O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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26. Capítulo 21 - ש (SHIN) A CONSUMAÇÃO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ש

SHIN

A CONSUMAÇÃO

 

A situação foi favorável para N’zambi e os seus guerreiros k’ilombolas. Domingos Jorge Velho, ao tentar combater o K’ilombo dos Palmares à sua maneira pela força e arrogância, precipitadamente fracassou.

N’zambi, em sua vitoriosa estratégia, percebeu que ainda não era o momento para um combate avassalador. Ele poderia muito bem dizimar as tropas paulistas dentro daquele cerco de paliçadas. Porém, limitou-se a exercer uma certa influência, através da sua persuasão como um líder comandante guerreiro de grandes tropas. Contendo aquele tenso momento com sabedoria, ponderando aquela situação, sem se deixar arrastar pelos desejos impulsivos da vitória, não agravando o derramamento de sangue pela raiva ou vingança.

Diante daquela rápida vitória, a ansiedade e tensão emocional de N’zambi cessou por meio de uma atitude inteligente e ao mesmo tempo hostil. Trouxe a situação de volta ao normal no seu reino, desmitificando os incombatíveis paulistas. Agiu depressa diante daquela situação intolerável, resolvendo com muita facilidade e perspicácia sem retaliações. Por isso não fora rígido com os paulistas, provocando neles um senso de admiração. Não se vangloriou diante deles, fazendo a diferença perante o seu inimigo brutal, apenas fez o que tinha de ser feito completando o seu ofício libertário.

Domingos Jorge Velho se retirou arrasado, nunca sofreu uma derrota antes. Contemplou a sua humilhação em silêncio, e seus pensamentos rodearam todos os aspectos daquela derrota. Foi egoísta ao ponto de desenvolver uma parcialidade, sendo incapaz de analisar a situação de compreender que Palmares era algo novo a ser combatido. Não procurou estudar a situação por inteiro para adquirir os conhecimentos necessários para sua campanha expedicionária. Voltando em grande humilhação para o povoado de Porto Calvo.

Dois anos se passaram depois da humilhante derrota paulista, e o K’ilombo dos Palmares se fortificava mais e mais. Foram dois anos tensos de puro silêncio, sem expedições por conta dos colonos e retaliações por parte dos k’ilombolas. Domingos Jorge Velho agora estava determinado a destruir Palmares, já não era mais por motivos de riquezas, bens e posses. Agora seu combate era pessoal.

Jorge Velho pela primeira vez se sentiu confrontado por forças que ameaçavam a sua convicção de ser um capitão paulista imponente, capaz de concretizar facilmente todos os seus mais ambiciosos objetivos. Nunca se permitiu ser arrastado passivamente por circunstâncias tão humilhantes e desfavoráveis, que lhe causaram inúmeros transtornos em um tremendo abalo interno. A imagem da figura derrotada que cabisbaixa retornou ao povoado de Porto Calvo o lastimava constantemente em uma nuvem incansável de maus pensamentos. Não conseguia apagar da memória a humilhante reunião que teve com os maiorais pernambucanos, tendo que explicar e relatar sua derrota, e a perda de muitas armas e munições.

Entretanto, agora jurou para si mesmo exterminar Palmares do mapa da capitania pernambucana. Jorge Velho, pelo seu extremo ego, buscou se superar conservando a vontade de vingança e a superação da derrota. Ocultou-se e resguardou-se de tudo que podia lhe distrair para conseguir elaborar um plano perfeito. Dessa vez foi cuidadoso e muito discreto em suas investigações a respeito dos negros alevantados. Pois, pelo erro compreendeu que estava à frente de uma poderosa batalha de guerra, jamais vista nas terras do Novo Mundo.

Quando se julgou apto para comandar mais uma grande expedição a Palmares, Jorge Velho se reúne com o atual governador da Capitania de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, que substitui o Segundo Marquês de Montebello. Também contou com o apoio pessoal do Rei de Portugal e Algarves, da Dinastia de Bragança, o monarca D. Pedro II, apelidado como “o Pacífico”.

O Rei D. Pedro II estava determinado a aniquilar Palmares. Porque dois anos depois de tomar a posse do trono português, para justificar o seu título monárquico de “o Pacífico”, ele tinha escrito pessoalmente uma carta de perdão e pacificação para N’zambi e os palmarinos, que dizia: “Eu, El-Rei, faço saber a vós, Capitão Zumbi dos Palmares, que hei por bem perdoar-vos de todos os excessos que haveis praticado, e que assim o faço por entender que vossa rebeldia teve razão nas maldades praticadas por alguns maus senhores em desobediência às minhas reais ordens. Convido-vos a assistir em qualquer estância que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos os vossos capitães, livres de qualquer cativeiro ou sujeição, como meus leais e fiéis súditos, sob minha real proteção”.

Essa carta, que nunca chegou às mãos do líder palmarino, foi sabotada pelo governador D. João da Cunha Souto Maior, que, ao lê-la, achou a atitude do Rei insana, queimando a carta imediatamente. Depois, passado algum tempo, enviou uma carta em resposta ao rei, mentindo que a comitiva de trinta homens do soldo colonial, que ficou responsável de entregar a carta a Zumbi, foi totalmente esquartejada e suas cabeças enviadas ao palácio governamental pernambucano. O que despertou a ira do monarca português, jurando dispor de todos os recursos bélicos para destruir aquele refúgio dos negros.

