O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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14. Capítulo 9 - ט (TET) A BEATITUDE

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ט

TET

A BEATITUDE

 

A manhã estava esplêndida, com um céu iluminado e completamente azul, onde não se via um rastro de nuvem. O sol imperava com toda a sua força luminosa e calorosa, anunciando que o dia seria muito quente. Ao ponto que o astro-rei ia subindo em seu constante e lento caminhar, seus raios adentraram por entre as palhas das folhas secas de guariroba, que cobriam toda a varanda onde o jovem N’zambi e a moça Dandara se encontravam sentados, imbuídos numa conversa hipnotizante.

Quando os raios solares tocaram a pele de N’zambi, ele sentiu um aglomerado e borbulhante estalar de coceiras, como se tivesse sendo tocado por urtigas. Então, cruzou os antebraços se encolhendo em si mesmo, esfregando suas mãos em seus braços agonizantemente. A moça Dandara, ao ver aquela reação, sorrindo disse:

— Você ficou muito tempo dormindo em um quarto escuro N’zambi. Agora o sol está te punindo por tê-lo abandonado por um dia. Na verdade ele tem muitas saudades suas. Já sei o que vamos fazer hoje se você concordar. Vamos pegar a trilha para o Grande Rio. Uma boa caminhada por entre as matas, e um mergulho na água fria vai te fazer muito bem. Você quer vir comigo para o Grande Rio?

Sem demora, o jovem príncipe balançou a cabeça e disse entusiasmado:

— Sim!

— Perfeito! Vamos precisar levar alguns mantimentos, porque teremos uma longa caminhada de seis dias até o Grande Rio Mundaú. Eu conheço um lugar seguro para ficarmos. Fale com o papai enquanto eu retiro a mesa e preparo as coisas. — Disse a moça desfazendo a mesa do café da manhã.

— Você precisa de ajuda com as louças?

— Só preciso de dois baldes de água. Mas antes conte para o papai sobre o nosso plano para hoje.

O jovem fez um pequeno gesto com a cabeça concordando e caminhou em direção ao preto velho griot, que se encontrava mais ou menos a uma distância de algumas dezenas de passos à sua frente, numa baixada em meio às suas hortaliças. Chegando lá, N’zambi deparou-se com o velho griot enchendo de terra preta uma estrutura em espiral feita de pequenas pedras amontoadas. E. curioso, perguntou:

— O que está fazendo, Djeli?

— Estou trabalhando com a natureza de todas as coisas. — Disse o velho griot, ainda enchendo a estrutura com várias pás de terra.

— Não entendi. — Disse N’zambi confuso.

Então, o preto velho foi até a sua leira de alface, como se estivesse procurando algo por entre as folhas. E, achando, deu um sorriso e disse:

— Venha cá, meu jovem. — N’zambi foi até ele, e, se aproximando, o preto velho griot disse:

— Está vendo este pequeno caracol. Há muito tempo venho sido incomodado por eles. Eles adoram comer meus pés de alfaces, e quase todas as úmidas manhãs eu venho aqui retirá-los da minha leira. Mas hoje, meditando nesses pequenos seres e o motivo por que eles me irritavam tanto, já que, assim como eu, eles têm o direito de se alimentarem também, obtive uma luz. E percebi o que estava oculto ao meu entendimento sobre eles. Na verdade, eles queriam me ensinar algo, que há tanto tempo eu estava querendo saber. Por isso eles me perseguiam e eu me sentia incomodado com a presença deles. Venha, vou lhe mostrar o que aprendi com esses pequenos e irritantes caracóis.

E, caminhando até a estrutura que construíra, o preto velho griot disse:

— Olha, N’zambi. Com o que essa estrutura se parece?

— Com a casa do caracol. — Respondeu o jovem príncipe.

— Exatamente! — Disse Djeli entusiasmado, e continuou:

— A casa do caracol está em um formato evolutivo, que se chama espiral. Uma espiral pode ser entendida como uma curva plana ou inclinada, girando em torno de um determinado ponto central. A espiral, meu caro jovem, é um dos padrões que a natureza nos oferece em suas variadas formas, aperfeiçoando determinados ambientes. Para comportar certa quantidade de objetos que ocupariam mais espaços em linha reta. E reduzir determinadas distâncias, no objetivo de uma subida reta para as alturas, ou uma descida reta para as profundezas. Agora eu posso plantar determinadas ervas e hortaliças utilizando pouco espaço, consumindo pouca água, e criando determinados ambientes para culturas de ervas variadas.

