O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

1Likes
0Comentários
614Views
AA

19. Capítulo 14 - נ (NUN) O HERDEIRO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

נ

NUN

O HERDEIRO

 

— Você, que vai muito além do que se imagina, não dê espaço para a culpa e o medo que insistem em habitar em sua morada. — Disse a voz que saía do poço.

— Mas fora da minha morada vejo dor, doenças, ignorância, muita arrogância e muito sofrimento. — Reclamou N’zambi.

— Se você vê essas coisas fora da sua morada, por que você dá permissão para que elas entrem em sua habitação? Não vê que o seu grande erro é absorver a ignorância do externo que há em você? Não vê que não pode haver senão uma Poderosa Presença, uma Magnífica Inteligência, um Maravilhoso Poder Atuante de Pura e Plena Perfeição na sua mente, corpo, alma e coração? Agora escute! Para que você esteja perto de Mim e se torne UM Comigo, você não pode ficar sem captar a simplicidade do seu próprio Ser Interno, atuando em você mesmo. Amai o seu Ser Interno de Pura e Perfeita Perfeição. Ordenai ao seu Ser Interno que surja a Pura e Perfeita Perfeição em cada situação, momento e em cada parte do seu corpo e da sua morada. Quando o seu desejo se projetar pelo poder da sua vontade, imbuído da mais pura fé que elimina todas as dúvidas, medos e sofrimentos, então lá estarei, me tornando UM contigo, e em tudo que fizer você será vitorioso. Você tem que concretizar a coragem daquilo que você necessite ou deseje instantaneamente em seu mundo. Já que a vontade não é nada mais do que uma atividade menor que um decreto, e o decreto é o reconhecimento da vontade exercida, jamais tenha medo de usar este Grande Poder. Se você não usar esse Grande Poder que EU SOU, gerará a desarmonia que manifestará a imperfeição no seu mundo. Se você usar construtivamente esse Grande Poder. A minha bênção cairá sobre você, e você não poderá mais viver sem me dar graças e louvores por todo instante em que respirares. Acorde, N’zambi! Esse Grande Poder que EU SOU está esperando sua vontade e ordem consciente.

De repente, ao ouvir aquelas palavras, N’zambi se viu sentado na beira do poço, que se encontrava ao lado da paróquia no povoado de Porto Calvo, onde antes morava com o Padre Antônio. Reparou nos seus pés e mãos, e se conscientizou que estava em um sonho.

Conscientemente, N’zambi olhou para o fundo do poço e não viu nada mais além do que o seu reflexo dançando na água. Então, ele falou em direção ao fundo do poço, perguntando:

— Quem é você que constantemente fala comigo nos meus sonhos através desse poço e me diz essas coisas maravilhosas que me preenchem de energia e alimentam o meu espírito, santificando-me?

E a voz falou em um canto sublime, ao som de muitas águas:

 

“Onde me manifesto... sou como o entardecer, onde o vento passa ao silêncio da morte e as árvores vibram ao ver passar. Se não me manifesto... no nada tudo serei, e assim serei como o alvorecer, onde os pássaros cantam ao som da noite que se fez dia e do sol que se fez presente, desvirginando o horizonte de um mar inocente, tal qual um beijo ardente da terra numa semente, em que algo vem a germinar. Algo que habita e surge... sem dogmas e sem preceitos... algo dentro e fora do seio da mãe que ainda não veio. Há de haver belos mistérios...

 

Belos Mistérios!

 

Na vida que a sorte é a morte

Que nos ensina a ensinar

Que nos prende ao aprender

Que nos condena a entender

Que entendendo hei de ser algo para viver.

 

Se a vida hei de entender e entendendo hei de ser... serei somente o entendido que um dia irá morrer.

 

Como posso procurar?

Se na procura hei de achar a busca que nunca acabará...

 

O vento passa e não há de ser passageiro... não se sabe se vem ou vai... porque venta o mundo inteiro. As árvores são intactas e o vento que passa as faz balançar... as árvores não sabem por que balançam... se intactas elas dançam, quando o vento vem tocar. O vento que também nada sabe, apenas quando passa... se bate com galhos, folhas e troncos de cada árvore.

 

Onde se encontra o significado, se o significante é o valor do valor de cada homem ou de cada mulher?

