A Filha do Tempo e os Elementos Primordiais

Foi uma quarta-feira, lembro-me bem disso. Afinal, quem não gravaria na memória o dia em que sua versão de uma realidade alternativa aparece na sua casa buscando abrigo?

Eu olhei para eu mesmo com quinze anos, vestindo uma armadura de couro sobre uma camiseta preta com os dizeres "CTPE - Treinando os salvadores de amanhã", e a julgar pela espada que ele carregava, não deveria ser uma iniciativa dos bombeiros.

A história que narrarei aconteceu em outra Terra, mas segundo meu "eu mais jovem", poderia chegar aqui, em nosso mundo, caso ele e seus amigos não conseguissem derrotar o exército de anti-deuses conhecidos como azuras, ou algo assim, que queriam trazer de volta do exílio o Lorde do Caos, Isfet, e seu filho N'Guói (ou lagosta, não sei bem qual era o certo).

Alternando as versões dele (eu mesmo de outra realidade), a da Pri e a da Deb (também da outra versão da Terra, que aqui são minha família), você conhecerá o incrível mundo (ou dimensão, não saquei bem ainda) de Etherion, e toda a gama de complicações que ele trouxe àquela Terra, que podemos definir em uma única palavra: deuses.

Bem vindo às Crônicas de Etherion.

# Uma nova visão da Mitologia Grega

# Os deuses sob uma nova perspectiva

# 2º lugar na categoria "Fantasia" da 2ª Edição do "Projeto Leitura Voraz 2017" do Wattpad - https://my.w.tt/QIE3gAjLML

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20. Uma declaração de amor... que nojo

Pri

Sabe o que é pior depois de quase ser destruído por uma sereia assassina e descobrir que você e sua irmã são semideusas? Ter que ir para a escola no dia seguinte.

Sério, deveria ser tipo feriado nacional cara, com chamada no Fantástico e tudo mais: irmãs joseenses lindas de morrer sobrevivem a ataque de sereia psicótica. No mínimo, deveríamos receber a chave da cidade. Do bairro. Aceitava até a chave da rua para não ir para a escola.

Mas não! Eu não podia nem falar para meus pais, pois isso implicaria em explicar todo aquele rolo de Etherion e mundos do faz-de-conta que existem realmente. Fico cansada só de pensar no papo que teria com meus velhos. Esquece.

Contrariando todas as expectativas, o dia na escola não começou tão ruim assim (se bem que terminou péssimo). Não me entenda mal, é uma escola, não tem como ser legal. Mas dentro da porcentagem que um lugar onde você passa o dia estudando consegue ter um mínimo de diversão, eu consigo classificar o dia como mais que aceitável. Isso dá o que, umas três ou quatro estrelinhas em um total de cinco? Acho que sim.

As boas notícias começaram logo depois do lanche da manhã. Tivemos duas aulas de geografia onde minha irmã e eu cumprimos nossa rotina e dormimos um pouco para recuperar as energias. Saímos para o lanche e quando voltamos fomos avisados de que teria uma palestra.

Você precisa entender: quando se fica das 8:00hs às 17:00hs tendo aula, com apenas três pausas para refeições, qualquer coisa que quebre a rotina é mais que bem vinda. Mesmo sendo uma palestra de um engenheiro da Embraer.

Caros engenheiros do presente e do futuro, não desmereço a profissão de vocês. Muito pelo contrário, agradeço o bem que fazem construindo pontes e prédios para que tenhamos uma vida mais fácil e confortável (é isso que vocês fazem, né?). Ah! E agradeço aos que fazem aviões e navios também.

Enfim, voltando ao assunto... O vice-diretor de projetos da Embraer faria uma palestra no auditório, então fomos para lá. Minha irmã e eu sentamos com o Rod e as meninas (Miriam e Jú). De nós cinco apenas a Jú ficou acordada, já que era a única que pretendia ser engenheira (te-di-o-so). A Deb ia fazer Publicidade e Propaganda (chato). O Rod, algo relacionado a empreendedorismo na área de TI (super chato). A Miriam queria ser ilustradora (por favor, me mate). Euzinha pretendia ser professora como minha mãe, mas daria aula apenas de Educação Física. É a melhor matéria que existe, sem espaço para discussões.

Graças a esse fato ficamos conhecidos como a turma do bode. O que foi, você nunca ouviu os termos "ta tirando um bode", ou "ta de bode", relacionados a dormir? Aff... Se atualiza querido.

