A Filha do Tempo e os Elementos Primordiais

Foi uma quarta-feira, lembro-me bem disso. Afinal, quem não gravaria na memória o dia em que sua versão de uma realidade alternativa aparece na sua casa buscando abrigo?

Eu olhei para eu mesmo com quinze anos, vestindo uma armadura de couro sobre uma camiseta preta com os dizeres "CTPE - Treinando os salvadores de amanhã", e a julgar pela espada que ele carregava, não deveria ser uma iniciativa dos bombeiros.

A história que narrarei aconteceu em outra Terra, mas segundo meu "eu mais jovem", poderia chegar aqui, em nosso mundo, caso ele e seus amigos não conseguissem derrotar o exército de anti-deuses conhecidos como azuras, ou algo assim, que queriam trazer de volta do exílio o Lorde do Caos, Isfet, e seu filho N'Guói (ou lagosta, não sei bem qual era o certo).

Alternando as versões dele (eu mesmo de outra realidade), a da Pri e a da Deb (também da outra versão da Terra, que aqui são minha família), você conhecerá o incrível mundo (ou dimensão, não saquei bem ainda) de Etherion, e toda a gama de complicações que ele trouxe àquela Terra, que podemos definir em uma única palavra: deuses.

Bem vindo às Crônicas de Etherion.

# Uma nova visão da Mitologia Grega

# Os deuses sob uma nova perspectiva

# 2º lugar na categoria "Fantasia" da 2ª Edição do "Projeto Leitura Voraz 2017" do Wattpad - https://my.w.tt/QIE3gAjLML

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8. Perseguida pelo passado

Pri

Ficar na escola sem a Deb é horrível, mas ficar sem o Rod também? Ninguém merece um dia desses.

O que você faria se sua irmã faltasse na escola e seu melhor/único amigo também faltasse? Você poderia: a) conversar com outro amigo (esquece esse, não tenho outros amigos na sala ainda); b) fazer alguma lição de casa atrasada (nem pagando); c) estudar para alguma matéria em que você está com dificuldade (até parece); e d) você pode dormir. A opção (d) se encaixa perfeitamente em minhas expectativas.

Não que eu seja antissocial. Só não gosto de conversar com pessoas que não fazem parte do meu dia a dia. Eu sei, soou um pouco antissocial, mas só parece, não é. Tenho certeza. Quase. 80%. Ah, deixa para lá.

A Miriam e a Jú eram mais amigas da Deb. E de qualquer maneira, elas sentavam nas últimas carteiras, então não dava para conversar com elas mesmo se eu quisesse.

E sobre estudar, fazer tarefa ou qualquer outra coisa similar... Oche, é uma falta de respeito com o professor estudar para outra matéria enquanto ele se esforça para... Conversar com um grupo de cinco garotos sobre sabe-se lá o que. Enfim, cada matéria na sua aula, cada macaco no seu galho, e vivemos felizes para sempre.

Sempre fui uma pessoa prática. Analiso o ambiente em que estou e decido o que será e o que não será bom para minha saúde. Fazer novos amigos era só mais uma maneira de ficar triste futuramente quando eles se magoassem, o que não era bom para minha saúde. Então, me contentava com o Rod e a Deb.

Não que eu tivesse certeza de que eles nunca me magoariam, mas a Deb é da família, e família nós sempre perdoamos. E o Rod, pelo andar da carruagem, logo seria da família também, então estava dentro do pacote.

Resumindo meu drama, fui dormir. Não sei até quanto tempo passou, mas logo eu acordei assustada. Algo estalou na minha mente e acabei me lembrando do dia anterior.

Até aquele momento eu tinha certeza de que a Deb tinha caído na sala de aula, batido a cabeça em uma carteira e ido para a enfermaria. Mas a realidade me atingiu como se um tapa na cara. Lembrei de tudo que tinha acontecido até então.

No dia anterior, na aula do professor Tibúrcio, eu acabei adormecendo. Então, acordei com a certeza de que algo tinha acontecido, dava para sentir. Eu precisava achar a Deb. Urgentemente.

Nem me dei ao trabalho de falar com o professor. Só sai da sala e comecei a correr. Então, eu senti aquela coisa estranha. Algo diferente, mas familiar. Era algo que eu sabia já ter visto, e talvez até já tivesse feito. A palavra ecoou na minha mente. Quando me foquei nela, enquanto corria cegamente, aquilo pareceu mexer com cada pedaço do meu corpo. Algo do meu passado, parecia, mas de um passado que eu não conhecia.

