O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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27. Capítulo 22 - ת (TAV) A VERDADE

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ת

TAV

A VERDADE

 

O que foi destruído pela culpa e consumido pelo arrependimento será restaurado pela glória. O mais forte e o mais fraco se olham olho no olho. O dia do confronto, sendo este o dia da verdade. O mais forte almeja vencer o mais fraco. O mais fraco agora almeja ser derrotado pelo mais forte. Um na frente do outro se observam. O mais fraco roga para ser vencido, pois as suas fraquezas sufocam o seu pobre coração.

O mais forte diz:

— Como posso lutar com você, se você não é forte o suficiente para me enfrentar?

O mais fraco diz:

— Eu caio todas as vezes que me levanto.

O mais forte diz:

— Se não pode ficar de pé, não poderá nunca lutar comigo.

O mais fraco se esforça para se erguer, mas as suas fraquezas sempre o derrubam.

O mais fraco decidiu antes de lutar com o mais forte confrontar as suas fraquezas. O mais fraco viajou para o interior, até a morada das fraquezas, e encontrou uma casa suja, fria e abandonada. Essa casa estava lotada de coisas velhas, porcas e imundas. O mais fraco, ao ver essas coisas, apavorou-se! E disse:

— Farei uma grande faxina nessa casa, e limparei toda essa imundícia e podridão.

Ao terminar a grande faxina, a casa se esvaziou e mais nada restou. E todo o lixo foi consumido pelo fogo. O mais fraco, vendo que a casa ficara vazia, entristeceu-se! Pois, se sentiu solitário sem as suas fraquezas para lhe trazer consolo e distração. O mais fraco sentiu um vazio tão profundo, tão doloroso, que o seu pobre coração parecia mergulhar em um abismo profundo. Espadas penetravam em seu coração, e este sangrava até a morte. Sem se perceber, o mais fraco em sua solidão estava de pé. E, chorando, disse:

— Meu pobre coração dói, dói e dói.

Então, o mais forte disse ao mais fraco:

— Vejo que você está de pé!

E o mais fraco, ao parar de se lamentar, percebeu-se erguido. E disse:

— Eu realmente estou de pé, mais ainda não tenho forças para te confrontar.

O mais forte disse:

— Você já se confrontou e já se derrotou. Então, como diz, tem que me confrontar. Se agora você é eu e eu sou você.

O mais fraco, agora de pé, viu que não era mais o mais fraco. E, quando procurou o mais forte, encontrou a ele mesmo, preenchendo o vazio com a verdade.

 

∞∞∞

 

Do povoado de Porto Calvo viu-se uma negra e grande fumaça subindo do Outeiro da Barriga. Os paulistas incendiaram tudo, não restando uma única kubata que não estivesse sendo consumida pelo fogo. Domingos Jorge Velho já não se importava com os despojos, apenas queria aniquilar de vez com o K’ilombo dos Palmares. Só depois de tudo estar destruído é que poderia se embrenhar pelas matas na caça dos palmarinos.

Muitos k’ilombolas fugiram adentrando as matas virgens do interior, além dos mokambos do K’ilombo. Milhares morreram na guerra, ou se suicidaram nos precipícios que circundavam as retaguardas da Cerca Real dos Macacos, e alguns se renderam às tropas paulistas.

Era o fim da N’gola N’janga, a comunidade guerreira k’ilombola. Uma verdadeira comunidade em que seus interesses se baseavam universalmente, no direito à liberdade de todos os povos e raças que ali existiram. Liberdade essa que não servia a propósitos particulares de certos indivíduos, como era o caso da colônia. Mas a vida dos povos nativos e africanos que pela cor da pele e cultura tribal, vivendo em plena harmonia com o seu habitar, foram subjugados à escravidão em massa, por se acharem não civilizados aos padrões culturais dos povos europeus.

Essa comunidade de guerreiros e guerreiras, regida por líderes libertários, perseverantes e lúcidos que tiveram metas claras e convincentes, despertando nos povos que foram oprimidos o entusiasmo do trabalho em conjunto, e da luta por seus direitos naturais à liberdade, não teria nenhum êxito sem a união permanente e organizada, entre a diversidade cultural e racial dos seres que a comportaram. Ao contrário, Palmares não passaria de um simples conglomerado de povos tribais divididos e desorganizados.

O êxito do K’ilombo dos Palmares foi buscar os elementos comuns de liberdade, entre as várias etnias, na assimilação das suas diferenças, com respeito à união dos seus saberes, práticas, crenças, costumes e modo de vida. Emergindo as bases de uma moderna e sadia sociedade em que os valores individuais e coletivos foram respeitados, pelos quais orientou os povos ali existentes na difícil, porém possível, tarefa de estabelecer a paz entre as suas diferenças. E internamente, especialmente nisso, Palmares já foi vitorioso.