— Ainda não entendi, Djeli. — Disse o jovem.

— Para que você possa compreender isso, meu jovem, é preciso primeiro entender quatro coisas simples da arte do plantio. A primeira é o solo e sua população de organismos, a segunda é a água, a terceira é a luz e a quarta é o vento. Então, vamos aprender fazendo. Pois a educação tem que ser prática. E que toda teoria seja só a consequência do entendimento dessa prática.

Depois que o preto velho encheu a estrutura de formato espiralado com terra para o plantio. Caminhou até o poço que se encontrava a dois metros de distância da espiral. Retirou um balde de cavilhas de madeira repleto com água e levou até a estrutura. E cuidadosamente, com uma pequena cuia feita de cabaça, foi molhando a terra do cume da espiral, que media mais ou menos um metro e meio, até sua base, que se desenrolava estendida ao solo. E disse:

— Aqui é o cume da espiral. — Djeli disse isso apontando para a parte mais alta da estrutura, que era o ponto onde a espiral se desenrolava, e continuou:

— Nessa parte, o solo tende a ficar mais seco, tudo isso devido a certos fatores que atuarão na água. Como o cume é a parte mais alta da espiral, a água que despejei agora se dissolverá mais rápido, escorrendo depressa até a base. Também por ser o cume mais alto, a luz do sol e o vento atuarão com mais força no solo, evaporando toda água, criando assim um ambiente árido e seco, onde podemos plantar culturas de lavanda, alecrim, sálvia, babosa e arruda. Já descendo para as laterais da espiral, podemos ver que terá meia luminosidade em determinadas horas do dia. Isso significa que teremos um solo relativamente, à medida que vai baixando, semisseco para semiúmido. Em que podemos cultivar luíza, manjericão, alfavaca, agrião, entre outras determinadas ervas e hortaliças que gostam de meia-sombra. Já na base, onde o solo ficará completamente encharcado e úmido, devido a toda água do cume e do meio escorrer para lá, plantaremos hortelã, espinafre, coentro, salsa e todas essas demais ervas que gostam de muita água. Mas, primeiro, e antes de tudo isso, meu jovem, vamos encobrir nossa leira espiral com uma camada de folhagem, para que a terra possa descansar e se acomodar por alguns dias, fazendo, assim, um só corpo com a estrutura. Criando a Egrêgorein nela.

— Egrego o quê? — Perguntou N’zambi confuso.

— Egrêgorein. — O preto velho o corrigiu, e continuou:

— Toda estrutura, habitação, ambientes, nação, grupos e assembleias, ou até mesmo um intento coletivo para se originar algo possui uma alma maior. Uma consciência coletiva que os místicos gnósticos alquímicos chamam de Egrêgorein. Uma palavra de origem grega que significa “vigiar por algo ou alguém”. Eu particularmente denomino como “Intento”, para ser bem compreendido. Pois essa alma maior é formada pela energia da intenção do propósito coletivo. Esse “Intento” é o que dá alma a todas as coisas inanimadas. É por isso que, quando uma casa é abandonada pelos seus moradores, ela começa rapidamente a se desmoronar. E se a Egrêgorein dessa casa for de uma força e energia tão forte, uma grande árvore nasce dentro dessa casa segurando e mantendo sua estrutura. Ou até espíritos peregrinos vêm nela habitar. Compreendeu agora, meu jovem?

— Mais ou menos, Djeli.

— Quando certos indivíduos se unem para fazer ou criar algo juntos, esse “algo” se personifica, sendo alimentado pelas energias geradas dos pensamentos e sentimentos criativos desses indivíduos. Devido a isso, essa intenção cria uma alma, e essa alma é a Egrêgorein. — Disse o ancião, o fitando.

— Amen dico vobis quæcumque alligaveritis super terram erunt ligata et in cælo et quæcumque solveritis super terram erunt soluta et in cælo. Iterum dico vobis quia si duo ex vobis consenserint super terram de omni re quacumque petierint fiet illis a Patre meo qui in cælis est. Ubi enim sunt duo vel tres congregati in nomine meo ibi sum in medio eorum. “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu. Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” — Falou N’zambi em latim.

