O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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9. Capítulo 5 - ה (HEY) O DIVINO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ה

HEY

O DIVINO

 

O preto velho griot Djeli fez uma breve pausa, para preencher mais uma vez os copos com o Nixi Pae. E, também, suprir seu cachimbo com as suas misturas de ervas prediletas. Enquanto isso, o jovem N’zambi se encontrava nostálgico com a maravilhosa história dos iorubás. A noite estava fantástica, e a lua cheia imperava no céu, arrodeada de uma auréola azul brilhante. E o preto velho griot disse:

— Olha, meu jovem, como está lindo o reflexo da luz lunar nas folhas das grandes palmeiras de guariroba.

— Parece até as águas do mar. — Disse N’zambi.

Djeli trouxe os copos de barro com o Nixi Pae e sentou-se ao lado de N’zambi. E, antes que o velho abrisse a boca para falar-lhe algo, N’zambi disse:

— Djeli, há uma coisa que não entendi.

— O que, meu jovem príncipe?

— Como assim os sentimentos são alimentos?

— Aí está a maior verdade de todas as verdades, e o maior segredo de todos os segredos, meu jovem. — Disse Djeli, e continuou — Tudo na vida é uma troca. E nada nos é dado sem que possamos dar algo em troca. Nada é totalmente de graça. Essa é a maior lei de todo o universo. Você recebe aquilo que você dá. E tudo que você oferece voltará para você multiplicado, pois toda oferta voltará para você em abundância. Sendo que o que move todas essas coisas são os nossos sentimentos.

Fez-se uma pausa, Djeli deu uma forte pitada no seu cachimbo, e continuou:

— Os nossos sentimentos podem ser os nossos melhores amigos, ou os nossos piores inimigos. Eles passam a ser os nossos melhores amigos, quando nos tornamos o senhor deles. Mas quando eles se tornam os nossos senhores, são mais cruéis do que qualquer colono português, ou espanhol senhor de escravos.

Djeli deu um leve sorriso malicioso e continuou:

— Há de tomar muito cuidado com eles, meu jovem. Porque o sentimento é o alimento da alma e, também, de outros seres do mundo invisível aos nossos olhos de carne. Porque existe no mundo uma conspiração invisível que nos escraviza pelos nossos sentimentos. Estes se alimentam da nossa energia vital, gerada pelos nossos mais diversos pensamentos. Pois tudo que gera sentimento de alguma forma nos escraviza.

— Ainda não compreendi direito isso, Djeli.

O velho socou mais mistura dentro do seu cachimbo, acendeu e continuou:

— Podemos resumir os sentimentos em dois estados, que são os sentimentos de prazer e os sentimentos de dor. Por isso, vivemos perseguindo o prazer e vivemos fugindo da dor. Sendo isso a verdadeira escravidão, onde os nossos colonizadores somos nós mesmos. Pois, através disso, deixamos com que outras pessoas, coisas e seres dominem as nossas vidas e os nossos destinos. E, dessa forma, deixamos de sermos responsáveis por nós mesmos, nos entregando aos domínios mundanos.

Djeli, percebendo que o jovem ainda não compreendera nada do que disse, perguntou:

— Meu jovem, do que você mais gosta?

— O que eu mais gosto... Hum... De comer manga. Posso subir num pé de manga e comer todas as frutas maduras que achar.

— Por que você gosta de comer manga?

— Porque ela é saborosa, sendo a fruta mais gostosa que existe.

— E se a manga tivesse gosto de água, você comeria muitas mangas assim?

— Eu acho que não comeria nenhuma.

— Então, não é da manga que você gosta. E sim da sensação que ela te transmite, pelo seu gosto adocicado. Não é verdade?

— Sim!

— Então, usaremos a mangueira e sua fruta para entender essas importantes coisas da vida. — Disse Djeli, e continuou:

— Um pé de manga é abundante, ele contém inúmeras frutas, sendo que, em uma estação de mangas, uma mangueira fértil pode gerar até quase mil frutos. Então, você vai ao pé de manga, sobe nele e colhe dez deliciosas mangas. A mangueira é tão boa, que ela permitiu que você tirasse as mangas sem lhe pedir permissão. E ainda depois que você comeu e saboreou todas as frutas, ela te deu também as sementes. Que ao plantar lhe darão outros pés de mangas, outras inúmeras frutas, e outras inúmeras sementes infinitamente. Então, você se admira: que mangueira maravilhosa! Deu-me todas essas coisas de graça, sem me exigir nada em troca.