Domingos Jorge Velho e sua tropa regressam ao povoado de Porto Calvo, onde são recebidos por um grande cortejo formado pelos seus moradores. E o governador, D. Caetano de Melo e Castro, decretou seis dias de festas em toda capitania pernambucana. Ao saberem da destruição do K’ilombo dos Palmares e da suposta morte de N’zambi, os negros escravizados de toda a capitania se entristeceram em lamentos, choros e muitos pesares. Alguns não acreditavam naquela triste notícia. Palmares não podia acabar, N’zambi era a encarnação de Xangô, sendo ele próprio imortal. Balas não podiam penetrar em sua carne, pois o seu corpo era fechado para o mal.

Naqueles tristes dias, os negros e as negras escravizadas dentro de suas senzalas choravam amargamente pelas noites adentro. O vislumbre de liberdade da N’gola N’janga se apagou. Os seus inimigos a saquearam e a incendiaram se apossando de suas terras, bens, e de seus guerreiros e guerreiras. Lágrimas escorreram como rios nas plantações, engenhos, casa-grande e senzalas. Desolados, as negras e os negros escravizados oravam em soluços pelo espírito de N’zambi, enquanto os colonos zombavam, dizendo:

— Cadê o herói de vocês? Nós o matamos. Finalmente chegou o dia por que tanto ansiávamos.

M’panzu e Acaiene levaram N’zambi para as cercanias do Mokambo de Andalakituche. O M’wene K’ilombo estava muito ferido com o tiro que levou na perna esquerda, e perdera muito sangue. A guerreira Acaiene foi em disfarces procurar um famoso negro alforriado que era curandeiro e barbeiro sangrador, sendo muito conhecido na Vila de Alagoas. Encontrando-o, rapidamente ela o leva para as cercanias de Andalakituche. Ao chegar no local em que se encontrava o M’wene K’ilombo, o barbeiro sangrador disse:

— Tirem a roupa dele por inteiro, eu preciso iniciar uma sangria para desviar essa hemorragia, fazendo com que o sangue circule para o outro lado do corpo, evitando uma grande infecção. Acendam aqui uma fogueira, para que eu possa esquentar uma faca para estancar o sangramento.

E, olhando para dois moços que ali estavam, o barbeiro sangrador disse:

— Vocês dois, peguem folhas das palmeiras e abanem o corpo do Grande N’ganga constantemente, não pode haver aqui moscas e nem mosquitos. Eu preciso que alguém me traga folhas de erva-de-santa-maria, para que eu possa fazer um unguento para depois estancar o ferimento.

N’zambi estava inconsciente por três dias, com muita febre e debilitado. O barbeiro sangrador com muito cuidado pegou sua lâmina e fez um corte no braço direito, procurando desviar o fluxo de sangue que minava na perna esquerda. Depois, aqueceu uma grande faca no fogo que estava ao lado, até a lâmina ficar abrasada. Chamou os dois moços que abanavam para segurar bem forte o corpo de N’zambi sobre a maca. E foi queimando a pele até estancar o ferimento. O M’wene K’ilombo, em delírios, começou a gritar, dizendo: “Corre, Dandara! Pegue as crianças e corra rápido! Vamos!”. E, depois disso, desmaiou. Ao acabar com o serviço, o barbeiro sangrador disse a M’panzu e Acaiene:

— Ele agora deve descansar, de três em três dias é preciso trocar a faixa com o unguento. Vou deixar preparadas algumas tisanas para ele tomar diariamente, e cataplasmas de farinha de mandioca com polpa de jenipapo para a boa cicatrização. A notícia ruim é que a bala teve que ficar alojada. Não pude tirá-la porque ficou perto de uma artéria fundamental. Tive medo que, ao tentar remover a bala, fosse danificar a artéria, e isso o levaria à morte. Eu sinto muito, mas ele ficará manco dessa perna. Deixo aqui também algumas bichas no caso de aumentar a febre, apenas deite algumas delas no seu braço, quando elas ficarem cheias de sangue cairão sozinhas. É isso! Espero que o nosso Grande N’ganga se recupere bem.