N’zambi fica sabendo através do seu serviço de informação formado por simpatizantes negros de dentro que o paulista Domingos Jorge Velho começou a organizar uma nova campanha. E que alistou em sua tropa quatro mil nativos, dois mil negros e um pouco mais de mil homens brancos. Todos bem armados e treinados. Dessa vez N’zambi sabia que essa expedição viria para o K’ilombo com toda força e raiva. Então, reuniu todos os seus guerreiros Mazômbos, os líderes dos kraais e chefes do mokambos na Cerca Real dos Macacos, e disse perante a sua assembleia k’ilombola:

— K’ilombolas! Habitantes da N’gola N’janga, temo que logo enfrentaremos a maior guerra contra os colonos. Precisaremos de todos os homens e mulheres jovens e fortes. Desta vez batalharemos desde as entradas das baixadas, para evitar que os colonos cheguem em grande massa até os nossos portões. Uma campanha com mais de sete mil homens vem contra nós, sob a liderança dos paulistas. Todos devem ir à guerra, ou todos morreremos. O paulista Domingos Jorge Velho é o sertanista mais hábil que existe, nestas terras do Novo Mundo, e, depois daquela derrota, creio que ele virá como um touro selvagem. Essa será a nossa batalha mais difícil. Porém, juntos somos fortes! Se permanecermos unidos em um só coração, sempre a N’gola N’janga estará protegida.

Dentre os participantes estava o comandante Antônio Soares, que não estava nada satisfeito com a sua posição nas tropas k’ilombolas. Antes de N’zambi se tornar um M’wene K’ilombo, Antônio Soares era o seu braço direito e comandante-chefe das suas tropas nos antigos mokambos de Tabocas, que deram formação ao extinto Mokambo de N’zambi. Mas, agora habitando a Cerca Real dos Macacos, limitou-se apenas a ser um protetor pessoal de N’zambi, não usufruindo de muita influência militar ou política.

Pois N’zambi, depois que assumiu o trono da N’gola N’janga, não desconstituiu nenhum Mazômbo ou comandante de tropas da sua função e seu cargo. E, depois da morte do seu tio N’ganga N’zumba e da destruição de Cucaú, quando os seus primos guerreiros voltaram a habitar o K’ilombo, constitui-os como os mais altos chefes do exército k’ilombola. Não restando cargos importantes dentro da sociedade k’ilombola para que Antônio Soares ocupasse. Já que ele não possuía sangue real, e nem fez algum ato heroico que o elevasse ao cargo de Mazômbo, Chefe dos Mokambos.

Cansando de ser tratado como um qualquer, apenas com poucos privilégios dentro da Cerca Real dos Macacos, Antônio Soares decide ir ter com os paulistas dizendo passar de lado. Exigindo apenas perdão da coroa portuguesa, carta de alforria e anistia para voltar a viver nas vilas ou povoados da colônia, exercendo o cargo de capitão do mato. Periodicamente Antônio Soares chegava a Porto Calvo em disfarces, à procura do paulista Domingos Jorge Velho, e em um desses encontros disse:

— Capitão Jorge Velho, está tudo como planejado, no momento certo abaixarei as portas do calabouço.

— Como você fará isso sem que N’zambi note a sua ausência, já que você é o seu fiel escudeiro?

— Corrompi duas sentinelas Capitão, em troca de cartas de alforria e terras para o plantio e animais. Além de dar quatro moedas de ouro a cada um com antecedência.

— Muito bem! Agora volte para lá, e tome cuidado para que ninguém o veja.

Domingos Jorge Velho bem que poderia ter mandado Antônio Soares matar N’zambi. Mas isso seria muito fácil, e não saciaria a sua sede de vingança. Fazendo isso, seria uma covardia e até falta de ética militar, depois que N’zambi permitiu que ele saísse vivo daquela humilhante batalha. Jorge Velho criou uma certa admiração pelo comandante guerreiro de Palmares. O qualificou como sendo o mais forte e hábil capitão do Novo Mundo. E, por isso, era importante vencê-lo e humilhá-lo numa grande batalha, assim como ele também o fez. Só assim Domingos Jorge Velho estaria em paz consigo mesmo, derrotando o seu vencedor. Pagando-o com a mesma moeda, para que N’zambi pudesse sentir a amargura que ele sentiu em sua humilhação. Através do seu informante Antônio Soares, Jorge Velho procurava conhecer mais N’zambi e sua estratégia de guerra. Para Jorge Velho, o mais importante agora era conhecer o seu inimigo, porque dizia a si mesmo: “Eu falhei, não porque não me conhecia. Falhei porque não conhecia o meu inimigo. Eu sei quem eu sou e do que eu sou capaz. Mas não sei quem é o meu inimigo e do que ele é capaz. Tenho que conhecê-lo. Só assim serei vitorioso”. Por isso, Domingos Jorge Velho deu tempo ao tempo, e pacientemente esquematizou sua expedição.

Mais uma vez o clima no K’ilombo estava agitado e tenso. N’zambi convoca todos os guerreiros e guerreiras k’ilombolas para se reunirem na Cerca Real dos Macacos. Muitos k’ilombolas abandonaram os kraais menos protegidos, incendiando-os ao partirem. Ninguém sabia o dia em que os colonos iam atacar. Apenas sabiam que atacariam mais cedo ou mais tarde com um poderio bélico extraordinário.

