O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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17. Capítulo 12 - ל (LAMED) O APRENDIZADO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

ל

LAMED

O APRENDIZADO

 

— Se você fizer nascer em seu coração “AQUELE QUE A TUDO POSSUI”, Ele te salvará. Mas, se você não possuir em seu coração “AQUELE QUE A TUDO POSSUI”, então você será morto por “aquele que nada possui”.

— Onde posso encontrar “AQUELE QUE A TUDO POSSUI”, para fazê-lo nascer em meu coração?

— Destruindo a casa, de forma que ninguém poderá reconstruí-la novamente.

— Que casa tenho que destruir?

— A casa daquele que conheceu o mundo e encontrou o corpo.

— Que corpo?

— Se você encontrar o corpo encontrará o mundo, e encontrando o mundo encontrará um cadáver. E encontrando esse cadáver, você verá que não será mais digno dele, porque você em minha luz se tornou vivo.  Pois quem está perto de mim está perto do fogo, e, quem está longe de mim está longe da VIDA.

— Onde posso te encontrar, Grande Mestre, para estar perto das suas chamas?

— EU SOU a GRANDE LUZ, que está acima de todos. EU SOU o Todo de Tudo. O Todo e o Tudo saiu de mim, e o Todo e o Tudo voltou para mim. Rachai a madeira e lá estou EU. Erguei a pedra e lá me achareis.

 

∞∞∞

 

N’zambi despertou no meio da noite, ainda ouvindo as últimas palavras da voz que saía do poço da paróquia em que viveu em Porto Calvo. Teve mais um daqueles sonhos reais, em que se encontrava sentado na beira da cisterna, conversando com uma voz misteriosa que saía do profundo de suas águas.

Ainda com os olhos pesados, virou-se na cama e viu Dandara, que estava dormindo em profundo sono, abraçada a um dos seus filhos que ainda estava amamentando. Com muito cuidado e atenção levantou-se. Pegou o candeeiro que se encontrava em uma pequena mesa ao lado e seguiu caminhando em direção à varanda da casa de taipa. Era uma daquelas noites sem lua. E o breu da escuridão cobria toda a serra que abrigava o K’ilombo dos Palmares. O céu se encontrava esplêndido, clareado com auréolas de estrelas cintilantes e reluzentes. E luzes velozes riscavam momentaneamente o escuro do céu.

Os olhos de N’zambi estavam fixos na Grande Estrela de todas as tardes e manhãs, aquela que mais brilha. E à medida que seus olhos se prendiam à Grande Estrela, seus pensamentos voltavam ao passado na companhia do preto velho Djeli. Recordava dos seus ensinamentos e de suas palavras de conforto e sabedoria. Porém, voltando ao presente, se viu mais uma vez só. Não tendo mais o ancião africano para trazer-lhe luz às suas questões íntimas e existenciais. Também N’zambi sabia que agora não era mais um rapazinho. Agora já era pai e senhor de sua família. Se tornou um homem independente, um pai de família com casa, afazeres e obrigações diárias. E, além de tudo, pela tradição e crença de seus ancestrais, os M’wene Kongo. N’zambi fora profetizado pela Grande Mãe dos K’ilombolas, a Rainha Akualtune, de ser o substituto de N’ganga N’zumba para o reinado da N’gola N’janga. Enquanto o príncipe estava preso em seus perplexos pensamentos, a bela moça Dandara surgiu por detrás dele, o abraçando pelas costas, dizendo:

— O que está te perturbando, meu Amor. Você já não consegue ter uma noite de sono tranquilo faz dias, desde que o papai partiu. O que te preocupa?

— Tenho tido muitos sonhos e pesadelos confusos, e sinto como se algo quer uma coisa a mais de mim. — Fez-se uma curta pausa e continuou:

— Uma coisa que não sei o que é. E mesmo sabendo que eu tenho tudo aqui, e vários motivos para agradecer e ser feliz... Tenho você, meus filhos e minha profissão de agricultor que amo, além de viver livre neste sistema escravocrata. E, mesmo com tudo isso que tenho, sinto um vazio imenso por dentro, como se faltasse algo para ser acrescentado.