Três meses se passaram, e N’zambi se recuperava do seu ferimento no seu esconderijo, em uma abertura natural no subsolo criada por um curso de água que se comunica com uma rede de galerias subterrâneas, formando um grande sumidouro nas baixadas próximo ao rio Mundaú. Lá, o comandante guerreiro reúne todos os insurgentes k’ilombolas dispersos, formando uma tropa com dois mil guerreiros e guerreiras, que, sob suas instruções, atacavam inúmeros povoados perto de Alagoas, roubando e saqueando armas, munições e alguns mantimentos. E se espalhou por toda a capitania pernambucana a notícia de que N’zambi estava vivo.

Os africanos escravizados que trabalhavam nos engenhos e lavouras, ao saber que o M’wene K’ilombo estava vivo, ficaram em grande euforia. Tiveram realmente a confirmação de que o seu líder guerreiro de linhagem nobre africana era realmente a encarnação do seu deus Xangô. E gritavam uns para os outros:

— N’zambi não morreu! Àsé, N’zambi! Igbá, Sàngó! Àsé Kawó-Kabiesilé!

Sàngó é o Òrìsà do fogo, dos raios, dos trovões e das grandes tempestades. É o viril justiceiro castigando os mentirosos, os desonestos e os facínoras. Sàngó é o Òrìsà do Àsé, sendo ele próprio a representação máxima do poder e da justiça de Olódùmarè, o Deus Supremo de Toda Criação. Sàngó foi o quarto Aláàfìn da dinastia de Òyó e o primeiro Owó. Tendo também o título de Yakutá no Reino Yoruba. Conta a lenda que Sàngó foi o mais valente rei guerreiro libertador das dinastias Yoruba. Mas, quando recebeu o seu Àsé lhe dado por Olódùmarè, fora inconsequente. Destruindo pelo fogo o seu próprio reino, incendiando o seu próprio palácio, causando a morte de milhares. Arrependido, Sàngó vai numa árvore para cometer suicídio e ao se enforcar Olódùmarè o perdoa, transformando o Igbá Imolè em Òrìsà. Por isso, os africanos escravizados de descendência Yoruba afirmavam que N’zambi era Igbá Sàngó, a encarnação de Xangô.

Os africanos escravizados ficaram em grande êxito com a notícia de que N’zambi estava vivo. E começaram a se reunirem nas senzalas e lavouras, falando em escapar da mão dos seus senhores, para ter com o comandante guerreiro N’zambi. E inúmeras rebeliões aconteceram por todas as senzalas, engenhos e lavouras da capitania pernambucana, da Baía de Todos os Santos e outras capitanias. E muitos conseguiram fugir e se aliar a N’zambi, que a cada dia se fortalecia mais e mais.

O M’wene K’ilombo estava reunido com os seus guerreiros nas galerias cavernosas do sumidouro, um local perfeito com muita água e muitos fachos de luz, que entravam por entre as brechas do teto do subsolo. Por entre as abertas galerias com luzes esverdeadas, havia mais de mil guerreiros e guerreiras, entre mestiços, nativos, africanos e poucos brancos. N’zambi, apoiado em duas forquilhas de paus, com dificuldades, sobe numa grande pedra na beira de uma das piscinas e diz:

— Amigos e Amigas, o K’ilombo não acabou. A N’gola N’janga existe em cada um de nós. Dentro de cada irmão nosso que libertamos das mãos dos opressores, livrando suas carnes do bico dos podres urubus comedores de carniças. Eu tenho algo a revelar meus irmãos e minhas irmãs, escutem com muita atenção. Algo que me foi revelado pelos nossos ancestrais africanos e nativos, algo que me foi confiado. No futuro, nossos filhos e filhas, negros, nativos e mestiços serão escravizados por um longo período de tempo. Eu partirei em breve, mas vocês continuarão a segurar essa flecha. Depois dos muitos k’ilombos serem massacrados, o povo branco de Gales, montado em seus interesses, virá e pressionará os portugueses para que alforriem vocês. Então, os colonos se dividirão uns a favor, e outros contra. E os seus líderes se reunirão e criarão leis decadentes, para cada vez mais burlar as ordens do novo império que estava a crescer. E assim criarão uma lei que de nada servirá. Essa lei declarará que cada escravizada africana que pôr uma cria no mundo terá essa cria nascida livre. Então, os seus senhores dirão: “Se sua cria é livre, ponha ela agora mesmo para fora, lá na rua.”. E a escravizada dirá ao seu senhor: “Por favor, senhor, deixe a minha cria e eu te arrendarei a vida dela até os trinta anos, para que trabalhe para o senhor, por conta de sustentá-la pelo período que não fora capaz.”. E, como a escrava pediu, assim se fez, não valendo essa lei para nada. Então, por pressão do novo império, e daqueles colonos que compactuaram com o novo império, os líderes coloniais decidirão criar mais uma lei. Essa lei estabelecerá que os africanos escravizados que completarem sessenta e cinco anos serão alforriados. Ora, meus irmãos e irmãs, todos nós sabemos que essa idade só é permitida ao negro e à negra k’ilombola que nasceu livre em Palmares. Os africanos escravizados não passam dos trinta anos, e os pretos de dentro dos quarenta. E essa lei também de nada valerá. O novo império teve a ideia de se tornar um grande produtor de mercadorias, mas precisava de pessoas para manufaturarem, e depois comprarem suas mercadorias. E a liberdade passará a ser o poder de produzir, comprar e vender as mercadorias. E para isso, o novo império obrigará os colonos portugueses a abolirem de vez com a escravidão. Então, os colonos dirão aos seus negros e negras escravizadas: “Já que vocês são agora livres, partam daqui imediatamente e deixem tudo aqui, até as roupas que vestem os seus corpos.”. Alguns partirão para os k’ilombos ali existentes, que ficarão lotados, e outros muitos pensarão: “Para onde iremos, sem água e comida? Os nossos filhos e as nossas crias de colo perecerão nesse calor.”. Então, dirão aos seus senhores: “Senhor, continuaremos a trabalhar aqui em troca de abrigo, água e comida.”. E essa lei de quase nada adiantará inicialmente, mas com chegada dos empreendimentos e sistema do novo império, o escravizado se tornará trabalhador. O trabalhador se tornará comprador, e a escravidão se tornará capital.