Era uma noite sem lua com um céu esplendorosamente estrelado, em que estrelas cadentes riscavam a sua imensa escuridão, N’zambi se encontrava solitário no sobrado da sua casa real, meditando como de costume ao encarar a Grande Estrela, aquela que mais brilha. Seus filhos já se encontravam dormindo, e Dandara preparava um saboroso café, em uma das kubatas da casa. N’zambi começou a sentir um imenso vazio por dentro que sufocava o seu coração. Um aperto na alma, um vazio espiritual incompreensível. Ele sabia que o K’ilombo estava em grande perigo, e encarando a Grande Estrela rogou pela ajuda dos seus ancestrais, e principalmente do Pai e Mãe de Toda a Criação.

Nesse ínterim, Dandara vai ao seu encontro levando dois copos de barro de café com canela. E, percebendo a aflição no rosto do seu amado, disse lhe dando um dos copos:

— Tome, Meu Amor, sente-se e acalme-se.

— Na verdade estou aflito, sinto um punhal atravessando o meu coração. Uma agonia e ansiedade incompreensível. É como se o peso do mundo estivesse sobre os meus ombros. Acho que foi esse sentimento que o Cordeiro sentiu naquele jardim, quando foi traído por um dos seus. — Disse N’zambi ao se sentar do lado de Dandara, e continuou:

— Meu Amor, temo o fim da N’gola N’janga nesta guerra, e se não for nessa batalha será na próxima. Pois Portugal agora interveio para nossa destruição. Quero que você e meus filhos saiam daqui imediatamente. Vocês não merecem morrer ou sofrer nesta guerra.

— Jamais abandonarei você e a N’gola N’janga, Meu Amor. Não sou covarde, e não vou deixar você sozinho agora. — Disse Dandara acariciando o rosto do seu amado.

— É preciso que você faça isso pelas crianças, e por mim. — Disse N’zambi segurando forte a mão da sua amada.

— E eu. Como me sentirei em ter que te abandonar em tamanha covardia, nesse momento em que você mais precisa de mim? Veja o seu estado, Meu Amor, não posso te abandonar agora.

— Prefiro sofrer vendo você viva e distante de mim, cuidando da minha descendência, do que te ver ao meu lado, sendo morta por esses bárbaros paulistas. Estou pedindo para que você se retire, Meu Grande Amor, e isso não é o mesmo que fugir. Na fuga, abandona-se o que mais se ama, e preza-se apenas a salvar a si mesmo, sem medir as consequências. Já a retirada é um sinal de força e inteligência. É uma decisão de puro bom senso, de se fazer o que é certo no momento adequado e justo. Seja sensata, querida, você agora tem a maior missão do mundo que é a de cuidar, educar e preparar vidas para que sejam os portadores da luz neste mundo de trevas. Os nossos filhos e filhas dependem unicamente de você agora. É como na guerra, querida, quando nós nos retiramos de uma batalha desvantajosa, podemos planejar um contra-ataque para burlar o inimigo. Sei que essa decisão não é fácil, mas você compreenderá com o tempo que tomou a atitude mais prudente.

— Mas, para onde vou? — Disse Dandara o abraçando.

— Para o Ceará. Já preparei tudo. Você e as crianças irão para casa de Fernão Carrilho. Fizemos um pacto um tempo atrás em uma de nossas caçadas. E ele me prometeu cuidar de você e de meus filhos. Se algo acontecer comigo, quero que se junte a ele, você tem minha permissão.

— Como você pode me falar essas coisas?! Querendo que eu me junte a outro homem? — Disse Dandara revoltada, olhando no profundo dos seus olhos.

— Você acha que é fácil para mim dizer isso? Será perigoso para você ser uma mulher solteira na colônia com filhos mestiços. Também, Carrilho me confessou que te admira e que cuidará muito bem de você e das crianças, assim como eu te cuido.

— Mas eu não sinto nada por ele, e nem me imagino com outro homem. Você é minha vida, e não sei se viverei sem você.

— É preciso, querida, é preciso! Com o tempo você aprenderá a gostar dele, ele é um bom homem. Eu o amei, e o considero como meu melhor amigo e irmão. Ele é um capitão influente, e você e as crianças ficarão em segurança.

Dandara começou a chorar fortemente nos braços de N’zambi. Nunca amou outro homem antes, e não imagina se separar do seu amado dessa forma. Juraram viver até a morte juntos, e morrer juntos nem que seja sob o fio da espada portuguesa. Mas viu que era preciso sacrificar o seu amor pelo bem-estar dos seus filhos. Por isso chorava nos braços do seu amado desesperadamente.

N’zambi, também chorando, a abraçou forte dizendo:

— Minha Amada! Amor de minha alma. Mesmo que os nossos corpos se separem, nossos corações estarão sempre ligados pelos laços do espírito. Olha para aquela Grande Estrela lá no céu todas as manhãs e todas as tardes. Naqueles dias puros em que ela aparecer, e você naturalmente se voltar para ela, eu estarei te observando. No fundo sabíamos de tudo isso que veio acontecer, procuramos evitar tais lembranças. Você mais do que eu sabia, pois você profetizou isso. Eu lutarei pela N’gola N’janga até a morte, pois é minha missão, e por mais que eu não queira, tive que aceitá-la. O bem-estar de minha família é agora tão importante quanto a minha missão aqui na N’gola N’janga. Dos dois lados, agora me sacrifico. Seja perseverante, Minha Amada, estou te deixando em boas mãos. Um dia, em tempos futuros quando a paz reinar, nossos espíritos novamente habitarão esse templo de carne, e novamente nos reencontraremos, e novamente nos conheceremos. Dessa vez, não haverá mais guerras, e se houver, será em reinos distantes, de que só ouviremos falar. Os espíritos dos nossos filhos e entes amados voltarão a habitar conosco. Juntos seremos uma só família, e enfrentaremos todas as adversidades da vida, sendo vitoriosos sempre e sempre. Dificuldades virão, mas só para nos fazer mais e mais unidos, mais e mais fortes, e o mal e a desgraça não nos tocarão. E depois nos despediremos dessa vida, com suas dores, seus amores, suas felicidades e seus sofrimentos para sempre, voltando a habitar com os nossos ancestrais alados na casa do nosso Pai e Mãe amados. Que assim seja, Meu Amor, que assim seja.