Fez-se outra breve pausa. E depois de dar umas boas pitadas no cachimbo, Djeli continuou:

— Pois saiba, meu jovem, que, assim pensando, você acaba de ignorar a Lei da Troca, que é o dar e o receber. Como eu já tinha falado antes, todas as coisas possuem dois lados, um visível aos nossos olhos e outro invisível aos nossos olhos de carne. Assim também é a mangueira, pois há na mangueira seres invisíveis que vivem ao lado de cada fruta, e esses seres são os inorgânicos que vivem na mangueira. Assim, ao comer uma manga que possui um sabor característico apenas dela própria, você gera um sentimento também característico e próprio dessa fruta, e esse sentimento é o que alimenta o espírito ou o ser invisível por detrás da manga. E nisso se efetua a verdadeira troca. Pois a árvore, que é material, se alimenta das propriedades da luz solar, água e dos variados nutrientes do solo onde é enraizada. Assim também nós, ao comermos a manga, o nosso corpo material se alimenta das substâncias e propriedades nutricionais do fruto. Mas o mais importante da comida, e por que comemos, não é o ato de comer em si. E sim o sentimento que despertamos ao comer. Sendo que é esse sentimento o que mais nos prende ao alimento. Por muitas vezes comemos não por necessidade, e sim pelo prazer que os sentimentos nos proporcionam na degustação dos alimentos. E os sentimentos, tanto de prazer como de dor, são os alimentos para o mundo dos seres inorgânicos que nos cercam, e que agora nos controlam.

— Como assim nos controlam, Djeli? — Perguntou o Jovem.

E Djeli disse:

 

— No tempo dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães, os seres inorgânicos, assim como nós, os seres orgânicos, vivíamos em pleno equilíbrio e em harmonia que realiza a perfeição. Sabíamos conviver juntos em dar e receber equilibradamente. Assim, nós pedíamos o que necessitávamos material e fisicamente, e eles, os seres inorgânicos, imediatamente nos davam o que pedíamos, em troca dos sentimentos que gerávamos ao ter aquilo. Tudo isso acontecia de uma forma natural, como ainda acontece agora. Mas os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães eram conscientes dessa troca. Sabíamos que nós dependíamos deles para viver, e que eles dependiam de nós, apesar de muitos deles serem os primeiros habitantes deste mundo, como também do primeiro mundo. Mas, quando o mal veio habitar em nossos corações, tanto nós, como os seres inorgânicos, caímos em egoísmo e deixamos de lado as verdadeiras leis do universo harmonioso e perfeito. Nós queríamos mais e mais, e por isso aprisionávamos esses seres com os nossos sentimentos, para controlá-los. E eles faziam o mesmo, nos aprisionando pelos nossos interesses e desejos para nos controlar. O nosso Criador, vendo a corrupção que havia já manifestado no mundo, resolveu nos expulsar do meio dos inorgânicos, e expulsaram os inorgânicos do nosso meio. Separando os dois mundos em TERRA e ÁGUA. Assim, nossa morada tem como base a Terra e a morada dos inorgânicos tem como base a Água. Antes terra e água conviviam em um mesmo espaço, a terra sob a água e a água sobre a terra, e os homens eram maiores em estatura e viviam muito mais. Naquela época, como agora, a população de inorgânicos era maior do que a população de orgânicos. Isso é muito óbvio, pois nós seres orgânicos temos muitas necessidades, gerando muitos desejos, sendo que muitos seres têm que trabalhar para nos suprir. Por isso que os espaços de água neste mundo são abundantes. Sendo que o mundo dos inorgânicos, que era mais elevado do que o nosso, decaiu ao mesmo patamar e nível da terra, porque eles perderam seu grau de superioridade, e ainda continuou decaindo mais e mais, até as profundezas escuras da terra. Com o tempo muitos de nós nos esquecemos dos inorgânicos, e os homens e as mulheres que ainda sabiam sobre eles usavam esse conhecimento para suas mais malévolas ambições. Apenas poucos bons homens e mulheres usavam esse conhecimento para o bem. Mas os seres inorgânicos são como centenas para cada ser humano, e muitos deles sabem de nossa existência, e inúmeros deles são muito maus. Como nós somos mais ignorantes, e apenas poucos de nós sabemos da existência deles, eles nos controlam pelos nossos mais sutis desejos e sentimentos de prazer e dor. Assim, o mundo cada vez mais segue trabalhando para eles, sem que ninguém perceba. Sendo prisioneiros deles, pela nossa ignorância de não saber que eles existem, nos escravizando pelas nossas ambições, desejos, prazeres e dores. Pois os sentimentos bons alimentam os bons seres inorgânicos, e eles nos retribuem com as coisas que podem nos fazer felizes. Já os sentimentos ruins alimentam os seres inorgânicos maus e infernais, e estes nos dão apenas o que eles podem nos oferecer, dor e sofrimento. Mas tanto esses seres bons como esses seres maus nos escravizam. Pois a felicidade que esses seres bons nos oferecem sempre precisará ser sustentada por alguma coisa ou pessoa. Os que se fazem materialmente ricos que o digam. Mas a verdadeira felicidade é aquela que provém de dentro a todo o momento. Independentemente das circunstâncias, bens materiais ou até dons espirituais, coisas e pessoas, sendo ela a própria presença do nosso Criador vivificada em nós, na contemplação da humildade, valorizando as coisas, pessoas e atos mais simples, sem nada querer em troca, e utilizando apenas o necessário básico para a vida, além de tudo ser uma troca. Assim, eu te digo, meu jovem, os colonos europeus são os piores escravos desses seres, e deles mesmos. Pois quem escraviza, em verdade, é escravo de um mundo invisível, em que os colonizadores são seres desconhecidos. Por isso que para cada desejo ou pedido fora do equilíbrio haverá um sacrifício. E para cada sacrifício alguém ou alguma coisa tem que pagar ou morrer. Assim, o nosso povo negro e os povos nativos pagam e morrem em dolorosos sacrifícios, pelas ambições dos europeus.