 

O chaveiro está diante da porta, mas a porta não está ao chaveiro... porque a porta nada mais vale do que a chave do porteiro.

 

O porteiro é o escravo

O seu senhor, o chaveiro

A porta é a prisão

A chave, o prisioneiro

 

Eu Sou a Perfeição da Essência, denominado Absoluto!

Posso ser compreendido como a maior Beleza de todas as belezas!

O maior Amor de todos os amores!

O mais Alto dos altos e o Ser Maravilhosamente Maravilhoso.

A forma arquetípica perfeita, contida dentro do Todo e o Absoluto que constitui a Redenção Universal.

 

EU SOU A CHAVE QUE ABRE TODAS AS PORTAS!!!

EU SOU O ÚLTIMO DOS ÚLTIMOS

EU SOU O PRIMEIRO

EU SOU AQUELE QUE FUI

EU SOU AQUELE QUE FOI

EU SOU AQUELE QUE VIM

EU SOU AQUELE QUE VEIO...”

 

∞∞∞

 

Em plena madrugada N’zambi despertara, ainda ouvindo as últimas palavras da voz do poço em sua cabeça. E com muito cuidado levantou-se da cama para não acordar Dandara e sua pequena filha, Oryba, que dormiam juntas. E caminhou cuidadosamente pela kubata, que se encontrava totalmente escura, desviando-se de outra cama em que dormiam os seus outros três filhos.

Ao sair da casa, deparou-se com um céu limpo de nuvens e totalmente enegrecido. Coberto das muitas e muitas estrelas cintilantes e reluzentes. E os muitos sons dos insetos e animais noturnos imperavam pelo K’ilombo a fora. N’zambi se sentou em um pedaço de tronco de madeira arredondado, que se encontrava na varanda dos fundos da sua casa. E fixou seu olhar no céu, por entre as brechas das folhas das muitas bananeiras que se encontravam por todo o quintal. Enquanto os seus olhos apreciavam toda aquela maravilha celeste, os seus pensamentos flutuavam em torno do sonho que tivera e da sua sublime mensagem.

Em verdade, ultimamente, depois de cinco meses que N’zambi regressou da sua incursão pessoal pelo K’ilombo, sua autoestima enfraquecera com os muitos relatos de sofrimentos dos k’ilombolas. E também com o que vivenciara nos muitos kraais da N’gola N’janga. Ouviu muitas histórias tristes dos negros escravizados. Desde quando eram sequestrados e caçados como animais na Terra-Mãe África até serem empacotados em um porão de um navio negreiro, cruzando sofridamente o grande oceano. Relatos de como eram vendidos nos mercados de carne negra das colônias do Novo Mundo. Além das muitas violências verbais, morais, sociais e físicas de torturas, estupros e desrespeitos por parte de seus possuidores, os senhores escravagistas.

Relatos que apunhalavam o seu coração. Relatos que o revoltavam. Relatos de um mundo elitista, onde o ter significava mais do que o ser. E isso enfraqueceu o seu espírito de tal forma, que ele mesmo se questionou a respeito de sua importante missão, como sendo um dos filhos daquela que mais brilha. Dando permissão para que a imagem falsa do seu EU externo ofuscasse a imagem verdadeira do seu EU SOU interno.

Certa vez, quando N’zambi se encontrava no Mokambo de Amaro. Fora hóspede de um preto velho da Nação do Kongo de nome N’kuwu. Batizado com o nome de Severino pelos colonos. Este preto velho africano lhe relatou toda sua sofrida história. De como fora capturado na Terra-Mãe África até chegar a Palmares.

N’kuwu lhe contou que estava sentado embaixo de uma grande árvore com os seus amigos, quando ainda era um adolescente, descansando depois de realizarem uma caçada. Quando, de repente, surgiram alguns homens negros de uma outra tribo, que saíram ferozes como leões famintos por detrás dos arbustos, avançando fortemente com cordas e grandes redes. Colocaram cordas em suas bocas para não poderem gritar e os arrastaram pelos arbustos até adentrarem a floresta, onde um outro grupo de negros capturados amarrados com correntes e troncos de madeiras os aguardava junto a uns homens árabes, armados com espingardas.