E, olhando para o seu povo depois de um curto silêncio, o Grande N’ganga disse:

— Os nossos descendentes não passarão de inúmeras pequenas engrenagens. Depois, os descendentes dos colonos se unirão a nós, não passando também de outras inúmeras pequenas engrenagens. E juntos movimentarão um imenso engenho real, onde continuamente processarão consumindo tudo que é natural, destruindo todas as estruturas ecológicas que é a base da harmonia desse mundo, e o caos destrutivo reinará até o fim dos tempos, se consumando com a chegada Daquele Último que foi o Primeiro, O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA.

N’zambi tinha muito para falar ao seu povo, mas, percebendo que aqueles copos e jarros não suportariam toda água da sua cisterna, silenciou para que não transbordassem, não desperdiçando suas sábias palavras de revelação.

Quase cinco meses se passaram depois que a N’gola N’janga foi destruída. O comandante guerreiro N’zambi já estava curado do seu ferimento. Contudo, ficara manco de uma perna, tendo dificuldades ao andar. Entretanto, mesmo assim, comandou um ataque fulminante a uma fazenda importante em Alagoas, livrando mais de quinhentos escravizados, saqueando armas, joias e mantimentos.

O governador, D. Caetano de Melo e Castro, financiou mais uma campanha dos paulistas, contando novamente com os favores de Domingos Jorge Velho. Os alagoanos estavam aterrorizados, e aquela situação exigia uma providência do governo pernambucano. Domingos Jorge Velho sabia com quem poderia contar, o mesmo homem que lhe deu as informações para ser bem-sucedido na sua última campanha que destruiu Palmares, o capitão do mato Antônio Soares.

Desde a destruição de Palmares, Antônio Soares foi habitar a Capitania da Baía de Todos os Santos. Domingos Jorge Velho manda seus homens paulistas até lá para o procurar, e encontrando o capitão do mato, regressam depois de dois meses para Alagoas. Antônio Soares, ao se reunir com o capitão paulista, diz:

— O que há de tão importante, Capitão, para mandar me buscar da Baía de Todos os Santos?

— Eu quero a cabeça de Zumbi.

— E o que eu tenho a ver com N’zambi, Capitão?

— Você é amigo dele, chegado mais próximo. Quero armar uma emboscada contra ele.

— Não conte comigo, Capitão, pois se esse homem sobreviveu toda aquela destruição, é porque tem poderes sobrenaturais. E apesar de tudo não quero ter que traí-lo novamente.

— Quanto, Capitão do mato. Quanto?

— Agora você fala a minha língua, Capitão. Eu quero as terras de Osenga para as pastagens, quero trabalhar agora com a criação de gado, e só preciso de terras para isso.

— De acordo, Capitão do mato. Mas eu mesmo quero arrancar cabeça de Zumbi. Você vai voltar a se unir com os insurgentes palmarinos, descobrir o esconderijo deles e depois nos levar até lá para que possamos capturá-los.

E, como foi contratado, se deu. Antônio Soares se embrenha pelas matas alagoanas à procura de N’zambi. Ao se perceber sendo vigiado, Antônio Soares diz:

— Me levem para ver o Grande N’ganga.