Magia. Alguém tinha acabado de fazer magia.

Quando pensei isso até parei onde estava. Só podia estar doida. Essa coisa de magia não existe. Bem, tem o David Copperfield e os outros caras, mas magos mesmo, como os da Casa da Vida, dos livros da Sadie Kane, não existem realmente no mundo real.

Ou será que existem?

Deixando esse infeliz e inoportuno pensamento de lado, continuei a correr. Fui direto para a diretoria, para encontrar o sr. João parado, olhando para a janela estilhaçada.

- Sr. João!

Cheguei correndo e assustando ele, pois o inspetor de alunos deu um salto. Só quando ele saiu da frente foi que vi que tudo estava destruído lá dentro. Havia marcas de fogo em todo lugar.

- Você me assustou, semideusa. Também se sentiu convocada para esse lugar?

Olhei para ele. Coitado. Trabalhar com a Bia deve tê-lo deixado piririm das ideias.

- Hum... Como é que é?

Ele me olhou com mais atenção e pareceu se surpreender com algo.

- Nada. Mas então, Ereneusa, você foi ou não mandada aqui ajudar a diretora?

- Ereneusa? Quem raios tem um nome desses? Oche. Meu nome é Priscila, e vim aqui procurar a minha irmã.

- Desculpe. Pensei que era a aluna que ajudaria a Dra. Dulcinéia a se instalar no novo escritório.

- Sr. João, quem é Dulcréia?

- Dulcinéia, mocinha. Dra. Dulcinéia, a diretora. Ora, não se lembra? Ela estava na sala dos professores, pois a diretoria foi dedetizada. Uma aluna foi designada para ajudar com suas coisas, e pensei que era você.

Pelo que eu lembrava a diretora chamava Bia, e se aquele era o resultado do serviço de dedetização, alguém me lembre de nunca dedetizar minha casa.

Preocupada com o que tinha acontecido com a Deb, fui perdendo a paciência com o Sr. João.

- Olha Sr. João. Minha irmã saiu da aula do professor Tibúrcio a pedido da diretora. A Bia. Aquela, doida de pedra, que está em um monte de fotos ali, naquela parede.

Apontei para a parede repleta de fotos da Bia. O inspetor ficou quieto por um tempo, até que a Clarissa chegou.

A Clarissa é uma menina chata e puxa-saco de professores que, infelizmente, estuda na minha sala. A loirinha cdf apareceu sorridente e presunçosa como sempre, o que só me irritou mais ainda. Não tinha tempo para perder com as frescuras dela.

Ela praticamente me ignorou, o que foi maravilhoso. Minha linda pessoa não suportava essa ralé de xaropes.

- Sr. João, sou Clarissa do 1° A. Fui chamada para ajudar a diretora Dulcinéia.

- Está bem Clarissa. A diretora encontra-se na sala dos professores. Por favor, vá ao encontro dela.

- Obrigada Sr. João.

E dizendo isso, ela saiu da sala, fingindo que eu não existia. Só pude rolar os olhos e balançar a cabeça.

- Como eu disse – cortou derrepente o Sr. João -, você deve estar confusa, garota. Não existe nenhuma Bia aqui na escola, a não ser que seja uma aluna.

Apontei novamente para as paredes.

- E essas...

Fotos, que tinham sumido. Nenhuma foto da Bia, apenas quadros de paisagens e outras coisas esquisitas que minha irmã provavelmente chamaria de arte. Falando nela...

- Está certo, tanto faz. Mas cadê a minha irmã? E não vem me dizer que ela não existe e se chama Dulcinéia, pelo amor de Deus!

Ele pareceu divertir-se com a ideia. Será que ele tinha trocado os quadros enquanto eu reparava na Clarissa? Não, não daria tempo. Só se ele usasse magia, o que era impossível.

Então porque uma parte escondida bem lá no fundo das minhas ideias dizia que não era tão impossível assim?

Ignorando esta parte, me concentrei em fazer uma cara de enfezada para o inspetor de alunos, para mostrar a ele todo o meu descontentamento. Acho que não deu certo, porque ele continuou divertindo-se, chegando até a sorrir. Ele pegou uma prancheta de cima da mesa e consultou uma das folhas.

- Você disse que a sua irmã se chama Deborah, isso?

- Não, eu não disse. Disse que minha irmã veio aqui à chamado da diretora.