— E quando você quer que eu parta com as crianças?

— Amanhã.

— Amanhã?!

— Sim!

— É muito cedo, Meu Amor.

— Amanhã acompanharei vocês até Subupira, Carrilho estará lá te esperando. Talvez essa será nossa última noite.

— Então, se essa é minha última noite com você, quero que me dê mais um filho. Assim, parte de você agora estará comigo, dentro de mim.

Ao dizer isso, Dandara lentamente se despiu aos olhos noturnos da noite, se entregando por completa ao seu amado. Juntos passaram a noite iluminados pelos corpos celestiais e cobertos pela brisa noturna, aquecendo os seus corpos nus um no outro, em uma dança de amor sublime.

Na manhã seguinte, N’zambi e Dandara preparam as mulas com mantimentos e alguns pertences, e aprontam seus filhos partindo para Subupira. Chegando lá, N’zambi encontra Carrilho e uma comitiva de dez homens fardados com as roupas do soldo colonial, todos montados a cavalo, e os cumprimentando disse:

— Saudações, meu amigo, quem são estes?

— Não se preocupe! São homens de minha confiança. Há muita movimentação dos paulistas nessas bandas, e era perigoso para mim e para sua família cruzar essas matas sem proteção.

— Agora minha família é sua família, meu amigo.

— Ainda não, N’zambi. Enquanto você estiver vivo ela é sua, eu apenas estou protegendo. Porém, assim que Dandara chegar no Ceará eu vou ter que me casar imediatamente com ela, pois não posso levar uma mulher para minha casa sem primeiro me casar.

— Eu sei disso, meu amigo, fui coroinha esqueceu? — Disse N’zambi dando um leve sorriso, e continuou:

— Pegue isso! É muito importante, nesse cano está a carta de registro de Dandara, ela é uma cristã-nova. Também essa mula desmontada está repleta de ouro e prata. Faça como combinamos, já expliquei a ela todo o engodo. Ela sabe o que dizer.

Carrilho pegou o cano com a carta de registro de Dandara das mãos de N’zambi e também a corda em que puxava a mula carregada com riquezas, o abraçou, e foi saudar Dandara e seus filhos, dizendo:

— Não se preocupe, Dandara, me casarei com você no papel. Mas te respeitarei sempre, enquanto seu marido viver você será dele. E, se por acaso ele morrer, você terá sua liberdade, pois lhe darei o divórcio para que vivas aonde e com quem quiser.

— Dandara morrerá com N’zambi, porque Dandara foi o seu único amor. Eu quero que me prometa que jamais me chamará por esse nome. Você se casará com Maria Paim, a cristã-nova judia. Seguirei as palavras de pedido do meu marido, se ele morrer serei sua mulher, e me entregarei a você neste corpo e nessa vida. Porque N’zambi assim quis.

— Disse Dandara em tons fortes e decidido de voz, olhando nos olhos de Fernão Carrilho.

Então, Carrilho pega as mulas com Dandara e as crianças, integrando ao seu bando. N’zambi abraça pela última vez os seus filhos, e com um olhar profundo mira os olhos de Dandara.

A bela moça de cabelos grandes, olhando para N’zambi enquanto a comitiva lentamente partia, retirou um colar de sementes de seu pescoço e arremessou aos pés do seu amado, dizendo e repetindo em alta voz as instruções dadas a ela pelo seu marido:

— Maria Paim foi sequestrada pelos k’ilombolas quando pequena. Seus pais foram mortos, e ela foi obrigada a se casar com Zumbi dos Palmares. Por isso, ela tem filhos mulatos. Com a agitação da guerra Maria Paim fugiu com os seus filhos, se livrando de anos de cativeiro e opressão no refúgio dos negros alevantados. Dandara morreu no K’ilombo lutando ao lado do seu amor, porque Dandara era negra de alma. Maria Paim, a mulher branca, viverá na colônia, cuidará dos seus filhos mulatos e terá outros filhos arianos com o sertanista Fernão Carrilho...

N’zambi, ao ouvir aquelas palavras provocadoras, ficou paralisado vendo Dandara e seus filhos partirem. As palavras de Dandara penetraram o seu doloroso coração como uma faca afiada. N’zambi já não tinha mais lágrimas para chorar, e quando os seus olhos não mais avistaram a sua família, voltou-se para o chão vendo o colar de sementes de sua amada. Agachou-se lentamente pegando o colar, o beijou e pendurou ao seu pescoço. E, com a partida da sua amada e de seus filhos, o seu coração esvaziou-se, e voltando os seus olhos para a direção da N’gola N’janga, um fogo tomou conta do seu ser, mesmo não querendo, o ódio o dominou, preenchendo o vazio do seu coração, e naquele momento jurou massacrar as tropas colonas.

