O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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20. Capítulo 15 - ס (SAMECH) O CICLO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ס

SAMECH

O CICLO

 

N’zambi sentiu que chegou o momento de se tornar um grande líder para o seu povo. E mais uma vez se despediu da sua família, partindo em direção à Cerca Real dos Macacos, para se encontrar com o seu tio, o M’wene K’ilombo, N’ganga N’zumba, e reivindicar os seus direitos hierárquicos de ser um membro da família real do K’ilombo, e da linhagem ancestral africana dos M’wene Kongo.

Ao passo que caminhava, o jovem Príncipe de Palmares se recordava do exato momento em que chegou na Cerca Real dos Macacos, e de como conhecera o seu tio, o M’wene K’ilombo. N’ganga N’zumba era um homem grande e robusto, medindo mais ou menos duas varas de altura, tinha os cabelos longos com grandes tiras endurecidas como de lã branca, tendo também barba e bigode brancos. Sendo ele filho de um robusto africano descendente da linhagem dos Kambulos, que era escravo do senhor de engenho que comprara no mercado de negros em São Salvador, na Capitania da Baía de Todos os Santos, o preto velho griot Djeli e sua mãe, a filha dos M’wene Kongo, a princesa Akualtune.

O M’wene K’ilombo era um homem de temperamento forte e agressivo. Isso por conta das inúmeras batalhas que enfrentou desde sua mocidade. Tinha um olhar profundo, e uma expressão facial de um grande líder e guerreiro temível. Não era qualquer um que o encarava, ou questionava as suas ordens sociais, judiciais, militares e administrativas. Até os Mazômbos o temiam. Sendo apenas o seu irmão e comandante das armas do k’ilombo, o grande guerreiro Mazômbo N’ganga N’zona, que obtinha esse poder e privilégio de o encarar e o questionar.

Porém, se existia um homem e uma mulher que N’ganga N’zumba respeitava e temia, esse homem era o ancião Djeli, e essa mulher era Akotirene. Pois ele sabia que os seus antepassados africanos falavam através deste preto velho griot e dessa velha curandeira africana. N’ganga N’zumba tinha uma grande família composta por sete filhos e seis filhas, ambos e ambas nascidos do seu relacionamento com suas três esposas. Sendo que, dentre eles, apenas três se destacaram para ajudar o seu pai na administração do K’ilombo.

Uma jovem e brava guerreira, e também curandeira, que se chamava Acaiene, filha de uma das suas esposas, que era descendente dos povos nativos das florestas. Um jovem e bravo guerreiro, que também era o seu primogênito, e que se chamava Toculo. E N’zambi, a quem N’ganga N’zumba dera esse nome na tentativa de fazer com que a profecia da Rainha Akualtune se concretizasse em um dos seus filhos. Pois ele acreditava que o seu sobrinho N’zambi estava morto, na expedição portuguesa que incendiara todo o K’ilombo, mais ou menos dezoito anos atrás.

Mas, para sua grande frustração devido ao retorno de N’zambi, o filho da Princesa Sabina e o verdadeiro personagem da profecia da Grande Mãe k’ilombola, essa tentativa de burlar as decisões oraculares de Akualtune, para fazer um dos seus filhos liderar o K’ilombo depois dele, foi por água abaixo. E, por isso, ao receber o seu sobrinho de volta em sua morada real, o desprezava e caçoava sempre dele, dizendo e questionando:

— É esse pirralho fracote, educado por um padre para ser um deles, que está prestes a me substituir e liderar esse K’ilombo contra os colonos? Olhe para ele, aposto que nunca pegou numa pequena faca. Quanto mais numa espada, arco e flecha, lança, bastão, facão ou espingarda. Agora olhem para os meus filhos e vejam os bravos guerreiros que eles se tornaram. Lutando bravamente para defender a nossa causa, por todos esses anos em que esse pirralho convivia junto aos colonos. Olhem por vocês mesmos e me digam, qual o tipo de liderança que vocês querem para me substituir no futuro.