— Está na hora de você ir, meu Amor. Você tem uma grande missão, e enquanto você não começar a trilhar o seu caminho, esse vazio que você sente se tornará maior por dentro, e você acabará por se afogar nele. Lembre-se! Você é o escolhido dela. — Falou Dandara apontando com o seu dedo indicador para a Grande Estrela que imperava no imenso do céu, e continuou:

— Para você, N’zambi, estar perto da Estrela da Manhã será como estar perto do fogo e se queimar com suas chamas ardentes. Porém, se você estiver longe dela, será como se perder no caminho e se precipitar em um grande despenhadeiro, perdendo assim a sua vida. Você é um dos filhos daquela que mais brilha, e não lhe resta escolhas ou opções. Pessoas como você já nascem com o destino marcado, pois vieram aqui unicamente em missão.

Ao ouvir as palavras de Dandara, N’zambi se recordara do sonho que teve e da voz do poço. E naquele momento tudo fazia sentido. Mas algo lhe perturbava, pois tinha que fazer algumas escolhas difíceis na vida, e sobre isso conversava com Dandara, dizendo:

— Querida, eu não quero ter que partir e abandonar nossa casa, você e meus filhos. Eu não preciso ser rei deste K’ilombo, e nem mostrar nada para ninguém. Já me sinto feliz com você e meus filhos, e sei que, quando tudo isso tiver um fim, podemos partir e viver em um lugar... — Ainda N’zambi estando a falar, Dandara foi com a mão em sua boca, e o silenciou dizendo:

— Não se iluda! Você não vê que vivemos em um estado de guerra constante. Não há paz nestes tempos, e sempre teremos que viver como fugitivos. Não dê ouvidos ao seu medo. Silencie-o! Como eu o fiz agora tapando a sua boca. Eu saberei como me cuidar e cuidar da minha cria. Olha os animais como vivem. São as mães que cuidam, alimentam e protegem as suas crias contra os mais terríveis predadores. Também aprendi com eles, e com os nativos habitantes das florestas. Onde são as mulheres que trabalham, alimentam, vestem e cuidam dos seus filhos e dos seus homens. Nós mulheres temos muita força, que vai além da compreensão masculina. Portanto, vá e siga sua missão, pois eu te amo. E, por te amar, sei o que é bom para você. Enquanto do resto cuido eu.

Diante daquelas palavras, N’zambi silenciou. Os dois se abraçaram e a moça Dandara o puxou pelo abraço, levando-o de volta para cama, dizendo:

— Vem dormir, meu Amor. Eu vou te fazer um pouco de carinho, e soprarei os seus medos para longe de você.

E juntos foram dormir.

Já no dia seguinte, N’zambi decidiu partir de sua morada para fazer uma incursão pessoal por todo o K’ilombo dos Palmares. Lembrara-se das palavras do preto velho griot Djeli, quando lhe disse para conhecer Palmares e os seus habitantes, antes de se tornar o grande líder deles.

Assim fez N’zambi. Despediu de sua mulher e filhos. Pediu encarecidamente aos seus amigos, que antes eram os ajudantes do preto velho Djeli, para administrarem a fazenda, cuidar e proteger da sua família enquanto estivesse distante. N’zambi aprontou um pequeno jumento, embainhou seu facão na cintura, pegou alguns mantimentos e partiu para sua jornada. N’zambi já tinha completado vinte e dois anos quando partiu para sua primeira incursão no k’ilombo, sendo que também completara seis anos desde que retornou a Palmares. Nessa época, o K’ilombo já abrigava um pouco mais de vinte mil habitantes, subdivididos nos mokambos e nos kraais.