Rapidamente saiu uma guarda de mais de vinte guerreiros e guerreiras k’ilombolas. Pegaram Antônio Soares à força, colocaram vendas em seus olhos, amarraram o seu corpo a um tronco, carregaram e o transportaram para o sumidouro.

Ao chegar na presença de N’zambi, o livraram das suas cadeias, e este disse:

— N’zambi, meu amigo, como está?

— Onde você esteve por todo esse tempo, Antônio Soares?

— Pensei que o Grande N’ganga estivesse morto, e fugi para a Capitania da Baía de Todos os Santos. Assim que chegou notícias que você vive, vim imediatamente procurá-lo para me aliar às suas forças, Grande M’wene.

— Muito obrigado, meu amigo, sabia que nunca me desampararia. Agora você será o cabeça de minhas tropas pessoais. Agora, meu amigo, estou vencendo novos desafios, mesmo manco de uma perna, treino todos os dias criando técnicas para suplantar o que seria deficiências. Estamos crescendo com as investidas às fazendas, agora que não temos mais lar, sabemos que o K’ilombo é o nosso corpo em comunidade, e não um lugar. Para onde formos o K’ilombo irá com a gente.

— Meu amigo, agora também vou ter família. Tenho uma mulher que está grávida, deixei ela na Vila de Alagoas. Tive medo de vir com ela até aqui, porque é uma colona branca, filha de um baiano fazendeiro. Nos apaixonamos e fugimos.

— Que bom, meu amigo, fico muito feliz por você. Você será pai. Agora que nos achou, pegue alguns k’ilombolas e o que precisar e vá buscá-la.

— Não preciso de guerreiros, Grande N’ganga, é mais seguro eu ir sozinho. Só preciso de um cavalo e um homem que me guie até uma trilha conhecida.

— Está certo! Faça como lhe convém.

Antônio Soares, ao partir do sumidouro, foi atenciosamente gravando o caminho em sua cabeça. E, chegando a uma trilha que ele conhecia para Alagoas, disse ao jovem que o guiava:

— Pode voltar, meu irmão, a partir daqui sei como chegar a Alagoas. Muito obrigado!

Antônio Soares foi correndo a galopes até a Vila de Alagoas ter com Domingos Jorge Velho, e juntos planejaram uma emboscada para N’zambi. E Domingos Jorge Velho disse:

— Agora que ele está manco vai ser presa fácil.

— Não se engane, Capitão. Eu o vi em um só golpe derrubar doze homens que tentavam golpeá-lo.

— E como você acha que sozinho conseguirá golpeá-lo?

— Pelo seu gentil e doce coração, Capitão. — Respondeu Antônio Soares debochando. E juntos riram, zombando da beatitude.

Antônio Soares, acompanhado de Domingos Jorge Velho e uma tropa com cinquenta paulistas, parte para o sumidouro em plena noite de lua cheia, abrindo uma nova trilha mais segura paralela à trilha fixa. E, na madrugada, ao amanhecer, chegam às cercanias do sumidouro. Antônio Soares adiantou-se, e disse a Jorge Velho:

— Espere aqui, Capitão. Escondam-se por entre as árvores e pedras, vou tentar atraí-lo sozinho para cá.

N’zambi se encontrava solitário do lado de fora do sumidouro, em cima de uma grande pedra, apreciando a Grande Estrela, aquela que mais brilha. Sempre acordava antes do sol para contemplá-la em oração pedindo proteção. E, nos finais de tardes, voltava o seu olhar para o céu, procurando-a para agradecer pelas bênçãos e lições do dia. Aquilo não era uma adoração à Grande Estrela, e sim uma conexão com o mais Alto dos altos através do seu sinal nos céus. E, estando a observar a Grande Estrela, N’zambi fez uma prece envolto a um certo sentimento desconhecido que o arrodeava, e o ameaçava:

— Pai Primeiro e Mãe Primeira, sou sua pequena criança que não sabe ainda distinguir as maravilhas da sua Natureza Majestosa e os mistérios do seu Universo Magnífico. Sei que o povo alado, o povo invisível, o povo visível e o povo das estrelas um dia se unirão para combater o povo das trevas. Pai e Mãe Primeiro, eu pertenço à grande família das estrelas. Grande e Poderoso Espírito, peço que sua cura esteja em meu corpo e em minha alma. Energia Vivificante que a tudo dá vida e tudo sustenta. Ação sem palavras. Harmonia sem esforço. Equilíbrio de toda calma. Movimento de perfeito silêncio. Fonte de minha Fé e de todo meu Amor, nos corrija quando sempre estivermos errados. Tirai-nos a venda da ignorância do orgulho de todo ego humano. Não quero ser sábio do ego, e sim discípulo eterno na Terra que nos deste como nossa Ama. É nosso dever amá-la, pois nascemos para ser os filhos do húmus, que é a raiz da palavra humano, e aprender a tua humildade. Pois todo joelho deve se dobrar na terra, em seu louvor e em sua gloria. Pai e Mãe Primeiro, quando chegar o dia da minha partida deste mundo visível, que os povos das estrelas festejem o meu retorno para casa.