— Mas por que somos nós que temos que pagar pelas ambições deles?

— Apenas recebemos tudo aquilo que plantamos no passado. Antes dos europeus nos escravizarem, a escravidão já existia na Terra-Mãe África. Onde cada tribo guerreava e escravizava os povos perdedores. E quem você acha que nos vendeu aos europeus, meu jovem? Em troca de ferramentas, armas e objetos. Foram os nossos próprios reis e rainhas corroídos pelas suas mais sinistras ambições. Negociando os corpos dos nossos irmãos e irmãs com os invasores árabes. Os europeus só conseguiram entrar no nosso reino e nos derrotar, roubando os nossos bens e os nossos corpos, simplesmente porque nosso reino já estava dividido em guerras e intrigas entre nós mesmos. Se você pensa que os europeus são os nossos verdadeiros inimigos, você está completamente iludido. Sugiro que você faça uma incursão pessoal pelo K’ilombo, e descobrirá que nós mesmos somos os nossos piores predadores. Pois, meu jovem, com toda verdade te digo que o pior inimigo que você enfrentará é você mesmo. E a pior batalha que você combaterá é aquela dentro de você mesmo. E se dessa batalha você se tornar vencedor, não se preocupe com os colonizadores europeus. Pois diante dessa batalha interna eles são como folhas secas caindo de uma árvore tombada pelo vento. Como eu já te disse e repito, nesse mundo só existe um bom, que é o Nosso Pai-Mãe Amado que nos criou sem nada querer em troca. Por isso, ele nos deu a liberdade de escolha. Ama-o de todo o coração, e de toda a sua força e entendimento, e tudo ele te dará. Pois só ele sabe do que verdadeiramente precisamos. O resto são mentiras que tentam encobrir a verdade da vida, que é só AMOR.

— Agora você me deixou mais confuso, Djeli. Se não fosse pelos europeus, nós estaríamos agora na nossa Terra-Mãe África, junto ao nosso povo e ancestrais.

Djeli deu uma grande gargalhada, e disse:

— Em primeiro lugar, meu jovem, se não fosse pelos europeus você nem teria existido. E eu não estaria aqui com você contando essas histórias. E esse momento nunca aconteceria. E nem todos os europeus são maus, assim como nem todos os africanos ou k’ilombolas são bons. E nem todo homem e mulher que você julga como sendo mal é completamente do mal. Assim como nem todo homem e mulher que você julga ser bom é completamente do bem. Assim como também nem toda situação má é completamente má, e nem toda situação boa é completamente boa. Há caminhos aparentemente maus, mas que nos conduzem ao bem, como também há caminhos aparentemente bons, nos levando à perdição. Digo-te que muitos dos seus melhores amigos negros daqui do k’ilombo poderão facilmente se tornar os seus piores inimigos. E muitos dos seus piores inimigos brancos da colônia poderão se tornar facilmente os seus melhores amigos. Pois muitos jovens brancos colonos, assim como você, meu jovem, já nasceram nessa difícil situação. Fora das terras dos seus pais e mães, compartindo com você o mesmo mal e o mesmo bem nessas terras do Novo Mundo. Preste muita atenção, e guarde no coração essas coisas que agora te falo. Nem tudo que lhe vier como benção lhe será verdadeiramente uma benção. Como também nem tudo que lhe vier como maldição lhe será verdadeiramente uma maldição. E, se você quiser ser um homem superior a todas essas coisas, livre-se de todo o julgamento de bem ou mal e apenas somente observe sem tomar para si uma coisa ou outra coisa. Pois, no dia em que você se livrar de todo o julgamento e somente aceitar os fatos, as coisas, as situações e as pessoas como elas são, a realidade se revelará, pela caída repentina do manto da ilusão. Apenas, meu jovem, faça da compreensão, da compaixão, da gentileza e da flexibilidade os seus melhores aliados, nessa constante guerra interna e dualística, do bem contra o mal e do mal contra o bem.

