O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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24. Capítulo 19 - ק (KUPH) A REDENÇÃO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ק

KUPH

A REDENÇÃO

 

Um mês se passou depois que a expedição diplomática encabeçada pelo sertanista Fernão Carrilho chegou a Palmares. Carrilho não fizera muitos amigos em Palmares, porque ouviu muitos comentários a seu respeito. Todos ali sabiam do perfil do sertanista Fernão Carrilho, temido destruidor dos mokambos africanos e aldeias dos nativos baianos. Por isso, o sertanista se apresentava com o nome de Gomes Carrilho, dizendo ser primo distante de Fernão Carrilho.

O sertanista resolveu contar essa história, porque não tinha como ocultar o seu sobrenome, devido os seus soldados se referir a ele como Capitão Carrilho. Cada vez mais apavorado, temendo sofrer represálias por parte dos palmarinos, Carrilho se dirigiu à casa real do rei Ganga Zumba para pedir sua proteção.

N’ganga N’zumba o recebendo disse:

— Vejo que o Capitão ainda está vivo. Provavelmente os k’ilombolas não sabem que foi você que armou toda essa emboscada contra nós. Deixei você livre para que o povo o matasse. Mas vejo que você é um homem astuto e de muitas habilidades, pois, de certa forma, armou contra nós uma armadilha perfeita. Já que você sobreviveu ao julgo do povo, podemos agora iniciar as nossas negociações.

— Grande Rei, vi que o seu reino é abundante e imenso. Creio que muitos de nós não sabemos o quanto Palmares é tão organizado. — Disse Carrilho.

— Vejo realmente que o capitão é ingênuo, e é por isso que agora se encontra aqui, beirando o poço da morte. Graças a sua ingenuidade, a loucura de sua expedição deu certo, ignorando todo o perigo e nos confundindo. Muitos dos seus capitães e governadores sabem muito bem quem somos, pois sempre compactuamos em tratados e acordos sigilosos. Saiba que muitas das expedições que aqui vieram eram simplesmente para tratar de negócios. Por que você acha que foi chamado aqui para nos aniquilar? Trouxeram você de outra capitania justamente para que não possamos fazer tratos. Você foi muito inocente em sua campanha, e essa ignorância de quem nós somos lhe rendeu uma suposta vitória. Mas como você pode muito bem ver, poderia também lhe render sua vida.

As últimas palavras de Ganga Zumba já não mais eram novidades para Carrilho. Pelo tempo que passou habitando as ruas de Palmares, percebeu que o governador e os senhores pernambucanos não lhe contaram tudo. Só agora ele foi entender o motivo de tantas brigas e cobiças, que se faziam presentes nas reuniões das câmaras pernambucanas, e também porque eles sempre reduziam os financiamentos para expedição. Não era objetivo desses governantes e senhores destruir Palmares, mas se apossarem dos seus bens, negros fugidos e das suas vilas, ou manterem o monopólio nos acordos comerciais com o rei Ganga Zumba.

Carrilho também ficou sabendo dos ataques palmarinos às vilas litorâneas, o que desencadeou o ódio do governador D. Pedro de Almeida, pelo qual o trouxe à Capitania de Pernambuco com objetivos de se vingar dos palmarinos. Carrilho entendeu que os senhores que financiaram a sua expedição verdadeiramente queriam financiar a sua morte. Pois D. Pedro de Almeida tinha muitos negócios nas regiões afetadas pela invasão palmarina, o que lhe rendeu muitos prejuízos econômicos. Por isso, os senhores das câmaras, para não atrapalharem os seus negócios em Palmares, chamaram Carrilho para se reunir secretamente, tentando dessa forma ofuscar os planos de vingança do governador pernambucano. Carrilho compreendeu que foi usado por ambos os lados para defender os seus mais ambiciosos interesses. E isso o revoltou muito. Nesse jogo dos cabedais da cobiça, Carrilho fora a bola da vez. E, refletindo sobre tudo isso, Carrilho disse ao rei:

— Eu agora sei que fui usado, e na minha ignorância, ó Grande Rei, sequestrei os seus filhos e os entreguei ao governador. E, para lhe falar a verdade, a coroa portuguesa já deve estar sabendo desses relatos. E agora bem compreendo porque os senhores das câmaras e o governador ficaram tão apavorados, e não felizes com o sucesso da minha expedição. Os seus filhos e familiares, ó Grande Rei, agora são prisioneiros da coroa portuguesa. Por isso, vim aqui representando a coroa com essa petição, para que o senhor e sua corte se apresentem na colônia, para tratar de um acordo de paz, em troca dos seus familiares.

— Nada de acordo. Já estou planejando invadir Olinda e resgatar meus filhos e sobrinhos, e destroçarei cada vila colona que vier pela frente. — Disse N’ganga N’zumba.

— Me desculpe, ó Grande Rei, mas isso não será inteligente de sua parte. O senhor desencadeará uma grande guerra jamais vista nessas terras. De certo os governadores-gerais poderão intervir, reunindo uma grande infantaria. E se isso não for de grande valia, creio que até embarcações tanto de Lisboa, como também das colônias orientais, podem vir contra você lotadas de homens e armamentos. Além do mais, eles matarão os seus familiares assim que o senhor decidir invadir.

N’ganga N’zumba bem sabia que as palavras de Carrilho eram certas. O momento era de grande cautela. Na verdade, o M’wene passou várias noites em branco refletindo sobre tudo, e, sem mais alternativas, disse:

— Pegue os seus homens e regresse. Daqui a um mês enviarei uma comitiva k’ilombola para tratarmos sobre o acordo. Peço ao regente de vocês que cuide bem dos meus familiares e guerreiros.

— Não se preocupe, Grande Rei, seus familiares estarão seguros e saudáveis. — E, sem mais nada a dizer, Carrilho fora rapidamente ao encontro dos seus homens. Pois, aliviado, desejava o mais depressa possível sair de Palmares antes que o rei Ganga Zumba pudesse mudar de ideia.

