O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

1Likes
0Comentários
566Views
AA

15. Capítulo 10 - י (YUD) O TODO EM TUDO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

י

YUD

O TODO EM TUDO

 

Ambos, o jovem N’zambi e a moça Dandara, se despediram do velho griot, que os abençoou em sua jornada. E, assim, partiram em direção à grande mata, acompanhados de um casal de cachorros. Um macho, que se chama Kuarahy, e uma fêmea, que se chama Jasy. Eles tinham uma boa caminhada pela frente, por isso andavam em passos largos até a entrada da floresta.

Havia dois meios para se chegar ao Grande Rio Mundaú partindo do Mokambo de Tabocas. Um, que era o mais longo, porém o mais seguro, consistia em ir de Mokambo a Mokambo. Pegando a trilha de Tabocas em direção ao Mokambo de Akotirene. Subindo para o Mokambo de Dambrabanga. Atravessando o Mokambo de Subupira e o Mokambo Akualtune, até chegar ao grande Mokambo da Cerca Real dos Macacos. Para daí pegar uma pequena trilha para o Grande Rio.

Como Dandara conhecia aquela região muito bem, como a palma da sua mão, pelo fato dela ser criada na mata, junto aos nativos habitantes das florestas, decidiu ir pelo caminho mais curto, porém o mais arriscado e aventuroso. Cortando toda mata pelas baixadas da grande serra, onde não havia trilhas e nem vilarejos com grupos de pessoas. Só havia a grande mata com seus perigosos animais, urtigas e grandes árvores. Também era seu desejo impressionar o jovem príncipe N’zambi, e fazê-lo conhecer a floresta com os seus pequenos e grandes seres, as suas ervas e árvores sagradas, os seus povos e os seus mágicos habitantes invisíveis, já que N’zambi fora educado por muito tempo no modo de vida dos colonos no povoado de Porto Calvo, não conhecendo nada da sabedoria dos habitantes das florestas.

Ao se aproximarem da floresta, onde as árvores eram grandes e os caminhos eram fechados e escuros, Dandara virou-se para N’zambi e lhe disse:

— Tires suas sandálias. Você deverá entrar na Grande Mata com os seus pés virgens. Deverá sentir a terra para que os espíritos das florestas possam recebê-lo como amigo. Você é estranho para eles, assim como eles são estranhos para você. E, se você entrar na morada deles com os pés calçados, eles entenderão que você não tem conexão com eles, e eles se apartarão de você. É por isso que todos os animais e os povos nativos das florestas andam descalços.

A jovem moça adiantou-se na frente de N’zambi, foi até a primeira grande árvore que encontrou, sendo essa árvore uma enorme e centenária Andirá. Agachou-se aos seus pés nas proximidades de suas raízes, que brotava imensamente sobre a terra, e falou:

— N’zambi, vem!

O jovem adiantou-se e, chegando, se agachou ao lado da moça. E esta lhe perguntou:

— Cadê os ingredientes que o papai lhe deu?

— Estão aqui. — Disse o jovem príncipe retirando um monte de saquinhos de pano da sacola de fibra de cânhamo que se encontrava entrelaçada em seu busto.

Dandara, silenciosa, pegou os saquinhos da mão do jovem príncipe. E de cada um retirou um elemento do seu conteúdo, colocando-os na mão de N’zambi. A jovem moça se levantou sem nada dizer e foi até uma jovem palmeira de guariroba. Arrancou uma grande palma verde e fez dela um pequeno cesto em forma de prato. Retornou até os pés da grande árvore de Andirá, também conhecida pelos nativos habitantes da floresta como Jupuubá. E, ainda silenciosa, pegou os elementos da mão de N’zambi, que eram um pedaço de fumo de corda, um pedaço de raiz de gengibre, três dentes de alho, sete cravos e uma lasca de pau de canela. Colocou tudo dentro do prato feito da palmeira de guariroba e pronunciou em voz baixa uma pequena prece dizendo:

— Luminosos seres guardiões das florestas onde moram as grandes árvores, as pequenas plantas, os pequenos seres e os animais. Eu e meu amigo pedimos permissão para entrar em seu reino e sua morada. Trouxemos conosco, para lhes presentear: o tabaco para acalmar, o gengibre para aliviar, o alho para curar, o cravo para adocicar e a canela para perfumar. Seres luminosos inflamados com a luz das estrelas, vocês, que têm o dom de ler os nossos corações, protejam-nos de todo mal e perigo dos homens perversos, dos espíritos malignos e dos animais perigosos que andam, rastejam e voam nas suas matas. Guiem nossos passos nas trilhas seguras e confundam os caminhos dos nossos perseguidores ao tentar nos fazer algum dano. De dia nos tragam a paz e alegria das florestas, e de noite encantem-nos com a sua magia luminosa. Que os olhos de nossas almas e dos nossos corações estejam abertos para senti-los no vento e vê-los nas inúmeras formas elementais de toda natureza. Que o Grande Espírito Criador de todas as coisas, O PAI-MÃE de Toda Criação, Aquele que Criou o Todo e o Tudo e que nos fala através de todas as coisas que se manifesta, nos abençoe e cubra-nos com sua graça, na Grande Fraternidade dos Povos Alados das Estrelas, onde agora vivem os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães, que nos ensinaram a valorizar a sabedoria de guarda em nossos espíritos, o conhecimento do Sagrado e Eterno Contínuo. Assim FOI. Assim É. E assim SERÁ para todo sempre e perante toda e qualquer eternidade, diante do mais Alto dos altos e do mais Belo dos belos.

Assim que Dandara acabou de pronunciar a sua prece, uma leve e suave ventania passou balançando os galhos e folhas das árvores, fazendo um pequeno rodopio nas folhas secas sobre o solo, formando um pequeno redemoinho. E, sentindo o vento levantando o seu cabelo, ela disse:

— Não estamos sós. Eles estão aqui conosco.

— Eles quem, Dandara? — Perguntou N’zambi.

— Você não consegue perceber que está sendo observado?

N’zambi se levantou e começou a olhar fazendo voltas em si mesmo, sentiu alguns calafrios e falou:

— Sinto uma presença me observando, mas não consigo ver quem é!

— Observe aquela pequena árvore de biriba. Você não está vendo que está acontecendo algo de estranho com ela? — Disse Dandara apontando com o seu dedo indicador para a pequena árvore à sua frente.

N’zambi observou e disse:

— Que estranho. Aqui não está mais ventando, e só tem um dos seus galhos balançando freneticamente enquanto toda a árvore está parada.

— Isso se chama anomalia, N’zambi. É assim que percebemos a presença deles quando não podemos enxergá-los com os nossos olhos de carne. É através das coisas estranhas que podemos percebê-los. Um galho de uma árvore que repentinamente cai, ou até mesmo uma única folha balançando sem vento. Um círculo de grama demasiadamente muito verde no meio de um gramado. A sensação de que tem alguém te chamando no meio de uma floresta, em que só você se encontra. A sensação de que está sendo observado, quando não há ninguém mais além de você mesmo. A sensação de pânico ou de ouvir passos. Não encontrar alguma coisa que você tem certeza que colocou em determinado lugar. Um redemoinho que se forma do nada e vai passando chamando a sua atenção. Um calafrio de repente que estremece todos os seus nervos. Sequências anormais de bocejos consecutivos. Um pedaço de madeira ou uma folha andando contra a correnteza dos riachos e rios. Águas que respingam sem chuvas. Pontos de luzes piscando. Objetos, animais e pessoas sem sombras ou ao contrário, sombras sem a presença do que causá-las. Sons e estalos estranhos e consecutivos em ambientes silenciosos. E tudo aquilo que aos seus olhos, ouvidos e demais sentidos é anormal.