Djeli, vendo que só deixou o jovem mais atordoado, lhe contou uma parábola:

— Um certo andarilho caminhante se perdeu nos confins de um grande deserto. De muito andar sob o sol escaldante, e já sem suprimentos de água e alimentos, resolveu procurar um lugar com sombra para descansar. Caminhando mais um pouco, ele encontrou uma grande rocha que fazia uma imensa sombra. Ele se acomodou sob essa sombra, se recostando na rocha. Então, ele pensou: “que bom é essa sombra, agora só me faltava uma moringa cheia de água fresca. E nesse mesmo instante em que ainda pensava, plin! Apareceu-lhe uma moringa cheia de água fresca. Sem muito pensar ou questionar, o andarilho sedento apanhou a moringa e saciou a sua enorme sede. Então, ele pensou novamente: Que bom é essa moringa de água fresca, agora só me falta um belo banquete. Enquanto ainda pensava, plin! Surgiu do nada uma mesa repleta de todas as iguarias que ele gostava. Morto de fome e sem muito pensar ou questionar, o andarilho se pôs a comer. Saciado da sede e da fome, o andarilho olhou para a grande rocha e disse consigo mesmo: que benção foi de encontrar essa rocha encantada. E nesse mesmo instante em que pensara a rocha iluminou-se em majestade e encanto. Nisso, quando a grande rocha se iluminou, um bando de corvos atraídos pelo seu brilho pousou sobre ela e começou a grasnar. O andarilho caminhante, vendo isso, se espantou e logo pensou, questionando: “e se essa rocha for um demônio do deserto disfarçado?” E no mesmo instante em que pensava isso, a rocha se transformou num grande e horrível demônio. Quando ele viu aquela figura horrorosa, imediatamente pensou: “maldição! Esse demônio vai me devorar.” E, sem ao menos completar esse pensamento, o demônio o devorou.

Djeli virou-se de frente para N’zambi, olhou profundamente nos seus olhos e lhe perguntou:

— Agora me diga, meu jovem príncipe de Palmares, quem foi que proporcionou a esse andarilho caminhante todas as bênçãos e maldições no decorrer do seu caminho?

— Foi ele mesmo, Djeli. Através dos seus inúmeros pensamentos, interpretações e sentimentos de bem e mal.

— Assim são os nossos pensamentos, desejos e sentimentos de bem ou mal. Livre-se da culpa e do julgamento repentino, meu jovem, e você se livrará também do medo. Pois o medo é a fonte de toda maldade, desgraças, separação e ignorância que insiste em reinar na terra. Se você não matar esse medo que existe dentro de você, ele te matará. Também não se preocupe de não ter entendido completamente as minhas palavras, elas são como sementes férteis que ao seu tempo brotarão.

Fez-se uma pausa, e Djeli, portando em suas mãos os copos com o Nixi Pae, deu um deles ao jovem príncipe, e disse:

— Beba mais um copo para se manter alerta. Vou preparar para você outro fumo de cânhamo, e você se sentirá bem para ouvir o resto da história dos iorubás e a criação.

N’zambi e Djeli em silêncio fumavam ao redor da fogueira, ouvindo o barulho da noite. Djeli pegou o seu tambor e cantou:

 

“Espírito inocente, ágil, valente

São poucas as pessoas que os veem como gente

Tudo é descoberta e não existe pressa

Das mais simples coisas fazem uma festa

 

Nas suas alegrias descobrem fantasias

Brincadeiras e emoções preenchem os seus dias

Na imaginação criam um novo mundo

Ali não existe o “não”, nem tampouco o absurdo

 

Ser pequenino!

 

Mas, pequenino só no tamanho

O seu espírito é maior que o oceano

 

Ser insignificante!

