O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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25. Capítulo 20 - ר (REISH) A QUEDA

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ר

REISH

A QUEDA

 

O sertanista Fernão Carrilho e o M’wene K’ilombo N’ganga N’zambi se tornaram bons amigos. No início se limitavam apenas tratar de acordos mercantilistas. Mas, como periodicamente se encontravam em pequenas reuniões de negócios, lentamente laços se criavam através de conversas, desabafos e histórias. Ambos se entendiam muito bem, não era preciso muitas palavras em suas conversações. Dialogavam amplamente sobre todos os aspectos da vida e tinham sempre os mesmos pontos de vistas e compreensão. Apesar de tudo, se sentiam alegres um na presença do outro, compartilhando suas aventuras e histórias de vidas.

Com o passar do tempo gostavam de fazer longas caçadas de três dias, em que acampavam nas montanhas e florestas, ou nas margens do Rio Mundaú. Juntos apreciavam a noite e o imenso céu iluminado com os seus astros e estrelas, fumando tabaco e flor de cânhamo, e compartilhando suas vivências.

Certa vez, em uma dessas caçadas, quando estavam acampados nas margens do Rio Mundaú. N’zambi contou a Carrilho como foi sequestrado e depois como regressou ao K’ilombo até se tornar um M’wene. Carrilho, que ouviu toda aquela história em silêncio sentado ao lado da fogueira, enrolou trituras de flor de cânhamo na folha seca de bananeira e depois, selando com melaço de cana, disse seriamente enquanto acendia o seu cigarro:

— Francisco. Você também é um Francisco. Esse nome tem me perseguido em todo lugar aonde vou. Mesmo se eu fosse o seu maior inimigo, eu nunca poderia lhe fazer nenhum mal. Eu jurei nunca fazer mal a nenhuma pessoa de nome Francisco.

— Você é devoto de São Francisco de Assis? — Perguntou N’zambi.

— De certa forma sim. Mas não é por causa disso. Cometi meu primeiro assassinato matando um jovem de nome Francisco. Fiz isso por legítima defesa, aquele momento foi horrível para mim, e quase me suicidei. Agora sei o motivo de nossa amizade N’zambi, através de você tenho a oportunidade de resgatar algo que perdi no passado. Depois que matei aquele jovem, resolvi me tornar um sertanista. E como sertanista me tornei uma pessoa cega pelo poder e dinheiro. Mas você fez com que eu reencontrasse o meu coração e me curasse dessa ambição egoísta de pisar em cadáveres para ter status, lucros, poder e fama.

— Eu nada fiz, meu amigo. Você que se permitiu ser encontrado, você que se permitiu ser curado do seu próprio mal interior. O velho Djeli certa vez me disse algo a respeito disso. Djeli dizia que, para se permitir ser encontrado, teria que percorrer o caminho da Subida da Montanha. Esse caminho possui três estágios. O primeiro é o Estágio da Serpente, é quando percebemos em nós o erro de insistir no próprio erro, a culpa de fazer sempre o que é errado ao nosso coração, a maldade que persiste em imperar nos nossos pensamentos, a mentira que corrói a credibilidade das nossas palavras, a vaidade e o preconceito que destroem as nossas relações com o próximo, o ego de querer se sentir superior ao outro, a ambição desenfreada que assassina o nosso meio ambiente, a inveja e os nossos desejos sexuais mais carnais. Quando somos abalados por essa culpa e percebemos o erro que nos destrói por dentro, enxergamos a serpente em nós. Vemos que nos rastejamos em nossa dolorosa caminhada comendo poeira. Vemos o quanto somos escamosos e peçonhentos, e o quanto a nossa boca é venenosa. A serpente então olha para a montanha e sente a necessidade de subi-la. Ela sobe a montanha contendo o seu veneno, arrependida e pequenininha, lentamente se rastejando em dores e prantos. E quando, por arrependimento e humildade, chega na metade da caminhada, a serpente se desfaz das suas dores e de toda a culpa, chegando ao Estágio do Jaguar. O jaguar adquire tanta energia que a subida já não é mais dolorosa, ele se despiu do corpo da culpa que é a serpente, mas ainda continua sendo impulsivo e faminto, recaindo no erro por curtos períodos de tempo, porém, ao se perceber no erro, rapidamente com a força do jaguar retorna ao seu foco da subida da montanha, por agora já vislumbrar o seu cume. E saciado por esse vislumbramento aplica essa energia para subir a montanha rapidamente. Quando o jaguar chega ao topo da montanha, ele se despe do seu corpo bruto, alcançando o último estágio, o Estágio do Condor. Ao se libertar voando pelos céus com suas grandes asas, o condor desce à terra só para se alimentar da sua putrefação, comendo todas as larvas dos cadáveres rastejantes. Só então a maldade e a dor viram alimentos para serem digeridos e excretados, enquanto o condor voa no mais alto dos céus, em harmonia e majestosa liberdade de estar amando em pleno movimento com o existir. A Subida da Montanha está na responsabilidade de escolher a direção correta em que nossa vida seguirá. Algo divino acontece na vida de todos, não importa se são livres ou escravizados, pobres ou ricos. Algo pessoal e intransferível, que individualmente podemos perceber em certos momentos de nossas vidas, independentemente da condição ou estado. Há algo a ser decidido naquele dia em que você jogar a moeda para cima, e escolher entre cara ou coroa. E esse dia chega para todos, mais cedo ou mais tarde. O grande dia da escolha de subir a montanha, meu amigo. Por isso não podemos ter julgamentos nem pena de ninguém. Apenas compreensão e compaixão, e nisso ser somente ponte para que o outro possa atravessar, ou corda para que o outro possa subir. E nada mais além disso. Pois a escolha em atravessar e subir é de responsabilidade individualmente pessoal.

Depois dessas palavras, N’zambi foi com a mão em sua cintura procurando sua cartucheira de couro e, encontrando-a, retirou um dobrão de ouro que ganhara de presente do preto velho griot. Então, rapidamente aproximou-se de Carrilho dizendo:

— Olha essa moeda! Djeli me disse que o mais valioso em uma moeda não é o seu poder monetário, e sim um oculto entendimento que ela contém. Às vezes somos cara e outras vezes somos coroa. E passamos toda nossa vida nesse jogo de cara ou coroa. Assim são as nossas opiniões, os nossos valores, os nossos pensamentos, os nossos sentimentos. Sempre escolhemos um lado para defender e outro lado para culpar. E nessa escolha nos limitamos e paramos.

