A Filha do Tempo e os Elementos Primordiais

Foi uma quarta-feira, lembro-me bem disso. Afinal, quem não gravaria na memória o dia em que sua versão de uma realidade alternativa aparece na sua casa buscando abrigo?

Eu olhei para eu mesmo com quinze anos, vestindo uma armadura de couro sobre uma camiseta preta com os dizeres "CTPE - Treinando os salvadores de amanhã", e a julgar pela espada que ele carregava, não deveria ser uma iniciativa dos bombeiros.

A história que narrarei aconteceu em outra Terra, mas segundo meu "eu mais jovem", poderia chegar aqui, em nosso mundo, caso ele e seus amigos não conseguissem derrotar o exército de anti-deuses conhecidos como azuras, ou algo assim, que queriam trazer de volta do exílio o Lorde do Caos, Isfet, e seu filho N'Guói (ou lagosta, não sei bem qual era o certo).

Alternando as versões dele (eu mesmo de outra realidade), a da Pri e a da Deb (também da outra versão da Terra, que aqui são minha família), você conhecerá o incrível mundo (ou dimensão, não saquei bem ainda) de Etherion, e toda a gama de complicações que ele trouxe àquela Terra, que podemos definir em uma única palavra: deuses.

Bem vindo às Crônicas de Etherion.

# Uma nova visão da Mitologia Grega

# Os deuses sob uma nova perspectiva

# 2º lugar na categoria "Fantasia" da 2ª Edição do "Projeto Leitura Voraz 2017" do Wattpad - https://my.w.tt/QIE3gAjLML

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14. O mensageiro dos deuses... e não, não é Hermes

Rod

Minha família sempre disse que eu era teimoso. Meus pais insistiam em que eu aceitasse as coisas como eram, mas eu me recusava, desde criança. Não que eu quisesse tudo perfeito, mas eu acabava imaginando como as coisas podiam ser melhores, e não ligava de dizer isso para as pessoas.

É lógico que rapidamente entendi que a esmagadora maioria dos seres humanos não aceita ser contrariada. Principalmente aqueles que detém certa autoridade sobre você. Mas aprendi que os piores são os que acham que têm uma autoridade que, na verdade, não tem.

Este é o caso do mané que me visitou naquele sábado. Eu tinha acabado de chegar no hospital me para ver minha mãe. Devia ser umas 19:30 mais ou menos e infelizmente eu tinha me atrasado, graças ao maravilhoso serviço público de nossa cidade. Por ela estar na UTI, apenas duas pessoas podiam visitar, por vinte minutos.

Como meu irmão estava muito abalado, chorando sem parar, e meu pai parecia perdido, sem saber o que fazer, mandei os dois entrarem e fiquei lá fora, esperando enquanto a visita acabava.

Fiquei esperando em pé na recepção, já que estava lotado de pessoas e a prioridade deve sempre ser daqueles em condições especiais – grávidas, idosos, portadores de necessidades especiais (lembre disso).

Demorou uma eternidade até os dois aparecerem no final do corredor. Não me contive e fui rapidamente até eles.

- Como está a mãe?

Meu irmão tinha os olhos vermelhos de tanto chorar. Não me espantava, pois em seus onze anos de idade ele passava mais tempo chorando do que o contrário. O que me preocupava era a expressão do meu pai. Os cabelos quase brancos estavam despenteados e o rosto abatido. Ele já tinha 71 anos, e preocupações assim podiam deixá-lo de cama.

Graças a Deus, quando ele respondeu sua voz estava firme e transbordava alívio.

- Ela está estável. Se melhorar durante a noite, amanhã ela sairá da UTI.

Balancei a cabeça enquanto suspirava. Essa era uma ótima notícia. Mamãe já tinha 61 anos, e eu tinha medo que fosse algo mais grave.

- Ótimo – eu disse. – Vamos para casa então?

- Bem, eu vim de moto com o pai – disse o Luiz, querendo se achar (algo que ele adorava fazer)  – Como você veio?

- De ônibus, moleque – respondi. – Acha que eu vim voando?

Ele deu de ombros.

- Vai saber...

Não tinha tempo para as bobeiras dele. Era sábado, e os ônibus demoravam muito. Eu tinha outros meios de me locomover, mas os evitava o máximo que podia. Quanto menos eu entrasse em contato com meu passado, melhor. E eu já estava muito envolvido com ele.

Eu já ia sair quando um médico se aproximou de nós.

- Olá! Rodrigo, a quanto tempo!

Fiquei olhando para o cara, mas nunca o tinha visto na vida.

- Hã... Oi. Nós nos conhecemos?

O camarada era todo sorrisos. Tinha cabelos curtos e negros, cavanhaque e uma pequena cicatriz embaixo do olho esquerdo. Tinha a pele clara, e qualquer pessoa que passava achava que éramos grandes amigos. Odeio caras que são cheios de sorrisos. Normalmente são inimigos disfarçados.

- De onde conhece meu filho, doutor? - Quis saber meu pai. Não parecia desconfiado, ele só era curioso por natureza.

- Ora, ora, seu Rafael em pessoa! Que prazer vê-lo aqui. E o jovem Luiz. Como vão?