Depois, os amarraram em filas com troncos em forma de forquilhas pendurados em seus pescoços, e correntes em seus pés. E os levaram para um pequeno barco a remo atracado na praia, transportando-os para uma nau. N’kuwu vira que os homens árabes deram alguns presentes aos nativos africanos que os capturaram. Como facões, espelhos, potes de ferro e vasos de porcelanas, copos e taças de vidros coloridos, e alguns tecidos, tapetes e peles de camelo. Ao subirem na nau, foram transportados a uma parte superior do convés, onde lá também havia outro grupo de negros capturados. Amarrados com grossas cordas, sentados todos juntos no piso.

Em seguida, os árabes navegaram em direção ao norte subindo a costa e em poucas horas atracaram ao lado de uma outra nau maior e mais velha. Esta grande nau tinha um aspecto e cheiro horrível, era os que eles chamavam de tumbeiro. E nela estavam homens brancos com armas, correntes e chicotes nas mãos. Nisso, os árabes levantavam todos os negros capturados e os colocavam em fila, um ao lado do outro. Então, cinco homens brancos chegavam e despiam todos os capturados, examinando-os um a um. Alguns eles rejeitavam e outros eles escolhiam. Sendo que eles pegaram a maioria. E os que julgavam como sendo bons amarravam a correntes pelo pescoço, organizando em grupos de fileiras.

Depois, transportavam suas seleções em fileiras para o tumbeiro, através de uma prancha que ligava as duas naus. Ao passo que os negros iam subindo na prancha e entrando no tumbeiro, dois homens brancos, um de cada lado da saída da prancha, os chicoteavam e os empurravam agressivamente para dentro. Aos escorregos sofridamente iam descendo os negros na prancha, outros homens os carregavam, acorrentavam as mãos e os pés e os empilhavam nos porões. Sendo que as mulheres ficavam de um lado e os homens do outro lado.

N’kuwu contara que eles se viram obrigados dia e noite a se agacharem no chão, e às vezes eles se revezavam para sentar. Contara que durante toda a viagem até desembarcarem no Novo Mundo não havia diferença entre o dia e a noite. Pois, na posição incômoda em que se encontravam os seus corpos, o sono os torturava a todo momento, pois não havia conforto para dormir. Muita fadiga, muita dor e muito sofrimento. Com lágrimas escorrendo em seus velhos olhos, N’kuwu descrevia com todos os detalhes a experiência amarga daquele ambiente infernal, que era o porão de um tumbeiro. E esses relatos ecoavam na cabeça de N’zambi, apunhalando o seu doce coração.

Ainda estava muito viva em sua memória a lembrança da expressão de pavor do rosto do preto velho N’kuwu, e o tom de horror de sua voz, ao relatar o que vivenciara, dizendo:

— Meu jovem N’zambi, você não pode imaginar o quanto você e os nascidos nesta terra, mesmo sendo escravizados e perseguidos, ainda são felizes. Eu posso dizer que conheci o inferno em carne e osso. Aqueles dias dentro daquele escuro e fedido porão foram eternos para mim e para aqueles que sobreviveram. Nesses dias, que não sei quanto tempo, mas que me pareceu uma eternidade de dor e angústia, eu vi o quanto o ser humano pode ser tão mau... Estávamos, meu jovem rapaz, todos nus e acorrentados. Não podíamos nos mexer, e todos faziam as suas necessidades no mesmo lugar onde nos agachávamos. De repente me vi embrenhado em um caldo preto de fezes, urina, vômitos e comida estragada... Depois de alguns poucos dias pessoas começaram a adoecer e a morrer. E vi corpos inchando ao meu redor. Até que em uma das noites vi que tinha bichos andando em nossos corpos. E, quando amanheceu, vi, pela pouca luminosidade que entrava nas brechas das madeiras, que estávamos cobertos de vermes... Então, todos nós começamos a gritar o mais alto que podíamos. Até que vieram os homens brancos, e ficaram apavorados com o que estavam vendo. Eles começaram a nos tirar do porão de um a um. Nos amarravam com cordas e nos jogavam no mar, para nos banhar. Depois quando estávamos limpos nos alçavam ao convés do navio. Alguns homens desesperados se desamarravam no mar e se afundavam. Preferiam morrer do que voltar para aquele inferno. Eu pensei o mesmo, mas não tive a coragem de tirar a minha própria vida. Fomos obrigados a limpar o porão e jogar todos os corpos mortos no mar. Depois de tudo limpo, ainda o mau cheiro imperava. E voltamos a habitar aquele inferno. Só que agora fazíamos uma limpeza geral a cada três dias. Eles nos davam para comer uma vez por dia angu de milho. E muitos não queriam comer, preferiam morrer de fome. Então, eles tinham uma espécie de ferramenta, em que eles giravam uma pequena manivela e abria a boca do faminto. Empurrando goela abaixo o angu de milho. Todos os dias, eles escolhiam cinco ou sete mulheres e as violentavam. Algumas depois disso morriam no dia seguinte ou depois de uma semana. Por motivos de doença ou tristeza. Apesar das torturas que levávamos dos homens brancos, existia muita violência entre nós, dentro do porão. Pois éramos de muitas nações e línguas africanas diferentes, e não nos entendíamos muito bem. E também pela fadiga e desespero muitos enlouqueciam. É por isso, meu jovem rapaz, que aquela nau é chamada de tumbeiro. Uma grande tumba, transportando corpos vivos e mortos sobre o mar do sofrimento.