A população de Palmares era bastante heterogênea. Composta por negros das mais variadas nações e reinos africanos, que desembarcaram no Novo Mundo pelas rotas do comércio escravagista. Havendo em sua maioria negros do M’banza Kongo, do Oyo-Ile, do Edo, do Dahomey, do Bunyoro, de Imerina, de Kanem-Bornu, da Etiópia, de Mandinka, de Wólof, de Luba, entre outros reinos africanos. Também havia várias tribos nativas do Novo Mundo, que habitavam numa grande região em Palmares, que era chamada de Mokambo do Engana-Kolomim. Essas tribos de nativos eram os Karnijó, os Wakonã, os Kambiwá, os Kapinawá, os Kantaruré, os Karapotó, os Kariri, os Pankararu, os Pataxó, entre outros. Havia também alguns brancos habitando Palmares. Alguns grupos de judeus que fugiam do domínio da inquisição da Igreja Católica Apostólica Romana. Como também jesuítas que abandonaram sua fé católica, por verem as barbaridades que a igreja fazia e apoiava nas colônias, perante a escravidão. E havia alguns poucos brancos marginalizados, e brancos devedores dos fiscos e impostos da coroa portuguesa. E havia muitos mestiços que provieram das misturas dessas muitas raças e grupos étnicos. Havia também uma mistura intensa de muitas línguas faladas. Línguas africanas como swahili, kikongo, umbundo, kibundo, yoruba, mandinko, entre muitas outras. Línguas nativas como o tupi e o guarani e suas derivações étnicas. Algumas outras poucas línguas europeias. Sendo que o português era a língua que mediava as relações sociais dos habitantes.

A agricultura era a base da vida econômica do K’ilombo dos Palmares. Além, também, de fabricar vestes rudimentares de algodão, fibra de cânhamo, fibra das cascas das árvores de biriba, ou de outras árvores. Os habitantes do K’ilombo confeccionavam utensílios domésticos, armas para guerra, ferramentas para o plantio, caça e pesca, objetos caracterizando a arte africana e nativa, figuras de madeiras, máscaras, tambores de troncos de árvores, esculturas e objetos decorativos com representações geométricas e humanas, trabalhos em bronze, cobre, prata e ouro. Havendo diversos kraais especializados em trabalhos com cerâmica, cestaria e metalurgia.

A organização política, social e religiosa em Palmares era complexa e agitada. Religiosamente havia muitas crenças politeístas, monoteístas e animistas. Várias mitologias, magia e cultos aos antepassados. E, politicamente, havia os Chefes dos Kraais subjugados aos Chefes dos Mokambos, os Mazômbos. Que eram os administradores regionais do Grande Rei do K’ilombo, o M’wene K’ilombo, N’ganga N’zumba. Sendo que havia também o Chefe das Armas, que era a segunda pessoa de grande poder depois do rei, o Comandante Guerreiro Mazômbo, N’ganga N’zona, irmão do rei.

As uniões conjugais não tinham regras fixas. Encontrando tanto a monogamia quanto a poligamia nos muitos casos de poliginia, no que se refere à prática de um homem contrair matrimônio com mais de uma esposa, e também poucos casos de poliandria, no que se refere à prática de uma mulher contrair matrimônio com mais de um marido. Havendo também alguns casos poliamorosos, sendo que todas as relações eram heterossexuais.

Os mokambos, com a exceção da Cerca Real dos Macacos, eram vilas abertas e sem nenhuma proteção. Mas toda fortificação se encontrava nos kraais. Pois eram cercados com uma muralha de troncos grossos de guariroba, de cinco a seis varas de altura, colocados lado a lado sem nenhuma brecha. Além de ter ao redor, por fora e por dentro da fortificação, uma cerca de paliçadas dupla. A sadia vida organizacional e social no K’ilombo dependia unicamente do kraal. Que dava a formação às pequenas comunidades política e economicamente sustentáveis. Através destas pequenas comunidades, era mais fácil ter o controle sociopolítico e econômico de toda população k’ilombola. Cada kraal era composto por mais ou menos cinquenta famílias. E cada kraal tinha uma, ou duas especializações profissionais e produtivas. Portanto, cada kraal era uma tribo e um reino específico. Com seu chefe, suas leis, seu sistema econômico, militar e educacional. Dentro do kraal havia vários espaços comunais e individuais. Havia escolas, onde os jesuítas rebelados e alguns judeus ministravam aulas. Havia um grande refeitório, em que os seus habitantes partilhavam juntos as refeições. Havia áreas abertas de lazer e pomares com muitas árvores frutíferas, campos para animais pastarem e hortas. Além de espaços específicos para o trabalho e produção, e várias kubatas que abrigavam as suas inúmeras famílias.