Antônio Soares, ao se aproximar do sumidouro, encontra o M’wene K’ilombo de costas, em cima de uma pedra, olhando para o céu. E, percebendo ser aquele o momento ideal apara apanhá-lo, foi até N’zambi e disse:

— Grande N’ganga, como está?

— Meu amigo, quão rápido chegou. Onde está sua mulher?

— Deixei ela descansando além das pedreiras lá na floresta. Tivemos uma longa caminhada até aqui, tive que pegar outra trilha para ser mais seguro. Venha comigo, vamos buscá-la.

N’zambi foi seguindo Antônio Soares e, ao chegar em um espaço aberto por entre as árvores e grandes pedras, Antônio Soares empunhou com muito cuidado o seu katar na mão direita e se voltou para N’zambi dizendo:

— Grande N’ganga, antes de pegar minha mulher, quero lhe dar um grande abraço em agradecimento. Pois estou muito feliz em revê-lo.

N’zambi olhou no profundo dos seus olhos e com um grande sorriso abraçou a morte dizendo:

— Seja bem-vindo!

Antônio Soares, ao abraçar o M’wene K’ilombo, rapidamente cravou o seu katar na barriga de N’zambi. Virou o seu punho e correndo se afastou, deixando o katar fixo na barriga do M’wene. N’zambi olhou para Antônio Soares e, com sangue escorrendo pela boca, disse:

— Irmão! Com um abraço você me trai.

De repente, ouve-se um tiro, e Antônio Soares cai no chão morto atingido por uma bala na cabeça. E os paulistas aparecem por detrás das árvores e pedras. E Domingos Jorge Velho diz:

— Capitão Zumbi dos Palmares, contemple o seu traidor sendo morto. Odeio traidores, mas foi graças a ele que Palmares e você caíram nas minhas mãos.

N’zambi, parado ali no meio, com um katar cravado na sua barriga e muito sangue escorrendo de sua boca, ficou com a visão embaçada. De súbito viu-se elevando acima dos homens, árvores e pedras, e toda aquela situação. E, voltando a si, caiu regressando para aquele momento doloroso. O M’wene, clamando por forças, partiu correndo em direção aos paulistas, e atacou cinco homens derrubando-os com apenas uma rasteira.

Domingos Jorge Velho, ao ver aquilo, apavorou-se! E disse:

— Atirem, homens! Ele está endemoniado.

E uma chuva de balas molhou o corpo do M’wene K’ilombo, que nada sentia, indo fortemente em ataques corporais contra os paulistas. Até que, lutando, percebeu-se novamente se elevando para uma forte luz, em direção ao mais Alto dos altos. E, sendo ainda mais cravejado de balas, caiu.

Os paulistas rapidamente degolaram N’zambi, que conseguiu, mesmo ferido e em grandes desvantagens, matar vinte homens. Indo contra eles enquanto estava sendo cravejado de balas, sendo que também as balas atingiam os outro a quem ele se aproximava. E Domingos Jorge Velho disse:

— Esse negro realmente teve pacto com o capeta. Balas não o matavam! Ainda bem que levei as balas para que o padre pudesse abençoar. Homens! Quero que tirem a piroca dele e ponham em sua boca. Isso é pelos meus homens que hoje ele matou.

E, como dito, foi feito. Além disso, Domingos Jorge Velho mandou esquartejar todo o corpo do M’wene K’ilombo, e colocaram os pedaços em dois sacos de fibra de cânhamo, para alimentar os seus cachorros. Era alimentando os cachorros com a carne crua dos negros e nativos que os capitães do mato, bandeirantes e paulistas adestravam os seus cães para a caça destes.

Domingos Jorge Velho leva a cabeça de N’zambi para Recife, entregando aos cuidados do governador, D. Caetano de Melo e Castro, que mandou salgar e espetar a cabeça em uma grande vara de pau, expondo esse troféu no meio da praça pública mais movimentada da vila. Assim, D. Caetano de Melo e Castro conseguiu realizar o que todos os outros governadores pernambucanos tentaram e não conseguiram. Seu triunfo não foi só o fim de Palmares, mas a morte do seu líder, que diziam ser imortal.