N’kuwu ainda lhe contara que, quando desembarcaram no Novo Mundo, ele e os outros capturados foram levados para uma grande fazenda. Onde outros negros escravizados lhes banharam com sabão de coco, lhes vestiram e lhes deram algo para comer durante dez dias. Para que se recuperassem do trauma que é ser transportado em um tumbeiro.

Depois disso, fora levado a um grande mercado, junto a alguns poucos negros que desembarcaram com ele da mesma nau. E lá fora vendido a um colono sapateiro, que tinha seu negócio na Vila de Olinda.

N’zambi se recordava vividamente das palavras de N’kuwu, que dizia:

— Me lembro, meu jovem rapaz, de como fui vendido no mercado. Fui examinado como um cavalo. Abriram minha boca e me despiram, examinaram minhas partes íntimas, e faziam piadas desagradáveis ao meu respeito. Depois me levaram para uma capela onde me carimbaram, como se carimbam os cavalos com ferro quente, com as iniciais dos sobrenomes do meu senhor, “SS”. E me batizaram com o nome de Severino da Silva e Santos. Quando o meu senhor me comprou, ele estava construindo uma nova casa. Éramos quatro escravos homens e duas escravas mulheres. O meu senhor era um homem bruto e arrogante. E quando estava com problemas descarregava toda sua raiva em nós, nos chicoteando, nos xingando e nos empurrando. Lembro-me perfeitamente de como foi sofrido para mim construir sua casa. Onde todos os dias eu tinha que ir para os rios, e ter que carregar no lombo grandes pedras. Nisso, vi que o meu senhor castigava sempre os outros escravos porque eram lentos no trabalho. E também, porque bebiam muita cachaça, não tinham forças para o trabalho. Então, resolvi trabalhar bem forte e rápido para o agradar. Mas logo vi que eu só estava me complicando e complicando também a vida dos meus companheiros. Pois o meu senhor, vendo que eu trabalhava mais. Começava a cobrar mais força de trabalho dos outros escravos, comparando-os a mim. E, quando nos dias em que eu estava cansado ou doente, não podendo trabalhar bem, eu era castigado com muitas chibatadas, em que ele dizia: “Já está ficando também molengo como os outros, trabalhe!” Então, eu também resolvi beber como os outros, e a minha produção no trabalho também caiu. O meu senhor sempre me castigava, mas percebi que, quando eu bebia, as suas chibatadas e coronhadas de facão já não faziam mais efeitos em mim. E diante disso me afundei na cachaça. Aí, o meu senhor mandou um ferreiro confeccionar uma máscara de flandres para mim. Uma espécie de máscara fabricada com folha de flandres, usada para impedir que eu bebesse álcool. Essa máscara, que no calor me lastimava, era feita de chapa de aço laminada, e essas chapas eram trancadas com um cadeado atrás da minha cabeça, possuindo pequenos furos para os olhos e nariz, mas não possuía um só furo para a boca. Até que vi alguns escravos se automutilarem. Onde feriam uma de suas pernas até gangrenar, para que os seus senhores os jogassem nas ruas, e eles pudessem viver livres para mendigar o seu sustento. Outros se fingiam de loucos, mas a estes os senhores envenenavam. Pois já sabiam que podia ser uma fraude. Já outros morriam de tristeza, o que nós chamamos de m’banzo. Uma melancolia tão profunda, que podia matar um indivíduo em uma semana, e não adiantava se os senhores os cobrissem de porrada. A tristeza era tão grande que o indivíduo nem gemia de dor, parecia que o seu espírito abandonou o seu corpo. A esse respeito, os senhores chamavam até um padre para rezá-lo, mas nada adiantava. Então, depois que fui grosseiramente castigado pelo meu senhor, por pegar um pouco de dinheiro da sapataria e comprar cachaça, eu resolvi arquitetar um plano de fuga. Eu furei a minha perna direita com um pedaço de pau e a fiz gangrenar. E, quando o aspecto ficou tão mal, o meu senhor me abandonou nas ruas da Vila de Olinda, para eu mendigar e morrer por ali, como todos os escravos que faziam o mesmo. Porém, eu tinha um objetivo. Pois sabia eu do Reino de Palmares e dos seus guerreiros e guerreiras, e, quando me vi livre, me embrenhei nas matas e fui procurar o refúgio dos negros. Não sabia como encontrar o K’ilombo, e também minha perna estava muito mal e dolorida, e os muitos insetos da mata me importunavam por isso. Até que, muito cansado, sentindo muita dor, desmaiei. E, quando acordei, já estava em um leito dentro de uma kubata, sendo tratado por um curandeiro nativo em Palmares. E, quando me vi lá, eu chorei e dei graças e louvores aos meus antepassados por me guiarem até a N’gola N’janga, para junto dos meus irmãos e irmãs, os bravos guerreiros e guerreiras k’ilombolas.