Em cada mokambo havia um kraal maior. Cujo chefe era o chefe do mokambo. O Reino de Palmares naquela época em que N’zambi partira para sua primeira incursão continha onze mokambos e alguns independentes kraais periféricos nos morros e florestas. Dentre esses kraais periféricos que circundavam os mokambos, se encontravam ao sul do K’ilombo dos Palmares o Alto Magano, a Curiva, o Oitero, a Graça e a Quissama. Já ao norte do K’ilombo, perto da região dos Garanhuns, se encontravam os kraais periféricos de Gongoro, Cucaú, Pedro Capacaça, Quiloange, Uma e Catingas.

Os nomes dos mokambos eram dados em homenagens aos homens e mulheres k’ilombolas que fizeram grandes feitos heroicos para existência e permanência do k’ilombo. Os mokambos e kraais independentes do K’ilombo do Palmares se estendiam em uma grande serra verde e montanhosa, ocupando uma área com mais ou menos noventa mil quilômetros quadrados, no centro da Capitania de Pernambuco.

Ao norte da capitania pernambucana e ao sul das vilas dos Arrecifes dos Navios e Olinda se encontrava embrenhado nas montanhas florestais e de difícil acesso o Mokambo de Amaro. Esse mokambo se encontrava em um local superprotegido e estratégico. Abrigando vários guerreiros e espiões. Sendo um dos mokambos quartéis generais, e comportando vários galpões para armazenamento de armas e alimentos. Era em Amaro que os k’ilombolas obtinham as maiores informações dos assuntos da capitania, e também onde trocavam seus insumos alimentares e utensílios por armamentos, por estar mais próximo às duas principais vilas administrativas e de rotas mercantis da Capitania de Pernambuco.

A algumas muitas léguas depois, descendo para o sul da capitania, se encontrava o Mokambo de Akotirene. Esse mokambo também servia como armazém para suprir os galpões do Mokambo de Amaro. Além de ter muitos abrigos para os animais de transporte, como bois e burros, e de possuir muitos insumos mecânicos e ateliês construtivos de carros de transporte, e ferramentas para as lavouras e moendas de cana-de-açúcar. As pessoas desse mokambo em especial eram hábeis em abrir e fechar trilhas para a transição entre os mokambos. Cada trilha aberta, depois que eles transitavam com os seus carros de animais, eram cuidadosamente fechadas com várias camuflagens e armadilhas. Umas das principais estratégias de proteção do K’ilombo dos Palmares era não haver estradas ou trilhas para a transição entre os mokambos.

Descendo a poucas léguas do Mokambo de Akotirene, encontravam-se os dois grandes mokambos de Tabokas, lado a lado. Os mokambos de Tabokas eram imensos, e sua região continha áreas e climas excelentes para o plantio. A maioria de todos os insumos agrícolas do Reino de Palmares se dava em Tabokas. Também em Tabokas se produziam vários artefatos de argila, por conta de seus muitos kraais-olarias. E todo artesanato, cestaria e metalurgia se dava em Tabokas. Os mokambos de Tabokas se constituíam como o polo econômico de manufaturas e comercialidades de Palmares.

Ainda descendo para o sul da capitania, porém subindo em direção ao centro, se encontrava o Mokambo de Dambrabanga. Nesse mokambo em particular, habitavam os melhores caçadores, arqueiros e atiradores de lanças. Também eram agricultores e trabalhavam na extração de metais e minerais.