Os colonos fizeram procissões com os seus negros escravizados pela praça, caminhado ao redor da cabeça do líder negro k’ilombola para os humilhar. E, ao lado do poste que erguia a cabeça do M’wene K’ilombo, havia um homem que vigiava a cabeça e que era pago para ofender os negros que ali iam:

— Vejam a cabeça de Zumbi dos Palmares. Vocês acreditavam ser esse negro imortal, mas olhem ele aqui. Esse negro era possuído pelos demônios, por isso fazia tais façanhas que vocês divulgavam. Mas, com as bênçãos de deus, o nosso abençoado Capitão-Mor e o nosso abençoado Governador nos livraram desse capeta. É isso que vai acontecer a todo negro e negra que tentar fugir e se rebelar.

Todos os africanos e africanas, ao verem a cabeça do descendente dos antigos M’wene Kongo espetada numa vara de pau, com o seu órgão sexual enfiado na boca, ficaram apavorados e revoltados, e ali mesmo eles decidiram lutar indo em grande violência contra a guarda colonial. E muitos negros e negras foram mortos, cravejados de bala. Então, os seus senhores pararam de levar os negros para olharem a cabeça. E julgaram-na amaldiçoada, trazendo revolta aos negros que a olhavam. E pediram ao governador que tirasse a cabeça de Zumbi dos Palmares daquela praça, pois era via de acesso para todas as partes da vila. O governador, atendendo ao pedido do povo, mandou tirar a cabeça e jogar numa fogueira, para ser excomungada e queimada pelos inquisidores padres católicos.

No entanto, Fernão Carrilho, a pedido da sua mulher, Maria Paim, vai até Recife pedir ao governador a cabeça de N’zambi. Dizendo ele ser importante ter a cabeça do homem que o derrotou e o humilhou muitas vezes. Além de oferecer dez moedas de prata e duas de ouro pela cabeça, com a posse da cabeça de N’zambi Carrilho regressa para o Ceará entregando-a a sua esposa.

Dandara pega a cabeça de N’zambi, envolve em faixas de pano com um unguento feito com arruda, alecrim, lavanda e óleo de coco. Vai a uma montanha alta, cava um buraco no solo, coloca a cabeça do seu amado e diz:

— Meu Amor, agora você está livre! E também trago você dentro de mim.

Ela disse isso, pois estava grávida de N’zambi, sendo o último mês de gestação. Com muita calma Dandara foi jogando terra no buraco, e, ao tampá-lo, distraidamente lançou seu olhar para o céu vespertino encontrando a solitária Estrela, aquela que mais brilha. E lembrou-se das palavras do seu Amor, e sabia que ele a vigiava e a protegia junto ao Povo Alado das estrelas.

Maria Paim tornou-se professora como a sua avó Branca Dias, e teve outros filhos com Fernão Carrilho, que era Capitão-Mor do Ceará. Carrilho apaziguou as guerras entre os nativos do Ceará, sendo bem-visto por eles por sua justiça e não violência. Depois, Fernão Carrilho se tornou governador da Capitania do Maranhão por três anos. Abandonou o cargo de governador a pedido da sua esposa Maria Paim, indo eles habitar os interiores do Brasil, nos trechos da Capitania de São Tomé e da Capitania de São Vicente, com objetivo de viver longe das metrópoles, voltando à vida nativa. Carrilho amava Maria Paim, e Maria Paim aprendeu a amar Fernão Carrilho, e juntos viveram unidos educando os seus filhos com simplicidade, junto aos povos nativos das florestas.

Muitos africanos escravizados evocavam o nome do comandante guerreiro N’zambi em suas preces, para pedir proteção na hora da fuga. N’zambi de herói se tornou orixá, cultuado pelos africanos e seus descendentes no Novo Mundo. Os k’ilombolas resistiram nas regiões dos mokambos dos Palmares ainda por muito tempo, sendo totalmente exterminados quase dois séculos depois da morte de N’zambi. O K’ilombo virou símbolo de uma comunidade política permanente e ecologicamente organizada, ativista e sustentável. Sendo um movimento libertário que provocou uma grande mudança sociocultural, através da união dos muitos povos e suas diferenças. Solapou significativamente o sistema escravagista de sua época, deteriorando suas bases nos diversos níveis de subsistência, influindo poderosamente para que o sistema escravocrata da época entrasse em crise, até ser substituído por outro sistema culturalmente escravagista, com o início do capitalismo industrial. Onde os k’ilombos viraram favelas. As senzalas passaram a ser escolas, hospitais e cárceres. Os escravos vestiram as fardas de operários. O policial assumiu ser o antigo capitão do mato. E o político permaneceu como o senhor na casa-grande do senado. Movimentando o imenso Engenho Real chamado Brasil, que desde o seu início e fundação ainda continua a suprir as prioridades e necessidades do mercado estrangeiro.