N’zambi também se recordou de um belo relato de uma senhora amável nascida no Novo Mundo, que vivia no Mokambo de Akualtune. Filha de um casal de escravizados oriundos do Grande Zimbabuwe. Essa senhora era muito conhecida e respeitada em todo o K’ilombo. Pois ela possuía um grande barracão, onde os homens e as mulheres iam para ali dançar, cantar, batucar, beber, se divertir e namorar. Todos a conheciam como Preta Ciata, a Mãe da Alegria de Palmares. Responsável pelas festas de m’semba, o Ritual Circular dos Risos e Umbigadas, em que os k’ilombolas se divertiam, se amavam e davam muitas gargalhadas.

Preta Ciata contara a N’zambi que sempre tivera uma vida feliz e alegre, apesar de ter vivenciado muitos sofrimentos por parte de seus condescendentes africanos escravizados, nos tempos em que vivera nas vilas das colônias portuguesas. Seus pais eram pretos de casa, serventes da casa-grande de um poderoso casal de colonos, senhores de engenho de cana-de-açúcar.

Seu pai era o mordomo-mor da casa-grande, responsável por toda administração da casa e dos serventes escravizados. Falava e escrevia um bom português, sendo o homem em quem o patrão mais confiava, dando-lhe todos os plenos poderes da administração do seu lar. Já a sua mãe era a chefa das lavadeiras e ama de leite dos filhos dos seus senhores. Mulher de suma confiança da patroa, que cuidava e amamentava seus filhos. E lavava suas belas e caras roupas de tecidos finos e longos, encomendados e feitos pelos mais famosos alfaiates europeus.

Preta Ciata relatara que as lavadeiras eram tratadas pelas suas senhoras como verdadeiras rainhas. Pois eram incumbidas de cuidar dos bens mais valiosos de uma mulher europeia que vivia no Novo Mundo, as suas preciosas vestimentas e indumentárias de porte e classe. Em que essas senhoras de fino trato desfilavam em um calor de quase quarenta graus. Pelas ruas de areia, lama e pedregulhos da colônia, debaixo dos seus acalorados vestidos feitos de pesados panos e grossas anáguas.

Preta Ciata também se tornara lavadeira como a sua mãe. E, pela sorte de ser membro de uma família de negros escravizados “de dentro”, como também eram denominados os escravos por habitarem a casa-grande junto aos seus senhores, fora bem-educada, sabendo ler e escrever.