N’zambi monta seu cavalo regressando à Cerca Real dos Macacos e, ainda estando em Subupira, ele avista quatro cavaleiros vindo em disparada em sua direção. Ao se aproximarem, N’zambi reconheceu que eram os seus fiéis comandantes N’kanga, Miala, Toko e M’panzu. E antes que eles pudessem abrir a boca, N’zambi lhes disse:

— Os paulistas estão vindo, né?

E M’panzu disse:

— Sim! Grande M’wene, eles derrotaram as nossas forças nas baixadas, e estão vindo em grande número de homens.

— Vamos interceptá-los. E os nossos comandantes guerreiros? — Perguntou N’zambi.

— Acaiene, Toculo e N’zambi já deram as devidas instruções e estão todos em formação esperando só a sua chegada. — Disse Miala.

— Toko, venha comigo para a Cerca Real. Miala, M’panzu e N’Kanga, vão em todos os kraais dispersos, e juntem todos os homens e mulheres fortes para fortalecer as retaguardas. Vamos, k’ilombolas, agora começará a maior batalha de nossas vidas. Avante! A N’gola N’janga precisa da nossa força e coragem.

Pronunciado essas palavras encorajadoras, N’zambi e Toko partem rapidamente em galopes para a Cerca Real dos Macacos, enquanto M’panzu, Miala e N’Kanga vão agrupar os k’ilombolas nos kraais periféricos.

Ao chegar à Cerca Real, o M’wene K’ilombo encontra todos os seus guerreiros agrupados, sob a liderança dos filhos de N’ganga N’zumba. Toculo rapidamente se aproxima e diz:

— Grande N’ganga, os colonos burlaram os nossos guerreiros nas baixadas, os surpreendendo por detrás. Todos foram mortos, escapando apenas Antônio Soares que comandava as tropas.

— Alguém contou os nossos planos para eles. Temos um traidor entre nós, nossa tática já não vale de mais nada. Agora vamos atacar de frente, prepare os homens para os ataques aéreos. Temos muitas armadilhas nas florestas. Vamos esperar que eles se aproximem até a metade da subida e atacaremos. — Disse o M’wene.

E, se posicionando à frente da sua tropa, o M’wene K’ilombo começou a dar as seguintes ordens:

— Acaiene, você cuidará dos arqueiros e lançadores de pedras nos muros da N’gola N’janga. Prepare as bestas com as pedras e os homens com as zarabatanas. Ao ver os colonos se aproximarem, comece o ataque. Toculo, N’zambi e Antônio Soares venham comigo. Vamos com as tropas para fora dos muros, e aguardaremos os colonos na subida. M’panzu, Miala e N’Kanga estão convocando mais guerreiros para nos dar a retaguarda. Vamos, k’ilombolas!

Então, em muitos gritos, mais de dez mil guerreiros, entre homens e mulheres, avançaram rapidamente em grande marcha para fora dos muros da N’gola N’janga. As tropas k’ilombolas se posicionaram na subida da montanha, que dava acesso para os portões da Cerca Real dos Macacos. Todos estavam parados observando as baixadas, e N’zambi disse:

— Homens e mulheres k’ilombolas, não temam os nossos inimigos. É muito melhor morrermos neste campo de batalha, salvando o nosso legado libertário que é a N’gola N’janga, do que sermos aprisionados e escravizados por esses demônios paulistas. O nosso legado é de paz e liberdade, e é pela paz e liberdade que derramaremos os nossos sangues nesta batalha. O que temos a perder, k’ilombolas? Saibam que só temos a ganhar. Amanhã! Os nossos descendentes ouvirão essas histórias de coragem, e se espelharão em nós, quando os opressores do seu tempo os escravizarem. Hoje nossa história é de luta e sangue, amanhã nossa história será de consciência e valorização da vida, pela igualdade de todos os povos, sem discriminação alguma.

E todos gritaram em uma só voz:

— Lutaremos pela N’gola N’janga! Derramaremos o nosso sangue por nossa liberdade! Lutaremos por nossa descendência k’ilombola! Lutaremos pelo nosso M’wene K’ilombo N’zambi!

Os paulistas, depois que derrotaram as tropas k’ilombolas comandadas por Antônio Soares nas baixadas do Outeiro da Barriga, sobem apressadamente os morros florestais em direção a Palmares. Enquanto sobem, imensos troncos pendurados por cordas são arremessados das copas das árvores, dizimando os colonos que sobem pelas trilhas, e uma chuva de flechas caem sobre os colonos. Domingos Jorge Velho, ao ver isso, diz aos seus homens:

— Homens! Preparem os bacamartes de armaduras!

E os homens de Jorge velho posicionaram os bacamartes de armaduras com sua coronha para o chão, mirando sua boca de sino para as copas das árvores, atirando uma chuva de chumbo grosso derrubando inúmeros k’ilombolas. Jorge Velho tinha trazido esses poderosos bacamartes de artilharia naval estrategicamente. Pois eram tão pesados, que seria impossível um homem apoiá-lo pelo ombro, senão, somente fixá-los ao chão para combater as táticas aéreas k’ilombolas.

Depois que artilharia abriu caminho, as tropas colonas iam cada vez mais se aproximando do K’ilombo do Palmares, até avistarem morro acima as tropas palmarinas. E, avançando contra as tropas palmarinas, os colonos caíram em inúmeras valas camufladas, em que farpas de pau afiadas cravaram em seus corpos. Mais de mil homens das tropas de Jorge Velho morreram espetados nas valas.