N’zambi falava isso, enquanto jogava várias vezes o dobrão deitado em seu punho, sendo arremessado com o seu polegar, em que a sorte de cada momento determinava cara ou coroa. Carrilho vendo isso disse:

— Não há como escapar desse jogo, N’zambi, a moeda só tem dois lados. E nós também só temos duas opções.

— Enganas-te, meu caro amigo, o erro está em escolher enxergar só os lados, ou as duas opções apresentadas. A escolha certa está na observância de como jogar. Estenda-me a coronha do seu mosquete. — Carrilho então fez o que ele lhe pediu, colocando em sua frente a coronha da arma, e N’zambi continuou — Olha!

N’zambi pegou o dobrão e girou com muito cuidado em cima da coronha, e enquanto o dobrão magnificamente girava, disse:

— Aqui não existem lados. Aqui não existe liberto ou escravizado. Aqui não existe preto e nem branco. Aqui não existe rico e nem pobre. Aqui não há polos ou algo a ser escolhido, opinado, defendido, excluído ou decidido. Aqui não há tempo e nem espaço. Aqui e agora só há o eterno movimento do uno. A moeda aqui também deixou de existir.

Carrilho atenciosamente observava a moeda girar na coronha de sua arma, onde obteve um entendimento novo que nunca pensara antes. Uma percepção que estava fora dos padrões. Um mundo de possibilidades infinitas além das fronteiras impostas da personalidade, individualidade e coletividade. Através daquela simples moeda de ouro girando, Carrilho sentiu-se movimentado. E quando a moeda lentamente parou de girar caindo sobre o solo, por um relapso, Carrilho lembrou-se, de quando criança, deitado no chão frio da sala, girando por horas as moedinhas que ganhava de mesada do pai. E disse:

— Quando criança sabemos de tudo. Quem roubou nossa coragem? Tudo é tão simples... tão óbvio.

— Fomos aculturados ao longo do tempo. Djeli falava que no futuro a escravidão será cultural. Controlarão as massas através dos seus sentimentos, gerando falsas necessidades em objetos, sons, gostos e tudo que se possa aproveitar dos sentidos, para nos proporcionar prazer e dor.

— Mas isso já está acontecendo, N’zambi.

— Sim! Só que hoje os grilhões da escravidão apenas nos prendem por fora. Amanhã não precisarão de grilhões, porque eles nos escravizarão por dentro. Aqui! — Disse N’zambi tocando com o seu dedo indicador na sua cabeça, e continuou:

— Hoje podemos ter armas e nos defender, podemos optar, escolher e nos esconder. Porque a única coisa hoje que pode nos prender são os grilhões. Não há um controle mental elaborado e efetivo escravizando as massas. Amanhã as raízes do mal serão nossa cultura, nasceremos dentro de uma infinidade de leis que não funcionarão, essas leis terão brechas, porque a geração conseguinte de quem as criou se corrompera criando emendas e verberações para dar créditos às suas corrupções. O povo ficará dividido contra ele mesmo, controlarão o povo pela mentira que é a escassez e pela produção de falsas necessidades, e criarão degraus patrocinando a ignorância da fragmentação do saber.  Colocarão o povo contra ele mesmo, aprimorando as distribuições de patentes, e ninguém saberá quem é o inimigo, sendo que os verdadeiros inimigos controlarão o Estado ocultamente. Nascerão pensando serem livres, mas não passarão de objetos que, depois do seu bom uso, trocam-se e jogam-se fora. Viverão em um mundo de mágicas e fantasias, se aglomerarão em massas pelas vilas e se afastarão aos poucos de tudo que for natural. Nesse tempo, meu amigo, a cor da pele não será um fator a ser discriminado como é hoje. Porque hoje somos nós negros que movimentamos as suas engrenagens. Amanhã serão as árvores que pelas queimadas darão uma substância negra que movimentará as suas engrenagens. Depois de amanhã eles sugarão o sangue negro da terra que movimentará as suas engrenagens. Existem mais coisas que os olhos podem perceber, mas ninguém tem coragem de ver. Existem mais coisas que podemos fazer, só que ninguém tem vontade de agir. Apenas um passo, meu amigo. Somente um único passo a mais do que acreditamos ser possível, e o impossível se desfaz. Todas as crianças se agarrarão aos seus brinquedos inventados, e só olharão para eles. Só trabalharão por eles, e só viverão para adquiri-los em um mundo de falsas dependências.

Depois dessas palavras, N’zambi pegou o cigarro que Carrilho lhe passou, levou à boca e deu um forte trago. Carrilho ouvia atentamente as palavras de N’zambi, e curioso perguntou:

— Como você sabe de tudo isso que virá? E quem é esse velho Djeli de quem você tanto fala?

— Eu vi tudo e absorvi, o professor me ensinou, bebi do vinho dos espíritos das florestas. Já o preto velho Djeli pertencia aos homens loucos. Apenas se movia, observava e brincava com as possessões dos outros. Dizia ele viver numa peça teatral onde todos queriam ser o ator principal, que para isso era unicamente preciso pisar nas outras pessoas, e fingir um senso crítico de superioridade em aprender a excluir, banalizar e ignorar o seu próximo e semelhante. Nesse palco dos fingidos e falsos, ele escolheu atuar como coadjuvante e muitas vezes como um simples figurante. Mesmo sabendo, atuava como quem não sabia. Mesmo vivendo a peça, preferia observar a plateia que o julgava, do que os muitos personagens envolvidos. Ele não escolheu viver entre os fracos, pisoteados pelos muitos estrelados atores protagonistas, coprotagonistas, antagonistas ou oponentes soberbos de si. Muitas vezes preferia apenas ser o arrumador, limpador e o faz-tudo dessa produção de merda. Preferia viver depois dos aplausos, onde solitário entre as cadeiras da tribuna vazia meditava nas inúmeras possibilidades do viver. Dessa forma, ele falava não haver conclusões ou pensamentos. Apenas vivia um segredo e um mistério que só a ele foi concebido, e que só ele sabia. Por isso, por onde ele passou o mundo se agitou e o observou.

— Ele já morreu?

— Não. Apenas resolveu descer do palco no momento certo, como sempre fez de tempos em tempos, em todos os lugares que já passou. Agora ele deve estar em outra terra, atuando como mais um ignorado personagem ancião solitário.