Com a partida de Carrilho e seus homens, o M’wene K’ilombo reuniu-se com seus conselheiros Mazômbos e familiares em sua Casa Real e disse:

— Depois de muito pensar. E pela segurança dos nossos filhos, irei ter com os colonos. Escutarei o que eles têm a dizer, e negociarei com o chefe deles.

— Isso significará o fim da N’gola N’janga, ó Grande N’ganga. — Disse N’ganga Muíça.

— A N’gola N’janga tem N’zambi, ele segurará essa flecha. Eu já estou velho e cansado de tantas guerras. Pedirei aos colonos um lugar para nós e nosso povo. Um lugar onde possamos viver livres. — Disse N’ganga N’zumba.

— Seremos sempre seus vassalos, assim como foram os nossos M’wenes do Kongo ao se renderem a eles. Mas também eu não vejo alternativa. Nossa mãe sempre nos alertou a nunca fazer acordos com eles, haja o que houver. — Disse N’ganga N’zona.

— Os colonos são muito poderosos, eles, além de terem muitas terras, controlam também o mar. Têm armamentos superiores e muito soldos, não sei por quanto tempo resistiremos em uma grande batalha. Os tempos hoje são outros, enquanto eles crescem nós diminuímos. Se acontecer uma grande batalha, todos nós pereceremos. Assim foi no Grande Kongo na batalha de M’bwila, e assim será na Pequena Angola se nós resistirmos. Agora vamos ver se realmente o profetizado dos nossos ancestrais será o libertador do nosso povo. O espírito de nossa mãe Akualtune tem N’zambi, ele será o novo M’wene K’ilombo. Apenas peço absoluto sigilo nas coisas que aqui discutimos, para evitarmos confusões entre o povo. Também N’zambi não deve saber dessa reunião, no momento certo o proclamarei como novo M’wene K’ilombo da N’gola N’janga. — Com essas palavras N’ganga N’zumba encerrou sua reunião.

O M’wene sabia que muitos dos seus familiares e Mazômbos apoiavam as iniciativas de N’zambi. Por isso fora cuidadoso em suas palavras. Mas, secretamente, o que ele realmente pretendia com esse acordo com os colonos era avassalar a N’gola N’janga ao reino português. Sendo que ele seria uma espécie de governador dos povos k’ilombolas, apaziguando as divergências entre os colonos, e continuando a manter tratos comerciais licitamente com as vilas e povoados pernambucanos. O que resultaria na quebra do K’ilombo como estado independente da colônia portuguesa, obrigando a redenção dos rebeldes ao julgo português e, por fim, resultando na queda de N’zambi como um emergente ao cargo de M’wene K’ilombo.

Quatro meses se passaram depois da bem-sucedida campanha diplomática do sertanista Fernão Carrilho, quando N’ganga N’zumba monta sua embaixada k’ilombola para ir a Vila dos Arrecifes dos Navios, já conhecida popularmente como Vila de Recife, para selar um acordo com o então governador D. Aires de Souza e Castro, que substitui D. Pedro de Almeida no governo da capitania pernambucana.

N’ganga N’zumba partiu da Cerca Real dos Macacos com uma comitiva de quarenta guerreiros bem armados. Munidos de lanças, arcos e flechas e alguns arcabuzes. Ao chegarem nos povoados e vilas da colônia, foram recebidos com vaias e muitos protestos por parte do povo, que arremessava sobre eles frutas e verduras, e toda sorte de pequenas coisas que encontravam pela frente. A comitiva seguia em direção à Vila de Recife, escoltada pela guarda colonial, que os protegia dos pequenos ataques e revoltas dos aldeões colonos.

Sujos, rotos e maltrapilhos devido a toda confusão na caminhada, N’ganga N’zumba e sua embaixada k’ilombola chegam à Vila de Recife. O governador, ao vê-los, os recebeu condignamente. Pois para ele não passavam de um bando de negros, gentis e mestiços selvagens.

N’ganga N’zumba, apesar de toda aquela humilhação, se mantinha firme em postura e voz, e diante do governador disse:

— Aonde estão meus filhos e sobrinhos?

Rapidamente D. Aires de Souza e Castro fez um sinal com a mão para um de seus capitães, e um bando de soldos trouxeram os familiares e guerreiros do líder palmarino. N’ganga N’zumba, N’ganga Muíça e N’ganga N’zona ficaram tão emocionados ao verem os seus filhos, que não puderam conter os seus choros. Nisso, se abraçaram e trocaram algumas palavras em língua k’imbundo. Depois de muitos abraços e beijos entre eles, o governador, se aproveitando daquela situação, disse:

— Como você pode ver, D. Ganga Zumba, mantemos nossas palavras de que sua família estaria em saúde e segurança. Não somos desrespeitosos com nossas atitudes, espero que possamos hoje realizar um acordo de paz.

— Foi para isso que vim aqui, Governador. — Disse N’ganga N’zumba emocionado, ainda abraçado aos seus filhos.

Juntos, N’ganga N’zumba com seus irmãos N’ganga Muíça e N’ganga N’zona e o governador pernambucano D. Aires de Souza e Castro com seus conselheiros, se reuniram a portas fechadas para estabelecer as normas do acordo. Depois de cinco horas de reunião, redigiram um tratado de paz e convivência que só foi assinado pelos líderes palmarinos depois de uma grande missa católica em que batizaram todos os k’ilombolas ali presentes, incluindo o M’wene K’ilombo. Então trocaram os seus nomes para apelidos portugueses, jurando servir a coroa portuguesa e crer absolutamente na fé católica.