Diante disso, os k’ilombolas avoaçaram contra as tropas colonas. Jorge velho organizou sua artilharia, que dizimou inúmeros k’ilombolas. Porém, quanto mais atiravam, mais os k’ilombolas avançavam corpo a corpo para as batalhas. Jorge Velho, percebendo a sua desvantagem, grita para os seus homens:

— Homens, partam em retirada!

E, aos poucos, sempre atirando contra os k’ilombolas, os colonos se retiraram até as matas densas, onde armaram um acampamento. Tudo saiu como planejado para o paulista Domingos Jorge Velho. Seu plano dera certo. O objetivo do paulista era ganhar espaço em direção a Palmares, sua tática era territorial. Quanto mais se aproximava dos portões das muralhas do Macaco, mais chance ele teria de derrotá-los.

Depois dessa batalha, N’zambi convoca os seus mais fiéis súditos para uma reunião, e diz:

— Apesar de recuarem, os paulistas foram vantajosos nessa batalha. Eles agora estão em grande número, acampados perto de nós. Temos um informante entre nós. Pois Jorge Velho estava preparado para todas as nossas táticas. Isso me preocupa muito. Só seremos vencidos se ficarmos divididos.

Toculo então se aproxima e diz:

— E agora o que vamos fazer, Grande N’ganga?

— Nos preparar mais e mais. Convoque todo o povo com seus animais para dentro das muralhas. Queimem todas as plantações nas periferias dos mokambos. Os nossos armazéns estão munidos de feijão, milho e amendoim. Temos dentro dos nossos muros água e comida suficiente. Não podemos deixar os colonos se aproximarem dos nossos portões. Vamos construir uma grande cerca de paliçadas nas divisas do penhasco e fortificá-la, assim manteremos eles longes.

Os k’ilombolas rapidamente foram erguer uma cerca de paliçadas nas beiradas que separavam as baixadas do penhasco, em que se localizava a Cerca Real dos Macacos. Domingos Jorge Velho, vendo isso, também se propôs a construir uma cerca de paliçadas logo abaixo dos morros. Assim, os paulistas ergueram a sua fortaleza próximo à Cerca Real dos Macacos.

Domingos Jorge Velho reúne todos os palmarinos capturados, que formavam mais de seiscentos homens, e manda trazer vestes de doentes das casas hospitalares de Porto Calvo. Com as vestes em mãos, os paulistas surram os palmarinos com várias chibatadas, até dilacerar sua pele em carne viva. Depois ordenam os palmarinos a se vestirem, e diz:

— Voltem para o seu refúgio, e falem para Zumbi que, assim como na primeira batalha que tivemos ele nos libertou, eu vos liberto também. Agora estamos empatados.

Alegres, sem saber que estavam levando para dentro dos muros da N’gola N’janga a desgraça, os k’ilombolas surrados foram correndo para o K’ilombo. Ao se aproximarem da cerca de paliçadas, eles relataram o que Jorge Velho disse às sentinelas, e as sentinelas levaram esses surrados k’ilombolas para dentro dos portões, apresentando-os ao M’wene. N’zambi ao vê-los, os interrogou:

— Por que Jorge Velho os libertou?

— Ele nos disse que foi devido a você deixá-los escaparem com vida na primeira batalha. Então, eles nos torturaram, e depois nos vestiram.

— O que eu não entendo é porque ele vestiria vocês, já que vocês nunca tiveram roupas antes. — N’zambi disse isso porque aqueles mestiços k’ilombolas viviam como os nativos habitantes das florestas, pelo fato de habitarem juntos a eles, sendo que suas parentelas eram em maioria composta desses nativos.

— Achamos que foi por causa do sol e das moscas, para não lastimar as nossas chagas de tortura, e podermos chegar sãos no K’ilombo.

— Se eles queriam que chegassem sãos, porque então os torturaram?

N’zambi sabia que tinha algo de errado nisso, Jorge Velho não podia ser tão generoso depois de ser tão cruel, e lembrou-se do ditado português que dizia: “Quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Então, se aproximou deles e investigou as roupas, e sentiu um mal cheiro insuportável de pus e carniça. E, ainda analisando, disse:

— Isso é uma armadilha, essas roupas são de pessoas infectadas por doenças mortais. Vocês foram amaldiçoados, por isso os chicotearam para que a doenças das roupas se espalhem pelos seus corpos. Tirem imediatamente suas roupas!

Ao passo que eles tiravam as roupas, levaram-nas para uma grande fogueira e incineraram-nas. Secretamente, N’zambi chamou os seus homens mais chegados para que se aproximassem, e falando baixo com muito pesar, disse:

— Mate-os, e queimem os seus corpos.

Assim os homens fizeram como ordenados. Dar essa ordem foi muito doloroso para N’zambi, mas naquelas circunstâncias era preciso se adaptar às exigências do bom-senso para a proteção do seu reino. Sabia ele que, por mais doloroso que fosse, era a atitude correta a ser tomada, sem se deixar recorrer pela emoção. Sabia que tinha de concordar e colaborar com as disposições que garantissem o bem-estar do seu povo dentro dos muros da N’gola N’janga.