— E quando podemos enxergá-los, como eles são? — Perguntou o jovem príncipe curioso sobre o assunto.

— Verdadeiramente, N’zambi, nós podemos enxergá-los a todo o momento porque eles habitam entre nós. Apenas não sabemos disso e, por não saber, eles são como invisíveis aos nossos olhos de carne. Também muitos deles, por não saber que existimos, não podem nos enxergar. Mas, quando você enxerga eles, então eles te enxergam. Por haver uma conexão perceptiva entre os dois mundos. Eles não têm uma forma definida. Não é que sejam amorfos, mas porque nossa consciência tende a ignorar as coisas que são estranhas ao nosso conhecimento, apagando da nossa visão a existência de outras formas de vidas e realidades.

— Não entendi, Dandara.

— O que você não entendeu?

— Essa última parte que você falou. De que a nossa consciência ignora as coisas que são estranhas ao nosso conhecimento.

— Certa vez dois nativos de uma tribo muito distante se refugiaram em Palmares. E papai os recebeu em nossa casa como hóspedes, eles vieram foragidos das colônias das terras geladas do norte, que os espanhóis invadiram. Eles eram nativos dos povos Tawantinsuyu das grandes e frias montanhas de fogo. Em conversa com o papai, em que eles relataram o período em que os invasores chegaram, eles disseram que os seus antepassados não conseguiam ver as grandes caravelas dos espanhóis, navegando no grande mar em direção à costa. E que só as suas crianças eram quem enxergavam os grandes barcos flutuantes. As crianças gritavam e falavam perguntando para os seus pais e mães o que era aquilo que eles viam no grande mar. E os seus pais e mães, procurando com os seus olhos o que as crianças lhes relataram, não conseguiam ver nada além do horizonte de águas e grandes nuvens. Eles levaram as crianças até os seus líderes espirituais, e os seus sacerdotes lhes disseram que alguns espíritos malignos se apossaram dos corpos deles. Então, os xamãs levaram as crianças das comunidades costeiras para um lugar chamado Cusco, a capital do seu reino. Um lugar que eles diziam ser o “Umbigo do Mundo”. Para serem sacrificadas ao seu deus sol nos seus altos templos de pedra, para que os espíritos malignos fossem embora dos seus reinos. Só quando os espanhóis atracaram os seus grandes barcos e desembarcaram nas praias, foi que os adultos viram e entenderam o que as suas crianças, já então sacrificadas, tanto falavam e se apavoravam. Esses nativos também contaram para o papai que os seus antepassados, quando viram um homem espanhol montando sobre um cavalo pela primeira vez, pensaram que o homem e o cavalo fossem uma coisa só, e por isso tratavam os espanhóis como deuses, filhos do deus sol.

— Então, isso quer dizer que, quando não sabemos que uma coisa existe, mesmo que ela esteja diante dos nossos olhos, ela não existirá?

— Mais ou menos, N’zambi. O mais certo a dizer é que a nossa realidade de um simples ponto de vista cristalizado com a má educação cultural através do tempo transforma-se com a consciência de perceber algo novo a cada momento presente. E isso quer dizer que só existe uma forma de aprender. E essa forma é mudar. Mudando e transformando. Transformando e transmutando. Sem adaptação. Adaptar-se é parar. Parar é cristalizar. Cristalizar é ter um ponto de vista. Ter um ponto de vista é ignorância. Ignorância é a fonte de todo o sofrimento, de toda discórdia e de toda maldade, discriminação e morte.

— Falando dessa forma, você está parecendo até o Djeli. Bem que ele me disse que você era a mulher perfeita.

— Como assim a mulher perfeita?

— Aquela que sabe tudo do mundo e tudo do espírito. Das coisas visíveis aos nossos olhos, como das coisas invisíveis aos nossos olhos.