Aquele que tinha sido o descendente dos antigos Povos Mandês, dizendo ser o único guardião ainda vivo da antiga linhagem ancestral, daqueles que fizeram e estabeleceram o Grande Pacto. Assumindo ser um mestre griot dos Povos Mandinkas, motivo pelo qual era respeitado e considerado por todos os povos africanos que foram escravizados e forçadamente trazidos dos diversos reinos da Terra-Mãe África para as terras do Novo Mundo, regressou a Palmares.

E, posto de pé sobre as cinzas do que era a N’gola N’janga, olhou para o céu e deslumbrou o desaparecimento da Grande Estrela matutina, ofuscada pelo nascimento do sol, e disse:

— Rabbī, você me mandou regressar para que eu presenciasse mais uma vez essa grande desolação. Até quando isso vai durar, Rabbī?

E o Cordeiro, que estava ao seu lado, disse:

— Yôḥānān, ainda muita destruição há de vir, uma sempre pior do que a outra. E isso perdurará até que venha o Último que foi o Primeiro, o filho daquela que mais brilha. Sendo ele o terceiro da trindade, que carregará o meu Espírito, e falará de mim, porque colocarei as minhas palavras na sua boca. Aquele pelo qual em tempos passados falei que enviaria, sendo este o Consolador. O espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Quando vier, porém, o espírito da verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir.

— Mas Rabbī, há muito tempo venho eu preparando muitos homens para que o seu Espírito possa habitar. Porém, o mal vem consumindo a todos. De quem é a culpa, minha ou deles?

— Não há culpa e nem culpado, Yôḥānān, apenas não é a hora e nem o momento. O mundo muda constantemente, apenas sobrevivendo de graça e mendigado esperança. Mas Aquele que tem os meus mandamentos e os guardar, esse é o que me ama, e aquele que me ama será amado pelo meu Pai-Mãe, e eu também o amarei e me manifestarei nele. Porque ele me amou, guardou a minha palavra, e meu Pai-Mãe o amou, e viremos para ele e faremos nele morada.

— E agora, Rabbī, para onde vou? E que novo personagem agora hei de vestir? Na Europa fui o Conde de St. Germain, no norte da África, em Abissínia, fui Preste João, e agora no Novo Mundo o preto velho griot Djeli. Quem mais serei no futuro?

— Sobe para as terras do norte do Novo Mundo, farei de lá uma grande nação e potência que culturalmente colonizará o mundo inteiro. E de lá, depois de um grande holocausto, virá a ordem para que os diversos povos dispersos da estrela do norte da África possam regressar para sua terra. Assim, nesse tempo, construirei novamente o que foi destruído, e erguerei de novo o que foi derrubado.

— Rabbī, enquanto ao Consolador, último filho daquela que mais brilha, encontrarei ele nessa nação aonde agora eu vou? Porque tu nos prometeste, dizendo: “Convém que eu vá, porque se eu não for, o Consolador não virá para vós, mas se eu for, eu vos enviarei”. Me desculpe pelos meus questionamentos, Rabbī, já estou cansado de ver ao longo desses quase dois mil anos todos os meus amados pupilos serem cruelmente assassinados, assim como foi agora N’zambi. Muitas vezes, Rabbī, preferi morrer no lugar deles. Porque eles morrem muito jovens, enquanto eu vivo demasiadamente.

— Yôḥānān, ainda não é permitido saber o tempo em que virá o terceiro e o último, para que nele juntos, Eu e meu Pai-Mãe possamos habitar. Ainda você presenciará muitas histórias tristes como essa, e muitos filhos da Grande Estrela nascerão, e cruelmente morrerão. Pois este é o destino dos filhos daquela que mais brilha, ascender maravilhosamente solitário no final de tarde, imperar na noite magnificamente como a mais luminosa de todas as estrelas, e depois ser ofuscados pela glória do nascer do sol. Apenas, meu amigo, te alegra com o fato que um dia encontrarás aquilo que tanto procura. Como já disse, não vos deixarei órfãos, voltarei para vocês. E eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Pois, Yôḥānān, o que te importa? Se eu quero que você permaneça até que eu venha.

 

 

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FIM DO VIGÉSIMO SEGUNDO E ULTIMO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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