— Exatamente isso, meu jovem! — Exclamou Djeli e continuou:

— Este jovem judeu Mestre dos Mistérios, que os cristãos chamam de Jesus, estava dando instruções ao seu grupo de discípulos, como deviam se comportar perante a Egrêgorein formada pelo seu intento doutrinário na comunidade fraternal de sua aliança. Onde ele próprio, após a sua partida, seria essa mesma Egrêgorein no seu grupo de discípulos. Em que a terra seria essa comunidade fraternal e o céu a Egrêgorein dessa fraternidade. Sendo que aquele que fosse ligado a essa fraternidade seria ligado a essa Egrêgorein. E quem fosse desligado dessa fraternidade seria desligado dela. Sendo ainda que se, pelo menos, dois indivíduos dessa fraternidade concordassem em fazer algo juntos, teriam a ajuda da Egrêgorein para sua realização. E onde dois ou três indivíduos estivessem reunidos em seu intento, ele mesmo representado por essa Egrêgorein estaria no meio deles. Essa é a ilustração verbal mais perfeita, que descreve o que é uma Egrêgorein. Coisa que essas igrejas cristãs não ensinam, porque os seus cleros ortodoxos perderam, ou nunca tiveram a capacidade de enxergar os ensinamentos com os olhos espirituais. Por estarem cegos pelo status e poder material dos seus cargos religiosos, amando mais o exterior das coisas do que a beleza interior, contradizendo os seus próprios princípios fundamentais de respeito e humildade, pelos dogmas de poder e grandeza, onde os seus grandiosos templos de pedras representam tudo o que têm, mas, no princípio, a primeira comunidade fraternal de gnósticos, dos verdadeiros ensinamentos desse jovem judeu Mestre dos Mistérios não era assim.

Djeli fez uma pequena pausa, buscou com o seu olhar os olhos do jovem príncipe e contou-lhe uma breve ilustração, fintando-o profundamente:

— Outrora, meu jovem N’zambi, os filhos e as filhas da humanidade possuíam um grande tambor chamado o CONVOCADOR. Com o passar do tempo, o couro do grande tambor começou a rasgar, e suas cavilhas começaram a rachar. Então, de tempos em tempos os filhos e as filhas da humanidade nele cravavam sempre novas cavilhas. E, toda vez que seu couro rasgava, eles e elas o encouravam novamente. Até que chegou o momento em que o grande tambor original, o CONVOCADOR, tinha totalmente desaparecido, e só lhe restava uma armadura com novas cavilhas e um novo couro em seu lugar. E os filhos e as filhas da humanidade não mais escutavam os rufares do grande tambor original. E, assim, as vibrações do CONVOCADOR rufando a verdade, ecoando os ensinamentos profundos de significação, ressoando a boa aventurança para um mundo novo, resgatando a verdadeira maneira de agir e a saudável forma de pensar, tratando por divulgar a força invisível e o vazio energético que manifesta todas as coisas existentes, acabaram por desaparecer completamente. Então, os rufares desse novo tambor, que aos poucos substituiu o grande tambor original, que são os ensinamentos e dogmas daqueles que se fizeram seus discípulos e detentores de sua sabedoria, sendo essa nova doutrina uma pluralidade de palavras, sentimentos e expressões, que são estranhos à MENTE ÚNICA do grande tambor original, o CONVOCADOR, ressoaram ecoando pelo mundo inteiro, adentrando a cabeça dos filhos e das filhas da humanidade de hoje. E assim a humanidade, ouvindo os rufares desse novo tambor estranho, tais como são pronunciados hoje, que substituiu o grande tambor original, o CONVOCADOR, sustentou em suas crenças que esses são os verdadeiros ensinamentos, dogmas e palavras dignos de serem observados, estudados e possuídos. Por isso, meu jovem, as escrituras da Bíblia se encontram encobertas em enigmas profundos, por detrás de simples orações, que o clero ortodoxo não tem a capacidade de decifrar. E só aqueles que têm ouvidos para ouvir e olhos para ver o oculto saborearão o doce mel da sabedoria de suas palavras. Porque todo conceito, pensamento, palavra, ideia e expressão, todo nome e forma que qualifique e exemplifique a existência da presença da Fonte Criadora de todo o universo, O TODO EM TUDO, limita-o e o reduz apenas para o entendimento humano. O que não pode ser entendido, medido, qualificado, comparado, expressado, pensado, imaginado, pronunciado, visualizado, assim se entende como “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”, “O Pai e Mãe de Toda Criação”. Bendito seja você, meu jovem, por obter a sabedoria, e, assim, brilhar como o esplendor do firmamento.