Os negros “de casa” ou “de dentro” eram bem-educados e bem-vestidos pelos seus senhores e senhoras. Pois estes e estas, pelo fato de pertencerem, ou fingir pertencer ao grupo e classe dos mais nobres da colônia, recebiam em seus estabelecimentos visitas importantes de homens e mulheres da mais alta nobreza colonial e europeia. Por isso, os seus negros tinham que estar preparados quanto a como falar e como se comportar perante os nobres hóspedes. Em muitos casos, eram esses negros que liam as cartas e notícias, enquanto os seus senhores e senhoras comiam ou tomavam chás. E também em muitos casos eram eles que escreviam as cartas, enquanto os seus senhores e senhoras ditavam.

Também era muito importante apresentarem os seus negros bem-vestidos. Pois estes, sendo homens, sempre os acompanhavam pelas ruas, carregando-os em seus “carros de mão escrava”. E, sendo mulheres, os acompanhavam carregando e amamentando os seus filhos pequenos e bebês. E também era um belo sinal de nobreza apresentar os seus negros vestidos com boas e finas indumentárias, em seus passeios dominicais pelas ruas das vilas, ambientes sociais e na missa da igreja.

Preta Ciata contara que as lavadeiras acordavam com o sol, para irem à beira do rio e, assim, poder lavar as roupas dos seus senhores e das suas senhoras. Juntas, levavam baldes e bacias feitos de cavilhas de madeira, que na verdade eram os barris de vinhos que vinham do Reino Portugal, cortados e reutilizados. Levavam também consigo barras de sabão de coco de palma, pratos e facas, pães e outras coisas para comerem. Tudo isso em cima de alguns jumentos que as acompanhavam.

Na beira do rio lavavam as roupas das suas senhoras e dos seus senhores com bastante atenção e cuidado. Então procuravam um lugar com muitas pedras ou um gramado extenso. Estendiam sobre eles um longo cobertor branco e lá colocavam as roupas lavadas para secarem, revirando ambos os lados de acordo com o estado de estarem secas ou molhadas.

Enquanto as roupas estavam estendidas ao sol para secar, as lavadeiras tinham muito tempo livre. Ao passo que esperavam as roupas estarem secas, elas também lavavam as suas roupas, e as roupas dos seus amantes e filhos. E ainda muito tempo lhes sobrava para esperar. Então, depois de comer e descansar, se levantavam, algumas pegavam seus pratos e os arranhavam com as suas facas, enquanto outras com suas mãos batiam palmas. Formavam um círculo e começavam a cantar e a dançar. Algumas cantavam em suas línguas nativas africanas, outras cantavam misturando sua língua nativa com poucas palavras em português, enquanto outras dançando respondiam corridos, gritavam, riam e gargalhavam.

Essas rodas cantantes e dançantes podiam levar até quatro horas, que era mais ou menos o período das roupas estarem completamente secas. Então, para as rodas não ficarem monótonas, as lavadeiras, com os seus longos vestidos, inventavam muitas brincadeiras dentro da roda. Dançavam dando umbigadas e giradas. Fingiam entrar na roda procurando uma chave perdida e, quando achavam, entregavam aleatoriamente a chave para outra pessoa que formava a roda, para perder a chave e procurá-la novamente dentro da roda, e assim, dar continuidade à brincadeira. Assim como criavam inúmeras e inúmeras brincadeiras, variadas danças, arrastos de pés, mancadas e giradas. Além dos toques de pratos, batidas de pedras, pedaços de paus e palmas das mãos.

Essas rodas cantantes e dançantes eram tão divertidas, que até as adolescentes filhas das senhoras e dos senhores da nobreza colonial matavam suas aulas vespertinas para entrar na brincadeira e na alegria das rodas de m’semba, das lavadeiras dos rios. Essas colonas adolescentes se empolgavam tanto em ir para beira do rio, que falavam às escondidas umas para outras em suas classes matinais: “Vamos hoje para roda de samba das pretas lavadeiras!”. Elas chamavam a roda de samba. Pois não sabiam pronunciar m’semba, aportuguesando a palavra, que em seu significado na língua dos oriundos do Reino do Kongo etimologicamente quer dizer: “dança de umbigada”.