Nosso maravilhoso soninho... Quero dizer, a "maravilhosa" (reparou nas aspas?) palestra durou até o horário do almoço. Quando sentamos no refeitório para comer aquela delícia de filé à parmegiana com fritas, meu celular vibrou.

Os intervalos para refeição são os únicos momentos que podemos usar o celular, mas dificilmente alguém me manda uma mensagem, já que meus amigos estão ali comigo e meus pais não sabem usar o whatsapp. Então, estranhei quando o aparelho vibrou no bolso da minha calça. Pensei que era uma notificação de jogo ou as chatices do facebook, mas não era. Era uma mensagem do Felipe.

- Quem é, a mãe? - Perguntou a orelhuda da Deb.

- Não é ninguém – disse mais brava do que pretendia.

Assim que falei me arrependi profundamente. Não por que ter sido grossa com minha irmã, mas por que, ao fazer isso, despertei a maldita curiosidade dela. Se tinha algo em que a Deb era boa, era em ser curiosa.

- Se fosse ninguém você não ficaria tão brava. Vamos, fala quem te mandou mensagem?

- Cala a boca Deb!

E ponto para mim. Atraí a atenção de todos na mesa.

- O que foi? - Quis saber o Rod.

- Nada - eu respondi.

- O namorado da Pri mandou mensagem para ela e ela não quer me mostrar.

- A Pri não tem namorado!

- Você ta namorando Pri? - Perguntou a Miriam.

- Não.

- Ta sim - disse a Deb.

- Se ela não quer mostrar, deixa pra lá – intercedeu o Rod. Tadinho, ele teve boa intenção, mas...

- Rod, não se mete. É assunto de família.

- Credo Deb, que grosseria - disse a Jú.

- Eu sou responsável por ela - retrucou minha irmã. - Tenho que saber quem anda falando com ela. Se o cara é de boa índole, se ele tem dinheiro pra bancar os cinemas, se é bonitinho...

- O que ser bonitinho tem a ver isso? - Questionou o pobre Rod.

- Nada - eu disse -, por que ele não é meu namorado. Eu não tenho namorado.

- Ora essas, tem tudo a ver – continuou minha irmã, como se eu não tivesse falado mais alto do que um latido de cachorro. – Se ele for feio e eles se casarem eu terei sobrinhos feios e...

- Cala a boca Deborah, cala a boca!

Foi demais pra mim. Um dia antes fazemos juras de amor eterno entre irmãs e agora ela está aqui tirando onda com a minha cara. Só por que tem o Rod para fazer tudo que ela quer. Eu mal percebi que tinha gritado, só me toquei quando ela ficou de boca aberta, sem palavras.

- Pri, eu...

- Você nada! Para de achar que pode mandar em todo mundo, que pode tomar conta da vida dos outros. A Pri não te pediu para tomar conta da vida dela, e até que ela perca a sanidade e realmente peça para você fazer isso, você vai cuidar da sua vida, irmã. Não se meta onde não é chamada, você não manda em mim.

- Eu não quis...

- Não quero saber. Se tivesse um pouco de vergonha na cara daria logo a resposta que o Rod quer e começaria a namorar. Para de se fazer de poderosa e começa a namorar logo, assim você larga do meu pé.

E antes que ela pudesse falar qualquer outra coisa, eu me levantei e sai da mesa.

Fui para a sala e lá fiquei até o pessoal voltar e as aulas recomeçarem. Não falei com minha irmã, com o Rod, nem com a Jú e a Miriam. Fiquei na minha, quieta até o fim do dia escolar. Fui para o ônibus e me sentei longe da nossa turminha. Estava de saco cheio de todo mundo e queria ficar sozinha.

Quando descemos do ônibus me preparei para sair correndo, mas alguém me segurou pelo braço. Quando olhei vi que era o Bruno Mioling. Por incrível que pareça, ele parecia preocupado.

- Oi, está tudo bem com você?

Olhei para a mão dele no meu braço e depois para ele. Ele pareceu perceber que me segurava contra a vontade e largou.

- O que você quer?

Ele pareceu não saber o que dizer em seguida, mas fechou bem forte as mãos e falou.

- Eu só queria ver se você estava bem. Vi que saiu chateada do refeitório na hora do almoço, e minha prima disse que você ficou sem falar com ninguém a tarde toda. Tem algo que eu possa fazer por você?

Fiquei olhando sem acreditar no aquele garoto estava falando. Ele estava preocupado comigo? Por quê? Não éramos amigos nem nada parecido.

