminou comigo. – Chad disse fitando o chão e ela deu de ombros.

- É, eu terminei com ele, porque o Chad era meu melhor amigo e apaixonado pela Loren Thompson. – Ela disse lançando um olhar de cumplicidade para Bell. Eu odiei saber disso. Acho que não fui o único porque o Josh fechou totalmente a cara.

- Depois você vai ter que me explicar isso. – Falei olhando nos olhos de Liz.

- Está bem, depois eu te explico. Vamos?

- Sim.

Saímos dali com ela me puxando pelo braço enquanto o Chad se mantinha envergonhado, o Josh pensativo e ao mesmo tempo bravo. E o Dan com uma cara de vitorioso.

- Meus protagonistas chegaram – Zoe se aproximou nos abraçando. – Vamos, ensaio geral depois vocês vão para a maquiagem e a figuração.

Nosso ensaio saiu perfeito. Foi muito lindo, pela primeira vez ensaiamos com as luzes, marcações, cenários e etc. Ensaiamos todas as cenas, bem quase todas. Só não ensaiamos as cenas de beijo, pedimos a nossa diretora que beijássemos- nos somente na peça. Eu queria evitar me apaixonar por ela, Liz não queria “trair” Josh e Zoe concordou, mesmo que com dificuldade. Assim que a nossa geral acabou, fomos para os Camarins, o meu e o de Li era separado do dos outros alunos. A mulher passou maquiagem na Liz e tentou passar em mim em seguida, mas expliquei a ela que não seria necessário e Li concordou dizendo que eu era lindo naturalmente.

Depois de algumas horas recebendo os cuidados das maquiadoras e cabelereiras, fomos à sala do figurino. A Liz estava perfeita com a primeira roupa. Ela vestia uma blusa cor de pele, bem clara estampada com o gato Cheshire cinza e uma cartola roxa, sobre a blusa uma jaqueta verde com as mangas dobradas ao meio, uma legging preta e um all star. Com uma tiara dourada. Ela estava simplesmente perfeita. Eu estava com uma calça jeans preta, desconfortavelmente apertada, uma blusa branca com cartas desenhadas e uma bota freeway. O meu cabelo estava penteado com um topete perfeito. E o dela estava liso em cima e formava leves cachos em baixo.

- Uau! Você está linda. – Disse sincero e sorrindo.

- Obrigada – Ela parou de separar suas roupas e olhou para mim – Pedro, você está muito lindo. O menino mais perfeito da face da terra – Ela disse e logo suspirou.

- Hm... Vejo que minhas estrelas estão no clima! – Zoe disse assim que passou por nós e piscou rapidamente. Ambos sorrimos para ela e entrelaçamos nossas mãos.

- Sabe... eu estou confiante! Nós inventamos essa história. Nos a conhecemos melhor que ninguém. Vai ser tudo, maravilhoso. – Ela disse me confortando.

- Começarei no primeiro ato. No castelo da rainha de copas – Pausei – “Mamãe” – Disse fazendo aspas. E você na casa da Alice e do Chapeleiro. – Ela sorriu.

- Boa Sorte!

- Boa Sorte!

Abraçamo-nos e ficamos assim por alguns minutos, só nos soltamos quando a Zoe chegou:

- Vocês tem uma química especial, sabia? Quando vocês encostam parece que faíscas podem estourar a qualquer momento. – Ela sorriu e nos fez corar. – Vamos para as coxias?

Assentimos e saímos de mãos dadas até chegarmos. Sorri pra ela e entrei em cena.

-Bom dia, primo.

-Como assim! Já é dia?

-São nove horas. Nove horas! – Coelho disse apontando freneticamente para o relógio.

-A dor é um tardo guia. Não foi Stayne, meu pai que se afastou com pressa?

-Perfeitamente; mas que dor as horas retarda de Romeu?

-Não ter aquilo que, se o tivesse, as deixaria curtas.

-No amor?

-Fora...

-Do amor?

-Fora do amor de quem me traz cativo. Coelho...

- Sim.

- Quanto tempo dura o eterno?

- Ás vezes apenas um segundo.

Sai dali e foi à vez dela brilhar, o cenário foi trocado e então...

- O que está acontecendo? Quem me chama?

- Alice, vossa mãe!

- O que desejas? Aqui estou.

- Chamei-te para falar de casamento.

- Prossiga...

- Casará com Cheshire, minha filha.

- Não aceito.

- Não tem que aceitar. Está decidido.

- Nunca o vi! Não o amo.

- O verá. E amor... Com o tempo tudo se resolve.

- Diz que com o tempo tudo se resolve. Mas a questão é: Quanto tempo?

- Quando tiver dúvida. Fique em silêncio. Silenciei-me.

Julieta passou a chorar. Sua mão fora embora e a Rainha Branca aproxima-se dizendo:

- Nada se é conquistado com lágrimas.

- Gostaria de saber o porquê.

- Tudo tem uma moral se você conseguir simplesmente notar. – Ela sorriu e se retirou.

...

A peça prosseguiu perfeita. Finalmente chegamos a tão temida cena 5. Teríamos de nos beijar. Finalizaríamos o primeiro ato nos beijando. Depois de um pequeno intervalo de 10 minutos voltaríamos. O cenário do baile de Cinderella fora posicionado. Estávamos com nossas roupas de gala e máscaras.

- Com licença, qual o nome daquela moça que enche os braços daquele jovem rapaz? – Disse apontando para Cheshire e a menina que o acompanhava.

- Não sei, não senhor.