Ele pareceu surpreso apenas por um momento, então voltou a fazer aquela cara de tédio que ele sempre fazia.

- Aqui consta que a aluna Deborah caiu na sala de aula e bateu a cabeça na carteira durante um ensaio na aula do professor Tibúrcio. Agora ela se encontra na enfermaria.

Olhei pasma para ele. Será que isso tinha acontecido enquanto eu estava ali. Mas se realmente aconteceu depois que eu sai, como ele já tinha essa informação anotada no papel? Não, não tinha como dar tempo.

Decidi que me preocuparia com isso depois. Minha irmã estava na enfermaria, e eu tinha que vê-la. Dei as costas para o Sr. João e saí correndo da sala. Quer dizer, tentei sair correndo, já que dei um encontrão com a Clarissa e a mandei para o chão. Como ela não estava com a diretora e nem trazia seus pertences, só pude deduzir uma coisa.

- Estava ouvindo conversa alheia, Clarissa? Ridícula...

E voltei a correr, rindo da cara de vergonha e afronta que ela fazia, conseguindo ficar vermelha que nem um pimentão. Minha vitória durou pouco, porque quando eu virei o corredor, a garota gritou lá atrás.

- Pelo menos eu não sou louca para ficar inventando pessoas que não existem, sua esquisita!

Isso doeu. Como ela não podia mais me ver, eu parei e encostei a cabeça na parede. Nem tentei conter as lágrimas, elas nunca me obedecem mesmo. Fiquei um tempo ali, até conseguir me controlar.

Na minha antiga escola sempre me acharam esquisita. Eu era na minha, não usava roupas da moda nem ligava para a galera popular. Não tinha amigos e todos caçoavam de mim. Eu ignorava, fingia que não ligava, mas na verdade, aquilo me destruía. Minha válvula de escape era o Felipe, que ficava ao meu lado sempre, não importando a situação. Não foram uma nem duas vezes que ele chegou a puxar briga para me defender. Até que ele me abandonou e mudou-se para o Japão.

Essa nova escola era uma chance de recomeçar. Usávamos uniforme, então, não haveria desfile de roupas da moda. Mas pelo visto, eu ainda me diferenciava. Então, tomei uma decisão. Não falaria com ninguém, nem com o Rod e a Deb, sobre as coisas que estavam rodando na minha cabeça. Essas ideias malucas de magia, e essa doidera de não lembrar da diretora... Tudo isso eu deixaria de lado e seguiria minha vida. Em casa eu era despreocupada, fingia estar tudo bem.

Agiria assim naquela escola também, daquele momento em diante.

Secando as lágrimas e me recompondo, parti em direção da diretoria. O sinal do último intervalo tocou, e um monte de alunos saiu para os corredores. Ignorei todos e continuei em direção da diretoria. Chegando lá, encontro o Rod falando com a enfermeira. Minha irmã estava deitada em uma maca, dormindo. Tinha um tipo de pasta em volta do pescoço dela, e um curativo na cabeça. Fora isso ela parecia normal.

O alívio que senti quando a vi foi imenso. Eu sentia que precisava protegê-la a qualquer custo, não importando as consequências. Se algo acontecesse a ela, eu não sei o que faria.

Eu fiquei quieta ali na entrada, olhando para a minha irmã. O Rod e a enfermeira demoraram um tempo para perceber que eu estava ali.

- Oi. Em que posso te ajudar? Perguntou a enfermeira. Ela era tão familiar...

Como não disse nada e continuei olhando para a Deb, o Rod falou por mim.

- Angélica, esta é a Priscila, irmã da Deborah.

Angélica fez aquela cara de "ah, coitadinha" e se aproximou de mim. Ela me conduziu até uma cadeira e gentilmente me sentou. Eu parecia um zumbi sem reação nenhuma. Tarde demais, lembrei-me daquele papo de ser uma pessoa despreocupada e normal. Respirei fundo e forcei um sorriso cansado.

- Ela está bem?

- Sim, querida – disse Angélica. – Sua irmã só está desacordada, mas passa bem. Fora os arranhados no pescoço e um pequeno galo na cabeça, ela está ótima.

Quase perguntei sobre como ela conseguiu os machucados, mas acho que isso ia desencadear uma situação desconfortável. E a última coisa que eu precisava era fazer papel de doida na frente do Rod, que era a única pessoa que conversava comigo na escola, tirando a minha irmã.