 

Esquecido pela sociedade

Só dão o devido valor quando aprendem a ter maldades

 

São considerados fracos

Porque pequeno é o seu tamanho

Mas, fracos e pequeninos

Se tornam com o passar dos anos”

 

Então, Djeli disse a N’zambi, alertando-o:

— Nunca deixe de lado sua criança interior, meu jovem. Use-a para domar a fera que existe dentro de você. E também aprenda que dentro do seu maior rival existe uma criancinha temerosa e inocente. Porque para um pai e para uma mãe, mesmo que eles possam ver os seus filhos envelhecerem, estes sempre lhes serão as suas crianças. Agora imagine o que somos para o nosso Criador Pai-Mãe de Todas as Coisas, senão suas as eternas criancinhas! — Houve um breve silêncio e Djeli perguntou:

 — Em que lugar da história eu estava mesmo?

— Na parte em que os sentimentos eram os alimentos dos Imolès. — Respondeu N’zambi.

— Oh! Sim. — Respondeu Djeli, e continuou:

 

— O Orún resplandecia sua luz de pureza harmônica por ciclos e ciclos eternários. Até o dia que Èsú’Yangí ficara insatisfeito com a sua posição no Orún. Pois ele queria ser como Obàtálá, e ter a coroa do primogênito de Olódùmarè, o Criador...

E, pela primeira vez no Orún e na Criação, surgiu algo de que nenhum Imolè ainda tinha conhecimento e consciência. Algo que ninguém nunca experimentara, um sentimento terrível que surgiu em Èsú’Yangí, e foi a origem de todos os males conseguintes.

Um sentimento de tristeza perante o que Obàtálá tinha, e Èsú’Yangí não entendia o porquê de que ele não tinha. E este sentimento gerou o desejo de ter exatamente o que Obàtálá possuía, a primazia e a coroa de rei dos Imolès.

Este sentimento até então não experimentado na criação era definido como uma vontade frustrada de Èsú’Yangí querer possuir os atributos ou qualidades de Obàtálá. Sendo esse sentimento o que conhecemos hoje como a INVEJA e a COBIÇA.

Secretamente, entretanto, Èsú’Yangí procurava uma maneira de persuadir Obàtálá para que ele pudesse cometer alguma falha em sua administração no Orún e ter sua moral rebaixada perante Olódùmarè.

Olódùmarè, o Criador onisciente, onipresente e onipotente já sabia do rigoroso teste, em que a criação tinha que passar para o aprimoramento espiritual das suas almas criadas. E principalmente sabia da importância e do papel de Èsú’Yangí nisso.

E Olódùmarè pensou: “Eis que já começou a provação dos seres que criei, agora não depende só da minha vontade. Como eu quis que isso nunca acontecesse com os meus filhinhos amados, mas tudo tem um propósito sem propósito, sendo que agora toda alma vai ter que ser lavada com a água do arrependimento e purificada com o fogo do sofrimento, para encontrar a verdadeira felicidade e vida em mim. Mas não deixarei meus amados sozinhos, corporificarei a minha SABEDORIA, com a qual criei todas as coisas, para que eles possam encontrar auxílio nela, e ela servirá como um guia e protetor para eles me encontrarem, quando arrependidos, humildemente me buscarem.”

Assim, Olódùmarè convocou todos os Imolès Funfuns para uma reunião na Morada dos Justos, o Àwosùn Dàra, seu palácio que até então ficava no centro do Orún. Mas excluiu Èsú’Yangí, pois ele já não era mais digno de sua presença, pelo fato de se encontrar impuro, pela maldade que se fez crescer em seu coração, não tendo mais a dignidade de entrar no Àwosùn Dàra...

E na presença de todos os Funfuns reunidos na Morada dos Justos, Olódùmarè disse:

— MEUS AMADOS FILHOS, É CHEGADO O MOMENTO EM QUE TODA CRIAÇÃO PASSARÁ PELO DESERTO DA ILUSÃO, ONDE AS TREVAS TENTARÃO EM VÃO OFUSCAR A LUZ. MAS, NO FINAL A LUZ PREVALECERÁ. DURANTE ESSE MOMENTO EU RETIRAREI MINHA PRESENÇA DO MEIO DA CRIAÇÃO, PARA QUE TODA VIDA SEJA PROVADA PELA FÉ EM MIM. PORÉM, CORPORIFICAREI MINHA SABEDORIA E ELA VIVERÁ COM VOCÊS, E ME COMUNICAREI COM VOCÊS ATRAVÉS DELA. ASSIM MEUS AMADOS, NÃO PODEREI MAIS PERMANECER JUNTO A VOCÊS NO FUTURO. SENDO QUE VOCÊS NÃO MAIS PODERÃO ME VER COMO ME VEEM AGORA. POIS SOU PURO E SEM MÁCULA, SENDO EU O SANTO DOS SANTOS E O JUSTO DOS JUSTOS, DEVO PERMANECER NA MINHA MORADA QUE É A CASA DOS JUSTOS.