Preta Ciata contara também que, apesar de viver feliz em meio aos opressores do seu povo, fugira para o K’ilombo por se apaixonar por um dos negros escravos que trabalhava na lavoura de cana-de-açúcar do seu senhor. Pois não eram permitido aos negros “de dentro” se envolverem com os negros “de fora”. Ao ver o seu bem-amado sofrer tanto no trabalho, e ainda ser severamente castigado e humilhado. Ela tramou um plano para o libertar, e juntos fugirem para o Reino de Palmares. Onde agora vivem e mantêm na N’gola N’janga a tradição e roda das pretas lavadeiras. Com os seus batuques, cantos, danças, brincadeiras, umbigadas e gargalhadas de muitas alegrias, em meio a tanto sofrer.

Olhando ainda para o céu que aos poucos já se iluminava, por causa da vinda da madrugada, em que ofuscara as cintilantes estrelas. N’zambi voltou toda sua atenção para a única estrela que restara em todo o céu acinzentado. A Grande Estrela de todas as manhãs e de todas as tardes, aquela que mais brilha. E com o olhar fixo na Estrela do Pastor, ele mentalmente fez uma pequena prece e a indagou: “Meu Pai e Mãe de Toda a Criação, Grande Espírito Poderoso e Deus de meus antepassados, que fez surgir todas as coisas que agora existem e que deu existência a essa minha vida. Fazei fluir para o meu interior o seu infinito amor, a sua grande força luminosa e a sua fé corajosa. E fazei resplandecer em mim a sua Grande e Poderosa Presença. Perdoai as minhas fraquezas e as minhas falhas. E me diga o que eu preciso fazer para me tornar um dos filhos daquela que mais brilha!” E uma poderosa e suave voz emergiu do mais profundo do seu íntimo, dizendo:

— Entrega teu corpo e tua mente totalmente à Fonte e à Matriz que EU SOU. Pois EU SOU o todo de tudo, e não há nada além e fora de minha Grande e Poderosa Presença. EU SOU o bem, e na minha Gloriosa Presença mal algum pode existir. EU SOU a harmonia, e na minha Perfeita Presença tudo é plena e perfeita perfeição. EU SOU a Vida Eterna, e em minha Presença a morte é só uma passagem do limite para o ilimitado. Por isso, se entregue a mim, e não tema a morte com que também há de me glorificar. Saiba que só os Filhos da Luz, isto é, o indivíduo de livre-arbítrio que se conscientizou de sua Verdadeira Essência de Plena e Pura Perfeição que EU SOU, podem decretar como a Poderosa Presença decreta EU SOU. Ao decretar “EU SOU isso” ou “EU SOU aquilo”, ordenando a minha Gloriosa e Poderosa Presença, qualquer qualidade, finalidade e vontade de que se segue a este som pronunciado no agora torna-se uma manifestação nesse mundo substancial, fenomenal e criativo. Chegou a hora, e agora é o ponto em que você deve ter a atividade instantânea daquilo que você deseja manifestar. Quando em alguma situação em que você necessite pronunciar a minha Poderosa e Gloriosa Presença EU SOU. Lá estarei contigo, significando que a ação e a concretização imediata acontecerão, nesse particular, pelo maior poder de todo o universo e de toda a natureza que verdadeiramente EU SOU.

Depois desse acontecido, N’zambi percebeu que precisava adquirir o hábito de governar os seus mais íntimos sentimentos. Relembrou das palavras do preto velho griot Djeli, em que lhe dizia que os seus sentimentos poderiam ser os seus melhores amigos ou os seus piores inimigos. Sabia que pelo controle das emoções dos seus sentimentos poderia governar a sua Poderosa Energia e Presença. Assim, ele adquiriu o hábito de levantar cedo em todas as madrugadas. Sentava e aquietava o seu EU externo, superando as mais íntimas emoções dos seus inúmeros sentimentos de bem e mal. Suprindo com a devida energia o seu EU SOU interno.

Certa vez, N’zambi, em uma das suas práticas meditativas, com o intuito de receber do Poderoso Grande Espírito as respostas das suas mais íntimas questões existenciais. Em que ele se pôs a sentar do sol poente ao sol nascente no alto monte, cm cima da grande pedra, em que o preto velho griot Djeli costumava  se sentar para contar suas sábias histórias e parábolas, lhe veio um espírito tentador no meio da noite para pô-lo à prova, e disse-lhe:

— Você que procura reabrir o caminho que há muito tempo se encontra fechado. Você que anda por onde mais ninguém ousa, o que pretende alcançar?

