A Filha do Tempo e os Elementos Primordiais

Foi uma quarta-feira, lembro-me bem disso. Afinal, quem não gravaria na memória o dia em que sua versão de uma realidade alternativa aparece na sua casa buscando abrigo?

Eu olhei para eu mesmo com quinze anos, vestindo uma armadura de couro sobre uma camiseta preta com os dizeres "CTPE - Treinando os salvadores de amanhã", e a julgar pela espada que ele carregava, não deveria ser uma iniciativa dos bombeiros.

A história que narrarei aconteceu em outra Terra, mas segundo meu "eu mais jovem", poderia chegar aqui, em nosso mundo, caso ele e seus amigos não conseguissem derrotar o exército de anti-deuses conhecidos como azuras, ou algo assim, que queriam trazer de volta do exílio o Lorde do Caos, Isfet, e seu filho N'Guói (ou lagosta, não sei bem qual era o certo).

Alternando as versões dele (eu mesmo de outra realidade), a da Pri e a da Deb (também da outra versão da Terra, que aqui são minha família), você conhecerá o incrível mundo (ou dimensão, não saquei bem ainda) de Etherion, e toda a gama de complicações que ele trouxe àquela Terra, que podemos definir em uma única palavra: deuses.

Bem vindo às Crônicas de Etherion.

# Uma nova visão da Mitologia Grega

# Os deuses sob uma nova perspectiva

# 2º lugar na categoria "Fantasia" da 2ª Edição do "Projeto Leitura Voraz 2017" do Wattpad - https://my.w.tt/QIE3gAjLML

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19. Explicações demais

Deb

Acordar de um sonho maluco com sua irmã sorrindo como louca em cima de você é tenso, como mencionei anteriormente. Acordar e dar de cara com ela com os olhos esbugalhados e preocupados, lutando para conter lagrimas que insistiam em cair, é, no mínimo, desnorteante. A última experiência foi muito pior.

Eu estava realmente na casa do Rod, deitada na rede que fica nos fundos, perto da churrasqueira. Do meu lado, o Rod e a Pri estavam sentados em banquinhos de plástico, mantendo vigília enquanto eu dormia. A Pri segurava um livro preto que me era familiar.

Era noite já, e a lua se erguia majestosa e cercada por um infinito de estrelas brilhantes. Sem nenhuma nuvem no céu, elas brilhavam lindas, em uma visão de fazer qualquer um relaxar, ao contemplá-las. Uma leve brisa soprava e dava uma sensação gostosa de estar conectado à natureza, mesmo dentro da cidade.

A primeira coisa que notei foi que estava de roupa. Quero dizer, nada de maiô. Estava usando uma roupa de casa: minha blusinha dos Minions e uma bermudinha jeans. Acho que a Pri deve ter ido em casa buscar.

Tentei me levantar, mas não consegui. O Rod se levantou e me tomou nos braços, gentilmente, e me ajudou a sentar. A Pri me ofereceu um copo com um liquido azul, com um cheiro maravilhoso.

- O que é? - Perguntei.

Ela olhou para o Rod, que assentiu pra ela. Algo estava estranho ali.

- O nome da bebida é néctar - ela disse hesitante. - Ajuda um tipo específico de pessoas a melhorar.

Franzi as sobrancelhas.

- Um tipo específico de pessoas?

- Acho melhor eu explicar isso - disse o Rod. - Mas antes, beba o néctar Deb. Fará bem para você.

Bebi o líquido e realmente me senti melhor. Tinha um gosto maravilhoso, quase divino. Quando terminei, Rod pegou o copo e colocou na pia, ao lado da churrasqueira. Depois se sentou novamente no banquinho.

- Bem - disse eu depois de alguns momentos em silêncio -, que tal começarem as explicações?

A Pri e eu olhamos para o Rod. Ele estava olhando para o nada, e por um momento pensei que ele não tivesse me ouvido. Quando eu ia falar novamente, ele começou a falar.

- Acho que é bom falarmos dos eventos primeiro, pode ser?

Ambas assentimos, e ele recomeçou.