Assim, Olódùmarè retirou de si o seu Espírito Santo de grande e perfeita sabedoria, e o corporificou, o chamando de Ibi Keji Olódùmarè, que significa: “O Segundo Espírito de Olódùmarè, que testificou a criação”. Porém, os Funfuns o chamaram de Orunmilá, que significa: “A palavra criadora que deu luz ao mundo”. Orunmilá ganhara um palácio no Orún e sua morada fora chamada de Ifá, que significa: “Morada da Beleza”. E Olódùmarè, ao corporificar e individualizar Orunmilá, falou:

— ORUNMILÁ, MEU ESPÍRITO SANTO DE SABEDORIA, COM VOCÊ EU CRIEI O ORÚN E SUAS ALMAS, E OS COLOQUEI NO LUGAR PRÓPRIO. VOCÊ SERÁ COMO UM FAROL PARA AS ALMAS PERDIDAS NO MAR DA ILUSÃO. SERÁ UM EDUCADOR DE ALMAS QUANDO A IGNORÂNCIA PREVALECER SOBRE ELES. E ESTARÁ DO LADO DOS JUSTOS E SE AFASTARÁ DOS INSENSATOS. A PARTIR DE AGORA, TODA ALMA QUE DESEJE ME ENCONTRAR E ESTAR EM COMUNHÃO COMIGO DEVERÁ SER ABENÇOADA POR TI. POIS SÓ A VOCÊ, ORUNMILÁ, É CONFIADA A CHAVE QUE ABRIRÁ TODAS AS PORTAS. E TODAS AS ALMAS QUE TE HOMENAGEAREM E TE TEREM COMO PRIMAZIA POSSUIRÃO ESSA CHAVE.

E Olódùmarè, virando-se para os Funfuns, disse:

— MEUS AMADOS FILHINHOS, LEMBREM-SE DAS MINHAS PALAVRAS E NUNCA AS ESQUEÇAM. FAÇAM O QUE EU DIGO E VOCÊS VIVERÃO. PROCUREM CONSEGUIR SABEDORIA E COMPREENSÃO. NÃO ESQUEÇAM, NEM SE AFASTEM DO QUE EU DIGO. NÃO ABANDONEM A SABEDORIA, E ELA PROTEGERÁ VOCÊS. AME-A, E ELA LHES DARÁ SEGURANÇA. PARA SE TER SABEDORIA, É PRECISO PRIMEIRO PAGAR O SEU PREÇO. USEM TUDO O QUE VOCÊS TÊM PARA CONSEGUIR A COMPREENSÃO. AMEM A SABEDORIA, E ELA OS TORNARÁ IMPORTANTES, ABRACE-A E VOCÊS SERÃO RESPEITADOS. A SABEDORIA SERÁ PARA VOCÊS UM ENFEITE, COMO SE FOSSE UMA LINDA COROA. ESCUTEM, MEUS FILHINHOS! ACEITEM O QUE ESTOU DIZENDO E VOCÊS TERÃO UMA VIDA LONGA. EU LHES TENHO ENSINADO O CAMINHO DA SABEDORIA E A MANEIRA CERTA DE VIVER. SE VOCÊS ANDAREM SABIAMENTE, NADA ATRAPALHARÁ OS SEUS CAMINHOS, E VOCÊS NÃO TROPEÇARÃO QUANDO CORREREM. LEMBREM-SE SEMPRE DAQUILO QUE VOCÊS APRENDERAM COMIGO. A SUA EDUCAÇÃO É A SUA VIDA, GUARDE-A BEM! NÃO VÁ AONDE VÃO OS QUE SE FARÃO MAUS. NÃO SIGAM O EXEMPLO DELES. NÃO FAÇAM O QUE ELES FAZEM. AFASTEM-SE DO MAL. DESVIEM-SE DELE E PASSEM DE LADO. ESSES QUE SE FARÃO MAUS NÃO PODERÃO DORMIR SEM TER FEITO ALGUMA COISA MÁ, ELES FICARÃO ACORDADOS ATÉ CONSEGUIREM PREJUDICAR ALGUÉM OU A SI MESMOS. PORQUE PARA ELES A MALDADE E A VIOLÊNCIA SERÃO COMO COMIDA E BEBIDA. A ESTRADA EM QUE CAMINHAM AS PESSOAS DIREITAS É COMO A LUZ DA AURORA, QUE BRILHA CADA VEZ MAIS ATÉ SER DIA CLARO. MAS A ESTRADA DAQUELES QUE SE FARÃO MAUS É ESCURA COMO A NOITE, ELES CAIRÃO E NÃO PODERÃO VER NO QUE FOI QUE TROPEÇARAM. FILHINHOS, PRESTEM ATENÇÃO NO QUE EU DIGO. ESCUTEM AS MINHAS PALAVRAS. NUNCA DEIXEM QUE ELAS SE AFASTEM DE VOCÊS. LEMBREM-SE DELAS E AMEM-NAS. ELAS DARÃO VIDA LONGA E SAÚDE A QUEM ENTENDÊ-LAS. TENHAM CUIDADO COM O QUE VOCÊS PENSAM, INDEPENDENTEMENTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE VOCÊS SE ENCONTRAREM, POIS AS SUAS VIDAS SÃO DIRIGIDAS PELOS SEUS PENSAMENTOS. NUNCA FALEM O QUE NÃO FOR VERDADE, NEM DIGAM PALAVRAS QUE NÃO FOREM BOAS. OLHEM FIRME PARA FRENTE, COM TODA CONFIANÇA, NÃO ABAIXEM A CABEÇA, ENVERGONHADOS. PENSEM BEM NO QUE VOCÊS VÃO FAZER, E TODOS OS SEUS PLANOS DARÃO CERTOS. EVITEM A MALDADE QUE INSISTIRÁ EM REINAR NA CRIAÇÃO, ESSA ILUSÃO QUE LOGO SE FARÁ MANIFESTA NO REINO, E CAMINHEM SEMPRE EM FRENTE, NÃO SE DESVIEM NEM UM SÓ PASSO DO CAMINHO CERTO. E EM TUDO O QUE VOCÊS FIZEREM, PEÇAM CONSELHOS AO MEU ESPÍRITO SANTO DE SABEDORIA QUE AGORA SE ESTABELECEU NO MEIO DE VOCÊS.