O acordo tratava que todos os negros, gentis e mestiços nascidos em Palmares teriam o direito a cartas de alforria sob liderança de Ganga Zumba, sendo que os não nascidos teriam de ser entregues ao cativeiro, sob o poder do governo pernambucano. Os brancos palmarinos seriam perdoados das suas dívidas e rebelião, voltando a habitar os vilarejos e povoados coloniais. Ganga Zumba teria um quarto das terras de Palmares em seu poder, em que administraria uma vila onde todos os palmarinos que aceitassem o acordo teriam terras para viver. O comércio entre os palmarinos e os povoados vizinhos passaria a ser legalizado e fiscalizado. Todos os palmarinos teriam que ser batizados na igreja católica e ser vassalos da coroa portuguesa, pagando impostos e tributos como quaisquer outros povos da colônia.

O tratado só não contemplava uma imensa massa populacional de ex-escravizados fugitivos e libertos, isto é, os não nascidos em Palmares teriam de ser entregues ao cativeiro. O que para N’ganga N’zumba seria seu maior problema. Por isso, o M’wene, temeroso, decide abandonar a Cerca Real dos Macacos, não mais regressando para lá. Fora habitar nas regiões dos mokambos e kraais periféricos de Cucaú. Convocando assim todos os k’ilombolas nascidos na N’gola N’janga para o seguir.

Enquanto isso, no mokambo de N’zambi, tardiamente o Príncipe de Palmares ficou sabendo dos assuntos referentes ao acordo. E, já recuperado de seu ferimento, N’zambi convoca todos os k’ilombolas do seu mokambo e dos outros mokambos vizinhos para uma grande reunião na pedra do monte. Diante de toda aquela gente, N’zambi discursou em alta voz:

— K’ilombolas! Filhos e filhas da N’gola N’janga, refugiados e libertos desse sistema opressor português. Fomos traídos pelos nossos líderes, pelos nossos N’gangas. Todos sabem dos mandamentos da nossa mãe k’ilombola Akualtune de nunca, por motivo algum, fazermos tratos de paz com os colonos. Pois como Akualtune sempre nos alertou, eles nos dão com uma das mãos e nos tiram com a outra mão. Nossos N’gangas fizeram acordos com os governadores pernambucanos, compactuando para que os refugiados e libertos que vivem aqui conosco voltem ao cativeiro. Eu, como um k’ilombola livre nascido no K’ilombo, não aceito de jeito nenhum uma alforria escrita com o sangue dos nossos irmãos no cativeiro. Eu, como um k’ilombola guerreiro, jamais quero ver a nossa N’gola N’janga nas mãos dos colonos. Eu, como um negro livre e líder k’ilombola, jamais quero compactuar em acordos de paz, onde favorecem o domínio de uma raça sobre outra raça. Hoje o K’ilombo se dividiu, coisa que nunca quis que acontecesse. Portanto, vocês, nascidos nos mokambos e kraais da N’gola N’janga, têm o livre-arbítrio de escolherem viver alforriados no julgo português com N’ganga N’zumba em Cucaú ou permanecerem na N’gola N’janga livres, lutando pela liberdade dos nossos irmãos e irmãs escravizados.

Então, todos os k’ilombolas ali presentes gritaram a favor de permanecerem no K’ilombo. E N’zambi continuou a dizer:

— Vamos agora para a Cerca Real dos Macacos. Vamos nos apossar da N’gola N’janga e defender os nossos sonhos de liberdade.

E, com gritos de guerra e grande alvoroço, o povo marchou até a Cerca Real dos Macacos, empossando N’zambi como o novo M’wene K’ilombo da N’gola N’janga.

O clima estava tenso não só na N’gola N’janga, como também nos povoados e vilarejos da capitania pernambucana. Principalmente nas câmaras dos governantes e capitães das vilas e povoados de Porto Calvo, do Rio de São Francisco do Sul e Alagoas. Muitos senhores de engenhos, capitães e coronéis estavam revoltados com a atitude do governador, de delimitar uma grande área em Palmares para que os negros fugidos vivessem em liberdade, bem como ao direito do plantio, comércio, produção e tratos com a colônia.

Também, muitos colonos, ao saber do acordo entre o líder palmarino e o governador, viram grandes oportunidades para atacar algumas regiões de Palmares, com objetivos de capturar os palmarinos não nascidos e se apossarem de suas terras e bens. O que viria a desencadear uma corrida de invasões a Palmares em grande escala e proporção, organizadas por muitos capitães e senhores influentes. Além de outras pequenas incursões compostas por moradores, capitães do mato e toda sorte de gente que queria lucrar com o fim de Palmares.

Já em Cucaú, N’ganga N’zumba se estabeleceu junto a sua família e muitos k’ilombolas que o seguiram. Adotara o nome português de Afonso do Palmar, e vivia como um colono senhor de terras e engenhos. Mas não obteve o respeito dos colonos, que constantemente o discriminavam e o desprezavam. Também por pressão dos colonos sofrera isolamento comercial de suas mercadorias, apenas lhe restando vender seus insumos produzidos muito abaixo do preço do mercado. Porém, devido às muitas invasões desorganizadas que sofriam os kraais e mokambos do norte do K’ilombo, Cucaú recebia periodicamente muitos k’ilombolas que, para se refugiarem em segurança, preferiam viver livres sob o julgo português.

N’zambi, sua família e guerreiros foram habitar o sul do K’ilombo dos Palmares, na Casa Real que foi de N’ganga N’zumba, na Cerca Real dos Macacos. O líder guerreiro reforçou ainda mais a segurança do grande Mokambo Real. Construiu novos postos e guarnições ao redor das muralhas de adobe. Reforçou as cercas de paliçadas transformando-as de dupla em tripla. Cavou valas com inúmeras armadilhas ao redor das paliçadas, contendo inúmeras estacas de paus afiadas e envenenadas. Colocou várias arapucas pelas trilhas que levavam ao Mokambo Real. E, com ajuda dos muitos europeus que ali viviam, construiu alguns mecanismos bélicos de tensão, que utilizavam uma espécie de braço para lançar pedras e outros objetos a uma grande distância, chamados de catapultas e trabucos. E constantemente treinava homens e mulheres para guerra, sob o seu comando.