- A criatura que atacou você na escola, Deb, chama-se equidinia. É a rainha uma raça de seres reptilianos, muito fortes chamados serpentauros. Usam suas garras para atacar seus inimigos, e quando chegam perto o bastante, usam suas presas liberando um veneno mortal que mata em poucas horas. Você teve muita sorte em escapar dela.

- E o cara de fogo que me salvou?

Rod hesitou, antes de continuar.

- Um elementar.

- Um ele o que?

- Um elementar. Um ser criado por um dos elementos da natureza: terra, fogo, vento, água, luz e trevas. Ou um ser que está em comunhão tão grande com o elemento que domina (ou elementos quando é mais que um) que pode se tornar um com ele. Bem, na maioria das vezes de um único elemento.

- Como assim? O último não era coração? - Perguntou a Pri.

Rolei os olhos. Só a Pri para lembrar do Capitão Planeta quando estamos conversando sobre coisas que tentaram me matar. O Rod ergueu as mãos pedindo calma, com um sorriso cansado no rosto.

- Eu sei que é complicado, mas tentem ser pacientes. Prometo que explicarei quantas vezes for necessário, mas se perdemos o foco ficará mais confuso do que já é. E não, Pri, o último não é coração. O Capitão Planeta não existe.

Relutante, concordamos com ele. Dava para ver que a Pri ficou decepcionada, mas superou bem. O Rod respirou fundo antes de continuar.

- O elementar foi enviado por alguns... Aliados, creio que posso chamá-los assim, para salvar você, Deb. Esse em especial era um elementar do fogo, por isso seu corpo estava coberto de chamas.

Assenti devagar, lembrando do cheiro de carne queimada que senti quando o cara de fogo apertou o pescoço da Bia com a mão. O Rod continuou falando.

- Sobre a sereia, fica um pouco mais complicado.

Olhei pra ele com as sobrancelhas erguidas, minha cara com certeza mostrando o que eu pensava. Tudo até agora estava complicado. Será que podia complicar mais? O Rod nem percebeu, pois continuou explicando como se nada tivesse acontecido.

- Existem espécies de sereias. As da água são as mais conhecidas pelos humanos, mas existem também sereias da terra, do vento, do fogo, da luz e das trevas... Para cada elemento da natureza existe uma raça de sereias. Elas são magas elementares muito poderosas, o mais perto de elementares que possuem comunhão total com os elementos, embora esse tipo de comunhão seja extinto hoje.

- Hum... Seria mais legal se só existissem as do reino da pequena sereia.

O Rod e eu olhamos pra Pri. Ela percebeu a besteira que disse e murmurou desculpas. Logo, caímos na gargalhada. Típico da Pri viajar desse jeito no meio de algo sério.

Depois de pararmos de rir, ficamos um pouco em silêncio. Então resolvi falar o que me atormentava desde o ataque da Bia.

- Bom, agora que sei um pouco sobre esses seres esquisitos, talvez você possa me responder porque eles estão me caçando? E porque o elementar, seja lá o que ele for, me ajudou? E como você sabe sobre essas coisas, Rod? E não me venha dizer que foi sua pesquisa na biblioteca, porque sei que não foi.

Eu estava nervosa, muito nervosa. TNão devia ter descontado tudo em cima do Rod, mas eu tinha estourado. Antes que ele pudesse responder, eu continuei falando.

- E aquela bola de fogo que apareceu na cara da sereia? Foi você não foi? Como você chegou lá tão rápido e...

- Chega!

Ele deu um murro na parede acompanhando o berro, o que me calou na hora. Eu nunca tinha visto ele nervoso assim, nem quando ele brigou com o Bruno. Meus olhos se encheram de lágrimas. A Pri também parecia prestes a abrir a boca.

A expressão dele suavizou. Ele passou as mãos no rosto, visivelmente cansado. Percebi que ele devia estar tão cansado quanto eu, depois de tudo o que fez pra nos salvar. E eu ali mostrando minha gratidão enchendo ele de perguntas e não dando tempo para ele responder. Estava sendo grossa. Antes que eu pudesse dizer algo, ele falou em um sussurro quase inaudível.

- Me desculpem. Principalmente você Deb. Estou cansado, porque usei muito poder pra trazer vocês duas de volta. Só preciso de um momento, sim? Vou buscar água.