Diante daquelas últimas palavras do griot ancião, N’zambi recordou do seu sonho daquela noite. Mas nada disse sobre ele a Djeli, pois agora ele por si só compreendera o seu significado. E o preto velho continuava a instruir-lhe sobre a Egrêgorein:

— A Egrêgorein é o dois (2) que surge do um (1), e o três (3) que surge do dois (2), e o infinito que surge do três (3). É o amor do casal que se uniu. É comunhão de cada família. A alma de uma casa, habitação, praça e espaços físicos comunais. É o espírito das florestas, mares, rios, montes, montanhas e vales. É a consciência coletiva das vilas. É a lei que rege as sociedades humanas e animais. É um mundo novo que se faz realidade, nos personagens da história de um livro ao ser lido. É a energia vital de cada objeto, ferramenta e utensílio criado. É o poder oculto nas pedras e ervas. A Egrêgorein se alimenta das energias sentimentais dos indivíduos envolvidos em seu intento, ou no caso dos objetos criados, ela se alimenta dos sentimentos dos seus possuidores. Quando você a conhece e sabe de sua existência, ela se torna sua aliada no objetivo daquele grupo ou ambiente. E quando você a desconhece e ignora sua existência, você vira massa de manobra dela, se tornando uma de suas engrenagens. Quando você a reconhece, sabe como se proteger das suas armadilhas, controlando os seus sentimentos e a tornando uma amiga para cumprir toda sua vontade, no propósito em que ela foi gerada. Quando você não a reconhece, ela então cria certas situações, com o objetivo de prender e manipular os seus sentimentos ao intento dela, sugando toda sua energia no seu propósito. Por isso, meu jovem, quando você entrar em certos ambientes, grupos ou conselhos alheios e desconhecidos. E, também, quando receber certos objetos, em que você não saiba a intenção e o propósito verdadeiro daqueles que lhe presentearam, converse secretamente em oração com a Egrêgorein desse ambiente ou presente, antes de entrar nele ou recebê-lo. Pois se esse intento for negativo, sendo que a sua energia é positiva, meu jovem, essa Egrêgorein te avisará. A Egrêgorein de um presente ou ambiente maligno é semelhante a um ladrão astuto que, antes de roubar, estuda a sua vítima por um bom tempo ocultamente, para saber das suas posses e o momento certo em que dará o bote preciso, para depois poder ter uma fuga segura, sem nem sequer poder ser notado. Assim, pelo contrário, quando esse ladrão é descoberto imediatamente pela vítima, ele não pode mais se esconder nas sombras do oculto, lhe restando apenas a opção de desistir do seu intento perverso. Assim também se comporta essa Egrêgorein maligna nos ambientes, grupos de pessoas ou presentes. Quando seu intento é reconhecido imediatamente, o seu propósito cai por terra e você nunca sofrerá nenhum dano.

— In quamcumque domum intraveritis primum dicite pax huic domui. Et si ibi fuerit filius pacis requiescet super illam pax vestra sin autem ad vos revertetur. “E, em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa. E, se ali houver algum filho de paz, repousará sobre ele a vossa paz; e, se não, voltará para vós”. — Falou outra vez em latim o jovem príncipe, citando as palavras de Jesus contidas na Bíblia.

E, antes que Djeli pudesse comentar algo a respeito do que N’zambi falara, Dandara, um pouco entediada, gritou do alto da varanda da casa de taipa, dizendo:

— N’zambi! Preciso de água para lavar as louças.

— Estou levando, um momento. — Respondeu o jovem gritando na baixada, onde se encontravam as leiras de hortaliças.

A moça virou as costas e foi caminhando para a cozinha resmungando consigo mesma: “Homens são todos egoístas, só pensam em si mesmos e nos seus assuntos”.