N’zambi, vendo aquela figura a sua frente com bastante nitidez, pelo fato daquela noite ser agraciada pela luz da lua cheia, com toda calma daquele que sabe quem é e que sabe o que quer, disse:

— Porteiro, você não tem mais poder e autoridade de fechar a porta que me aprisionava. Pois eu agora possuo a chave que abre todas as portas. E essa porta em que agora atravessei ninguém e mais nada pode fechar.

— Mas eu sou a porta que você abriu. E a chave que você possui vive em mim.

Diante disso, N’zambi permaneceu calado, e o tentador lhe disse:

— Curve-se a mim, e te farei um rei glorioso não só para esse K’ilombo, como também te farei vitorioso para retornar com o seu povo e reestabelecer o Império do Kongo. E te farei um M’wene sobre todo Reino da África. Porque tenho as chaves de todos os Reinos do mundo, e dou elas a todos que me servem.

— Ó senhor de todo mal, você sabe muito bem que não pode me comprar e me corromper. Por que, então, vem até a mim sabendo de sua derrota?

Depois de ouvir isso. O tentador, que só era uma forma verde florescente, sombria e amorfa, tomou uma forma humana, de aspecto de um senhor branco com os cabelos grisalhos cortados, bigode e barba feita. Estava vestido de uma roupa estranha toda preta e fina. Com sapatos de couro preto e reluzente, blusão e calça justa ao corpo. Além de uma tira de pano preta com um final triangulado pendurada ao pescoço. Uma vestimenta que nunca N’zambi vira antes.

Calmamente, aquele homem colocou uns óculos escuros no rosto, encobrindo os seus olhos. Coisa que também N’zambi nunca vira antes. O homem encarou N’zambi com um pequeno sorriso malicioso nos lábios, e disse:

— Tudo tem um preço. Até mesmo as coisas que não podemos comprar. Basta pagar para outro roubar e destruir. Se não posso comprar sua alma. Comprarei o seu corpo.

E, falando isso, desapareceu no nada da mesma maneira que apareceu. Com a devida prática e o pleno esforço de meditar em todas as madrugadas, N’zambi aprendeu a se controlar, domando o seu EU externo como se educa um cavalo selvagem. Aprendendo a ordenar a atividade do seu EU SOU interno. Assim, obteve a chave que abre todas as portas. Ativando e acalmando sua energia, e a energia do ambiente externo à sua ordem e vontade, enfrentando todas as adversidades da vida, com a calma de um singelo sorriso estampado em seu rosto, elevando-se, dessa forma, acima delas.

N’zambi se manteve sempre alerta e radiante, para reconhecer em si mesmo os seus hábitos de fraqueza e de grandeza. E percebeu o significado da partida imediata do seu tutor, o preto velho griot Djeli. Pois a verdade só poderia ser adquirida por ele mesmo. E assim disse para si: “Ninguém pode fazer nada por mim, eu que tenho que fazer tudo por mim mesmo”. Examinou-se e, desse modo, eliminou do seu SER tudo o que não era harmônico para manifestar a sua Grande e Poderosa Presença, de Pura e Eterna Perfeita Perfeição.

E sempre declarava para si mesmo: “Já que sou filho da LUZ, eu também sou LUZ. Logo, sendo eu criação da Poderosa e Grandiosa Perfeição, que criou todas as coisas harmônicas e perfeitas em toda a natureza e em todo o universo. EU SOU como essa Gloriosa e Poderosa Presença, e assim, EU SOU a mais Pura e Plena Perfeição também, manifestado aqui e agora”.

Essa afirmação consciente trouxe para N’zambi uma liberação da força e do poder que se encontravam ocultos em seu interior.

E neste trabalho todas as coisas antigas que o importunavam foram superadas.

Ele avançou além dos muitos EUs externos que o rodeavam. Foi muito mais além do que a sua cor, do que a sua raça e cultura, do que as suas crenças e dogmas religiosos, do que o seu status, do que os seus sentimentos de bem e mal, sofrimentos e alegrias, do que o seu corpo e sua mente, do que o seu tempo, e o espaço, e a sua geração.

E, nessa grande radiação da sua poderosa Presença Divina, consumiu todas as velhas coisas que o prendia. Tornando-se de fato um dos filhos daquela que mais brilha.

FIM DO DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...