- És linda de mais, preciosa de mais. Tem a beleza de um anjo e a delicadeza de uma boneca. Parece-me uma princesa, ao mesmo tempo tem uma história muito além dos contos de fada. Quero tocar minhas mãos nela só para senti-la e purificar-me. – Suspirou.

- Pela voz, deve ser algum Montéquio, do reino da dama de copas. Cortem-lhe a cabeça. – A Lebre Maluca riu por utilizar uma frase da Rainha Vermelha.

- Por que gritam tanto? – Alice se aproximou da lebre, ao ver Romeu sair.

- Era um vermelho!

- Romeu Montéquio? Deixo-o em paz.

- Se expulsá-lo estragara a festa de Cinderella e ela não se casará com você. – Completou o Chapeleiro fazendo com que a lebre amarrasse a cara.

- Mas senhor, ele é um moleque atrevido. A festa é minha e de Cinderella.

- Quem manda aqui sou eu. O castelo é meu. E você é um rapaz petulante.

- Romeu, um dia este doce banquete há de ser-lhe muito amargo. – Praguejou baixo longe dos ouvidos do tio.

- Posso tocar minha mão pecadora, a tua mão sagrada, aceito a penitência. Seria impossível?

-Não calunie a sua mão, ela demonstra respeito, eu vejo... As santas também têm mão que os peregrinos podem tocar. A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível. – Romeu e Julieta dão as mãos.

- Achas possível que um peregrino toque aos lábios de uma santa?

- Acho impossível.

- Então acreditarei que é possível. O que devo fazer?

- Ah, isso depende muito do que queres fazer.

- Quero teus lábios juntos aos meus.

- Não sei se devo. Porém não deixe que o medo de errar impeça que você jogue.

- Que importa o mal que te tormenta, se o sonho te contenta e pode realizar-se? Não se mexa e realize o meu sonho.

            Então os dois se beijaram.

Devíamos continuar a cena, mas era impossível. Não se a Liz estava atuando simplesmente, mas foi o melhor beijo técnico que já dei em toda a minha vida. Foi o melhor beijo de toda a minha vida. Todos aplaudiam com veemência. As cortinas se fecharam e nós continuamos lá com um beijo calmo, mas intenso, urgente, mas leve. Continuamos o nosso beijo por poucos minutos, ela mordeu meu lábio inferior e beijou meu pescoço levemente e com doçura. Entramos em um novo beijo este era mais voraz.

- LIZ! PEDRO! – Meu primo disse deixando o buque que trazia para a Fanning cair no chão.

- Josh? – Como eu pude ter beijado ela? Não era o Romeu beijando a Julieta. Era o Pedro beijando a Liz. Foi verdadeiro e não podia ter sido, tentei não me desesperar. Seria punido, tenho certeza que seria. Lágrimas escorriam pelo rosto da Li.

- Como vocês puderam? Vocês me traíram por meses não é? O acidente... Foi intencional.

- Josh, você realmente acha que eu machucaria o meu próprio primo, arriscando minha vida, tudo para “roubar” a namorada dele? É em nome da ARTE! – Eu falei com a voz firme e precisa, porém não estava seguro de minhas palavras.

- Que eu saiba o espetáculo acaba quando as cortinas se fecham! – Ele gritou.

- Josh... Desculpa-me. – A Liz disse entre as lágrimas e ele saiu de muletas eu não sei para onde. Tentamos segui-lo, mas Zoe nos barrou.

- Vocês foram DIVINOS, o beijo de vocês foi tão verdadeiro, disseram mais com ele do que com as palavras que foram silenciadas. – Ela fez uma pausa e olhou para o rosto de Liz. Depois direcionou o olhar para meus olhos vermelhos – O que aconteceu?

- Zoe, o beijo foi real. – A Li disse claramente. – E o Josh viu tudo.

- Todos viram, Liz. Pode ter sido real, mas ninguém sabe disso, na cabeça da maioria vocês são os parceiros com mais química da história.

- Não, você não está entendendo... Ele veio aqui me dar parabéns, só que nós ainda estávamos nos beijando. – Ela disse e sorriu para mim, um leve sorriso.

Zoe suspirou, ficou pensando por alguns minutos.

- Querem cancelar a peça? – Realmente seria melhor, eu não saberia me controlar da próxima vez. Eu estava apaixonado pela Liz. Eu não posso me apaixonar. Mas tínhamos que continuar, todos ficariam tão decepcionados.

Ambos negamos.

- Vamos continuar... O nosso Sonho.

A peça terminou. Em todos os beijos de Romeu e Julieta, tentávamos ao máximo ser racionais. Sempre sorriamos no final. Na ultima cena, parei para pensar: Eu não podia ficar ali por mais nenhum segundo, ás vezes eu acho que o personagem escolhe o ator. A história escolhe seus personagens. Por que? Porque parecia que eu e a Liz nos encachávamos perfeitamente naquela situação de amor proibido. Eu não me apaixonar por uma humana, mas aconteceu. Não podíamos continuar com isso.

Assim que a cortina se fechou, corri para a floresta. Sem falar com ninguém, apenas corri. Assim que cheguei lá, abri as minhas asas e comecei a pedir perdão, eu falhei na minha missão e quebrei as regras. Comecei a chorar, não entendia. Ser humano era complicado, eles sentiam coisas estranhas, eu estava desistindo de tudo. Não queria sentir culpa, estava com medo de amar. Em meio aos meus pensamentos me deu um aperto no coração. Lembrei-me de cada momento com a Liz.

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