— Desculpe, Djeli, tenho que levar depressa dois baldes de água para as louças. — Falou o jovem pegando um dos baldes que estava ao lado da estrutura espiralada, e continuou dizendo:

Eu e a Dandara planejamos hoje ir ao Grande Rio, passaremos alguns dias lá. Tudo bem?

— Que boa ideia, meu jovem. Você vai gostar muito. A Dandara conhece essa serra tão bem como os nativos daqui. Ela conhece todas as trilhas seguras e longe dos perigos dos bandeirantes e capitães do mato. Agora se apresse em levar essa água, quanto mais cedo vocês adentrarem a floresta, melhor. Vocês têm uma boa caminhada até encontrar um local seguro na mata para acampar esta noite.

O jovem foi rapidamente até o poço d’água, encheu dois baldes e os colocou um em cada lado de uma cana de madeira. Levou o centro da cana por detrás de sua cabeça, apoiando em suas costas pelos ombros, e cruzou os braços em suas laterais. E foi subindo lentamente até a casa de taipa. Ao passo que fora subindo, o ancião Djeli o observava, acompanhando os seus lentos passos com um olhar de profunda admiração e compaixão. E lágrimas rolaram de seus olhos.

Djeli sabia que o jovem N’zambi estava muito à frente do seu tempo. Sendo possuidor de uma mente inteligente e um coração compassivo. Mas Djeli também sabia que a vida não foi e nunca seria leve para com N’zambi. Assim como o ouro que tem que ser provado pelo fogo e trabalhado pelo calor para atingir a sua majestade imperial. Assim, também, o mesmo aconteceria para o jovem príncipe de Palmares. Djeli sabia que mais perdas e sofrimentos aguardariam pelo jovem N’zambi. E que esses raros momentos de paz que ele tinha em sua companhia seriam breve. Por isso o velho griot se apressava em preparar o seu espírito, para atingir o grau máximo e excelente do verdadeiro Ser Humano. E, assim, poder se tornar uma pessoa superior, fazendo nascer o seu Espírito Ancestral, no fogo da compreensão do entendimento do Sagrado e Eterno Contínuo. A grande sabedoria dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães. Que eternizavam os espíritos dos seus possuidores, no ligamento das suas almas ao “Grande Círculo Sagrado dos Povos Alados das Estrelas”. Se tornando daí em diante em um dos filhos daquela que mais brilha.

Ao chegar à porta da cozinha ofegante, com os dois baldes de água pendurados na haste de madeira erguida em seus ombros, N’zambi foi recebido pela bela moça com um largo sorriso encantador. Ela o ajudou a retirar os baldes de água dos seus ombros, e disse:

— Temos que nos apressar. Eu já lavei as louças com um pouco de água que restava nos potes. Você pode enchê-los de água enquanto eu preparo as coisas para o caminho?

— Sim! É claro. — Disse N’zambi, levando os baldes de água para um grande pote de barro que se encontrava a uns quatro passos à sua frente.

Enquanto enchia o pote de água, o jovem príncipe observava a linda moça meio que desconcertado em si mesmo. O seu coração palpitava tão forte e acelerado, que dava para sentir o seu peito estremecer. Sentiu-se em um estado de sonho, em que seu corpo ia perdendo todos os sentidos e a noção da gravidade. Sendo que uma forte sensação, até então desconhecida, o dominara. Sentia-se flutuar. Pisara nas nuvens com os seus pés fincados no chão. Segurava o mundo em suas mãos vazias. E sua respiração se tornava cada vez mais ofegante, e em curtos determinados momentos sentia-se estar sufocando.

Uma pressão latente pairava em sua cabeça e desenrolava por todo o seu corpo, numa energia de expansão extrassensorial, em que a realidade das coisas se dissolvia perante os seus olhos. Como se parado, estivesse por um longo tempo girando ao redor de si mesmo. Tudo em Dandara o desconcertava. O seu doce cheiro o encantava. A sua voz um pouco rouca e muito meiga o hipnotizava. Os seus pequenos gestos e sua forma suave de jovem moça roubavam-lhe a atenção. A sua feminina visão o maravilhava. Sentia-se totalmente enfeitiçado com sua longa cabeleira, em que sobressaía o seu belo rosto sorridente, como o reluzente sol sobressai por detrais das folhas das palmeiras de guariroba, que cercavam toda aquela região.