N’zambi também reforçou a segurança do Mokambo Guerreiro de Subupira e do Mokambo Guerreiro de Andalakituche. Fortificou com uma grande cerca de paliçadas duplas, construída com os troncos das guarirobas, os aldeamentos dos nativos, que davam formação ao Mokambo do Engana-Kolomim, e os kraais periféricos do Alto Magano, a Curiva, o Oitero, a Graça e a Quissama, que se encontravam totalmente desprotegidos. Investiu também na segurança e produção agrícola do Mokambo de Osenga, que supria as necessidades alimentícias dos habitantes do sul do K’ilombo. E penosamente abandonou o norte do K’ilombo, deixando-o à mercê dos colonos e de suas ambições. Onde N’ganga N’zumba e os muitos k’ilombolas foram habitar.

As diversas hordas colonas foram tombando um a um os kraais e mokambos do norte. Matando e sequestrando muitos k’ilombolas, sem se importarem se eram nativos ou não de Palmares. Desconsiderando o tratado de paz, assinado entre N’ganga N’zumba e D. Aires de Souza e Castro. Os que conseguiram fugir iam para Cerca Real dos Macacos sob proteção de N’zambi, ou para Cucaú sob o cabresto de N’ganga N’zumba ao julgo português.

O primeiro mokambo a cair incluía os kraais de armazenagem dos armamentos k’ilombolas, o Mokambo de Amaro. Depois caíram o Mokambo de Akotirene, os antigos Mokambos de Tabokas, que deram formação ao Mokambo de N’zambi, o Mokambo de Dambrabanga e o Mokambo de Akualtune. Já os kraais periféricos do norte do K’ilombo, perto da região dos Garanhuns, formado por Gongoro, Cucaú, Pedro Capacaça, Quiloange, Uma e Catingas formavam o povoado palmarino do Cucaú, administrado pelo vassalo da coroa portuguesa D. Afonso do Palmar, o N’ganga N’zumba.

N’ganga N’zumba não estava nada satisfeito com aquela situação, mas não se sentiu traído pelos colonos. Na verdade, já intentou saber de tudo antes, sendo que nada disso o surpreendia. A sua maior preocupação estava em como defender sua família dos ataques colonos, que cada vez mais os ameaçavam. Por isso, também fortificou Cucaú. Cercando-a toda de paliçadas originadas dos grossos troncos das palmeiras de guariroba.

Tempos de cobiça, revoltas, mortes e guerras se fizeram com a quebra do K’ilombo dos Palmares. Cada capitão e senhor colono queria seu quinhão em Palmares. Tempos fortes de uma oposição generalizada, que o governador D. Aires de Souza e Castro não tinha como controlar. N’ganga N’zumba periodicamente mandava cartas ao governador, dizendo que suas terras estavam sendo invadidas constantemente pelos capitães do mato, e seus homens e mulheres estavam sendo mortos e sequestrados. D. Aires de Souza e Castro preferiu se isolar, afinal não podia ele combater o seu povo para defender Ganga Zumba. N’ganga N’zumba, percebendo o silêncio do governador diante das suas queixas, resolveu lutar. Contrariando o acordo de paz, que de certa forma só existia em um papel.

Depois de combater alguns colonos e grupos de capitães do mato, N’ganga N’zumba decide aceitar em Cucaú qualquer negro que quisesse se refugiar. Assim, buscava forças para reerguer Cucaú como um K’ilombo, já que o tratado de paz fora rompido. Entretanto, N’ganga N’zumba também conquistou muitos inimigos entre os negros não nascidos em Palmares. E muitos dos seus inimigos foram agora habitar em Cucaú. Esses eram aqueles negros fugidos e libertados que constituíram famílias no K’ilombo e perderam tudo com a decisão de N’ganga N’zumba de se aliar aos portugueses. Não dando muita importância às consequências dos seus atos, N’ganga N’zumba fez seus inimigos habitarem porta adentro da sua morada, ignorando que fizera um grande mal a esse povo. E, em um dos seus jantares, N’ganga N’zumba fora envenenado por uma negra refugiada que perdeu seus filhos e seu marido, porque ambos não eram nativos em Palmares. Essa mulher, vendo a oportunidade de vingança, foi ser cozinheira do M’wene, e em uma das noites em que o M’wene se encontrava só em sua habitação, então ela preparou uma saborosa sopa com ervas e insetos venenosos macerados. O que causou a morte imediata do M’wene K’ilombo, N’ganga N’zumba.

Assim morreu N’ganga N’zumba, o primeiro M’wene K’ilombo da N’gola N’janga, que governou Palmares por quase quarenta anos. Valoroso negro e capitão guerreiro, senhor das guerras k’ilombolas que resistiu a mais de trintas expedições invasoras de grande e pequeno porte. Com a morte do M’wene K’ilombo, os k’ilombolas que habitavam Cucaú fugiram para Cerca Real dos Macacos pedindo exílio a N’zambi. Os filhos e sobrinhos de N’ganga N’zumba também se aliaram a N’zambi, somente N’ganga N’zona e N’ganga Muíça continuaram a ser vassalos dos portugueses. Velhos, cansados e abatidos, os irmãos N’gangas, com a morte repentina do irmão M’wene, não tinham mais ânimos e nem tiveram mais motivos de voltar à Cerca Real dos Macacos. Mas esperavam em N’zambi a libertação do seu povo negro.