Descendo de Dambrabanga em direção ao leste da capitania se encontra o Mokambo de Akualtune. Este mokambo também era uma espécie de quartel militar. E também abrigava galpões de alimentos e utensílios. Pois ficava próximo a alguns povoados importantes da capitania pernambucana, como o povoado de Porto Calvo. Lá também abrigava várias plantações e engenhos de cana-de-açúcar.

A muitas léguas de distância do Mokambo de Akualtune, descendo para sudoeste da capitania, em uma planície cercada por montanhas, se encontra o Mokambo Guerreiro de Subupira. Esse mokambo era o Quartel-General Mor, chefiado pelo grande comandante guerreiro N’ganga N’zona. Dali vinham os mais hábeis guerreiros k’ilombolas. Subupira preparava guerreiros e guerreiras, era o campo de treinamento militar do K’ilombo. Comportando várias armas manufaturadas e de fogo, muita munição, e preparo de munição também. Para lá iam os homens e as mulheres mais fortes do K’ilombo. Eles eram escolhidos e recrutados nos kraais, por guerreiros que observavam certas habilidades, e forças potenciais em cada jovem k’ilombola.

Descendo para o sul de Subupira, em uma região montanhosa e no alto de uma cadeia de montes e precipícios, se encontrava a maior fortaleza de Palmares. Com mais ou menos duzentos quilômetros quadrados, essa grande fortaleza era conhecida como a Cerca Real dos Macacos. Este grande e poderoso mokambo real não tinha a necessidade de kraal, era uma imensa fortaleza e a capital do reino. A capital palmarina era composta por quase duas mil habitações, e por uma população de quase dez mil k’ilombolas, além de haver alguns kraais periféricos em sua circunvizinhança. As casas da Cerca Real dos Macacos eram todas feitas de adobe, e continham muitas kubatas em forma de cone. O rei N’ganga N’zumba habitava em um palácio real, que reunia várias kubatas gigantes e muitas áreas abertas.

A Cerca Real dos Macacos era cortada por poucas ruas, mas continha grandes e largas avenidas, mais ou menos paralelas e ortogonais entre si, formando o que poderíamos qualificar de superquarteirões. Normalmente, cada superquarteirão era dividido em quarteirões menores que podiam ser separados entre si, ou por ruas, ou por simples muros, por vezes, de considerável altura. Cada quarteirão menor se caracterizava por apresentar um limite murado externo, e o acesso ao mesmo se dava por uma só entrada. Essa imensa fortaleza abrigava vários galpões de alimentos e armazéns de armamentos. Era cercada por uma tripla muralha de troncos grossos da palmeira guariroba, de doze a quatorze varas de altura. A cada cinco quilômetros de muralha havia uma guarnição elevada. Por entre as guarnições havia postos para arqueiros e atiradores de lanças e pedras. Além das grandes muralhas de troncos, havia cercas de paliçadas duplas, com várias armadilhas e arapucas ao redor. Era para ali que todos os k’ilombolas tinham que ir, nas batalhas em que seus kraais e mokambos fossem destruídos.

Ao redor do sul da grande fortaleza, nos leitos do Rio Mundaú, havia várias choças dos povos nativos das florestas. Essa área era conhecida como o Mokambo do Engana-Kolomim. Os nativos não se organizavam em kraal, sendo que essa área era a região mais desprotegida de Palmares. Porém, nas épocas de guerras os nativos se refugiavam na grande fortaleza ao lado.

Ao sudoeste da Cerca Real dos Macacos, se encontrava o Mokambo de Osenga. Mokambo esse com finalidades agrícolas para suprir as necessidades alimentícias da Cerca Real dos Macacos e dos dois mokambos militares, o de Subupira e o de Andalakituche.