Delirava ao encarar timidamente de relance os seus pequenos e delicados seios pontiagudos, formatando a parte superior do seu fino e leve vestido. Os seus olhos automaticamente magnetizavam em suas curtas pernas grossas, lisas e macias. E de relance deslumbrava as suas nádegas formosas e protuberantes. E a sua pele queimada do sol, num tom vermelho amarronzado, que chegava a parecer como as peles dos nativos habitantes das floretas, o encantava. Tudo isso era tremendamente desconfortante, e às vezes pensava estar ele delirando e adoentado. Nunca sentira isso antes. O jovem príncipe estava absolutamente apaixonado pela bela moça Dandara. E, como um grande vulcão explodindo fogo em lavas, N’zambi estava interiormente borbulhando com bênção, e exteriormente transbordando de graça.

— Pronto! Aqui está tudo que precisamos.

Disse a jovem moça toda sorridente com duas grandes sacolas feitas de fibra de cânhamo, dando uma delas ao jovem príncipe, dizendo:

— Essas sacolas são especiais. Eu mesma quem as fiz. Elas têm uma única e longa alça. Assim podemos colocá-la transversalmente no ombro, sem que precisemos apoiá-las com as mãos. Na floresta necessitamos de nossas duas mãos livres. Agora, em quanto eu troco de roupa, vá até o papai, pois ele tem algo a nos dar para nossa jornada.

N’zambi colocou a sacola em seu ombro e, sem nada dizer, foi ao encontro do preto velho. Djeli estava tomando café e fumando o seu cachimbo na casinha de madeira com folhas de tabaco penduradas ao teto, quando N’zambi chegou o cumprimentado:

— Olá, Djeli.

— Entre, meu jovem. Você quer café?

— Não, obrigado. Vim apenas pegar algo com você a mando de Dandara.

— Oh! Sim. Vocês precisam de alguns ingredientes mágicos para que tenham proteção nessa viagem. Eu já preparei tudo. Tome. — Disse o preto velho, dando para o jovem alguns saquinhos de pano contendo pedaços de fumo de corda, cabeças de alho, cravo, canela e raízes de gengibre.

— Para que serve isso, Djeli? Para fumar?

— Há! Há! Há! Não, meu jovem N’zambi. Logo, logo você descobrirá. A Dandara vai te explicar tudo. Também tenho algo para você. Experimente!

Disse o velho estendendo a mão, oferecendo para o jovem uma calça grossa de fibra de cânhamo, junto a um jaleco de couro, uma cartucheira e um grande facão dentro de uma bainha de couro muito bonita, e disse:

— Você precisará disso meu jovem. Essa serra é hostil, você tem que estar preparado para penetrar em seu ventre.

O jovem príncipe, ao pegar aqueles presentes, encheu-se de alegria e foi logo usá-los. Ao se vestir, foi até Djeli e perguntou:

— Como estou, Djeli?

— Pronto para enfrentar o Reino de Portugal na batalha. — Disse Djeli sorrindo com ironia, e continuou. — Está um homem agora, meu jovem.

Sim! N’zambi com aqueles trajes se sentiu um homem grande. Nunca ganhou um facão antes, e, com aquele jaleco de couro de quatro bolsos, se sentia um importante comandante de grandes tropas. Tirou o facão da bainha que se encontrava preso a sua cintura. Estendeu em sua mão, fazendo gestos de um homem experiente apunhalando aquela grande faca. E, orgulhoso de si, disse bem alto ironicamente:

— Agora! Quem será capaz de cruzar as fronteiras do K’ilombo dos Palmares, para combater o grande comandante guerreiro N’zambi?

E, juntos, N’zambi e Djeli deram muitas gargalhadas. Ao silenciar, o velho griot foi até o jovem príncipe, pegou o facão de sua mão e disse:

— Não existe nada, nem nenhuma coisa no universo e na natureza de que se possa falar “isso é mau” e “isso é bom”, tudo é uma ferramenta, meu jovem. Tudo não passa de uma simples ferramenta. Ferramenta para o bem ou para o mal, a depender de como utilizá-la ou de como interpretá-la.