Esperamos em silencio enquanto ele ia até a casa e voltava com uma bandeja com um jarro com água e três copos. Tomamos água em silêncio, colocando as ideias em ordem. Enfim, o Rod recomeçou a falar.

- Bem, vou responder o que conseguir, mas, mais uma vez, peço paciência - disse ele com um sorriso fraco. - Preciso fazer isso do meu jeito, para que consiga explicar tudo. Pode ser?

Eu peguei na mão dele e concordei. Precisava saber o que estava acontecendo comigo, e ficar gritando com a única pessoa que podia explicar isso não era lá a atitude mais sensata a se tomar.

Todo esse tempo a Pri ficou quieta, o que era exatamente o oposto dela. Eu suspeitei que ela já soubesse pelo menos uma parte do que o Rod diria, mas resolvi não comentar nada.

- Muito bem então. Vamos começar com sua origem. Há muitos e muitos anos, os chamados deuses habitaram aqui na terra.

Eu abri minha boca para protestar, mas pela expressão dele vi que ele falava sério. Deixei ele continuar.

- Os deuses eram muito poderosos, e governaram ou influenciaram os líderes da humanidade em várias eras e lugares diferentes. Romanos, gregos, nórdicos, chineses, japoneses, africanos, latino-americanos... Todos os povos da humanidade foram governados por deuses em pelo menos uma era de sua existência. Podemos ver influências desses governos em vários lugares, só precisamos prestar atenção na cultura, comércio, literatura e outros pontos da vida do ser humano, e pode-se ver influências mitológicas.

Ele parou e deixou que assimilássemos o que tinha dito. Olhei pra Pri e vi que ela aceitava o que ele dizia. Pra falar a verdade, tudo o que ele disse até ali era verdade. Os povos herdavam influências de suas culturas e folclores, e podíamos ver isso em todas as classes sociais, raças e idades. Fiz sinal para ele continuar.

- O que a maioria das pessoas não sabe é que as historias contadas em filmes, livros e desenhos são apenas parte da verdade. A maioria está errada, tendo varias partes omitidas ou incrivelmente aumentadas. Então, vou contar o que é importante para nós, certo?

- Certo - eu disse.

- Os deuses são imortais, assim como outros seres da mitologia: titãs, gigantes, centauros, minotauros, sátiros, harpias... Todos esses seres existem e conseguiam viajar para a Terra e se instalar aqui. Hoje isso é mais dificil, mas ainda pode ser feito pelo que sei.

- Viajar... de onde?

- De Etherion.

Fiquei com cara de paisagem, apesar do nome me soar familiar e despertar algo bem lá no fundinho do meu peito. Olhei pra minha irmã e vi que ela estava bem focada, o que confirmou minha teoria de que eles conversaram sobre o assunto antes de eu acordar. O Rod continuou explicando.

- Nosso mundo é na verdade composto por várias camadas. Cada camada é uma dimensão diferente. A dimensão em que vivemos é a dimensão principal, chamada Terra - o mesmo nome do planeta, eu sei -, embora os povos das outras dimensões se refiram a ela de maneiras diferentes: Midgard, Ningenkai, Gense, Haled entre outros nomes.

"Em Etherion existem reinos e impérios. Um dos mais poderosos é chamado Império Ômega, que reúne os reinos de Asgardo, Egito e Olimpo, além de reinos menores que são vassalos desses três, chamados os três grandes reinos. Existe também a Arcádia, reino dos elfos, duendes, fadas e feéricos. Existe Celestia, lar dos anjos; Davaasura, lar dos asuras; Sonhar, lar dos mestres dos sonhos... enfim, Etherion é uma camada diferente do nosso mundo onde os seres que nós, humanos, consideramos fantásticos ou místicos, vivem."

Acenei para ele que entendi. Vi filmes, animes e desenhos o bastante com meus irmãos para entender um pouco sobre dimensões e etc. Então uma coisa me ocorreu.

- Eu acho que estive no Reino do Sonhar.

Rod estreitou os olhos.

- Como é que é?

- Enquanto eu estava apagada, acho que fui para esse Reino do Sonhar.

- Por que você acha isso? - Perguntou minha irmã.

