A Filha do Tempo e os Elementos Primordiais

Foi uma quarta-feira, lembro-me bem disso. Afinal, quem não gravaria na memória o dia em que sua versão de uma realidade alternativa aparece na sua casa buscando abrigo?

Eu olhei para eu mesmo com quinze anos, vestindo uma armadura de couro sobre uma camiseta preta com os dizeres "CTPE - Treinando os salvadores de amanhã", e a julgar pela espada que ele carregava, não deveria ser uma iniciativa dos bombeiros.

A história que narrarei aconteceu em outra Terra, mas segundo meu "eu mais jovem", poderia chegar aqui, em nosso mundo, caso ele e seus amigos não conseguissem derrotar o exército de anti-deuses conhecidos como azuras, ou algo assim, que queriam trazer de volta do exílio o Lorde do Caos, Isfet, e seu filho N'Guói (ou lagosta, não sei bem qual era o certo).

Alternando as versões dele (eu mesmo de outra realidade), a da Pri e a da Deb (também da outra versão da Terra, que aqui são minha família), você conhecerá o incrível mundo (ou dimensão, não saquei bem ainda) de Etherion, e toda a gama de complicações que ele trouxe àquela Terra, que podemos definir em uma única palavra: deuses.

Bem vindo às Crônicas de Etherion.

# Uma nova visão da Mitologia Grega

# Os deuses sob uma nova perspectiva

# 2º lugar na categoria "Fantasia" da 2ª Edição do "Projeto Leitura Voraz 2017" do Wattpad - https://my.w.tt/QIE3gAjLML

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22. Perseguidos

Rod

Depois de todo aquele papo tenso e estressante, só nos restava uma coisa à fazer: ir para a escola.

- Você ta zoando com a minha cara.

Foi o que a Pri me disse quando eu falei para eles que devíamos ir ao Juarez.

- Ele não ta zoando – respondeu a Deb por mim. – Só está sendo ele mesmo: um querido e amável nerd.

Eu não sabia se ficava ofendido com o contexto da frase ou feliz pelo querido e amável. Optei por ficar feliz.

Apolo e Artemis partiram, dizendo que procurariam entre os contatos deles algumas pistas da sereia doidona. Eu contatei alguns amigos no centro e descobri que o número de missões para verificar ocorrências estranhas aumentou 40%. E eu tinha a impressão de que estava relacionado à Deb e a Pri. Então...

- Você tá viajando outra vez?

Acordei dos meus devaneios com a Deb me cutucando. Eu tinha o péssimo hábito de desligar quando as pessoas estavam conversando comigo. Não fazia de propósito, mas quando tinha problemas demais na cabeça, acabava acontecendo.

- Desculpem-me. O que vocês estavam falando?

- A Deb e eu estávamos questionando sua sanidade. Se o Bruno é um semititã e prometeu se vingar de nós, por que irmos exatamente onde ele está?

- Acham então que devemos ficar aqui?

- Não – disse a Deb. – Queremos ver nossos pais. E a Carol.

- E o André, né, fazer o que... - Acrescentou a Pri.

Eu estava relutante em aparecer na casa delas duas horas depois das aulas terem começado apenas para elas verem se a família estava bem. Normalmente o André estaria na escola, a Carol dormindo e a mãe dela trabalhando, o que nos deixava com a pessoa que menos gostava de mim naquela casa: o pai delas.

Mas acabei concordando, já que elas eram teimosas demais e estavam em maior número. E eram desequilibradas demais para ficarem andando sozinhas por aí com super poderes.

- Certo, vamos na casa de vocês. Mas depois vamos para a escola. Não sei por que, mas acho que precisamos ir até lá.

Elas não pareciam muito certas disso.

- Se você está dizendo... - Resmungou a Pri. Deb só deu de ombros.

Assim que saímos de casa eu soube que teríamos problemas. Senti uma presença estranha, mas bem fraca, nos observando. Era quase como se a pessoa estivesse escondendo a aura de propósito. Quando disse isso para as meninas, elas fizeram cara de paisagem, então tive que explicar o que era aura.

- Aura é a identidade etérea da pessoa. É o poder único dela, a soma de suas habilidades e experiências. Algumas culturas chamam de chi, outras de cosmo, e outras ainda de chacra. O nome que usamos, o qual também é usado em Etherion, é aura, embora lá cosmo, chi e chacra sejam coisas diferentes.

A Pri levantou a mão para falar como se estivesse na escola. Nem preciso falar o quanto foi estranho isso com nós três parados em frente a minha casa.