Disse o velho griot estendendo o facão à sua frente, e continuou:

— Olha essa grande faca, meu jovem. Agora perceba a beleza do saber misterioso que ela guarda. Você pode acordar às cinco horas da manhã e ir à cozinha, pegar uma faca, não tão grande como essa, apenas uma pequena faca, e usá-la para cortar frutas e pães, e preparar um delicioso café da manhã de surpresa para sua família, que se sentirá muito feliz ao acordar com a sua boa atitude. Assim como, também, você pode pegar essa mesma pequena faca às cinco horas da manhã e cometer um genocídio familiar de cama em cama, fazendo com que eles nunca acordem. Nesse caso, meu jovem, quem cometeu benefício ou malefício, você ou a faca?

— A faca, Djeli. — Respondeu o jovem príncipe apressadamente.

— A faca! — Exclamou Djeli fazendo uma breve pausa, e continuou:

— Você tem certeza disso, meu jovem?

— Sim! Foi com ela que eu fiz uma coisa ou outra. — Respondeu N’zambi novamente apressado.

— Eu quem? — Indagou o velho griot.

— Eu... — E de novo apressadamente ao responder, o jovem percebeu o seu erro, e continuou:

— Não! Não foi a faca, Djeli. Fui eu aquele que cometeu o benefício ou o malefício. A faca só me serviu de ferramenta para exteriorizar o meu intento de praticar o bem ou o mal.

— Sábia resposta, meu jovem. Agora escute essa parábola do pedreiro português.

Disse o velho griot, dando várias pitadas para reacender o seu cachimbo, e continuou:

— Manoel era um homem humilde e trabalhador. Morava com sua família em uma casa muito simples, onde criou os seus dez filhos com inúmeras dificuldades. Sustentando-os com o mísero salário que ele recebia do canteiro de obras em que trabalhava. Mas o que alegrava Manuel era a promessa que o pároco da sua igreja lhe fez, em uma das missas que ele frequentava todos os domingos. Onde o pároco assim disse: “Alegria, meus servos! Pois o homem que trabalha muito na terra não trabalhará no céu, e lá no mais alto dos céus receberá todas as dádivas que quiser gratuitamente”. Certo dia chegou a hora de Manoel ir para o tão sonhado céu, e mesmo no leito de morte se sentia o homem mais feliz e sortudo do mundo. Porque não iria mais para o canteiro de obras que o lastimava todos os dias. E, morrendo Manoel, ele se deparou em um lugar que ele imaginava ser o céu, e, de repente, avistou um ser que tinha aparência de um homem, que ele identificou como sendo um anjo. Então, o homem que ele julgava ser um anjo lhe disse: “Seja bem-vindo, Manoel! Tudo que você quiser eu lhe darei, sem que você precise mover um dedo, ou dar um único passo do lugar em que você se encontra agora”. Manoel, muito feliz e entusiasmado, começou a pedir todas as coisas que nunca ele teve na terra e que nunca o seu árduo trabalho poderia lhe dar. Passando um tempo relativamente muito longo e cheio das posses dos seus desejos. Manoel de repente começou a lembrar de como eram os seus dias na terra, em que levantava às quatro horas da manhã. Acordava a sua mulher para preparar o seu café, e partia para o seu trabalho vendo o sol nascer por detrás dos morros esverdeados. Lembrara-se de como era habilidoso com a colher de pedreiro. De como montava um bloco de pedra em cima do outro, sem precisar de instrumentos de medidas ou de precisão. Por conta dos tantos anos de experiência que tinha nesse trabalho. E dos elogios que recebia dos seus colegas de trabalho, por tamanha habilidade e arte no alinhamento das grandes pedras. Então, Manoel, com lágrimas nos olhos das tantas lembranças da terra, chamou o seu anjo e disse-lhe: “Anjo. Dai-me um trabalho. Um trabalho de obra, onde eu possa construir um belo palácio. Pois eu já estou cansado dessa vida de ter tudo que eu sempre quis, aqui parado, sem fazer nada”. Nisso, o seu anjo lhe respondeu: “Desculpe-me, Manoel. Você pode pedir tudo, e tudo lhe darei. Menos trabalho”. Manoel, horrorizado, lhe disse: “Mas, Anjo! Se não me deres trabalho, aqui vai ser pior do que os meus dias sofridos lá na terra. Vai ser um inferno!”. E o seu anjo, com um sorriso sinistro, lhe indagou: “E onde você pensa que está, Manoel?”.