- Bem, eu acho... - Disse meu pai, confuso. Se o cara sabia o nome de nós três, ou realmente nos conhecia, ou era um louco que pesquisava suas vítimas na internet. Eu preferia a primeira opção.

- Então – ele continuou, como se nada tivesse acontecido. – Precisam de carona? Estou indo para casa agora.

- Você mora no Galo Branco? - Perguntou meu irmão.

- Rapaz, lógico! Trabalho no Postinho de lá! Já te atendi uma vez, quando quebrou o braço esquerdo.

- Verdade – meu irmão disse, arregalando os olhos. – Doutor Rogério! Como pude esquecer?

- Tranquilo, rapaz. Acontece! Mas e então, precisam de carona?

Eu já ia responder que não, mas meu pai foi mais rápido. Velhinho danado...

- Bem, doutor, se puder levar o Rodrigo será ótimo. Vim de moto com o Luiz e o Rodrigo veio depois, de ônibus.

Os olhos do tal dr. Rogério brilharam. Nitidamente brilharam, azuis. Problemas à vista.

- Será um prazer. Podemos por a conversa em dia.

- Ótimo então – disse meu pai. – Te espero em casa, filho.

- Até - despediu-se meu irmão, dando risada.

Suspirando, me despedi deles. Sabia que vinha encrenca por aí. Olhei para o tal Douglas. Ele não me parecia um monstro, nem um feérico, mas não dava para ter certeza. Magia abria muitas portas.

- Então – disse, olhando o dr. Douglas nos olhos. – O que você quer? Uma luta, aqui? Sério, porque não entrarei no seu carro, nem pagando.

O sorriso do doutor se apagou.

- Eu não luto. Sou apenas um mensageiro.

- Mensageiro? De quem?

O tal dr. Rafael bufou.

- Não seja estúpido, híbrido. De Hermes, hora essa.

Eu não processei nada depois da palavra que ele usou.

- Híbrido? Por que me chamou assim?

O médico rolou os olhos.

- Porque é o que você é: um híbrido de um etheriano e um terreno.

- Não se diz terreno, se diz terráqueo, ou, se não quiser parecer um idiota, humano.

- Eu digo que fui enviado por Hermes e você... Espera, disse que pareço um idiota?

Apenas queria que esse idiota fosse embora. Estava muito cansado.

- Tanto faz. Termine logo o que você  precisa dizer para eu ir embora.

Ele ficou me avaliando, até suspirar.

- Muito bem. Por mais que eu queira, não  posso ir embora sem lhe entregar minha mensagem.

- Mensagem?

Ele rolou os olhos. Parecia muito bom nisso.

- Eu disse que sou um mensageiro, não disse? Bem, aqui está – disse ele me estendendo um papiro enrolado.

Estava lacrado cum cera vermelha. O símbolo devia representar a casa dos mensageiros: um caduceu com duas cobras enroladas nele, que representava o líder da casa, Hermes, filho de Zeus.

Parentes. Odeio parentes.

Olhei para Douglas. Seus olhos brilhavam, azuis.

- Bem, a mensagem está entregue. Se quiser, pode fazer uma doação para nossa casa. Aceitamos dólar, euro e dracmas de ouro.

Se eu pudesse, esganaria o cara. Decidi deixar para lá. Quebrei o lacre e o que li gelou até a minha alma.

Li o pergaminho mais duas vezes para ter certeza de que tinha lido certo. Olhei para o médico.

- Você tem certeza de que isto está certo?

Ele deu de ombros.

- Só posso dizer que nosso cliente pagou uma taxa extra para ser entregue ainda hoje.

- Seu cliente?

- Você não é muito inteligente... se sou um mensageiro, entrego mensagens para alguém, ora essa. Bem, minha missão está completa e não preciso ficar aqui te explicando o que faço de minha vida. Passar bem, semideus.

Sem dizer mais nada, e sem ter a decência de esperar que eu pegasse minhas armas para o cortar em dois, ele sumiu, deixando um leve odor de fumaça no ar.

Fiquei parado, no corredor do hospital, sem saber o que fazer. Li mais uma vez a mensagem.

"Os reinos divinos de Etherion se preparam para a pior batalha de todos os tempos. De um lado, uma aliança nefasta pretende usar a criança perdida para destruir o espaço/tempo. Do outro, a Ordem dos Guardiões quer destruir os reinos divinos por que um tratado antigo foi quebrado.

Tudo isso está relacionado com a garota. Proteja ela com sua vida até chegarmos.

Assinado

Sua tia"

Eu não me importava com os reinos divinos, a guerra de Etherion e nem com guardiões e alianças nefastas. O que me apavorou foi a menção de que tudo isso está relacionado com a Deb.

E eu achando que enfim teria uma vida normal. Só tenho que proteger a menina que gosto (e possivelmente toda a sua família) de uma aliança de seres malignos que queriam por as mãos nela.

Suave. Nada mais do que rotina. Só que não.

Enfim, fui para o ponto de ônibus. Tinha muitas ligações para fazer e muitas promessas e dívidas para cobrar. Seria uma longa noite. E as que viriam seriam ainda piores.

Se não fossem as últimas.

 

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