Enquanto acontecia o concílio promovido por Olódùmarè, reunido com os Imolès Funfuns no Àwosùn Dàra. Èsú’Yangí, percebendo sua exclusão, nem se importou e começou a colocar o seu plano malévolo em prática...

Também era a oportunidade certa, porque todos os Funfuns não estavam presentes nas periferias do Orún.

Èsú’Yangí percebeu que a hegemonia de Obàtálá perante todos os Imolès era porque no Orún havia um só pensamento, um só sentimento e uma só expressão...

Então, Èsú’Yangí teve uma ideia e saiu para colocá-la em prática.

Èsú’Yangí viu dois Imolès um ao lado do outro conversando, e disse a si mesmo: “Se eu tão somente fizer esses dois discordarem um do outro, eu quebrarei a unidade de pensamento, expressão e sentimento no Orún”.

Rapidamente, Èsú’Yangí se disfarçou e vestiu um manto de duas cores. De um lado o manto era branco e de outro lado o manto era preto. Assim, quem olhasse Èsú’Yangí de um lado pensaria que ele estava vestindo um manto branco, e quem olhasse Èsú’Yangí do outro lado pensaria que ele estava vestindo um manto preto.

Èsú’Yangí, vestido com o seu manto de duas cores, preto e branco, apressou-se e passou no meio dos dois Imolès, que se encontravam sentados um do lado do outro sem nem ao menos os cumprimentar, e desapareceu. Os dois Imolès, vendo o acontecido ficaram pasmados, e um disse ao outro:

— Que estranho aquele Imolè de manto preto que passou assim por nós sem nem nos cumprimentar. — Ele disse isso porque sempre os Imolès saudavam uns aos outros em reverência e afeto ao se encontrarem, e continuou:

— Quem será ele, pois nunca o vi aqui no Orún.

— Manto preto?! — Exclamou o outro Imolè, e continuou:

— Eu não vi nenhum Imolè de manto preto, o manto era branco.

— O Manto era preto, irmão. — Disse o primeiro...

— Não! O manto era branco. — Disse o segundo...

E dessa forma eles ficaram discutindo o tempo todo. Um dizendo que o manto era preto e outro dizendo que o manto era branco. Èsú’Yangí, às espreitas, via tudo isso e se divertia muito, pois conseguira o seu objetivo com sucesso.

Os Imolès que discutiam sobre a cor do manto acabaram brigando e foram para suas moradas, e começaram a espalhar toda aquela discórdia e confusão...

Dessa maneira, influenciaram os outros Imolès em ideologias adversas, até que o Orún se dividiu em dois lados...

Do lado direito estavam aqueles que defendiam a ideologia do manto preto, e do lado esquerdo estavam aqueles que defendiam a ideologia do manto branco.