- Por que foi assim que a Quione chamou o lugar: Reino do Sonhar.

Quando disse o nome da Quione, o Rod arregalou os olhos. Ele podia se decidir se estreitava ou arregalava os olhos, era irritante.

- Você disse Quione? A deusa Quione?

Nesse momento até a Pri ficou com a boca aberta.

- A filha do deus Bóreas, essa Quione? Deusa da neve e tudo mais?

- Como você sabe disso? Perguntei, estranhando.

Ela deu de ombros.

- Ela aparece no livro O Herói Perdido, da série Os heróis do Olimpo. E depois volta em A Casa de Hades, da mesma série.

Rolei os olhos. Tinha que ser.

- Você tem certeza de que era ela? - Insistiu o Rod - O que ela disse.

Acabei contando sobre meu encontro com a arqueira congeladora de mares e o leão Narasimha. Conforme falava, vi que o Rod e a Pri ficavam cada vez mais preocupados. Quando terminei, ficamos em silêncio por um tempo.

- Você se lembrou de treinar com eles ou teve uma visão de alguém que treinou com eles?

- Ai menino, como é que eu vou saber?

Ele ficou quieto por alguns instantes.

- Bom, não podemos fazer nada a não ser esperar que mais informações surjam.

- Concordo – eu disse. – Então, você estava falando sobre Etherion.

- Sim, sim. Bem, grande parte dos seres de Etherion se envolve com mortais, seja por amor, interesse ou eu sei lá mais o que. Dessas uniões, nascemos pessoas como nós. Somos chamados de híbridos. Porém, muitos vulgarmente nos chamam de mestiços.

- Você quer dizer...

- Sim - ele disse gentilmente, mas firme. - Quando digo nós, quero dizer que também sou um mestiço, assim como você.

Ele segurou minhas mãos e disse quase sussurrando.

- Preferimos nos chamar de semideuses. Um de nossos pais é "divino". O outro é mortal.

Entrei em choque. Lágrimas vieram aos meus olhos, enquanto as palavras do Rod entravam e minha mente e eu compreendia o que elas queriam dizer.

Um de nossos pais é "divino". O outro é mortal.

Um dos meus pais não era realmente meu pai. Eu era filha de um deus ou deusa super poderoso.

É lógico, eu poderia negar isso e ficar afirmando que era filha de meus pais que me criaram, mas eu tinha provas suficientes de que eu não era completamente normal. Como por exemplo, meu encontro com a Quione e o Narasimha. Ou a sereia que tentou me matar. Ou então os gêmeos invadindo meu sonho e me chamando de princesa. Sem contar o lance de controlar o tempo. Ah, e quase ser morta por uma mulher cobra.

Sim, eu tinha provas suficientes.

Soltei as mãos das do Rod delicadamente. Absorvi todas aquelas informações. Deuses. Pais divinos. Mestiços. Seres feéricos. Muito para absorver.

Olhei pra Pri e depois pro Rod, as duas pessoas em quem eu mais confiava. Minha irmã e melhor amiga; meu melhor amigo quase namorado. Os dois se esforçando pra me ajudar do jeito que podiam. Então me lembrei das outras pessoas que eu amava.

- Antes de prosseguirmos, o que aconteceu com nossa família?

- Eles estão bem - disse a Pri. - Nem se lembram de termos ido à praia.

Olhei pra ela incrédula.

- Você está zoando.

- Agradeça ao Rod, que usou uma tal de névoa pra conseguir isso.

Já que estavam todos bem, e a noite avançava, decidi que era hora de parar. Estava cansada e precisava pensar muito sobre tudo o que aconteceu e o que me foi dito. Quando expliquei isso ao Rod ele não se opôs.

- Levarei vocês até em casa. Quero me certificar de que estarão seguras. Já até tomei algumas providências para isso.

E antes que eu pudesse questionar, ele me deu um sorriso, o primeiro verdadeiro desde que tudo aquilo começou.

- Fique tranquila. Apenas confie em mim. A névoa é muito poderosa, e seus pais não desconfiarão de nada.

Não podia fazer mais nada a não ser confiar nele. Assim fomos para casa, escoltadas pelo Rod e com muita, mas muita coisa mesmo em que pensar.

 

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