Na Cerca Real do Macacos N’zambi decretou três dias de luto em memória do seu tio, o M’wene K’ilombo. Muitos tambores, gritos e choros ecoaram da N’gola N’janga até os vilarejos e povoados da capitania pernambucana. Só com a morte de N’ganga N’zumba que N’zambi aceitou o título de M’wene K’ilombo. Enquanto seu tio estava vivo, mesmo com todas as desavenças entre os dois, N’zambi procurava sempre respeitá-lo. Mantendo-se íntegro e equilibrado na justiça de ocupar uma posição de liderança na N’gola N’janga, sem ofuscar inconvenientemente a honra e o poder hierárquico do M’wene K’ilombo. N’zambi, com sua gentileza e sensatez, manteve a paz com o seu tio, mesmo sofrendo perigos de morte. Porém, diante dessa conduta, obteve o apresso de todos os k’ilombolas, desde os líderes do parlamento do K’ilombo até os mais hábeis guerreiros, guerreiras e familiares.

N’zambi, como M’wene K’ilombo, era ativo, sagaz e empreendedor em integridade, acordava todos os dias antes do sol nascer. E impôs ao K’ilombo uma forte campanha armamentista, de modo que todos os jovens homens e mulheres da idade de dezessete anos até os vinte quatros eram obrigados a se alistarem nas forças guerreiras k’ilombolas. E treinavam diariamente nos dois mokambos guerreiros, o de Subupira comandado por Antônio Soares e o de Andalakituche comandado pelos filhos e sobrinhos de N’ganga N’zumba.

Também o nome de N’zambi se tornava cada vez mais notório em toda a colônia portuguesa do Novo Mundo. Devido às muitas expedições libertadoras promovidas e encabeçadas por ele nos engenhos, lavouras e senzalas pernambucanas. As suas investidas eram perfeitas, bem elaboradas e minuciosamente estudas para não haver erros ou falhas. Por causa dessa perfeição em suas campanhas, diziam ser N’zambi possuidor de rezas e encantamentos mágicos. Tinha o poder de aparecer e desaparecer nas senzalas, libertando os escravizados. Pela sua rápida recuperação quando foi baleado, diziam ser ele à prova de balas, possuidor de um corpo fechado. Sendo até aclamado como a manifestação do Deus da Guerra e da Justiça, o Orixá Xangô. Conquistando cada vez mais o respeito dos povos oprimidos e o temor dos colonos portugueses.

A capitania pernambucana se encontrava cada vez mais afundada em um caos social e econômico generalizado. Os palmarinos estavam cada vez mais revoltosos e, com a administração de N’zambi, era impossível manter tratos e negócios com os colonos. O governador D. Aires de Souza e Castro retirou-se por ora da luta contra Palmares, entregando esse ofício aos senhores e capitães das câmaras e vilarejos pernambucanos. Dando permissões aos organizadores e financiadores das expedições contra o reduto dos negros alevantados de se apossarem das terras e dos palmarinos conquistados. Com a grave crise do açúcar, o governo não tinha mais como investir em campanhas expedicionárias.

O K’ilombo fora reduzido drasticamente, devido à sua parte norte estar em posse dos colonos. Com a morte de N’ganga N’zumba Cucaú também caiu, e os dois irmãos N’gangas foram viver na Vila de Recife, sendo subordinados do governador pernambucano. Pelo fato dos mokambos do norte terem tombado e suas terras agora estarem na posse dos colonos, o povoado de Porto Calvo e as Vilas de Recife e Olinda agora estavam em plena paz e tranquilidade, livres dos ataques k’ilombolas. O que resultou na concentração de invasões k’ilombolas no sul da capitania, afetando drasticamente as vilas e povoados perto da influente Vila de Alagoas.

Os maiorais da Vila de Alagoas decidiram organizar uma expedição para invadir Palmares, contratando o experiente capitão das entradas João Freitas da Cunha. Esse capitão, que também era sertanista, avançou contra Palmares subindo ao sul em direção ao Mokambo de Andalakituche. Sua tropa em maior parte era constituída por gentis Kaetés, e alguns poucos brancos e negros. Os k’ilombolas articularam uma rede de informação nas baixadas e subidas das serras que levavam ao K’ilombo, criando postos aéreos nas copas das árvores, de onde avistavam toda a movimentação dentro das matas fechadas. Esses postos de avistamento continham de dois a três guerreiros k’ilombolas, de modo que, ao perceberem algo de errado que perturbasse a tranquilidade da floresta, um deles descia do posto e corria alertando os outros postos, até chegarem no mokambo mais próximo. Devido a essa rede de informação a distância, os k’ilombolas se preparavam com antecedência para as invasões expedicionárias dos colonos.

As tropas de João Freitas da Cunha, compostas por mais de mil homens, foram terrivelmente destroçadas pela fúria k’ilombola. A jovem guerreira Acaiene, o guerreiro Tokulo e o guerreiro N’zambi, junto aos seus primos e sua tropa de guerreiros k’ilombolas, cheios de ódio, pelo fato da recente morte de N’ganga N’zumba, mataram e decapitaram todos os seus invasores, pendurando os seus corpos em estacas de paus, espalhados por toda a baixada da serra que delimitava o Mokambo Guerreiro de Andalakituche. Fizeram isso como um alerta aos colonos, sinalizando o terror que aconteceria com suas tropas se tentassem mais uma vez invadir.

Os colonos não se intimidaram com esse massacre, afinal não eram eles que morriam nas batalhas. Os colonos sempre procuravam os sertanistas para encabeçarem as suas campanhas e expedições, pois estes se apossavam dos nativos alistando-os em suas tropas. Em que geralmente os seus soldos eram compostos apenas de dois por cento de brancos, cinco por cento de negros e em sua maioria, de mais de noventa por cento, os soldos eram compostos pelos homens das tribos nativas conquistadas, chamados vulgarmente de gentis. Os nativos, depois de serem desapropriados das suas terras, eram doutrinados a serem soldados dos sertanistas. Pois não tinham mais lugares para morar, e também naquele tempo não se podia ter gentis como escravos, por ordem dos cleros católicos. Restando-lhes como opção de entrada na sociedade colona ser um soldado sertanista ou ser um autônomo capitão do mato.