Carrilho enriqueceu rapidamente contrabandeando os produtos e mercadorias dos palmarinos. Nas terras do antigo Mokambo de Amaro, ele fundou um arraial batizando com o nome de Bom Jesus e a Cruz, em referência ao mapa da cruz com que alcançou a plena vitória contra Palmares. Os influentes senhores pernambucanos se perguntavam como Fernão Carrilho enriquecera tanto sem possuir lavouras e engenhos. E se questionavam a respeito do arraial do Bom Jesus e a Cruz não sofrer saques e represálias dos negros alevantados de Palmares. E, investigando, descobriram que Carrilho compactuava com os palmarinos em tratos e acordos mercantis. Furiosos, esses senhores reclamaram ao governador D. João de Souza o porquê de Carrilho fazer tratos com os palmarinos contrabandeando seus insumos.

O governador D. João de Souza redigiu uma carta para Carrilho, que ainda obtinha a patente de Capitão-mor das Entradas de Palmares, contendo um minucioso regimento proibindo toda e qualquer forma de acordo de paz, tratos comerciais, e contatos com os palmarinos. Considerando-os inimigos de extrema periculosidade da coroa portuguesa. Carrilho, em resposta, escreve duas cartas consecutivas, dizendo ao governador que era impossível conviver ao lado de Palmares sem ter acordos com os negros alevantados. Dizia também, para desencorajar o governador, que era impossível realizar nesse momento uma ofensiva contra Palmares, sendo mais vantajoso compactuar em negociações.

D. João de Souza, vendo a resistência de Carrilho, se recusando a fazer como ordenado em sua carta, pela insistência em ainda fazer tratos com os palmarinos, permitindo a presença destes no seu arraial, resolveu prender o sertanista, retirando todas as suas patentes, terras, soldos e bens, e o deportou para uma prisão no Ceará, situada ao norte da Capitania Pernambucana. Acusando-o de compactuar com os palmarinos, por meio de acordos de paz não autorizados pelo governo pernambucano.

Com a prisão do sertanista Fernão Carrilho, N’zambi decide atacar e incendiar o arraial do Bom Jesus e a Cruz, e muitos dos homens de Carrilho foram habitar em Palmares. N’zambi fizera isso estrategicamente, pois sabia que o arraial do Bom Jesus e a Cruz poderia se tornar um grande forte militar dos colonos, sendo positivamente bem localizado para uma possível investida contra o K’ilombo. Também isso deixaria os homens de Carrilho desabrigados, restando-lhes Palmares como opção de refúgio, fortificando as tropas k’ilombolas.

Poucos anos depois, D. João da Cunha Souto Maior se torna governador da capitania pernambucana. Palmares se tornou imbatível sob a liderança de Zumbi, e Souto Maior, assim como D. João de Souza, deseja a gloriosa honra de aniquilar Palmares. E, para lhe trazer esse prestígio, nada mais e nada menos do que o sertanista Fernão Carrilho.

Souto Maior vai pessoalmente ao Ceará, a fim de negociar com Fernão Carrilho. Carrilho já estava há três anos preso no antigo Forte Schoonenborch, construído pelos holandeses à beira-mar. Mas rebatizado pelos portugueses como Forte de Nossa Senhora da Assunção depois da expulsão holandesa. O governador encontra Carrilho sujo e maltrapilho, preso em uma antiga sela fedida, úmida e escura. Então dá ordens ao capitão do forte que o tire da sela, o limpe, faça sua barba e cabelo, o alimente e traga-o bem-vestido para lhe fazer uma proposta. Depois de todos esses preparativos, Carrilho vai ao encontro do governador D. João da Cunha Souto Maior.

E, ao caminhar pelo sol quente litorâneo, depois de três anos trancado em uma sela escura onde só havia meia luminosidade, que entrava por um pequeno tijolo que ficava a cinco varas de altura, Carrilho sentiu os raios solares possantes em sua pele, que o lastimavam em estalos por todo corpo, causando-lhe uma sequência de coceiras. Ao entrar na sala em que se encontrava o governador, Carrilho o cumprimenta dizendo:

— Saudação, Governador. O que você quer de mim?

— O mesmo que todos os outros quiseram. A destruição de Palmares. — Disse o governado, virando de frente para Carrilho.

— É impossível atacar Palmares de frente. Suas fortalezas são altamente fortificadas e aparelhadas com toda sorte de armas e armadilhas. Seus guerreiros são homens-macacos, nos dizimando em grandes ataques aéreos através das copas das imensas árvores. Sua comunicação voa com o vento em rufares de tambores, gritos, assobios e imitações de cantos de pássaros ou ungidos de animais. Seus atiradores são bem treinados, e agora possuem um tremendo poder bélico. Seu líder Zumbi está mais para um espírito guerreiro do que para um homem. Balas não o atingem, ele parece estar em todos os lugares e ouvir todas as coisas. Aquelas florestas são encantadas e amaldiçoadas por conjurações e feitiçarias. Existe todo um esquema minucioso e planejado em Palmares, e para isso não temos como combatê-los, senão, em primeiro lugar, mantermos relações. Só assim Palmares pode ser minado pouco a pouco com a nossa influência.

— A mim não me importa como você fará isso. Na verdade, sei que D. João de Souza ficou frustrado com aquela sua grande derrota. E que também, por vingança, te jogou nesse forte. Sei também que você fazia grandes tratos mercantis com os palmarinos, o que despertou a inveja dos maiorais pernambucanos. E também sei que até agora não há ninguém que pode se relacionar com os palmarinos, senão você. Por isso, quero financiar mais uma campanha sua. Porém, desta vez vou te dar tudo o que você me pedir, e liberdade para fazer o que você julgar melhor. Porém, quero a vitória total.

— E se eu não quiser aceitar a sua proposta, Governador?

— Vejo que o Capitão se acostumou com a modesta estadia nesse forte, provavelmente vai querer passar o resto da sua vida aqui.

Carrilho já estava enlouquecendo dentro daquela prisão escura no forte, sentia-se como um passarinho na gaiola. Sempre gozou da sua liberdade em inúmeras andanças e cavalgadas, viajando de lugar em lugar, em busca de riquezas e novas aventuras na sua vida de sertanista. Viu-se em meio a uma encruzilhada, por um lado tinha a liberdade e o direito de conquistar tudo o que perdeu, por outro sabia que essa proposta exigiria muito do seu intelecto. Pois já não mais poderia fazer tratos com Palmares como antes, bem como por causa da sua reputação e título de Capitão das Entradas não poderia sofrer mais uma humilhante derrota. E, sem pestanejar, Carrilho disse ao governador:

— Aceito. Apenas quero ir a Palmares e voltar a fazer tratos comerciais com eles. Falarei que fui absolvido pelo novo governador e recuperei minhas terras, bens e títulos. Enquanto isso, planejarei um ataque fulminante os surpreendendo.