Então fiquei ali quieta, esperando a Deb acordar. Acabei cochilando e tendo uns sonhos estranhos. Não lembro bem deles, só de partes desconexas. Primeiro, eu estava em um lindo castelo, com roupas de princesa. Depois, eu estava lutando com a minha irmã, com direito a armadura de madeira, espada e escudo. A última parte que consigo lembrar é de estar em cima de um leão – sério, um leão que voava – e pular dentro de um buraco no céu para alcançar alguém.

Acordei com alguém sacudindo meu ombro gentilmente. Abri os olhos e me deparei com o Rod sorrindo para mim.

- Ei, Bela Adormecida, finalmente acordou. Seus pais estão chegando.

- Meus pais? Perguntei, me espreguiçando.

- Sim. Olha, preciso te dizer o que a Angélica falou.

- Pode falar – disse, mais atenta.

- Sua irmã bateu a cabeça. A Angélica disse que nessas situações, quanto menor o número de pessoas por perto quando ela acordar, menos desorientada ela ficará. Segundo ela, isso evita alguns danos secundários que poderiam ser desencadeados.

Olhei para o Rod com minha melhor cara de "não entendi nada do que você disse". Ele riu, o que me fez rir também.

- Eu sei, não faz muito sentido para mim também, mas ela é a profissional, certo?

- Se você diz...

Levantei-me e fui para fora com ele, bem na hora dos meus pais chegarem. Minha mãe me abraçou forte. Forte demais.

- Está bom, mãe, pode me soltar agora. É a Deb que tá zoada, não eu.

Ela me soltou, mas continuava nervosa. Ela sempre ficava assim quando alguma coisa acontecia conosco. Meu pai, por outro lado, me deu duas tapinhas no ombro. Três tapinhas significavam "filha, te amo tanto, minha querida", então, deu para entender como ele estava emocionado.

- Mãe, Pai, este é o Rod. Ele estuda na nossa sala e é nosso amigo. Ajudou a trazer a Deb para cá.

Mal terminei as palavras "nosso amigo" e minha mãe já estava abraçando o Rod, enquanto meu pai olhava feio para ele. Quando ela enfim o soltou, meu pai franziu mais ainda a testa (não sei como isso foi possível).

- Você não é o filho da dona Helena e do seu Rafael?

Antes que o Rod abrisse a boca, minha mãe colocou a mão sobre a dela.

- É verdade! Você é o garoto que toca teclado na Igreja Metodista, não é?

O Rod sorriu, confirmando com a cabeça.

Graças a Deus, antes que meus pais começassem um interminável papo sobre igrejas e denominações, a enfermeira Angélica chegou.

- Boa tarde senhor José é dona Ruth. A filha de vocês está quase acordando. Não, não – disse ela, impedindo meus pais de entrarem na enfermaria. – Como disse antes aos meninos, é melhor que ninguém esteja presente quando ela acordar. Assim evitamos problemas desnecessários. Agora, esperem ali no pátio de refeições – virando-se para o Rod e para mim, ela disse sorrindo. – E vocês dois, a Dra. Dulcinéia disse para irem para casa com os ônibus.

- Mas... Minha filha não pode ficar com a gente, já que...

- Sinto muito, senhora Ruth, mas são ordens de cima. Eu apenas transmito o que escuto.

Respirando fundo, lembrei-me de que agora eu seria despreocupada e normal. Despreocupada e normal.

- Tudo bem mãe – disse abraçando os dois e aproveitando para sair com o Rod. – Vou lá na sala com o Rod pegar o material e vou para casa. Espero vocês lá.

E sai antes que houvesse protestos. Não falei muito com o Rod enquanto andávamos, apenas fomos para nossa sala.

Quando entrei na sala para pegar meu material, uma enxurrada de lembranças inundou minha mente, como se meu cérebro estivesse sobrescrevendo os fatos daquele dia por algo... Implantado? Não sei se a palavra certa é essa. Só sei que quando sai da sala, todas as lembranças do dia tinham sido duplicadas, e versão comentada pela Angélica e o sr. João também estava na minha mente.

Agora, quando estava indo para o ônibus escolar, comecei a me preocupar. Tinha muito no que pensar. Ou eu estava ficando louca, ou algo muito esquisito estava acontecendo ali na escola. Talvez, as duas coisas.

 

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Oi pessoal, mais um capítulo publicado... o que acharam da Pri? Muito dramática? Ou suas preocupações são válidas? Comente aí pra me ajudar...

Abraços!

 

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