Depois dessa humilhante derrota, os senhores coloniais optaram por serem mais estrategistas. Os senhores da Vila de Alagoas se reuniram com os integrantes da Família Lins em Porto Calvo. Resolvendo fazer um ataque duplo a Palmares, dividindo suas forças. Assim, uma tropa invadiria o sul por Andalakituche, e a outra invadiria o norte por Subupira. A estratégia era de invadir os mokambos de armamentos, para causar o maior prejuízo em Palmares, e pouco a pouco minar suas forças.

Para essa empreitada armamentista, contrataram os capitães pernambucanos Gonçalo Moreira, João Martins e Alexandre Cardoso. As tropas colonas atacaram os dois mokambos guerreiros ao mesmo tempo. O M’wene K’ilombo N’zambi com suas tropas guerreava em Subupira. Enquanto Acaiene, Tokulo e N’zambi junto às suas tropas combatiam os invasores em Andalakituche. Inicialmente, os k’ilombolas em ambos os lados sofriam várias baixas. As tropas colonas iam cada vez mais dizimando muitos kraais. O clima estava tenso nos campos de batalhas em Andalakituche, os k’ilombolas bravamente resistiam ao cerco, apesar de muitos guerreiros e guerreiras serem dizimados. Já em Subupira, o M’wene e suas tropas estavam em grandes desvantagens, sofrendo inúmeras baixas devido ao cerco ser maior.

A sorte só virou para os k’ilombolas em Subupira quando um grupo imenso de mulheres encabeçadas por Dandara, em sua maior parte constituídas de nativas das tribos dos habitantes das florestas e negras nativas e refugiadas do K’ilombo, avançou corajosamente sobre os colonos com suas ferramentas agrícolas, barrotes de paus, algumas armas de fogo, facões e cordas. As mulheres estrategicamente chegaram por detrás das tropas colonas, encurralando-as. Os colonos não tiveram outra opção, senão bater em retirada. Com a batalha vencida em Subupira, rapidamente os guerreiros de N’ganga N’zambi e as forças femininas de Dandara marcham em direção a Andalakituche, perseguindo as tropas colonas que se debandavam alvoraçadas pelas baixadas dos morros florestais.

O K’ilombo dos Palmares mais uma vez se viu vitorioso perante as investidas dos colonos. O M’wene K’ilombo percebeu que os colonos estavam cada vez mais furiosos e articulados. Esse último cerco causou prejuízos significativos nos kraais e mokambos afetados, e se mais uma expedição invasora viesse contra eles, os resultados seriam devastadores. N’ganga N’zambi sabia que só resistir aos ataques colonos não era o suficiente. Pois ele corria o risco de perder mais territórios para os colonos. E a perda de territórios significava a perda da guerra e o fim da N’gola N’janga. O M’wene decidiu fortalecer o K’ilombo, atacando as vilas e povoados do sul da capitania pernambucana. Entendeu que a guerra era mais psicológica e intelectual do que física, e que atacar dava mais resultados do que se proteger. Então esquematizava estrategicamente ataques aos povoados, roubando suas posses e sequestrando seus cidadãos. Apavorando os colonos e conquistando terras e influências ao sul da capitania pernambucana.

Os habitantes do sul da Capitania de Pernambuco estavam atemorizados. E, em uma grande reunião na Vila de Alagoas, os maiorais dos povoados e vilarejos redigiram uma carta de ajuda ao então recente governador D. João de Souza, que substituiu D. Aires de Souza e Castro no regime pernambucano. O recente governador também viu em Palmares um motivo de se vangloriar perante os maiorais coloniais. Destruir Palmares significava para ele títulos e fama, não somente na colônia, como também no Império Português perante os monarcas de Lisboa.

D. João de Souza, inteirado dos fatos históricos da luta contra Palmares, contratou mais uma vez o sertanista Fernão Carrilho. O sertanista, já há cinco anos afastado dos assuntos de Palmares, resolveu habitar as regiões do antigo Mokambo de Amaro. Recompensa pelos seus feitos de guerra, como Capitão das Entradas de Palmares, tendo recebido a posse da terra palmarina pelo anterior governo de D. Aires de Souza e Castro, acordo instituído pelo governo de D. Pedro de Almeida. O governador D. João de Souza, em sua ambição política e vaidade aristocrática, queria obter títulos maiores do que os seus antecessores governadores. E esse título só poderia vir com a destruição total de Palmares.

Carrilho não ficou nada satisfeito com a recompensa do seu título. A luta contra Palmares quase o matou, e só ganhara uma pequena posse de terra nas regiões de Amaro. Além de alguns negros fugidos, mestiços e gentis. Também, fora honesto com os seus homens, dando-lhes posses de terras e escravos. E foram esses próprios homens os que aterrorizavam os k’ilombolas e Cucaú, quando N’ganga N’zumba, ainda vivo, lá habitava. Mas, desta vez, Carrilho já tinha todo o conhecimento necessário para recuperar o que julgou perder em sua primeira negociação com o governo pernambucano. Carrilho estava por dentro de todo jogo do poder, cobiça, egoísmo e inveja que imperava entre os degradados colonos pernambucanos. E dessa vez resolveu enriquecer às custas das divergências da sociedade colonial pernambucana.

Carrilho propôs a D. João de Souza um plano infalível, composto por duas campanhas expedicionárias que ele batizou como Expedição Cavalo de Troia. Seu plano consistia em enviar a Palmares uma Campanha Embaixadora, para tratar dos assuntos de paz. Essa campanha seria suicida, provavelmente seria exterminada pela fúria dos negros alevantados, mas desviaria toda atenção dos palmarinos para aquela situação. Enquanto isso, uma segunda campanha, fortemente armada, atacaria de imediato o Grande Palmares do Macaco. Seguindo os mesmos passos da comitiva embaixadora na retaguarda, só esperando a abertura dos portões, para exterminar de vez o reduto dos negros alevantados.