— De acordo, Capitão. Apenas me traga a cabeça desse maldito negro Zumbi dos Palmares.

Carrilho se retirou da presença do governador, indo rapidamente se aprontar para ter com N’zambi em Palmares. Depois que Carrilho se retirou da sala, o governador D. João da Cunha Souto Maior foi até janela observar Carrilho se afastar, e disse em voz alta:

— Ele já foi. Pode sair.

Então, um homem mameluco aparentando mais ou menos quarenta e cinco anos, com barba e cabelos grisalhos. Bem vestido com grandes botas de couro, chapéu e capa preta, equipado na cintura com uma cartucheira de couro e um cinto também de couro, em que apoiava uma arma de fogo de cano curto e uma grande baioneta, carregando em suas mãos um mosquete, saiu por detrás de uma grande cortina marrom que encobria as grandes janelas da sala do forte e disse:

— Esse sertanista é um traidor.

— É por isso que te chamei aqui. Vamos deixar que ele siga como planejado, isso distrairá os palmarinos e Zumbi. Quero que você ajunte o máximo de homens possível para destruir Palmares.

— Isso irá lhe custar caro Governador.

— Quais são as suas exigências?

— Quero administrar e povoar criando arraiais em todas as terras que eu conquistar no Outeiro da Barriga, inclusive as sesmarias que agora estão na posse dos palmarinos. Todos os negros, mestiços, brancos, crianças e gentis palmarinos serão meus vassalos. Quero receber quatro hábitos das três ordens religiosas de Portugal. Quero a quantidade de armas, munição e alimentos necessária para expedição sem escassez. Provavelmente cometerei vários crimes, pois em meus processos de investigação costumo torturar e matar minhas vítimas, por isso quero anistia prévia do governo e perdão da igreja para todos os meus assassinatos e atos violentos. Quero quinhentos mil-réis em panos e roupas para meus homens. Quero cem mil-réis em dinheiro vivo. Quero patentes para poder prender ou manter detida qualquer pessoa da capitania pernambucana, seja ela influente ou não, com suspeitas de manter contatos mercantis, ajuda ou proteção aos palmarinos.

— Mais isso é um absurdo, Capitão.

— Absurdo é um bando de negros fugidos e gentis ignorantes apavorar e controlar toda uma capitania. Essas são minhas exigências, Governador, se não gostou, procure outra pessoa.

— Está bem, Capitão. Mas só tenho algo a exigir, não cause danos aos povoados e vilarejos e não perturbe a sua gente. Afinal de contas, você é meu contratado e me representa. Em quanto eu lhe der o título de Capitão-mor das Entradas de Palmares, você deverá seguir só as minhas ordens, e quero saber de cada passo seu nessa capitania.

— Não se preocupe, Governador, você já me contratou uma vez e viu como sou eficiente e honesto em meus acordos.

— Mas Palmares é diferente, Capitão.

— Vamos ver o quanto, Governador. Creio que até agora Palmares não viu o que é uma verdadeira guerra. Vou massacrá-los e exterminá-los daquele outeiro, como eu fiz em todos os aldeamentos dos gentis em que me contrataram. Nunca perdi uma guerra, Governador, e não será agora. — Disse o paulista Domingos Jorge Velho com um sinistro sorriso nos lábios.

Domingos Jorge Velho anteriormente participara do exército do sertanista Estêvão Ribeiro Baião Parente, massacrando, dizimando, estuprando e expulsando os gentis que viviam no sertão da Capitania da Baía de Todos os Santos, próximo ao rio de São Francisco. Com os lucros dessas empreitadas e com a posse de novas terras, Jorge Velho criou fazendas de gados, engenhos e um arraial nas margens do Rio de São Francisco, na divisa das capitanias da Baía de Todos os Santos e de Pernambuco. Depois foi para Capitania do Maranhão conquistar o Piauí, junto com o sertanista português Domingos Afonso Mafrense, conhecido também como Domingos Afonso Sertão, a contrato do rico baiano fazendeiro de gado Francisco Dias D'Ávila, que cobiçava as pastagens que ficavam além da margem ocidental do Rio de São Francisco.  Depois de exterminarem os gentis Pimenteiras, Jorge Velho foi sozinho ao Ceará aniquilar os gentis Kariris a pedido de Souto Maior. Guerreou dizimando os gentis Ycós e Sukurus, e ao sul destroçou os gentis Kalabaças e Koremas na Capitania da Paraíba. Regressando depois ao Ceará para ter com o governador D. João da Cunha Souto Maior.

Jorge Velho era temido e odiado em todo lugar que passava, apesar de ser um colono português nascido em terras brasileiras, era filho de antigas mestiçagens entre europeus e nativos do Novo Mundo. Tinha mais os costumes dos nativos do que dos colonos. Possuindo oito nativas como concubinas e falando mais tupi e guarani do que português. Porém, era filho e neto dos mais hábeis e corajosos bandeirantes. Uma poderosa família de sertanistas portugueses que, por desbravarem os vales e as serras interiores da colônia, ficaram conhecidos como paulistas, por habitarem e estenderem a Capitania de São Vicente, também conhecida popularmente como São Paulo, por ser o santo protetor daqueles que buscavam minas de ouro e padroeiro da maior e mais influente vila da capitania, a vila de São Paulo.

Quando criança fora amamentado por diversas nativas, e quando menino brincava e caçava em meio aos nativos. Sua primeira língua foi o guarani, e depois passou a aprender outras línguas nativas, como o tupi, e o português foi a ele ensinado por seus pais, Francisco Jorge Velho e Francisca Gonçalves de Camargo. Já na adolescência, Jorge Velho se alistou nas forças sertanistas do seu tio, que também se chamava Domingos Jorge Velho. Fizera ao lado do seu tio muitas invasões a territórios nativos, dizimando e conquistando muitas tribos e aldeamentos, estendendo, assim, cada vez mais territórios para a coroa portuguesa no Novo Mundo.