- Então aquilo que eu senti na escola no dia em que a Deb foi atacada era a aura do monstro?

- Você sentiu já naquela época? - Perguntei assustado. Se eu soubesse antes talvez pudesse já ter elaborado um bom plano.

- Sim.

- Eu também senti – disse a Deb. – Desde o primeiro dia, na reunião de pais e mestres.

- Ah! Naquele dia eu também senti – confirmou a Pri.

Então elas já estavam dando mostra dos seus poderes desde aquele dia. A equidinia deve ter sentido a presença delas, por isso estava emanando a sua aura tão forte daquele jeito, como se estivesse provocando uma das duas a fazer algo.

- Falando em sentir... - Disse a Pri.

- É. Tem alguma coisa estranha se aproximando – completou a Deb.

Meus devaneios quase nos custaram um preço bem alto. Quando elas falaram, percebi que a presença que eu senti antes estava bem maior agora, revelando a aura da criatura. Olhei para o fim da rua e gelei. Seis caras vinham subindo a rua. Usavam calças e tênis pretos e um manto da mesma cor cobria o corpo. Os rostos não eram visíveis, pois os capuzes cobriam qualquer indício de quem eram. Mas eu sabia quem eram, e as meninas também.

- Esses não são os caras que atacaram você e sua amiga aquele dia na praça? - Quis saber a Deb.

- Os próprios – confirmei. – São os amigos do Bruno.

Essa frase não serviu para deixá-las mais tranqüilas.

- Você quer dizer o Bruno, aquele semititã que tem uma queda por mim e jurou me matar.

Não era uma pergunta, mas confirmei mesmo assim.

- Eles mesmo. Eu devia saber que eles viriam até a minha casa. Posso ter cometido um erro deixando vocês aqui.

- Vamos entrar outra vez na sua casa então! - Disse a Pri.

Tive que balançar a cabeça, negando.

- Eu usei todo o poder que tinha para nos proteger durante a noite. Estou sem névoa e sozinho não dou conta dos seis.

Então a Deb teve a melhor idéia que um guerreiro deus poderia ter nessa situação.

- Bem, então corram!

E corremos. Como corremos.

Semideuses em treinamento costumam ser ágeis. Treinamos corrida no centro e simulamos batalhas nas mais diversas situações, entre elas, correndo no meio da floresta. Eu podia manter aquele ritmo uma meia hora.

O mesmo não podia ser dito da Deb e da Pri.

Por mais que a Pri gostasse de esporte, nunca precisou correr com a mente martelando que, caso fosse alcançada, algo ruim iria acontecer – como perder a vida, por exemplo, ou ficar sem algum membro do corpo importante para a sobrevivência, tipo o coração. Por mais que essa situação desse um gás no inicio da fuga, o corpo fica estressado e se cansa mais facilmente.

Já a Deb... bem, esporte não era a praia dela, então não conseguiria continuar nesse ritmo muito tempo. Já estava ficando sem ar e os semititãs estavam nos alcançando.

- Continuem – eu disse enquanto parava. – Eu vou atrasá-los.

Não precisei dizer o óbvio: eu ia me estrebuchar lutando com seis inimigos ao mesmo tempo. Talvez eu agüentasse um minuto no máximo, talvez nem isso. A humilhante verdade é que não precisei fazer nada.

As duas (lê-se Pri e Deb) passaram correndo por mim na direção dos semititãs.

- Não suas loucas! É para correr na direção contrária!

Mas elas me ouviram? Não, lógico que não ouviram! Ao contrário, continuaram em direção dos caras que agora tinham adagas e  espadas desembainhadas. Se sobrevivêssemos a isso eu as internaria.

Então, o ar se encheu com algo que eu só costumava ver nos treinos que fazíamos no centro. A única vez que vi isso fora de lá foi em uma batalha da qual participei ano passado. Mas foi preciso cinco guerreiros deuses se unirem para criar aquela atmosfera. A Deb e a Pri fizeram isso em segundos, sem o mínimo esforço. Então elas gritaram juntas:

- Dalle profondità del ghiaccio primordiale, le fiamme del fuoco eterno, invitiamo l'antico potere.

Romano. Elas gritaram romano. Era... Era um encantamento, algo como "das profundezas do gelo primordial, das chamas do fogo eterno, convocamos o poder ancestral".