D. João de Souza achou a ideia espetacular, e deu a Carrilho tudo que ele pediu. Carrilho montou uma tropa com um pouco mais de cinco mil homens, um quarto da população de Palmares. Montou e treinou uma infantaria munida das mais modernas espingardas. Dentre elas, muitos arcabuzes, bacamartes e poderosos mosquetes com suas afiadas baionetas. Com todo esse poderio bélico e militar, Carrilho marchou para suas terras no antigo Amaro. Lá convocou os seus homens para uma grande reunião e disse:

— Escutem todos! Chegou o momento que tanto esperávamos, desta vez não haverá enganos, pois agora estamos no controle da situação. Há um ditado que diz: “inteligente é aquele que aprende com os próprios erros, e sábio é aquele que aprende com os erros dos outros”. Somos inteligentes, e dessa vez não comeremos as migalhas dos governadores ou senhores pernambucanos. Faremos um pacto de aliança com Zumbi dos Palmares.

— Como assim faremos um pacto de aliança com Palmares? — Questionou um dos seus homens.

— Palmares, mesmo depois de ser reduzido, continua sendo mais rico do que Olinda, Recife, Porto Calvo e Alagoas juntos. A sua vila real, seus palmares agrícolas e militares são os mais ricos, férteis e abundantes que já vi em toda minha vida. Nem São Salvador na Capitania da Baía de Todos os Santos é tão organizada assim. Lá não existem esgotos, fossas ou essas coisas que inundam as ruas das colônias com mau cheiro, ratos e fezes. Eles transformaram os seus excrementos em fertilizantes, curtindo-os em caixas de madeiras ao sol e depois tratando-os em abrigos de minhocas. Seus banheiros são secos, não utilizando água, e por isso não há maus odores pelas ruas e casas. Tudo lá é valioso e reaproveitável. Há muitas olarias, cestarias, metalurgia e até artesãos e ourives. Desta vez vamos lucrar com essa guerra inteligentemente, nos tornando os únicos atravessadores das mercadorias palmarinas.

Dizendo isso, e muitas outras coisas a respeito do que vivenciou em sua estadia na Cerca Real dos Macacos, Carrilho convenceu os seus homens, e agora planejavam como fariam tratos com os palmarinos.

Carrilho decidiu ir sozinho a Palmares e falar cara a cara com o chefe Zumbi. Pegou algumas provisões, embalou um mosquete com baioneta para presentear o Rei de Palmares e montou em seu cavalo branco partindo de Amaro até Subupira. Ao chegar nos morros florestais que davam para Subupira, Carrilho desceu do cavalo, pegou seu facão e foi subindo a pé, abrindo trilhas nos morros. Carrilho sabia que há qualquer momento um grupo de palmarinos iria ao seu encontro. Por isso, nem se preocupava com os barulhos do seu facão e do seu cavalo nas matas. Quando percebeu que estava sendo vigiado, parou e disse:

— Me levem ao seu chefe Zumbi.

Rapidamente um grupo de palmarinos o cercou, amarrou suas mãos e pegou o seu cavalo. Levando-o para o Mokambo Guerreiro de Subupira. De Subupira o levaram para a Cerca Real dos Macacos. E, diante do Rei Zumbi, Carrilho disse:

— Grande Rei Zumbi dos Palmares, eu sou Fernão Carrilho. E, como pode ver, depois que sua pessoa assumiu a liderança desse grande reino, eu nunca o incomodei.

— Você foi o causador de toda essa confusão em Palmares. E, como diz, nunca o incomodei. — Disse N’zambi.

— Eu não causei nada, ó grande Rei, apenas fui uma peça nessa grande moenda. Apenas quero lhe dizer que fui novamente contratado pelo novo governador para fazer mais uma campanha contra Palmares. Eles me financiaram tudo, inclusive tenho em minha posse dois mil mosquetes com baionetas, além de muitos arcabuzes e bacamartes de grande e pequeno porte. Tenho um presente para você, peça aos seus homens que me tragam o cavalo.

N’zambi deu ordens aos seus homens, atendendo ao pedido de Carrilho. Chegando o cavalo, os k’ilombolas desembainharam uma esteira feita de palhas secas de guariroba, enrolada e amarrada com cordas, e depois levaram para N’zambi. Carrilho adiantou-se, desamarrou e desenrolou a esteireira e disse:

— Veja, Grande Rei, eis aqui o famoso mosquete. Essa foi a arma que muniu os fidalgos que formavam a guarda pessoal do rei francês Henrique IV. Essa arma de fogo, semelhante ao arcabuz, é muito mais avançada e muito mais precisa do que qualquer outra arma de fogo. Com um cano de até sete palmos, coronha grande e baioneta, esta arma de fogo é a mais usada pela infantaria dos impérios europeus nas suas conquistas e feitos de guerra. — Dizia Carrilho ao desenrolar a grande arma. E com a espingarda na mão, continuou:

— O mosquete, em benefício do seu peso, carece de ser apoiado no solo por uma vara com uma forquilha em cima, para permitir uma boa mira, resultando em um bom disparo. O maquinismo de disparo do mosquete estabelece uma arte complicada, um protocolo que só se conclui em cerca de três minutos. Mas em uma infantaria bem treinada e preparada poderá conseguir grandes resultados bélicos no campo de batalha.

— Foram essas armas que vocês usaram no Mokambo de Akualtune? — Perguntou N’zambi.

— Sim. — Afirmou Carrilho.

Carrilho pediu permissão ao rei de Palmares para fazer um teste. Ordenou que se colocasse uma grande abóbora a uns oitenta passos de distância e, enquanto preparava a arma para o disparo, dizia:

— Em primeiro lugar, derramamos pelo cano a pólvora de um desses cartuchos. Depois prendemos a pólvora na recâmara, com uma bucha de estopa socando com a vareta da forquilha. Somente depois de feito isso a bala pode ser embutida, envolta em outra bucha. Completado o cano, começamos o aparelhamento da culatra, onde a caçoleta recebe uma carga de pólvora fina, para finalmente produzir o tiro. A parte do disparo é o mesmo procedimento do arcabuz, pela serpentina.