Jorge Velho, por ser um paulista, não se identificava com os colonos litorâneos. Os paulistas pertenciam a um grupo étnico diferente dos colonos da metrópole, os de puro sangue português. Pelo fato de viverem isolados no interior da colônia sem acesso ao mar, separados do litoral por uma cadeia de montanhas, que dava formação a uma enorme muralha conhecida como Serra do Mar. Devido a esse fator geográfico, os paulistas adentravam cada vez mais para o interior do sertão, cuja penetração era facilitada pela presença dos afluentes do rio Tietê, que em língua Tupi etimologicamente significa “Água Verdadeira”., se isolando cada vez mais da metrópole colonial e se misturando com os nativos das florestas.

Entretanto, os paulistas eram da progênie portuguesa. Falavam português, eram fiéis da igreja católica, realizavam grandes feitos heroicos, eram corajosos, e a Vila de São Paulo tinha os aparelhamentos administrativos e institucionais e prédios públicos, tanto civis quanto religiosos, de uma importante vila portuguesa. Porém, tinham o sangue dos nativos, falavam diversas línguas nativas, aceitavam as nativas como esposas e concubinas, resistiam às autoridades civis e religiosas e mostravam desprezo aos representantes da coroa portuguesa, aborrecendo as suas leis, alvarás e ordens régias. Por isso Jorge Velho se via como uma pessoa superior, conhecedor das matas virgens, minas de ouro e prata e dos seus habitantes. Um grande chefe perante os nativos, mas também colono português.

Não havia homem mais temido na colônia do que o paulista Domingos Jorge Velho. As tribos e os povos nativos que não se aliavam a ele eram todos degolados ou esquartejados. Certa vez, ao conquistar uma tribo dos Tapuias, quis que os derrotados se aliassem à sua horda. Os Tapuias recusaram a sua oferta, preferindo a morte. Então, Jorge Velho enfileirou mais de trezentos homens Tapuias e foi matando cruelmente um a um na vista de todos. Ele pegou quatro cavalos e amarrou cada cavalo a um membro da pessoa a ser morta. Direcionava os cavalos para cada lado e, com um tiro para cima, fazia com que os cavalos partissem em disparada desmembrando a vítima, que morria aos poucos lentamente em agonias se enrolando pelo chão. E a cada nativo desmembrado, Jorge Velho perguntava se ele ainda resistiria à sua proposta, em grandes gargalhadas.

Jorge Velho era um lobo que nunca andava só, sendo um chefe de grandes maltas, andava em bando, com suas matilhas formadas em sua maior parte por mestiços e nativos, havendo poucos brancos e negros. A maioria dos seus homens andava descalça, somente alguns traziam consigo botas e alpargatas feitas de couro, coletes, cartucheiras e cantis. Sendo que todos carregavam armaduras e armas como espadas, adagas, lanças, facas e facões, punhais, terçados, alfanjes, machados, bestas de arco de madeira, cordas, arcos e flechas dos nativos, tacapes ou bordunas, pistolas, arcabuzes, espingarda ou escopetas, além dos modernos mosquetes de um único tiro, e os poderosos bacamartes boca de sino de grande calibre, que eram mais usado nas batalhas navais ou à frente das artilharias, por espalhar uma carga de chumbo grosso, de vinte a quarenta balas minúsculas, contra as massas de tropas.

Carrilho se apressa em descer do Ceará para o sul da capitania pernambucana, indo ao encontro de N’zambi. Ao chegar nas terras do antigo Amaro, viu seu arraial totalmente destruído por uma grande queimada. Foi do antigo Amaro até Subupira, e depois para Osenga até chegar na Cerca Real dos Macacos, encontrando-se com N’zambi em sua casa real. Ao recebê-lo, N’zambi disse:

— Amigo, que bom que regressou, por onde esteve por tanto tempo?

— Estive preso no Ceará. Vi o que aconteceu no meu arraial no antigo Amaro.

— Eu tive que incendiá-lo. Mas não se preocupe, a maioria dos seus homens e bens estão aqui na Cerca Real. Depois que te prenderam, Bom Jesus e a Cruz se tornaria uma grande ameaça se caísse nas mãos dos colonos.

— Eu faria o mesmo, meu amigo. Temo algo muito sinistro acontecendo. Eu não trago boas novas, estou aqui porque fui financiando pelo novo governador Souto Maior, para armar mais uma campanha contra Palmares. Estou desesperado, meu amigo, agora estou realmente entre a cruz e a espada. Não sei o que fazer, pensei em fugir, mas seria um refugiado para sempre.

— Fique aqui no K’ilombo, lute com a gente. Juntos podemos conquistar tudo que queremos.

— Eu sou, apesar de tudo, um colono português, meu amigo. Gosto da minha gente, e também não quero viver uma vida de guerras. Quero família, filhos e uma esposa meiga e linda, assim como você tem N’zambi. Você, meu amigo, já tem o que há de mais precioso nessa vida e nesse mundo, uma linda família. Coisas que o dinheiro não pode comprar. Eu também quero isso, mas eu quero isso com paz, meu amigo. Não posso lutar contra minha própria raça, mas posso influenciá-los a fazer o que é certo, que talvez seja a mais importante das batalhas.

— Eu te entendo, meu amigo. E agora o que vamos fazer?

— Essa é minha última chance de mostrar à coroa o meu valor. Se perco essa batalha, eles podem até me enforcar.

— Tenho uma ideia, vamos forjar uma batalha e você tombará Osenga. Se apossará dela e manteremos tratos. Assim ganharemos tempo, até você se sair bem com os colonos.

— Me parece uma boa ideia. Mas dessa vez teremos que atuar com menos liberdade do que anteriormente. Também há uma coisa que me preocupa, eu vi um grande número de paulistas no Ceará. Inclusive havia alguns no forte onde me encontrava preso.

— Sei. Um ano atrás recebemos na N’gola N’janga um grande número de nativos do Ceará. Suas aldeias foram queimadas para virarem pastagem para o gado. Com a crise do açúcar, os colonos agora estão desesperados por outra fonte de renda. Eles contrataram os paulistas, que os nativos disseram que eram povos mestiços do interior além das capitanias, para executarem essas campanhas. Ouvi histórias horrorosas sobre esse povo, e de um cruel capitão chamado Jorge Velho.

— Domingos Jorge Velho está aqui em Pernambuco!

— Você o conhece. Quem é ele?