N’zambi percebeu que seu inimigo estava disposto a fazer qualquer coisa para aniquilar a N’gola N’janga. Poderia ele unificar todas as capitanias da colônia de modo a obter vitória total. Domingos Jorge Velho preparou muitas ciladas. Agia e recuava com muita destreza contra Palmares. E N’zambi sabia que tinha de ter muita habilidade para superar as adversidades do seu inimigo.  Para Jorge Velho, este era um período de grandes desafios, trazendo boas oportunidades de autossuperação. Não sendo um momento apropriado para N’zambi evitar as ameaças, pois, sabia que o confronto final viria em pouco tempo. Mesmo assim, N’zambi agia com ética, não desvalorizando os seus princípios básicos de integridade com os seus guerreiros e o povo, e confiança em si mesmo. Porém, seu opositor agia ao contrário, colocava tudo a risco pelas suas paixões de poder, status e vingança, não se preocupando com a vida de seus homens. Para Domingos Jorge Velho a vitória era mais importante do que toda ética e escrúpulos.

Domingos Jorge Velho avança em investidas contra os palmarinos. E constantemente chegava novos recursos bélicos a sua fortaleza. Pois os maiorais e o governo pernambucano mandavam sempre homens, munições, armas e mantimentos. Tiros, lanças e flechas eram trocados entre ambas as paliçadas. E quando a artilharia de Jorge Velho se fortaleceu, eles fizeram uma investida pesada com inúmeros mosqueteiros, avançando passo a passo em direção à paliçada dos palmarinos.

Os k’ilombolas, vendo que os colonos se aproximavam cada vez mais, recuaram adentrando os portões das paliçadas da Cerca Real dos Macacos, que protegiam os seus grandes e grossos muros de adobe. Assim, os colonos avançaram tomando a paliçada que os k’ilombolas ergueram, e lá construíram outra fortaleza estando de frente às paliçadas do Mokambo Real, em cima do planalto de Palmares. Muitos k’ilombolas foram mortos nessa investida, inclusive o comandante guerreiro Toculo e seu irmão N’zambi, ambos filhos do primeiro M’wene do K’ilombo, N’ganga N’zumba. Naquela triste noite os tambores do K’ilombo marcaram um toque de luto, e choros se ouviam por dentro dos muros da N’gola N’janga.

Enquanto isso, ao lamento dos palmarinos, os colonos estavam em grande agitação na sua fortaleza em frente ao K’ilombo. Ouviam-se marteladas, gritos e estrondos. N’zambi se posicionou com alguns de seus homens em uma das torres da sentinela, mas o breu da noite não deixava que enxergasse coisa alguma. Só se via uma grande luminosidade de tochas e fogueiras, ofuscada pela neblina noturna onde clareava toda a fortaleza. N’zambi, não gostando nada disso, disse aos seus homens próximos:

— O que está acontecendo no acampamento dos colonos, eles estão em grande alvoroço e agitação?

— Devem estar agora comemorando a vitória de conquistar a nossa paliçada. — Disse Antônio Soares.

— Toko e Miala, vão depressa até lá às espreitas e investiguem o que está acontecendo. — Disse N’zambi.

— Também quero ir, N’zambi, acho muito perigoso para duas pessoas se arriscarem. Sou bom atirador, e posso protegê-los pela retaguarda. — Disse Antônio Soares.

— Pois bem, vá com eles. — Disse N’zambi.

Então, eles partiram em direção à fortaleza dos colonos, se embrenharam com muito cuidado pela densa escuridão noturna, chegando ao acampamento dos colonos por entre as matas. E, observando por entre as brechas dos troncos da fortaleza, viram os colonos posicionando canhões em aberturas feitas nas paliçadas em direção à Cerca Real dos Macacos. E, abismado com aquilo, Miala disse para Toko:

— Vamos, irmão! É preciso que N’zambi saiba disso imediatamente.

Antônio Soares, que se posicionava na retaguarda deles, disse:

— Vocês não vão a lugar algum.

E, quando Miala e Toko se voltaram para trás, viram que Antônio Soares segurava em suas mãos duas armas de cano curto apontadas para eles. E, sem hesitar, Antônio Soares os matou ali mesmo, nas paliçadas da fortaleza dos colonos. Quando os colonos ouviram tiros começaram a gritar, dizendo:

— Os palmarinos estão aqui!

E Antônio Soares gritou em resposta:

— Acalme-se, homens! Sou eu, Antônio Soares.

Então alguns colonos o levaram para dentro da fortaleza, apresentando-o a Domingos Jorge Velho, que o interrogou:

— O que você está fazendo aqui? Você não deveria estar lá? — Disse o paulista apontando para Cerca Real dos Macacos.

— Vim eu interceptar dois espiões de N’zambi. Pois sabia pelo alvoroço de vocês que os canhões chegaram. — Disse Antônio Soares com um maldoso sorriso no rosto.

— Muito bem! Vejo que você realmente é leal a mim. — Disse Domingos Jorge Velho.

— Não sou leal a ninguém, Capitão. Só aos meus interesses. — Disse Antônio Soares em tons de sarcasmo. E continuou:

— Também, não quero estar do lado de lá quando esses canhões começarem a explodir tudo.

— E as sentinelas que você corrompeu?

— No momento certo elas agirão. — Disse Antônio Soares.

— Espero que sim, Capitão do mato. Espero que sim. — Retrucou Jorge Velho.