E todos os superiores da corte, e também os Mazômbos, caçoavam e riam muito dele. Sendo que apenas N’ganga N’zona permanecia calado e preservado de tudo isso. Pois ele acreditava de todo o coração nas palavras de sua mãe, a Rainha Akualtune. Mantendo sempre o respeito pelas tradições de seus antepassados e ancestrais africanos. Por isso que N’ganga N’zona, vendo a tristeza e frustração do seu sobrinho só crescer, ao longo dos meses que se desenrolavam depois dele ter retornado ao K’ilombo, o aconselhou para que partisse da Cerca Real dos Macacos e fosse se encontrar com o preto velho griot Djeli no Mokambo de Tabocas.

Ao passo que N’zambi caminhava de cabeça baixa, embrenhado em seus mais profundos pensamentos e lembranças, debaixo de um sol escaldante do calor do meio-dia, olhando para os seus pés entrelaçados pelas tiras de couro de sua velha sandália, que ao caminhar, levantava pequenas nuvens de poeiras no chão da trilha de barro amarelado, o jovem Príncipe de Palmares recordara-se do exato momento em que tomara a decisão de abandonar a vida tranquila, porém entediante, que levara na paróquia do povoado de Porto Calvo, sendo um coroinha do Padre Antônio.

N’zambi, sendo ainda o coroinha Francisco, tinha valores e visão do mundo unicamente cristãos. Era fiel a sua crença e perspectiva moral. Acreditava que, chegando a Palmares, poderia converter o seu povo sofrido para o verdadeiro significado das mensagens de paz, amor e perdão daquele jovem judeu que se sacrificou na cruz, para nos libertar de todo mal. Mas, com o passar de alguns meses vivendo em Palmares, convivendo com a guerra, a fome, a miséria e a crueldade que sofriam os k’ilombolas, e ouvindo os muitos relatos agonizantes dos africanos escravizados que fugiram e se refugiaram no K’ilombo, o jovem Príncipe percebeu que vivera protegido por muito tempo dentro de uma redoma de vidro na paróquia de Porto Calvo.

Seus primeiros dias em Palmares foram de muita dor e sofrimento interno. Ao contrário do ele que imaginava, quando ouvia os rufares dos tambores dos k’ilombolas ecoando pela floresta afora, quase todas as noites quando se deitava em sua cama no silêncio de seu quarto na paróquia, pensava ele ser Palmares um reino onde todos os africanos e seus descendentes vivessem felizes em plena comunhão fraternal. Onde os verdadeiros valores de paz, união, amor e sinceridade imperassem sobre o povo, que lutava bravamente por um mundo justo e igual. Assim como o Messias pregou.

Mas, com o passar dos dias em que vivia na Cerca Real dos Macacos, presenciando muitas guerras, derramamento de sangue e revoltas. Tanto externas com as invasões dos colonizadores portugueses, como também internas, entre os próprios k’ilombolas em seus kraais e mokambos, em que constantemente brigavam e disputavam por comida, animais, ferramentas, utensílios, despojos das guerras e terras, que N’zambi percebeu que acordara de um belo sonho entediante em Porto Calvo junto aos opressores do seu povo, em meio a um pesadelo real no K’ilombo dos Palmares junto aos seus remanescentes conterrâneos africanos.

Frustrado, confuso e amargurado, vendo o mundo desabar em seus pés, lágrimas rolaram em seu rosto como nunca antes. Um turbilhão de sentimentos e emoções inflamaram o seu ser, explodindo em chamas o seu coração. E a partir daquele momento morreu o coroinha Francisco. E das cinzas de sua morte renasceu N’zambi, o Príncipe de Palmares.