— O diabo na terra, manifestado em carne e osso. Agora entendi tudo, N’zambi. Eu sou apenas uma isca, se Domingos Jorge Velho estava expulsando nativos no Ceará, ele foi contratado por Souto Maior. É por isso que vi os paulistas no forte. Se prepare, meu amigo, para as piores batalhas de sua vida. Infelizmente termina aqui os seus dias de paz, eles não tardarão em chegar. Refortifique as paliçadas, armadilhas e trincheiras. Comece os treinamentos com os soldos. Produzam mais pólvoras. Eu vim como um anjo do terror, meu amigo, lhe trazer a mensagem de uma grande guerra. Também com a morte repentina do Governador Geral Mathias da Cunha, o arcebispo da Capitania da Baía de todos os Santos, D. Fr. Manuel da Ressurreição, assumiu a presidência interina da junta governativa do Estado. Isso significa que a igreja agora controla a colônia, e em seu prelado não mais admitirá a existência de Palmares. Pois o seu nome para os negros e muitos nativos se tornou mais aclamado do que o nome de todos os santos juntos, para os escravizados você se tornou um deus libertador, um messias a quem eles dedicam rituais, preces e orações. E a igreja não tolerará essa concorrência, N’zambi.

Carrilho conhecia muito bem o modo paulista de colonizar as tribos nativas. Chegavam nos aldeamentos com horror, chovendo rajadas de balas, lanças e flechas. Só depois de destruir todo aldeamento e matar muitos nativos é que cessavam fogo. Os sobreviventes feridos eram mortos, e os sãos, quando machos, eram reciclados servindo às tropas ou sendo escravos domésticos. As fêmeas eram recrutadas para trabalharem nos cultivos, ou servirem de concubinas. As crianças muitas vezes eram mortas, ou adotadas pelos padres e jesuítas. Houve até batalhas além do interior da colônia em que, por falta de comida, os paulistas alimentavam suas tropas assando em fogueiras os corpos dos nativos perdedores. Para Carrilho, os paulistas eram os verdadeiros selvagens, sem escrúpulos ou pudores. Unindo o que há de mais baixo do branco europeu com o que é de mais baixo do nativo do Novo Mundo.

N’zambi sentiu um tremendo calafrio, causado pelas correntes geladas do sopro entonado, emanado nas palavras tempestuosas de Carrilho. Logo agora! Ele pensou, quando as dificuldades começaram a se dissolver, cessando toda ansiedade e demais conflitos ao se apossar do cargo de M’wene K’ilombo da N’gola N’janga. Porém, percebeu que só agora quando virou rei do seu povo é que começaram os testes para sustentar essa ascensão ao trono. E lembrou-se das palavras do velho griot Djeli, que dizia:

— Quando você for rei desse povo, pensará que já adquiriu a mais absoluta vitória. Mas, assim como o sol que lentamente se levanta ao amanhecer, e ao meio-dia alcança a sua gloriosa realeza nos céus, também este mesmo sol lentamente desfalece nas trevas, ofuscado pelo crepúsculo vespertino. Isso é uma lei, N’zambi, tudo que sobe desce declinando naturalmente. Por isso, meu jovem, há de valorizar os momentos e os detalhes de cada passo, isso é o mais importante. Valorize vivendo a caminhada, e não fique triste com a partida, e nem ansioso pela chegada. Observe as pequenas coisas do seu reinado, e terá no valoroso tesouro da memória riquezas imperecíveis e verdadeiras. Pois essas são as únicas coisas que levamos deste mundo. As riquezas atemporais são as lembranças dos bons atos e as boas ações, que nos trouxeram e preservaram verdadeiros amigos, nos deixando detalhes e momentos felizes, e histórias fortes a serem compartilhadas e semeadas. Quando tudo estiver em calmaria, não relaxe o seu esforço deixando que as coisas sigam seu próprio movimento. Mesmo quando o mar está calmo e os ventos suaves, o bom velejador não desgruda a mão do mastro. Assim, pelo autocontrole, corta-se pela raiz a trepadeira da decadência ignorância que é a distração, os desejos carnais e o entretenimento. A prosperidade, o amor, a felicidade e a paz de espírito é uma coisa a ser conquistada, batalhada, programada, arquitetada, visualizada, estudada e minuciosamente planejada para ser bem executada, pelo que o seu maior trabalho será constantemente sustentá-la. Pois só assim você terá o controle das armadilhas sentimentais, oriundas da inércia existente entre o mover constante dos polos opostos de bem e mal. É preciso refletir na desgraça, para depois em abundância saber como evitá-la, se prevenindo de antemão a esse infortúnio circular de sobe e desce. As forças que nos regem energeticamente não possuem visão dual de bem e mal. São essas forças o uno e o absoluto que nos dão o necessário para o nosso aprimoramento espiritual e resistência corporal, nos colocando em inúmeras situações adversas e antagônicas, pelo que erroneamente julgamos como sendo situações positivas e negativas do viver. É preciso muita atenção e dedicação espiritual para saber que a maré alta e a maré baixa, a maré cheia e a maré vazia são apenas dualisticamente a manifestação superficial e costeira do grande oceano. Quando alcançar seus ideais, fique atento a reconhecer o menor sinal da desarmonia. O tempo da vitória é o momento ideal para semear mudas e sementes em canteiros novos e limpos. Por isso não deixe que ervas daninhas, fungos e parasitas se acumulem nas suas leiras e canteiros semeados. Acima de tudo, meu jovem, neste mundo e principalmente nestes tempos, não se acomode mantendo a ilusão do conforto, aceitando uma falsa paz em propinas do poder e migalhas do prazer no seu cotidiano. Para se manter em pé nessa corda bamba da vida, o equilibrista busca a total atenção. Sua atenção é o poder criativo lhe dado pela Fonte Criadora para manifestar qualquer coisa que você queira neste mundo. Por isso, guarde ela bem! Pois, se você não usar sua atenção a seu favor, outros usarão no serviço dos seus desejos e prazeres, e te escravizarão. Lembre-se, meu jovem, não prostitua os seus sentidos desviando sua atenção. Cuidado! Tudo só existe quando colocamos atenção. Agora pense muito bem no que e a quem você dará poder, energia, prosperidade e vida.

N’zambi se viu em grande tensão, estava em seu poder a responsabilidade de solucionar as questões que decidiam a vida e segurança de milhares de almas. Tinha que agir depressa envolto a essa desconfortante situação. Imediatamente ele convoca todos os Mazômbos, chefes dos kraais e seus primos guerreiros, os filhos de N’ganga N’zumba, N’ganga N’zona e N’ganga Muíça que habitam no Mokambo de Andalakituche. Juntos fomentam um plano de segurança máxima para o K’ilombo, fortificando todos os kraais e mokambos, e aumentando a Cerca Real dos Macacos, subindo pelos rochedos suas fortificações de paliçadas triplas, até delimitar os grandes precipícios. Assim, não haveria possibilidades de invasões nas retaguardas, além de aumentar o mokambo real para abarcar mais k’ilombolas na hora do cerco.