Já o Mokambo de Andalakituche se encontrava muitas léguas ao sul da capitania pernambucana, delimitando a região sul do Reino de Palmares. Andalakituche era um bravo guerreiro Mazômbo k’ilombola, que morrera bravamente na primeira entrada de grande porte a Palmares, composta por mais de quinhentos soldados, expedida pelo mestre de campo de descendência italiana Zenóbio Achioli de Vasconcelos, sete anos depois da expedição que incendiou o k’ilombo, em que N’zambi fora levado como cativo. Sendo que Andalakituche era o irmão mais velho de N’zambi e o braço direito do Comandante Guerreiro Mazômbo, N’ganga N’zona. Ele tinha uma grande cicatriz no rosto e no seu braço esquerdo, causadas por queimaduras no incêndio que matou a sua família, e pelo qual o seu irmão mais novo foi capturado e levado para o povoado de Porto Calvo.

Assim, dentro de um ano, N’zambi percorrera todos os mokambos do K’ilombo dos Palmares, com a exceção da Cerca Real dos Macacos. Visitara todos os kraais, e tomara nota de todos os seus habitantes importantes. Em alguns lugares escondia a sua identidade de ser um membro da família real, e em outros afirmava ser quem era. Mas foi no Mokambo de Akotirene que N’zambi teve o devido entendimento da importância da sua missão. Lá encontrara-se com a Grande Anciã e conselheira k’ilombola, da ancestralidade dos povos Khoisani, que habitavam a margem do Grande Rio Zambezi, na Terra-Mãe África.

Akotirene já estava muito idosa, com mais de cem anos de vida. Ela já habitava aquelas regiões antes de ali se tornar o Reino de Palmares. Akotirene pertencia ao grupo de africanos escravizados que se rebelaram na Capitania da Baía de Todos os Santos e fundaram o K’ilombo. Foi ela quem aclamou a filha dos M’wene Kongos, a Princesa Akualtune, como rainha do K’ilombo. E em todos os casos de decisões importantes que os chefes e os maiorais do K’ilombo precisavam tomar, consultavam-se antes com Akotirene. Akotirene já estava acamada, e no leito para morrer quando N’zambi foi ter com ela. Assim como o preto velho griot Djeli, Akotirene reconheceu de imediato o príncipe de Palmares.

E N’zambi, entrando na kubata em que a anciã se encontrava, e se aproximando do seu leito, agachou-se e saudou-a, dizendo:

— Salve! Grande Mãe do K’ilombo.

— Uù’búntù N’ganga N’zambi. Uù’Búntù! — Disse Akotirene em língua IsiXhosa.

— Grande Mãe, o que quer dizer Uù’Búntù. — Perguntou N’zambi.

— Eu e você somos um com o todo e o tudo. Sem mim, você não sabe quem você verdadeiramente é. Sem você, eu não sei quem verdadeiramente eu sou. Tudo o que eu tenho e possuo é seu também. Tudo que você tem e possui é meu também. Você é, porque eu sou, e, eu sou, porque você é. Você sozinho é uma pessoa triste, sua felicidade depende da minha felicidade. Eu sozinha sou uma pessoa triste, minha felicidade depende da sua felicidade. Não que dependemos um do outro para ser feliz, apenas ajudamos um ao outro a ser feliz, roubando sorrisos. Uù’múntù N’gumúntù N’gabantú. Você é, porque você me vê, me ouve, me cheira, me fala e me sente. Eu sou, porque eu te vejo, te ouço, te cheiro, te falo e te sinto. Eu sou uma pessoa através de você, e você é uma pessoa através de mim. Uù’Búntù é o princípio e o fundamento. É a alma desse mundo. Todas as vidas na nossa amada Ama Terra vivem no espírito de Uù’Búntù. E sua missão, N’ganga N’zambi, é não deixar que o espírito de Uù’Búntù morra. Pois se Uù’Búntù morrer, nosso espírito morrerá também com ele.

— Me fale mais sobre Uù’Búntù, Grande Mãe. — Disse N’zambi.