Enquanto ainda caminhava de cabeça baixa, mergulhado em suas íntimas lembranças. Fora surpreendido por um grupo de quatro rapazes negros, mais ou menos da sua idade, acompanhado por um homem moço, mestiço de pai africano e mãe indígena, aparentando ter mais ou menos trinta e cinco anos, em que esse moço se adiantou na frente dos outros rapazes, e lhe disse:

— N’zambi! Que surpresa nossa de te encontrar aqui. Estávamos indo à sua procura no Mokambo de Tabocas para ser os seus seguidores. Pois ouvimos os seus discursos pelo tempo em que você passou por nossos mokambos. E nós acreditamos em suas palavras, e sabemos que você é o escolhido. Sendo profetizado pela nossa Grande Mãe, a Rainha Akualtune. Para ser nosso líder e nos libertar dos nossos opressores, nos levando de volta à nossa amada terra, Mãe África.

N’zambi, muito surpreso com aquelas palavras, nada falou, apenas observava tudo aquilo com um tremendo espanto. E o moço que falava prosseguia dizendo:

— Eu me chamo Antônio Soares, nasci escravo em um engenho na Vila dos Arrecifes dos Navios. E já tem quase três anos que consegui fugir de lá, e agora vivo em um kraal no Mokambo de Amaro. Já esses quatro rapazes são nativos k’ilombolas, nasceram livres aqui, e nunca conheceram o efeito da escravidão, como eu vivi e sofri.

Então, lhe veio um a um dos quatro jovens, e começaram a se apresentar:

— Eu sou N’kanga, natural do Mokambo de Akotirene.

— Eu sou Miala, natural do Mokambo de Dambrabanga.

— Eu sou Toko, natural do Mokambo de Akualtune.

— E eu sou M’panzu, natural do Mokambo de Andalakituche.

Diante disso, N’zambi falou:

— Eu estou indo para Cerca Real dos Macacos. Vocês querem me acompanhar?

— Sim! — Exclamaram todos juntos.

E Antônio Soares lhe perguntou:

— O que fará lá, N’zambi?

— Já cansei de ficar calado em relação aos motivos do K’ilombo. Enfrentarei o meu tio. Já que ele não me aceita na Cerca Real dos Macacos, para que eu não possa reivindicar o trono de Palmares depois dele, como diz a profecia da minha avó, a Rainha Akualtune. Então, reivindicarei apenas um mokambo.

Diante disso, Antônio Soares lhe disse:

— Mas N’zambi, todos que reivindicaram um mokambo foram homens e mulheres que conquistaram esse direito devido a um grande feito heroico nas muitas batalhas contra os colonos. Não seria mais prudente se você realizasse tal manobra, e ganhasse a admiração e respeito dos k’ilombolas e dos Mazômbos? Sendo assim, todos creriam em você. E, como você já é da família real, e também é o escolhido da Grande Mãe Akualtune para ser o nosso futuro líder, ninguém iria questioná-lo. Pelo contrário, iriam até propor isso ao parlamento dos Líderes da Ordem K’ilombola. Sendo que, depois disso, você estaria a apenas um passo do trono. Porque eles verão que a profecia estava certa, e logo te aclamarão como rei.

Ao ouvir isso, N’zambi ficou pensativo refletindo naquelas palavras, e achou-as prudente. Mas não sabia como realizar esse tal feito heroico, sem possuir homens preparados para guerra e armas. E, diante disso, questionou Antônio Soares dizendo:

— Mas como posso ser capaz de tal manobra, sem homens e armamentos?

E Antônio Soares lhe disse:

— Homens você já possui. Somos só cinco agora, mas podemos recrutar mais jovens k’ilombolas e invadir algumas fazendas, e libertar mais irmãos e irmãs escravizados. Que depois disso dariam as suas vidas por você. E, enquanto a armamentos, eu conheço um lugar em que podemos consegui-los sem nenhum custo.