Os k’ilombolas produziram muitos armamentos bélicos e fortificaram três grandes cercas de paliçadas, frutos dos troncos da guariroba, em espaços de oitenta passos largos uma da outra, para proteger os portões da entrada da Cerca Real dos Macacos. Construíram muitas armadilhas pelas florestas minando os morros. Ergueram postos de segurança nas copas das árvores, bases feitas de palha, cipó e madeira. Contendo armamentos e mantimentos, e muitas dessas bases eram interligadas por cordas, cipós ou estreitas pontes artesanais.

N’zambi também fortificou todos os kraais agrícolas espalhados pelos mokambos, e investiu fortificando Osenga, o maior produtor agrícola da Capitania de Pernambuco, senão de toda a colônia portuguesa no Novo Mundo. N’zambi deu ordens aos lavradores k’ilombolas espalhados pelos outros mokambos para incendiarem todas as plantações, animais e cultivos ao perceberem a aproximação dos colonos. Pois, famintos, os campos agrícolas são os primeiros a serem invadidos pelas tropas inimigas. E N’zambi sabia muito bem que a fome desencoraja qualquer homem.

A Cerca Real dos Macacos cresceu muito em população nesses doze anos que N’zambi assumiu a liderança do K’ilombo. Mais de quinze mil k’ilombolas lá habitavam, sendo isso quase metade da população do K’ilombo. Dois anos foi o suficiente para que o comandante guerreiro N’zambi fortificasse todo o K’ilombo, e preparasse os seus guerreiros para a guerra. Fernão Carrilho já não mais andava pelas cercanias do K’ilombo, e rompeu definitivamente com os tratos comerciais. Entretanto, sempre mantinha fortes relações de amizade com N’zambi, e sempre que podia se encontravam para caçar e conversar. Foi em um desses encontros que Carrilho se despediu do seu amigo N’zambi, dizendo:

— Fui dispensado da patente de Capitão das Entradas de Palmares. Vou para o Ceará, eles estão precisando apaziguar as coisas por lá. Domingos Jorge Velho, com sua brutalidade, despertou o ódio dos nativos Pakajus, Sukurus, Ykós e Karateús que habitam além das margens do Rio Açu e Jaguaribe. Agora vou ser enviado para lá para arrumar toda essa bagunça. Por um lado, estou muito feliz, meu amigo, quero uma nova chance de recomeçar, e vejo o Ceará como aquela pilastra que meu pai construiu para eu me enforcar. Só espero que ela esteja oca e cheia de riquezas.

Juntos riram em muitas gargalhadas e se abraçaram, e ali mesmo na floresta se despediram. A patente de Capitão das Entradas de Palmares passou da mão do sertanista Fernão Carrilho para a mão do paulista Domingos Jorge Velho. Sendo que Carrilho regressou para o Ceará ao transferir a patente.

Desde o engodo da expedição fracassada, financiada pelo governador D. João de Souza, que muniu com suprimentos bélicos o K’ilombo dos Palmares, até a partida de Carrilho para o Ceará, a N’gola N’janga viveu em paz por um período de sete anos. Tudo isso, também, graças a uma devastadora epidemia conhecida pelos negros escravizados como ma'kulu, e pelos colonos portugueses como “corrupção” ou “mal-de-bicho”.

Fora os negros de dentro que trabalhavam como serviçais nas casas dos senhores. Todos os outros negros que faziam pesados trabalhos braçais tinham vários ferimentos espalhados por todo corpo e cabeça. Também havia muitos negros e negras que eram mutilados no trabalho com a moenda, sendo esse ofício o mais perigoso nos engenhos de cana-de-açúcar. Muitos dos negros e negras, ao colocarem a cana nos eixos da moenda, ou por distração, estresse e sono, já que muitos trabalhos com a moenda eram noturnos, arriscavam de perder os dedos, a mão, o braço e até a vida. Sendo dilacerados junto à cana nos eixos da moenda. Por isso, ao lado da moenda os negros sempre colocavam um facão, para quando nos acidentes os eixos começassem a puxar o infortunado pelo braço rapidamente pudessem ter tempo de cortá-lo, salvando a vida do infortunado ou da infortunada, evitando que todo o corpo fosse dilacerado pelos eixos da moenda.

Devido a esses ferimentos e mutilações, além de toda falta de higiene nas senzalas que acarretava na proliferação de muitas doenças infeccionarias, causadas pela infestação de larvas de moscas nos ferimentos dos negros escravizados, foi que se originou essa epidemia que dizimou inúmeras famílias colonas, muitos negros escravizados e aldeamentos dos nativos em muitas capitanias. Não podendo os colonos organizarem seus soldos pelos inúmeros sintomas de enfermidade, como febre, dor de cabeça aguda, dores corporais diversas e enfraquecimento físico. Além de efeitos neurológicos, como entorpecimento, sono e delírios, chegando aos casos mais graves de infecções anais, gangrena, miíase e morte.

Devido a essa epidemia alastrante, o K’ilombo dos Palmares se fechou, não fazendo mais incursões na colônia, e nem capturando negras e negros escravizados. Além de se protegerem com a sabedoria dos seus curandeiros, que davam severas instruções para os k’ilombolas, para colocarem pedaços de cebolas espalhados nos interiores de suas kubatas, e trocá-los por novos pedaços a cada três dias, sendo que os pedaços velhos precisariam ser jogados ao fogo de suas fogueiras, para matarem os germes dessa epidemia que se acumulavam aprisionados na cebola. Por isso, o K’ilombo foi o menos afetado, obtendo alguns anos de tranquilidade e paz.

Um ano depois em que Domingos Jorge Velho recebeu a patente de Capitão das Entradas de Palmares, e também de Capitão-Mor de Pernambuco, as suas tropas chegam a Recife, a convite do atual governador da capitania pernambucana, o segundo Marques de Montebello, D. Antônio Félix Machado da Silva e Castro, que substituiu D. Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho na governança pernambucana.

Antônio Félix era filho do primeiro Marquês de Montebello no Ducado de Milão, o honroso D. Félix Machado da Silva Castro e Vasconcelos, e de sua esposa, Violante de Orozco. Sendo D. Félix também o primeiro Conde de Amares e sexto Senhor de Entre Homem e Cávado. D. Antônio Félix, antes de ser governador, era Fidalgo da Casa Real de Lisboa e, quando o seu pai faleceu, herdou os seus títulos e casa.