— Uù’Búntù é algo muito simples, mas que não pode ser explicado. A espontaneidade e naturalidade de todas as coisas é a expressão do espírito Uù’Búntù. Uù’Búntù não reparte, Uù’Búntù comparte. Uù’Búntù não fragmenta, Uù’Búntù une. Uù’Búntù não diz eu, meu e seu. Uù’Búntù diz nós, Uù’Búntù diz somos, Uù’Búntù diz nosso. Uù’Búntù faz tudo, não fazendo nada. Uù’Búntù não modifica, Uù’Búntù aceita. Uù’Búntù não melhora, Uù’Búntù aprimora. Uù’Búntù não compete, Uù’Búntù comunga. Uù’Búntù não é boa educação, Uù’Búntù não é formalidade, Uù’Búntù não é tolerância, Uù’Búntù é simplesmente gentileza e boa-fé.

Dizendo isso, a anciã olhou bem no profundo dos olhos de N’zambi e continuou a dizer:

— Você me lembra muito o seu tio N’ganga N’zumba quando era jovem. Ele há muito tempo se afastou do espírito de Uù’Búntù. E agora vive como um colono em Palmares. Até vassalos ele tem. Vá, meu filho, para a Cerca Real dos Macacos, e aprenda com o seu tio a não se tornar o que ele se tornou. Tome o trono e viva o verdadeiro espírito de Uù’Búntù.

Ao acabar de falar, Akotirene começou a desfalecer e a tossir repetidamente. N’zambi percebera que ela estava morrendo, então segurou ela firme em seus braços, e chorando disse:

— Grande Mãe, não se vá.

Com a voz fraca, porém, suave e firme, com toda calma e paz ao decorrer de seu falecimento. Akotirene disse lentamente, em um sussurro rouco e baixo:

— Da mais fedida e podre lama... brota o lírio mais cheiroso... que ofusca o fedor de todo um pantanal. Assim, meu filho... é através de todos os sofrimentos... que você já passou... e que ainda tem que passar, que nascerá o seu espírito Uù’Búntù... Uù’múntù N’gumúntù N’gabantú... Uù’búntù N’ganga N’zambi. Uù’Búntù...

E, pronunciando essas palavras, Akotirene morreu nos braços de N’zambi. A partir daquele momento em diante, algo em N’zambi mudou. Ele começou a ver todas as coisas com os olhos do espírito Uù’Búntù. E tomou repulsa de tudo que era contrário a esse espírito. Quando terminou sua incursão pessoal pelo K’ilombo, em que tomara nota e conhecimento de tudo que era bom e mal para o Reino de Palmares, ele decidiu tomar para si a responsabilidade de sua missão. De repente, se viu apaixonado pela justiça e pelo amor ao próximo. Percebera a dor do seu povo, e sentiu essa dor. Uma dor profunda e imensa que apunhalava o seu coração latejantemente, uma dor de um vazio a ser preenchido.

N’zambi não sabia como realizar a sua missão. Não entendia de armas e guerras. Era apenas um homem culto e de conhecimento. Um homem que estudava a vida e o mundo, e que lia muitos livros. Estava mais para um filósofo ou professor, ou até para um padre orador, do que para um comandante guerreiro. Não sabia como, mas tinha fé e acreditava que podia. Decidiu rufar como um tambor convocador, e ser como uma grande moringa que derrama água em outros recipientes. Pois percebera que a iniciativa da sua missão não era dele mesmo. Mas provinha do Algo que fez surgir e que movimenta todas as coisas. Obteve o entendimento do Sagrado e Eterno Contínuo, que este Algo manifesta a cura e seus benefícios através de nossa união e de nossas boas ações. N’zambi acreditou no espírito Uù’Búntù, e o espírito Uù’Búntù se apossou dele. E, por onde andava, começou a reunir-se com os k’ilombolas, discutindo sobre os assuntos políticos e de interesses comuns do K’ilombo.

Os k’ilombolas viram em N’zambi o espírito de um grande líder. E eles começaram a aclamá-lo como um reformador do Reino de Palmares. Porque naqueles dias o K’ilombo não mais libertava os africanos escravizados, como no passado. O Rei N’ganga N’zumba já não mais fazia expedições libertárias nos engenhos da colônia portuguesa. Pois o rei se corrompera, aceitando tributos dos senhores de engenho para não perturbar os seus empreendimentos. E, mentindo, dizia aos k’ilombolas que Palmares já estava muito populoso, não podendo abarcar mais escravizados, e que fazendo acordos com os colonos seria a melhor maneira de não se ter mais guerras com eles.