Mais uma vez, o jovem príncipe e o velho griot se acabaram em altas gargalhadas. E, quando imperou o silêncio, o velho griot, ainda com lágrimas nos olhos de tanto rir, disse:

— Nada é mau e nada é bom, meu jovem, tudo é uma ferramenta para o bem ou para o mal a depender de como se utiliza, e de como interpretá-la. A mesma coisa que hoje pode te alimentar amanhã poderá te matar. E a mesma coisa que hoje pode te matar amanhã poderá te alimentar. O que você julga como benção hoje amanhã poderá ser sua maldição. E o que hoje você julga como maldição amanhã poderá ser sua benção. O que definirá o resultado como positivo ou negativo é a ação exteriorizada e utilizada do mesmo objeto, coisa, fato, questão, ideia e pensamento de acordo a cada indivíduo, para cada situação circunstancial. Por essa Lei de “Causa e Efeito” nenhuma pessoa, coisa, objeto, ideia, fato ou situação pode servir de desculpas para culpar o que quer que seja, como fonte das irresponsabilidades dos atos positivos e negativos de cada ação. Provando que todo indivíduo maduro e consciente de si mesmo tem a responsabilidade única por tudo aquilo que diz, manifesta ou realiza no universo. E por tudo aquilo que lhe acontece, aconteceu ou acontecerá depois de ter atingido a maturidade, pelo conhecimento do bem e do mal de todas as suas intenções. O que passar disso, meu jovem, são mentiras que encobrem a verdade da realidade de cada ação causal ou do acaso. Em um universo e em uma natureza, onde todo efeito é perfeitamente intencional.

O velho griot, devolvendo o facão para o jovem príncipe, continuou:

— Nesse caso, N’zambi, a faca pode ser boa como “FERRAMENTA PARA VIDA” ou a faca pode ser má como “FERRAMENTA PARA MORTE”, a depender de como utilizá-la. E essa regra se aplica a todas as coisas externas, ao objeto e à forma, pois o que move o externo é o interno, e o que move o objeto e a forma é o pensamento. É o invisível que movimenta o visível e o visível influencia o invisível. Lembre-se sempre dessas minhas palavras, e você se livrará de culpar as coisas, fatos e pessoas ao seu redor por tudo o que lhe aconteça. Saiba, meu jovem, que o certo é a “coisa certa” na mão da pessoa certa. E que o erro é a “coisa certa” na mão da pessoa errada. Mas, quando a “coisa errada” está na mão da pessoa certa, então se compreende que o certo e o errado não passam de simples ferramentas de trabalho. É unicamente nesse ponto que nos tornamos responsáveis por tudo, por todos e principalmente por nós mesmos.

N’zambi, portando o seu facão e observando-o meticulosamente, ainda meditava nas sábias palavras do griot ancião. Quando Dandara apareceu toda sorridente na porta da casinha de madeira, roubando-lhe totalmente a atenção, ao dizer:

— Vamos! Já estou pronta.

Dandara vestia uma exótica e confortável saia, feita de pedaços de couro curtido suave e leve emendados entre si, e sobre ele uma cobertura protetora de tiras de couro grosso, que estava um pouco abaixo dos seus joelhos. Tinha em sua cintura uma linda cartucheira de couro com um bolso de cada lado, enfeitada com pedras de ágatas. Onde continha também um lindo punhal com um cabo de osso, enfeitado com pedras de quartzo. Vestia um curto jaleco de couro com bolsos laterais, sobre uma fina camisa de tecido de seda sem mangas. E andava com os pés descalços, como os nativos habitantes das florestas.

Em seus tornozelos, como também em seus punhos, havia enfeites de tiras de couro, entrelaçados em coloridas pedras de quartzo. E havia também em sua cabeça uma linda tiara de couro com uma pedra turquesa azul-esverdeada no centro de sua testa, envolvendo sua linda cabeleira que se partia em dois, deixando um sutil rastro no centro de sua cabeça. Dandara carregava também consigo uma grande lança, arco e flechas. Aos olhos do príncipe de Palmares e do velho griot Djeli, Dandara estava cheia de graça.

FIM DO NONO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).  

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