Eles construíram assim uma grande cerca, e pela primeira vez no reino da criação houve uma fronteira. Havendo uma fronteira, houve a fragmentação dos pensamentos, sentimentos e expressões. E a esfera da dualidade que movimenta todas as coisas veio à existência por obra mentirosa de Èsú’Yangí.

Quando os Imolès Funfuns se retiraram da presença de Olódùmarè no Àwosùn Dàra, perceberam algo de errado no Orún. E viram o Àwosùn Dàra subir ao mais Alto dos altos e desaparecer. Uma energia de luz acinzentada e pesada pairava sobre o primeiro reino.

E, observando mais, viram os Imolès separados por uma grande cerca, onde de um lado vestiam mantos pretos, e do outro lado vestiam mantos brancos. E ambos os mantos ofuscavam as suas multicoloridas luzes corporais.

Os Funfuns, nada entendendo, foram perguntar a Orunmilá o que se sucedeu no Orún enquanto estavam ausentes. E Orunmilá disse:

— É chegada a hora em que os seres se afastaram da verdade única e absoluta, do todo em comunhão e unidade com o seu Criador. Os seres agora repeliram de si o vivificante e inspirador Espírito Santo de sabedoria do Grande e Poderoso Criador. É por isso, meus irmãos, que me faço presente no meio de vocês corporificado. Para que também vocês não possam repelir a verdade absoluta e serem dominados pelo mal que agora insiste em existir. Falo que insiste em existir, pois o mal é uma mentira, e como toda mentira, o mal não é verdade. É por si só falsidade e ilusão, não existindo, mas fingindo existir. Porque tudo que verdadeiramente existe é somente o Criador e a sua Criação, sendo o Criador a mais pura e perfeita perfeição e verdade, tudo o que foi feito por Ele/Ela é perfeita perfeição e verdade pura e absoluta também. Assim sendo, o mal não foi criado pelo Criador. Portanto, o mal com seus frutos de sofrimentos não possui vida e luz em si próprio. Sendo mentiras que encobrem a verdadeira perfeição do Criador. Agora a dualidade se faz presente na Criação, e com ela veio o conflito, onde o ilimitado se limitará num todo fragmentado. Então, o que é belo que sempre existiu será conhecido pelo feio que pela mentira se fez existir. O bom que sempre existiu será conhecido pelo mal que pela mentira se fez existir. E a verdade que sempre existiu será conhecida pela mentira que se fez existir. Os seres se perderão nos conflitos dos seus pensamentos fragmentados, entrando no labirinto sem saída da dualidade. E assim fugirão do difícil e procurarão o fácil. Amarão o grande e desprezarão o pequeno. Valorizarão o alto e rejeitarão o baixo. Distinguirão o som do silêncio. O passado e o futuro. E em seus pensamentos dualísticos fragmentarão e nomearão todas as coisas. E a isso chamarão de inteligência, esquecendo-se da Grande e Perfeita Sabedoria do Criador, que nos ensina sem palavras. Que tudo cria e faz, nada tomando para si. Realizando todo o trabalho sem colocar seu nome neles. Terminando sua Grande Obra, mas sempre se mantendo no princípio de todas as coisas. Dando o livre-arbítrio a todos os seres. E só interferindo nos seus destinos unicamente por compaixão. Porque se assim não fosse, pelo mal que insiste em existir, nenhuma vida ainda subsistiria.

Os Imolès Funfuns, vendo uma nuvem acinzentada que encobria o Orún, que era tão belo e colorido pelas resplandecentes emanações das luzes dos corpos dos Irun Imolès, se entristeceram e choraram de tristeza pela primeira vez.

Em vão eles tentaram reconciliar os Irun Imolès. Mas eles não queriam reconciliação. Pois cada um defendia a sua parte e filosofia, e queriam que um aderisse à verdade do outro, e só assim haveria paz.

E os Funfuns sabiam que ambas as ideologias que eles sustentavam nada tinham de verdade. Porque a verdade une, e nunca separa...

Passaram-se então outros ciclos eternários e o Orún se afundava mais e mais em trevas...

Èsú’Yangí fora banido do Orún, e perdera a dignidade e a honra de vestir um manto branco, e dessa forma não era mais um dos Imolès Funfuns. Agora, Èsú’Yangí habitava nos arredores do Orún, guardando as suas fronteiras e vivendo absolutamente solitário. Pois tornara-se feio e medonho, porque a cólera e a raiva o dominaram.

Sem a presença de Olódùmarè no Orún, também os Imolès Funfuns se dissiparam e foram viver cada um por sua própria conta. Mas sempre se reuniam de tempos em tempos na morada de Ifá, tomando conselhos e louvando o Grande Criador de todas as coisas existentes.

FIM DO QUINTO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).  

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