Luís

No apartamento, poucas luzes estão acesas
São estranhos dentro do mesmo sentimento.
O conflito é inevitável.
As luzes são apagadas.

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Author's note

Adaptação de uma brincadeira com a pessoa mais maravilhosa que eu já conheci. A quem dei valor e amor. Mas por um descuido do meu temperamento, perdi, mas não posso esquecer.

É um lembrete eterno das nossas palavras, e mesmo que sempre acobertadas por personas e personagens, nada mais são que nós

1. Luís - Capítulo único

 

      O paletó jogado sobre o sofá creme indicava que o companheiro havia chegado a casa enquanto ela tomava banho. Recolhe a peça, chamando por ele calmamente, tentando localiza-lo.

      A sombra parada na porta do quarto do casal tem feições amargas. Ela segue em direção a ele, intrigada com o que teria acontecido para tamanha agonia. O celular desbloqueado e a tela brilhando em uma conversa ilumina levemente o corredor.

Quem é Luís?

     As feições dela se retorcem em dúvida.

Luís? O novo estagiário da escola?

     Ele balança o celular à frente dela.

O que são essas conversas?

As conversas do meu celular? O que é que tu tá fazendo com o meu celular?

     Ele aponta a cama, bagunçada de um lado.

Você recebeu uma mensagem enquanto estava no banho.

     Ela o contorna, adentrando o quarto escuro e abafado.

Normal conversar com colegas de trabalho pelo telefone, meu amor.

     Pendura o paletó no cabide de plástico preto que não havia custado mais que dois reais.

O que tá acontecendo entre vocês dois? Olha o conteúdo dessa conversa!

Piadas inapropriadas? Comentários aleatórios?

     Ela ainda está de costas para o companheiro, vestindo uma camiseta de algodão, imaculadamente branca. O aroma do sabonete de erva doce poderia embriagar qualquer um que ali estivesse

Para de me questionar e responde. Quem diz que está com saudade do outro dessa maneira?

Amigos. Amigos tem saudade um do outro

     Ambos levantam o tom. Ele desconfia. Ela estremece pela culpa, encostada na cômoda em frente à janela.

Não é a única coisa aqui...

Não entendo aonde quer chegar com isso

Ele recebe satisfação de toda a sua rotina, falam que tem saudades um do outro

Nós compartilhamos uma rotina. Preciso do trabalho dele

Quem chega tarde de uma reunião de escola e agradece pela noite?

     Ela se desencosta, como se desvencilhando de amarras. Encara o outro. O coração não aguenta a pressão.

Quer saber... Vou te ser sincera e brutalmente sincera. Ele é novo na cidade, não conhece nada, ninguém... Eu comecei sendo amigável, fazendo ele se sentir bem vindo. Mas acabei gostando dele

     As palavras correm de sua boca como a enxurrada de uma chuva barulhenta. O silêncio da calmaria, mas sem arco-íris

É isso que queria ouvir?

     A boca seca. Eles se entreolham, perdidos na revelação

Gosta dele?

Sim

     Ele leva as mãos à cabeça. Desencostando-se do batente, segue para o sofá de dois lugares, logo à frente.

Por que não abriu o jogo comigo?

     Ela o segue até a sala, ocupando o braço da poltrona velha que deveria ter ido pra reforma há meses.

Abrir o jogo contigo quando? Sabe as horas que chega em casa? Falamo-nos menos hoje do que quando não nos conhecíamos direito.

Eu trabalho o dia todo

Eu também. Quanto tempo livre a gente tem passado junto?

Quer que eu largue meu emprego e vire educador? Assim podemos passar o dia juntos, como os dois pombinhos!

      O rubro encobria a face do homem. A ira era clara. Ela não estava muito atrás.

Isso é um relacionamento! Não é qualquer bobagem! Como pode fazer isso comigo?

Um relacionamento? Ainda? Dormir na mesma cama não é um relacionamento. Somos mais colegas de quarto do que qualquer outra coisa!

O que quer que eu faça? O que tá fazendo aqui se não tá feliz?

Quando insiste nisso eu sinceramente não sei responder... Acho que estamos esperando um ultimato

Eu nunca fui atrás de mulher nenhuma, mesmo sabendo que estamos distantes

     Ambos gesticulam um para o outro. Já passava de onze da noite. Uma multa por incomodar os vizinhos era inevitável a esse ponto. Que continuassem

Não tenho tanta certeza disso... Sempre me falta com satisfações

Vai virar o jogo? Como tem coragem?

Não vou. Errei. Mas percebe o que tu tá fazendo!

     Ela levanta. A camiseta gruda no corpo ainda molhado. O cabelo escorrega do coque frouxo, emoldurando o rosto tomado pelo arrependimento. Com olhos já molhados, cala. Ele não.

Você entende que tem sentimentos por ele? Que vão continuar trabalhando juntos? Que estarão cada vez mais próximos?

Sei muito bem. Acha que não me sinto mal pelo que fiz?

Se sentir mal?! Só se aproveita da situação!

É claro que me culpo. Mas se na tua cabeça sou vilã, não posso te mudar. Errei mesmo. Mas não fui só eu

     Ele se levanta abruptamente, olhando para o chão. Ela o acompanha, com olhar fixo

Eu não consigo lidar com isso

Não...

Me desculpa, mas já era

Não é tua culpa... Vou embora. Volto pra pegar as minhas coisas depois

Pode ficar. Não precisa sair

Pra quê? Só vai piorar a minha situação

Eu saio. Aqui é teu lugar.

Não é justo. Não estou te pedindo pra ir

     Ele dá o primeiro passo para a porta. Ela se agarra a manga da camisa azul

Fica... Por favor

 

     Ele sente um arrepio lhe correr o corpo.

Não dá, Jhenni

     Sai pela porta

     A porta fecha lentamente às costas dele. Ela, camiseta já encharcada, desaba no sofá, observando entre as mãos o celular sobre a mesa de centro. Ele suspira no corredor, em direção ao elevador. Aperta o botão. Os segundos são agoniantes e se arrastam lentamente até as grandes portas de metal se abrirem à sua frente.

     Ele entra.

     A porta do apartamento abre em súbito, um estrondo.

     O telefone na mesa toca.

     Encaram-se, enquanto ele seca uma lágrima teimosa.

     Ela dá um passo

     As portas se fecham.

     O telefone desliga.

     O mundo parece se envolver em estática por um segundo.

     A campainha indicando que o elevador havia chegado ao andar soa.

     Ela levanta o olhar. Ele, à sua frente.

     Em um segundo, se agarram ao outro. Apertando-se contra as paredes do terceiro andar silencioso.

     As bocas tão coladas como se o desejo não lhes coubesse mais.

     As mãos dele sobem o contorno das coxas dela, ansioso pela linha de chegada.

     Cambaleiam entre carícias até a porta e a fecham descuidados

     Não há preocupação externa. Nada além do agora

     E, amanhã, ela acordará na cama fria.

     Sozinha

 

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