O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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29. Epílogo

Tive o prazer de ler a primeira versão de O Filho Daquela que mais Brilha, centrado na saga do Zumbi (N’zambi) e o Quilombo dos Palmares.

Gratíssima surpresa, por se tratar de um tema do qual a maioria de nós pouco menciona ou estuda. Lembro-me das aulas de História na escola, quando o Quilombo era abordado com simplista conotação de refúgio de negros fugidos. A sua destruição por Domingos Jorge Velho era descrita meio que como um ato heroico da Coroa Portuguesa. Apesar de ter sido assunto de filmes e outros escritos, poucos sabem que, na verdade, Palmares era quase um país independente, com sua organização e leis próprias, onde viviam milhares de pessoas, aplicando conhecimentos técnicos e culturais, na época de grande valia, alguns dos quais provavelmente agora caídos no esquecimento e perdidos ao longo dos anos, mas outros, certamente, que se fundiram e enriqueceram a comunhão de diversidades das demais culturas e conhecimentos formadores da civilização brasileira.

Poucos no “mundo branco” o viam ou veem como um marco das necessárias lutas pela libertação de povos que foram brutalmente escravizados, torturados, assassinados, com a aquiescência da maioria dos povos da época. Tanto que vimos repetições de tragédias semelhantes em várias ocasiões posteriores, em diversas partes do nosso planeta, ocorrendo até hoje nas nossas barbas.

O livro não trata só de um tema, o do quilombo em si, mas vários, que muito bem circundam ou dão base ao assunto principal. É nisso que reside o interesse do mesmo. Uma característica de um bom livro é a capacidade do texto em fazer com que o leitor consiga penetrar e participar do ambiente apresentado, e isso o conjunto alcança muito bem.

O leitor e a leitora serão premiados com boas descrições das características construtivas, administrativas e sociais do quilombo; os conhecimentos de agricultura, a sua capacidade de fornecer alimentos para a colônia e as maneiras de praticar o comércio, com os portugueses e holandeses e entre si, pontos bem ilustrativos, desconhecidos da maioria. Mérito também para as descrições geográficas e as características naturais da região, detalhes que transportam o leitor diretamente para o ambiente do local e da época.

Vi no Griot Djeli, o preto velho, contador de histórias, um personagem interessantíssimo, verdadeiro transmissor oral das tradições religiosas e filosóficas africanas, muitas de caráter universal. Nos ensinamentos que passava ao jovem N’zambi, dos conhecimentos dos antigos povos da África Ocidental, mostrando, de maneira adequada ao contexto total do livro, esse capítulo “cabalístico” das crenças africanas, que de maneira muito significativa ainda estão presentes no nosso meio. São muito boas as passagens místicas, que descrevem os caminhos e as criações das virtudes boas e dos maus costumes, os equilíbrios e desequilíbrios de forças que controlamos ou não, os momentos em que conselhos dos antigos são importantes, os sinais e mensagens que recebemos de origens que não conhecemos e as decisões que nós mesmos temos que tomar.

Nos aspectos socioeconômicos e antropológicos, apresenta interessantes explicações sobre as origens e situações dos europeus que colonizaram o Brasil da época, especialmente no Nordeste, as suas origens e conexões aos fatos históricos da Península Ibérica dos séculos XVI e XVII. Estão bem abordadas a presença holandesa, a participação dos judeus sefardis, fugidos das perseguições espanhola e portuguesa, nas situações de cristãos-novos, criptojudeus ou praticantes, bem como os efeitos da inicial ausência e posterior retomada de posturas proibitivas da Igreja, no Brasil. De novo, essas passagens revelam realidades pouco divulgadas. As descrições das façanhas de Branca Dias, a versão romanceada de Dandara, batizada Maria Paim, neta de Branca, adotada e criada por Djeli até a sua união a N’zambi, são pontos fascinantes, que misturam história com lenda e ficção, atestando a criatividade do autor, com certeza lastreada em profunda pesquisa.

O capítulo final é comovente e deixo-o como desafio à curiosidade do leitor. Ao final de tão marcante narração, me coloquei a refletir sobre o que resultou da chamada abolição da escravatura. Não muito esforço é demandado para que nos perguntemos: Que abolição? Houve mesmo?

 

Terminei a leitura, arrepiado.

Renato Gueron

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