Perante isso, N’zambi ficou muito alegre e satisfeito em encontrar aquele homem e inteligente moço, o Antônio Soares, na companhia dos seus quatro amigos k’ilombolas. Todos dispostos a servi-lo em sua causa, sendo esses os seus primeiros homens, disposto a lutar e a morrer por ele. Porém, entretanto, a coisa não era assim tão maravilhosa como N’zambi pensara, nem como Antônio Soares lhe dissera. Na verdade, Antônio Soares não passava de um vigarista oportunista. Sendo ele anteriormente capitão do mato, que trabalhava para um colono na Capitania de Itamaracá. Mas que fora pego com a mão na botija, assaltando o baú-cofre do patrão, onde ele guardava todos os seus tesouros e dinheiro. Ao ser descoberto no ato do furto pelo próprio patrão, Antônio Soares, que dispunha de um pequeno bacamarte, atirou no seu senhor, o matando. E, em seguida, pegou tudo que podia carregar em suas mãos e bolsos, fugindo rapidamente em direção à Capitania de Pernambuco, com o intuito de se chegar a Palmares.

Antônio Soares, ao ver o jovem príncipe de Palmares pela primeira vez no Mokambo de Amaro, e procurando saber de toda a sua história e trajetória de vida, ficou sabendo da profecia da Rainha Akualtune, que falava que esse jovem seria o próximo grande comandante de Palmares, no lugar de N’ganga N’zumba. E, investigando mais sobre o jovem de linhagem nobre dos M’wene Kongo, soube que N’ganga N’zumba o desprezava. Pois o monarca k’ilombola desejava que um dos seus filhos o substituísse no comando do K’ilombo, e não o seu sobrinho, que fora educado pelos colonos.

A partir daí, Antônio Soares viu nesse jovem de aparência bondosa e inocente uma oportunidade de crescer e de se tornar um dos grandes homens de influência no K’ilombo. E, em sua maquinação ambiciosa, dizia para si mesmo, pensando maquiavelicamente:

— Esse jovem será futuramente uma mina de ouro, tanto para os k’ilombolas quanto para os colonos. Por isso, tenho que me aproximar dele, e me tornar o seu melhor amigo, e ajudá-lo a ser o rei deste lugar. E, quando ele se tornar o líder desse povo, pelo fato de que eu contribuí para isso, comerei e beberei com ele em sua mesa. Sendo eu o seu melhor amigo e fiel conselheiro, saberei de todos os seus planos e segredos. O que me valerá uma fortuna diante dos colonos. E, se por acaso os colonos decidirem invadir esse reduto e destruir tudo por aqui, eu o entregarei aos colonos vivo e sadio, em troca de minha alforria. Pois bem sei eu como os colonos portugueses gostam de pegar os líderes dos seus confrontadores vivos, para os humilharem olhando-os olho a olho, vendo-os padecerem em seus sofrimentos pelas muitas torturas.

E assim Antônio Soares arquitetou todos os seus passos em direção ao seu objetivo, promovendo o jovem príncipe de Palmares por todos os kraais e mokambos em que passara. Persuadindo adeptos para sua causa e recrutando jovens k’ilombolas. Foi assim que ele chegou até N’zambi com esses quatro jovens que o acompanhavam.

Enquanto caminhavam na empoeirada estrada de barro no sol escaldante do meio-dia, Antônio Soares ia planejando ataques às fazendas dos litorais, para que pudessem ter mais aliados, favorecendo a tal façanha de fazer com que N’zambi pudesse, com esse feito heroico, adquirir o respeito dos Mazômbos e demais k’ilombolas. Antônio Soares procurava inflamar o ego de N’zambi com várias palavras, provocando-o para o poder e a glória de ser um grande líder. E N’zambi se viu incomodado com tudo isso e, para o silenciar, disse-lhe:

— Toda essa guerra só terá um único objetivo, Antônio Soares. E esse único objetivo não é a busca de minha glória e ascensão. Ninguém de carne e osso deve ser colocado sobre um pedestal, pois com o passar dos dias os pedestais deterioram-se, e essa pessoa desmorona e cai. E quanto maior e poderoso for, maior será a sua queda, e grande será o montante do seu entulho. O objetivo desta guerra é a união entre os povos deste lugar. O objetivo desta guerra é a paz que nos trará a verdadeira liberdade. — E N’zambi, olhando no profundo dos seus olhos, o questionou, dizendo:

— Quem é o inimigo? Quem sou eu? E quem é você?