N’zambi estava muito preocupado, já era madrugada e fazia quatro horas que seus homens não retornavam. Mas, naquele momento, não tinha mais nada a fazer. Quando amanheceu, N’zambi e todos os seus guerreiros se posicionaram sobre os muros e as torres do K’ilombo. E, quando menos esperavam, ouviram cinco grandes estrondos saindo do acampamento dos colonos. De repente, suas paliçadas começaram a explodir. E os k’ilombolas viram que os colonos estavam munidos de grandes canhões. E N’zambi gritando disse:

— Desçam dos muros e das paliçadas. Vamos! Recuem!

N’zambi deu ordens aos homens para armarem os trabucos e catapultas. Mas viram que alguém cortara suas cordas os danificando. Balas de canhões eram arremessadas constantemente, sobre as paliçadas triplas do K’ilombo, as destruindo. N’zambi só esperava a aproximação dos colonos para contra-atacá-los. Com os tiros dos canhões, os k’ilombolas ficaram apavorados, e muitos temeram o fim, fugindo da Cerca Real dos Macacos.

N’zambi tinha à sua disposição mais de sete mil guerreiros e guerreiras ao seu comando. E só esperavam a aproximação dos colonos. Por isso, deu ordens aos seus homens que se afastassem dos muros, para que os colonos, pensando que os k’ilombolas estivessem apavorados, se aproximassem. E assim aconteceu como planejado. Os colonos começaram a se aproximar cada vez mais. N’zambi estava observando tudo de cima da torre de vigia, enquanto os seus guerreiros e guerreiras estavam em posição de ataque com seus arcos e flechas, lanças, zarabatanas e toda a sorte de arma de fogo que dispunham. E, quando N’zambi julgou ser o momento exato, disse gritando:

— Agora, K’ilombolas, ataquem!

E corpos se ergueram por toda a muralha de adobe rajando balas, flechas, dardos e lanças. Os colonos foram caindo diante esse ataque. Mas resistiam transportando os seus canhões frente à grande muralha. Entre a grande paliçada tripla e a grande muralha de adobe, havia uma grande vala que circuncidava toda a Cerca Real dos Macacos até os desfiladeiros. Nela havia grandes estacas afiadas e muitas cobras. Essa vala media mais ou menos vinte passos de um lado a outro, e fora cavada com cerca de seis varas de profundidade, o que impedia os colonos de avançarem para o Mokambo Real, mesmo com a destruição dos seus largos muros. Só havia uma maneira de entrar na Cerca Real dos Macacos, que era baixando os seus três grandes portões levadiços, que formavam três grandes pontes.

Depois de destruírem as grandes cercas de paliçadas triplas. Domingos Jorge Velho fica impressionado com a grandiosidade e engenhosidade dos negros alevantados. Nunca em sua vida nem sequer imaginara tamanha fortaleza, que mais parecia com os contos de cavaleiros e castelos que sua mãe contava quando criança. Só quando a noite baixou foi que cessaram com as batalhas.

Os colonos estavam aproveitando os destroços dos troncos das paliçadas palmarinas para se protegerem, erguendo fortificações para abarcarem seus canhões. Enquanto isso, os k’ilombolas estavam cuidando dos seus feridos e preparando mais munições e armas. N’zambi esperava o pior, sabia que agora só lhe restava resistir ao cerco. Pois, enquanto seus guerreiros e guerreiras eram dizimados, as tropas colonas cada vez mais aumentavam, com contingentes vindos de todos os lugares da Capitania de Pernambuco, São Vicente e até da Baía de Todos os Santos.

Na manhã seguinte, N’zambi, observando os colonos às espreitas por uma das torres de vigia, viu uma bandeira de trégua estendida sobre as paliçadas, porque era o dia santo para os católicos cristãos, o domingo. N’zambi aproveitou a trégua para esquematizar uma investida pela retaguarda dos colonos. E, enquanto se reunia em sua Casa Real com os seus comandantes, dois de seus homens entram às pressas ofegantes, dizendo que um dos portões foram sabotados por dois sentinelas traidores que queimaram as cordas. Rapidamente, N’zambi se apressa a ir até lá, mas já era tarde, os colonos começaram a adentrar o portão.

A guerra começa a ter formação dentro dos muros da Cerca Real dos Macacos. O combate agora era corpo a corpo. As mulheres k’ilombolas desesperadas pegam as suas crianças e avançam em direção aos desfiladeiros. Era preferível morrer do que se tornar escravos, e assim muitos k’ilombolas se atiram sobres as pedras dos penhascos. Os guerreiros e guerreiras de N’zambi lutam bravamente para defender o seu legado. N’zambi é gravemente ferido na perna por um tiro de arcabuz, e cai desmaiado no chão como morto. M’panzu e Acaiene, vendo o M’wene K’ilombo estirado no chão, o socorrem, levando-o para fora dos portões da Cerca Real dos Macacos, adentrando as grandes matas, até se distanciarem da N’gola N’janga.

Os colonos, ao verem os k’ilombolas fugirem se precipitando nos desfiladeiros, incendeiam o Mokambo Real. Domingos Jorge Velho dá ordens aos seus homens para encontrarem o corpo de Zumbi dos Palmares. Mas, diante de toda aquela confusão, era impossível identificar o líder palmarino no meio de todos aqueles cadáveres. Então, Domingos Jorge Velho diz aos seus homens:

— Incendeiem tudo! Quero ver tudo em brasas. Zumbi está morto! É o fim do refúgio dos negros! É o fim de Palmares!

FIM DO VIGÉSIMO PRIMEIRO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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