D. Antônio Félix ratificou em papel os critérios do acordo feito entre o ex-governador D. João da Cunha Souto Maior e Domingos Jorge Velho, fazendo as tropas dos paulistas habitarem o povoado de Porto Calvo. Os pernambucanos temiam mais os paulistas do que os próprios palmarinos. E Domingos Jorge Velho era mais temido do que o próprio Zumbi. Até o Bispo de Pernambuco dele escreveu: “Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado... nem se diferencia do mais bárbaro tapuia mais que em dizer que é cristão, e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas... tendo sido a sua vida, desde que teve uso da razão – se é que a teve, porque, se assim foi, de sorte a perdeu que entendo a não achará com facilidade – até o presente, andar metido pelos matos à caça de índios, e de índias, estas para o exercício das suas torpezas, e aqueles para o granjeio de seus interesses.”

Os paulistas roubavam as mercadorias dos moradores das vilas e povoados por onde passavam. Provocando o terror na Capitania Pernambucana, porém os mais afetados eram os aldeamentos nativos que viviam em paz com os colonos. Certa vez, Domingos Jorge Velho, procurando complementar as suas tropas, chacinou mais duzentos nativos cortando as suas cabeças, somente porque estes se recusaram a segui-lo na luta contra Palmares.

Um ano depois da ratificação dos critérios a respeito das campanhas contra palmares e da patente de Capitão-mor de Pernambuco, Domingos Jorge Velho prepara suas tropas em Porto Calvo para atacar Palmares. Jorge Velho não tinha nenhuma tática, nenhum plano, nada. Apenas confiou nas informações de como os k’ilombolas combatiam, ignorando saber que essa seria uma expedição experimental.

O Capitão paulista juntou cerca de oitocentos nativos, quatrocentos mestiços, cem negros e cinquenta brancos em sua campanha e foi subir o Outeiro da Barriga em direção a Macaco. Em suas tropas havia alguns nativos e mestiços capitães do mato alagoanos, pernambucanos, baianos e cearenses dotados de experientes informações geográficas. E, por isso, jugou-se vitorioso.

Jorge Velho e sua malta sobem os morros florestais com muita atenção e cuidado. Jorge Velho não somente se julgava superior, como realmente era superior nos combates florestais. Sabia sobre as coisas da floresta até mais do que os nativos que conquistava. Tinham tanto o conhecimento do cacique como do pajé. Era conhecedor das ervas medicinais e imitava os pássaros, se comunicando a distância com sua tropa em específicos assobios e bocejares das diversas aves florestais. As imitações eram tão perfeitas, que até para um nativo habitante das florestas soavam como reais. Para Jorge Velho todas as florestas da colônia eram iguais. Porém, a campanha expedicionária subia e subia, e nada acontecia. Até que imperou nas tropas um clima de suspense, nunca se viu tanto silêncio. Os nativos locais de Pernambuco que compunham a horda estavam apavorados, e um deles freneticamente começou a gritar em língua nativa: “Todos vamos morrer!” Rapidamente Domingos Jorge Velho pegou seu arcabuz, dando um tiro certeiro na cabeça desse nativo, e disse à sua tropa:

— O Medo é o amante da Desgraça. Onde ele vai traz a sua amada consigo. Os palmarinos já ouviram falar de nós, eles estão com medo. Então, deixem a Desgraça para eles, não convidando para dentro de nossas tropas o seu amante.

Quando as tropas nativas pernambucanas viram aquela atitude fria de Jorge Velho ao matar um dos seus, perceberam que a Desgraça era uma prostituta, e que já entrara nas tropas pelo seu amante Brutalidade, convidando os seus filhos Desespero e Terror a brincarem com os sentimentos dos soldos.

Seis dias de caminhada se passaram, e as tropas paulistas chegam à primeira muralha fortificada com os mais grossos e altos troncos de guariroba. Domingos Jorge Velho, ao ver aquilo, se espantou com aquela fortificação. Com muito cuidado seus homens se aproximaram da grande muralha, beirando-a, até encontrarem uma segunda muralha a uns oitenta passos de distância. Estando essa deserta, foram à segunda muralha, também, beirando-a, até avistarem uma terceira muralha. Já nessa muralha, Jorge Velho não ousou se aproximar, pensado consigo mesmo: “Quando a esmola é demais o santo desconfia”. E um silêncio aterrorizante tomou conta daquele ambiente, que mais parecia um labirinto.

E na verdade era isso mesmo. Um conjunto com cinco muralhas, duas transversais intercaladas, contendo em seu interior três horizontais. Que protegia os portões da N’gola N’janga.

Um sentimento de pavor se apossou das tropas de Domingos Jorge Velho. De repente, vozes começaram a ecoar por dentro das grandes muralhas de paliçadas. E os paulistas estavam cercados pelos k’ilombolas por dentro e por fora das paliçadas. Jorge Velho, percebendo o cerco, gritou:

— Avancem homens para terceira muralha, estamos cercados!

E atiradores k’ilombolas de arco e flecha, dizimavam os paulistas de cima das muralhas, em chuvas de pequenas lanças penetrantes. Jorge Velho tentou colocar sua artilharia em formação, mas estava totalmente encurralado. E, percebendo a derrota, gritou:

— Nós nos redemos!

O paulista deu ordens aos seus homens que colocassem todas as suas armas no chão. E N’zambi gritou por detrás da terceira paliçada:

— Capitão Jorge Velho. Deixe todos os seus pertences e os pertences dos seus homens no chão, pegue seus homens paulistas sobreviventes, mas deixe aqui os nativos pernambucanos e saia imediatamente dessas cercanias. Que isso seja um aviso para vocês paulistas. Da próxima vez, não haverá perdão ou consideração. Por isso, retornem para São Paulo e nos deixem em paz.

Um grupo de k’ilombolas adentrou as muralhas de paliçadas e catou todos os despojos, enquanto Domingos Jorge Velhos e seus homens paulistas apavoradamente se retiravam do cerco, com medo de serem golpeados pelas costas. Pela primeira vez os paulistas sentiram na garganta o gostinho amargo da humilhação de uma derrota, que nem batalha teve.

Estrategicamente, N’zambi mostra para todo o povo africano escravizado o porquê de ser venerado como Xangô, o deus da guerra e da justiça.

FIM DO VIGÉSIMO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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