Elas ergueram as mãos ao mesmo tempo – a Pri a mão esquerda e a Deb a mão direita. A mão da Pri emitiu um raio amarelo que eu conhecia bem: fogo etéreo. E da mão da Deb surgiu um raio branco, igual ao que a Bella costuma usar, mas muito mais concentrado: éter congelante. Elas conjuraram poder da outra dimensão.

Logicamente os semititãs não estavam preparados para aquilo. Os dois poderes se chocaram centímetros antes de alcançar nossos inimigos. Não sei se eles se desintegraram ou se morreram. Não sei se foram transportados para outro lugar. Só sei que eles nem conseguiram parar de correr, tão rápido tudo aconteceu. Em segundos, a rua estava deserta como na hora em que saímos de casa. Apenas nós três estávamos lá.

Nós semideuses aprendemos que magia tem um preço: ela deve ser extraída de algum lugar. Como as duas conheciam esse encantamento e sabe-se lá como sabiam usar juntas, unindo o poder delas, não faço a mínima idéia. Mas eu sabia o que aconteceria em seguida, elas desabariam de exaustão.

Eu corri, mas não consegui ajudar muito. Tentei segurar as duas enquanto caiam, mas acabei caindo junto.

- Ai, cara. Eu to tonta – disse a Pri.

- Mas deu certo, né? Igual quando éramos crianças e...

E ela parou. Deb sentou e olhou para a Pri, que retribuiu o olhar.

- Você lembra, não lembra?

- Sim, eu lembro. Aconteceu mesmo?

- Que tal me dizer o que aconteceu mesmo? Melhor ainda! Por que não fazem isso depois de saírem de cima das minhas pernas?

Elas se levantaram, ainda tremulas (uma delas usou minha cabeça como apoio). Quando consegui ficar de pé, elas se encaravam. Nenhuma das duas parecia à vontade para conversar sobre o ocorrido. E tudo só piorou quando Apolo e Artemis chegaram.

- Vocês estão bem? - Ele perguntou.

- Sim – eu respondi, sem saber ainda o que tinha acontecido e se podia confiar nele.

- Sentimos duas auras se expandirem de uma maneira absurda, beirando o impossível – insistiu Artemis. – Estávamos vindo para sua casa, e apertamos o passo.

- Estamos bem – falou a Pri, visivelmente nada bem.

- É – confirmou a Deb, que podia ter ficado sem falar nada que daria menos na vista.

Apolo e Artemis não eram bobos. Eles se olharam e pude ver que não acreditaram em nós. Nem eu acreditaria, para ser sincero.

- Houve um confronto aqui – disse Apolo.

- Sim, e envolvia titãs – completou Artemis. – Na verdade, acho que eram semititãs, pela emanação da aura que sentimos desaparecer.

Suspirei e passei a mão no rosto. Não adiantava tentar enganar a espécie deles quando se tratava de emanação de aura.

- Fomos perseguidos por alguns semititãs, mas resolvemos o problema.

- Vocês resolveram ou elas resolveram – acusou Artemis apontando para Deb e Pri.

Eu sinceramente não tinha mais conversa para jogar fora. Pri e Deb estavam exaustas demais para dizerem qualquer coisa coerente sem nos comprometer. E eles não deixariam essa passar barato. O que nos salvou foi o evento que iniciou a missão mais perigosa da qual tive que participar.

Todos nós sentimos na mesma hora. Um estrondo no tecido da realidade, como se fosse um tremor uma parede gigantesca sendo rasgada.

- Veio da escola – eu disse.

- Precisamos ir até lá – confirmou Apolo. Ele olhou para a Pri e para a Deb.- Talvez seja melhor elas ficarem por aqui.

- Não – respondi. – Os semititãs estão com uma rixa de sangue conosco. Não posso deixá-las sem proteção.

- Então elas terão que vir conosco e enfrentar o que estiver lá – disse Artemis.

- Tanto faz – disse a Pri.

- Se é para ir, vamos logo – retrucou Deb.

Obstinadas elas eram. Mas eu tinha medo de que, fosse o que fosse lá na escola, a coisa ficaria bem pior do que alguns monstros aleatórios e um bando de semititãs atrás de rixas de sangue.

- Vamos então – falou Apolo.

E nós o seguimos rumo à escola. Se eu soubesse o que nos esperava, corria em direção dos semititãs para jogarmos um xadrez.

 

E ae galera, blz?

Estão curtindo a história? Me ajuda muito saber o que estão achando, então, se possível, deixe sua opinião nos comentários.

Abraços e até o próximo cap!

 

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