N’zambi, estando a par de todos esses assuntos, começou a se impor contra toda essa corrupção. E iniciou uma marcha reformista, indo de mokambo a mokambo, de kraal a kraal. Reunindo o povo e dizendo abertamente:

— Homens e mulheres k'ilombolas, acredito que somos a cura! EU e VOCÊ. E de que nossa união pode gerar a magia de fazer tudo acontecer. Sei que, assim como eu, vocês estão cansados desse sistema de vida podre e falido que impera na colônia, e que agora insiste em imperar na nossa N’gola N’janga. E também estão cansados de reclamar e falar mal dele, sem tomar atitudes para derrubá-lo. Sei que vocês têm medo, de que seus filhos possam se transformar nisso. E, se não tem filhos, sentem medo de tê-los. Pois como educá-los na verdade num mundo de mentiras? Sei que vocês estão decepcionados, assim como eu, com essa política escravagista, e essa religião doutrinaria e suas pluralidades de palavras paradisíacas futuristas. Onde nossos líderes e pregadores lutam contra aquilo que eles verdadeiramente são, fazendo de suas ambições egoístas e malévolas nossas leis e crenças. Sei que vocês já se desesperaram com essa realidade de vida triste e feia, onde o pesadelo é mais real do que os sonhos, e a solidariedade é utopia. E o amor ao próximo é tão démodé. Sei também que, assim como eu, vocês já pensaram desesperadamente em se matar, apenas como um desejo de acordar de um pesadelo. Mas sei que, assim como eu, vocês se fizeram fortes, e logo sorriram para o mundo num ato de transmutação de consciência divina. Sei que, assim como eu, vocês experimentaram muitas coisas, para chegar a serem quem vocês são hoje, guerreiros e guerreiras k’ilombolas. Sei que vocês levaram muitas rasteiras e topadas na vida, foram humilhados, escravizados, maltratados, desacreditados e massacrados. E que até hoje, em um relapso de tempo, vocês sentem uma forte dor aguda, não física, mas como um punhal atravessando os seus corações, e os sufocando de uma forma tão real, que esse sentimento não pode ser verbalizado. Mas sei que todas as quedas que vocês tiveram não foram derrotas, pois caíram quando estiveram a subir. Sei que vocês já não sabem mais o que fazer, pensar e agir. Além de todo esse tédio de não ter o que fazer, por ter muita coisa para fazer, e não saber por onde começar, e de que tudo está chato, feio e monótono. Como vê, minha amiga e meu amigo, estamos juntos na mesma embarcação chamada VIDA, à deriva de um mar existencial desconhecido, e com tripulantes desesperados pelo sentido da jornada. Eu acredito firmemente no nosso potencial de criação, transformação e restauração. Já consigo ver o nosso convívio e cotidiano feliz com muitos trabalhos e desafios tremendos, com dores e alegrias iguais à de um parto, para um nascimento de uma nova maneira de viver, pensar e agir. Não vamos mudar o mundo e nem precisamos. Pois o mundo do jeito que a Energia Criadora Pai-Mãe-Filho nos deu já é pleno, maravilhoso, justo e sustentável. O que vamos fazer é mudar a nós mesmos, na contemplação dos sábios conhecimentos dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães, que nós nos esquecemos de valorizar. Como? Eu ainda não sei. Vocês sabem? Se souberem, ou têm uma ideia, me contem! A única coisa de que verdadeiramente sei é que... — N’zambi, agora empossando um tom forte e firme de voz, exclamou:

— SE VOCÊ NÃO FAZ PARTE DA SOLUÇÃO, ENTÃO VOCÊ FAZ PARTE DO PROBLEMA!

FIM DO DÉCIMO SEGUNDO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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