Depois de armar o mosquete dando as devidas instruções de manuseio, Carrilho o apoiou em uma estaca com uma forquilha, mirando na abóbora e realizando um tiro certeiro. Todos os k’ilombolas ficaram impressionados com a eficiência do mosquete. E N’zambi lhe disse:

— Qual é a sua proposta, Capitão?

— Como você muito bem sabe, agora habito as regiões do antigo Palmares de Amaro. Quero fazer acordos comerciais com você. Eu não estou aqui representando ninguém a não ser eu mesmo. Eu quero comercializar seus insumos e mercadorias nas vilas e povoados da colônia. Tenho mais de cinco mil armas em meu domínio, e quero trocar todas elas por mercadorias. Também não quero ser importunado por vocês em meus negócios, quero tranquilidade em minhas terras no antigo Amaro, e prometo-lhes que meus homens também nunca os importunarão.

— E como pretende fazer isso, Capitão? Pretende você também criar um k’ilombo em Amaro? Como passará as armas da coroa portuguesa para nós, sem despertar o ódio deles contra você? — Disse N’zambi questionando-o.

— Dando o proceder dessa campanha contra Palmares, como planejado na colônia. Marcharemos contra vocês com mais de cinco mil homens. Trocaremos nessa suposta batalha homens por homens, e nos renderemos a vocês. Regressarei fracassado à colônia com alguns homens exaustos, sujos de sangue e maltrapilhos das batalhas.  Direi ao governador D. João de Souza que fomos encurralados e massacrados. Assim se concluirá a nossa derrota, e ocultamente faremos um pacto.

N’zambi sabia que fazer pactos com os colonos era extremamente arriscado. Mas sentiu em Carrilho uma certa confiança, pois também ouvira muito falar desse sertanista e seus feitos. Sabia da sua moralidade com os seus homens e de como tratava os seus conquistados com justiça e honra, sem mortes, estupros ou demais violências. Mesmo sendo um sertanista, mantinha uma ética moral considerando a família e integridade dos perdedores e desapropriados. E, olhando firme para Carrilho, N’zambi disse:

— Não costumo fazer pactos com um colono.

— Posso ser um colono, mas sou inteligente o bastante para distinguir com quem eu quero compactuar. Eu sou um homem empreendedor, e não estou de nenhum lado, a não ser o do meu mesmo. Sei que você precisa de mim, assim como eu preciso de você. O que quero é fazer negócios, e se a guerra pode me gerar lucros tanto por parte da coroa como também da sua parte, por que não lucrar?

— Lucrar à custa de sangue dos inocentes? — Questionou N’zambi.

— Lucrar para salvar os inocentes do derramamento de sangue. — Rebateu Carrilho, e continuou:

— Quantas vidas não pouparemos nessa grande batalha que não passará de um engodo aos nossos olhos. Não há por que temer, Rei Zumbi. Nesse acordo, todos nós lucraremos.

N’zambi pediu um tempo para refletir, e foi reunir-se aos seus homens em uma kubata reservada. Logo voltou ao encontro de Carrilho e disse:

— Se prepare Capitão, para a maior batalha de sua vida. Mandarei matar alguns bois inúteis que ficaram mancos em acidentes nos trabalhos com o arado. Também haverá muita caça e prepararemos um grande jantar para comemorar nossos tratados comerciais.

Chegando o dia da saída da campanha de Carrilho na Vila de Recife, o governador D. João de Souza fez um grande comício, onde discursou como já sendo vitorioso nessa grande e bem armamentada expedição. E todos os colonos em festa, música e sons de trombetas se despediam da infantaria de Fernão Carrilho, que alegremente marchava em direção a Porto Calvo, para dali partir a Palmares.

Assim que o sol raiou em Porto Calvo, Carrilho e sua infantaria subiram os morros florestais para o Palmares do Macaco. Depois de três dias, N’zambi e sua tropa, composta por mais de dez mil guerreiros, já estavam postos aos portões da Cerca Real dos Macacos. De repente surge por entre as matas a infantaria de Carrilho. Ambas as forças ficam em posição de guerra frente a frente. N’zambi avança sozinho em direção às tropas de Carrilho, e o sertanista faz o mesmo avançando em direção a N’zambi. Quando se aproximam apertam as mãos, e ambos gritam para as suas tropas:

— Que comecem a Grande Batalha!

E uma grande caçada nas matas virgens por detrás dos mokambos de Osenga e Subupira começou. Houve muitos tiros, gritos e mortes de animais. O barulho da caçada era tão forte, que dava para ouvir os tiros e gritos de Porto Calvo e povoados vizinhos. Pelo qual, seus cidadãos pensavam acontecer lá uma grande batalha. Depois de horas da grande caçada, os homens de Carrilho, como também os guerreiros k’ilombolas destroçaram os animais ali mesmo. Tirando suas peles e vísceras, e espetando a carne em varas de paus, transportando-as para a Cerca Real dos Macacos, onde fizeram três dias de uma farta festa com muita bebida, música e comida.

Depois de doze dias que a campanha partiu para Palmares, para o desgosto e vergonha do governador D. João de Souza, Carrilho e alguns de seus homens, como planejado no pacto que fez com N’zambi, voltam todos surrados da campanha expedicionária à Vila de Recife, dizendo ter sofrido um ataque fulminante dos palmarinos, que os dizimaram brutalmente. Saqueando todos os seus armamentos e mantimentos, e matando muito dos seus homens ferozmente.

Depois dessa derrota vergonhosa, tanto o governo de Pernambuco como os senhores e capitães das câmaras pernambucanas silenciaram seus ataques a Palmares. Agora, os senhores estavam aterrorizados, pois os palmarinos se encontravam com a posse de um enorme poderio bélico. E a N’gola N’Janga teve alguns curtos anos de paz.

FIM DO DÉCIMO NONO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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