Diante dessas perguntas, Antônio Soares se sentiu fortemente intimidado. Pois pensara que N’zambi desconfiara dele, e que de alguma forma intentou já saber do seu plano. E, pensado nisso, olhando para N’zambi com grande espanto, nada respondeu.

E N’zambi continuou a dizer-lhe:

— Esta guerra será de vital importância para o futuro deste povo africano, nestas terras do Novo Mundo. Será o domínio da liberdade sobre toda e qualquer forma de escravidão. Servirá de exemplo para os nossos descendentes, aqueles que serão os da geração futura. Por isso é preciso manejá-la bem, sem demais ambições de ter ou ser. Pois foram esses desejos de fama, poder e glória que corromperam os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães. Daí corromperam os nossos reis e rainhas, que ambiciosamente venderam os corpos dos nossos antecessores para os judeus, árabes e europeus, em troca de bugigangas, artefatos e ferramentas. Eu, como um descendente dos M’wene Kongo, não movimentarei a roda desse ciclo de maldades. Darei minha vida pela liberdade de todos aqueles que a buscarem, se refugiando neste K’ilombo. E para mim não importa mais a cor da pele de uma pessoa, e não julgarei o homem ou a mulher pela sua cor, e nem pelas suas palavras de bajulação. Mas a julgarei pela abundância da verdade e da bondade em seu coração. Porque não generalizando, e para exceção desses extremos opostos, eu vi homens negros agindo pior do que certos colonizadores, oprimindo nos pelourinhos com chibatadas os seus próprios irmãos e irmãs, e os perseguindo enquanto fugiam pelas matas em troca de recompensas. E também vi homens brancos perdendo seus postos e privilégios sociais, religiosos, econômicos e militares em defesa dos povos negros e nativos que foram escravizados. Não refletir seriamente sobre o verdadeiro significado desta guerra é favorecer toda a maldade e ignorância no que diz respeito à conservação ou à perda do que nos é mais desejável, a nossa dignidade! Que por agora é o fim dos trabalhos forçados que os colonos impõem sobre os nossos ombros. E esse domínio do ego não deve ter poder entre nós, Antônio Soares. Jamais! E faço minhas palavras as palavras de Akotirene, que ela me declarou ao desfalecer em meus braços: Uù’Búntù... Uù’múntù N’gumúntù N’gabantú... Uù’búntù, Antônio Soares. Uù’Búntù.

Depois de dizer essas palavras N’zambi o abraçou. Antônio Soares, sem reação, pasmo e perplexo diante daquelas sábias e verdadeiras palavras, se viu confundido e desarmado. Ficando imóvel como uma estátua. E perguntara a si mesmo de onde provinha nesse jovem tamanha esperança e fé, em um mundo de traições, dores e sofrimentos. Antônio Soares foi atingindo pela verdade de uma forma tão profunda e intensa, que falara para si mesmo em pensamento: “Verdadeiramente esse jovem é o proclamado pela Rainha Akualtune para nos libertar”. E, por ora, Antônio Soares também creu nele.