- O que você está fazendo aqui, cara?

Nos viramos para o lado a tempo de ver o Rod e a Deb descendo do ônibus. Minha irmã logo veio para o meu lado.

- Ele está te atormentando?

- Só estávamos conversando – disse o Bruno na defensiva.

Não sei por que, mas me enchi daquilo. Não tinha por que tratar o cara mal, só estava falando comigo.

- A Pri disse para não se intrometerem na minha vida – ralhei com eles. – Sumam daqui e me deixem em paz.

Foi o mesmo de ter dado um tapa na cara de cada um dos dois. O Rod me encarou por um tempo e começou a ir embora. Minha irmã não sabia se ia ou ficava, mas antes que eu pudesse explodir com ela novamente, o Rod disse.

- Vamos Deb. Você mesma disse que a Pri sabe se cuidar sozinha. Temos que respeitar a vontade dela.

Minha irmã deve ter lutado para ir embora, mas finalmente ela foi. Ficamos só nós dois, o Bruno e eu. Quando minha raiva começou a passar, comecei a questionar minha sanidade. O Bruno ficou meio constrangido e eu louca para dar o fora dali. Quando reuni coragem para dizer que ia embora, ele puxou papo. Droga.

- Sabe, eu tava mesmo querendo conversar com você.

- Sério?  Sobre o que?

Não conseguia imaginar um assunto que alguém como o Bruno poderia ter para conversar comigo, então vocês podem imaginar o susto que eu levei quando ele disse:

- Você quer namorar comigo?

Eu sinceramente não sei qual foi minha reação. Devo ter ficado de boca aberta, arregalado os olhos e parado de respirar, tudo de uma vez.

- Como é que é?

Sei que deve ter sido mais constrangedor para ele do que para mim, mas de uma rápida conversa educada (que já estava demorando demais) para um namoro, acho que o camarada pulou umas boas etapas, né?

- Eu... Eu gosto de você, Priscila. Quero namorar com você. Isso pode ser exatamente o que nós precisamos. Você ganhando independência da sua irmã, e eu provando que não preciso seguir ordens estúpidas daqueles metidos a poderosos e...

- Pausa pro café, meu filho – disse para ele, fazendo sinal de tempo. – Cara, a Pri não a mínima idéia do que você está falando, mas desculpe, não vai rolar não.

Ele ficou magoado, deu para ver. Coitado, eu sabia que isso devia ser terrível, mas eu não ia namorar com ele por dó.

- Bruno, nem nos conhecemos. Eu fico lisonjeada por você gostar de mim, mas...

- Ridículo.

Eu confesso: estava falando com ele olhando para os meus tênis, que eram bem menos intimidantes do que um garoto abrutalhado com os sentimentos feridos. Quando ergui os olhos para o rosto dele, deu para ver que ele estava com muita, muita raiva.

- O que você disse?

- Eu sou ridículo. Achei que... Eu achei que se pudesse ficar com alguém como você eu pudesse escapar da minha família. Ser diferente, fazer o bem. Essas coisas. Mas vocês nunca se misturam com nossa laia, não é mesmo.

- Do que você está falando?

- De vocês, semideuses. Sempre se achando superiores a nós, semititãs. Ainda mas você, que é uma bibliotecária.

Eu travei. Ele não só sabia que eu era uma semideusa, como me chamou de bibliotecária e estava dizendo que também era um híbrido. Um filho de um titã e um humano. E pelo que eu sabia, os titãs e deuses eram inimigos. E ele não estava com cara de quem gostaria de sentar e tomar um bom açaí enquanto conversávamos sobre nossos antepassados.

Comecei a andar para trás, mas eu sabia que seria em vão. Por incrível que pareça não havia uma viva alma na rua naquele momento.

- Bem - ele disse. - Já que não vamos ficar juntos, vou destruir você. Assim acelero as coisas para o pessoal.

- Pessoal, que pessoal?

Mas ele não quis responder. Ergueu o braço e preparou um soco. Foi quando alguém me jogou no chão e caiu em cima de mim.

Era a Deb. Bendita hora em que ela ignorou meus ataques histéricos e voltou para me buscar. E não veio sozinha. Quando ela me ajudou a levantar, vi o Rod e o Bruno brigando. Eles socavam e chutavam que nem loucos, muito mais rápido do que seria normal. Mas o Rod estava na vantagem, pois os socos dele acertavam o Bruno, enquanto o Bruno mal conseguia chegar perto do meu amigo.