N’zambi, junto aos seus cinco companheiros, caminhou em direção à Cerca Real dos Macacos. Porém, seguindo o conselho de Antônio Soares, não mais desejava encontrar o seu tio, o M’wene K’ilombo, de imediato. Preferiu chegar a ele, em sua altura, que nada mais era, o que ele admirava em um homem. A bravura e os feitos de guerra. Nisso, também se lembrara das palavras de sabedoria que ouvira do preto velho griot Djeli, em um dos seus discursos preparatórios que dizia: “Seja grande e poderoso para os grandes, e seja pequeno e humilde para os pequenos. Mas, quando você se sentir forte e poderoso, humilhe-se a si mesmo. E, quando se sentir fraco e rebaixado, eleve-se a si mesmo. Aí está o equilíbrio da alma e o domínio do ego”.

A tardinha já se aproximava, e os seis aventureiros procuravam um lugar em um dos montes das florestas para passarem a noite. Juntos preparam uma fogueira, enquanto Antônio Soares foi caçar algo para comer. Depois de algum tempo, Antônio Soares chega com um gigante sariguê, uma espécie de gambá das matas. Também traz consigo um tatu e uma gigante iguana. Além de raízes de Jacatupé e Cará.

Depois de terem comido e conversado muito, os jovens se aprontaram para dormir, se deitando ao redor da fogueira. A noite estava magnífica e silenciosa no alto daquele monte com o céu completamente estrelado, pois era noite escura, onde a lua se ocultara. N’zambi olhava para o céu procurando a Grande Estrela de todas as tardes e manhãs, aquela luminosa estrela que mais brilha. A maravilhosa Estrela do Pastor. E ao encontrar acima de sua face a magna Estrela D’alva de todo o alvorecer, que era também a esperançosa Estrela Vésper de todo o entardecer, os seus olhos se fixaram nela apaixonadamente. N’zambi fixou sua atenção tão forte na Grande Estrela, a ponto de se perder. Sendo que a estrela e ele se tornaram uma só entidade.

E, nesse estado contemplativo de transe, percebeu algo nunca antes pensado. Viu que existia algo por detrás de todas as coisas. Algo que só deve simplesmente ser denominado e visto como algo. Algo além da causalidade e muito além dos fenômenos de sincronicidade. Algo ao acaso que faz surgir o causal. Algo não criado que faz surgir a criação. Algo além das leis físicas e metafísicas, das leis quânticas e das suas teorias. Algo além das religiões e dos seus dogmas ortodoxos. Algo ao contrário aos desejos e que move planetas ao seu entorno. Algo sem relatividade, sem gravidade, sem mecânica, sem matemática. Algo de propósito, do propósito e ao propósito, mas que o propósito é o próprio algo.

A este algo N’zambi naquele momento se entregou por inteiro, porque não era algo para ser aceito ou venerado. A este algo, N’zambi se aplicou, porque era isento de doutrinas, e não havia caminhos para se chegar até esse algo. Algo além da sabedoria e filosofias não podem contê-lo. Algo dentro e fora. Porque só esse algo existe. Existe porque não tem existência. Só havia um meio para se chegar ao algo, e este é saber que apenas somos suas manifestações. Desta forma, N’zambi percebeu que toda existência era apenas arquétipo do algo. E todo arquétipo é um propósito para outros propósitos. Algo move... algo dança... algo faz surgir... algo existe... algo faz existir.

Então, N’zambi vivenciou naquela noite em que dormiu no chão nu, no alto de um monte, ao lado dos seus novos companheiros, em que uma pedra lhe servia como travesseiro, e uma fogueira o protegia do frio e dos insetos noturnos, que há algo de misterioso e profundo... profundo... sem nome e sem forma, não podendo ser entendido, absorvido e compreendido. Mas sim experimentado e vivificado. Havia algo de absoluto, permanecendo misteriosamente oculto por detrás de todas as coisas. Onde tudo é sujeito de um único propósito sem propósito de ser.

E viu que ele apenas era uma microscópica porca de uma nanoengrenagem, que compunha uma imensa máquina universal. Que por algum propósito sem propósito foi expelida, cuspida para fora de sua garganta verde.

FIM DO DÉCIMO QUINTO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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