Quando o Rod desviou de um soco do Bruno pela última vez, fechou a mão com muita força. Um punho de fogo apareceu na mão dele e ele desferiu um golpe destruidor no rosto do semititã.

Bruno voou longe, uns bons quinze metros. Levantou rápido mas tropeçando, com a mão no rosto.

- Isso não fica assim, semideuses. Amanhã nós acabaremos com vocês. Se preparem.

E dizendo isso ele saiu correndo pela avenida.

- Você está bem? - Perguntou minha irmã.

Eu a abracei com força. Fiquei ali um bom tempo. Podem até dizer que a Pri chorou. Se foi verdade? Talvez.

- Me desculpa, Deb. Me desculpa ser tão idiota.

- Para com isso – ela disse. – Nós duas erramos. Me perdoa também, vou tentar não me meter na sua vida.

-Hum... gente.

Olhamos para o Rod. Ele estava ofegante, mas parecia que nenhum golpe do Bruno o acertou.

- Nós temos um problema sério agora.

- Sim – eu confirmei. – O Bruno é um semititã.

A Deb arregalou os olhos. Olhou para o Rod, como se ligando o que eu tinha dito com a conversa que tivemos no dia anterior. Antes que ela pudesse falar, o Rod tomou a palavra.

- Isso é bem pior do que eu imaginava. Se os semititãs se voltarem contra nós, nosso bairro se tornará uma área de guerra.

Detestava ser a portadora de más notícias, mas eles precisavam saber.

- Acho que eles já tomaram partido, Rod.

- Como assim? Ele - perguntou.

Então eu contei para eles a conversa que o Bruno e eu tivemos, sobre o namoro dele comigo ser uma chance dele não precisar fazer o que a família queria. Agora ficou claro que a família dele eram os semititãs. Isso era algo muito, muito ruim, mas o que deixou o Rod preocupado foi outra coisa.

- Ele disse que você era uma bibliotecária?

- Sim, ele deve ser do tipo vidente né? - Disse rindo.

Mas o Rod não estava rindo. Estava com cara de quem só naquele momento entendia algo que estava na sua cara há muito tempo (se é que existe cara para isso). Ele me olhou com atenção e começou a praguejar em uma língua que eu não conhecia.

- Rod - disse a Deb, tão preocupada quanto eu -, o que foi?

Ele parou e respirou fundo.

- Ele está certo, Deb, eu que não percebi.

Então me olhou nos olhos.

- O que você quer dizer com ele está certo? - Perguntei com medo.

Ele começou a andar de um lado para o outro resmungando. Então do nada ele parou com os olhos arregalados.

- Por isso você sabia sobre as sereias, e por isso daquele livro se materializar quando seu shakti despertou, é um abhilekh. Pri, você é uma Gardian al Cunoașterii.

Ele tinha me xingado?

- Eu sou uma o quê?

- Você xingou minha irmã?

Ele parou e respirou fundo (estava fazendo muito isso ultimamente).

- Uma Guardiã do Saber, uma bibliotecária. São pessoas que nascem com um dom nato para acessar a Biblioteca do Infinito.

A única coisa que pude dizer foi:

- Que?

- Isso não importa agora - ralhou a Deb, que estava dividida entre desmaiar e socar alguém. - Quer dizer que minha irmã é uma... cunoa.. canoa... ah, seja lá o que ela é. Grande coisa.

- Sim – disse o Rod, o que não sei se me deixou feliz ou preocupada. - Pri, o Bruno estava certo. Faz sentido agora a obsessão dele por vocês: Semititãs são atraídos por semideuses como abelhas para o mel, e vice-versa. Você deve ter cativado ele com seu cheiro, e se é uma bibliotecária...

- Tá dizendo que eu ando fedendo por aí?

- Não - disse ele sorrindo pela primeira vez desde que descemos do ônibus. – Quero dizer que seu cheiro chamou a atenção dele por ser uma semideusa poderosa. Semideuses e semititãs são atraídos uns aos outros, normalmente para se matarem, mas as vezes eles se apaixonam.

- E o que acontece quando um dos lados não corresponde o outro?

- Bom, cria-se uma rincha de sangue. Nenhum dos dois consegue ficar em paz até o outro estar morto.

E com essa notícia maravilhosa fechei com chave de ouro meu dia incrível. Agora eu era uma bibliotecária, tinha uma rincha de sangue com um semititã idiota, e por cima, ia levar bronca do meu pai porque ia chegar atrasada em casa. Que maravilhoso, né?

 

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