Dandara, ao ouvir isso, sorriu e disse:

— Oh! Papai, sempre tão irônico. Mas, respondendo a sua pergunta inicial, quando os seres inorgânicos se manifestam a nós, eles têm que assumir uma forma de alguma coisa que podemos perceber. Podendo ser isso um objeto, um animal, uma árvore ou uma pedra, ou até mesmo um ser humano.

— Mas, se eles se manifestam a nós na forma que podemos perceber, como saberemos que são eles que estão interagindo conosco?

— Já te disse, e repito de novo, N’zambi, é a anomalia. Através da observação dos pequenos ou dos grandes detalhes.

— Como assim, Dandara?

— Os seres inorgânicos, em sua maior parte, ao tomar uma forma de alguma coisa que conhecemos, são tão detalhistas, que acabam exagerando em determinada coisa ao ser copiada. É aí que você percebe que tem algo de errado. Já outros são tão péssimos copiadores, que você sente de cara que está faltando alguma coisa. É como um homem que tenta se disfarçar de mulher, tentando ficar exageradamente bela e feminina. Você logo perceberá que é um homem disfarçado, pela demasia dos detalhes de gesticulações, adorno, cabelo e todo aparato feminino de beleza. Por isso, tem pessoas que andam por aí, passam por você nas ruas e até te cumprimentam, mas não são pessoas. Tem animais que não são animais. Coisas e objetos que não são coisas e objetos. Mas, quando você perceber algo de estranho nessas formas, sendo esse estranho algo exagerado ou algo bizarro, ou alguma coisa que está faltando, ou alguma coisa em um lugar errado, tornando-se assim esquisito ou até impossível de estar ali, não ignore esses fatores, pois são eles assumindo sua presença diante dos seus olhos. O engraçado é que, diante de tudo isso, mesmo as pessoas vendo e percebendo que tem alguma coisa de errado, em muita coisa que elas enxergam com os seus olhos de carnes no seu cotidiano, elas dizem para si mesmas: “Que esquisito isso”. Mas depois de um curto tempo, ao virarem os seus rostos para o lado, sempre ignoram as anomalias. Adaptando e adequando aquele fato estranho e esquisito ao normal do seu cotidiano.

Os dois jovens continuaram a sua longa caminhada em direção ao Grande Rio Mundaú, por entre as matas fechadas. N’zambi ia à frente com seu facão na mão, acompanhado dos dois cachorros Kuarahy e Jasy. Cortando tiriricas e urtigas, e tirando alguns pequenos obstáculos do caminho, abrindo uma trilha sob as instruções de Dandara. E não muito se afastaram do local da oferenda, quando Kuarahy e Jasy pararam na frente e começaram a rosnar e a latir. N’zambi e Dandara pararam de caminhar, olharam um para o outro em um tom de espanto. E, ficando em profundo silêncio, se camuflaram por entre os arbustos, com os seus olhos atentos procurando o motivo que fez os cachorros se enfurecerem.

Então, ao longe, N’zambi avistou um menino nativo dos povos habitantes das florestas, caminhando em sua direção. Dandara, sentindo a presença daquele ser, disse para N’zambi cochichando:

— Fique parado e não fale nada.

O jovem parou assustado e, sentido um calafrio por dentro, segurava o seu facão com firmeza, pressentindo o perigo, numa leve sensação de medo. Dandara, percebendo o seu medo, segurou em seu braço e disse:

— Não tenha medo, ele não vai nos fazer nenhum mal. Na verdade, ele está aqui para nos proteger.

Kuarahy e Jasy começaram a uivar e se sentaram silenciando. E o menino nativo passou por entre os cachorros, e logo por Dandara e N’zambi, ignorando-os. N’zambi, percebendo algo de errado, disse:

— Que estranho esse menino nativo, passou pela gente sem nada a dizer como se nem existíssemos.

— Você tem certeza de que viu um menino nativo?

— Sim. Você não viu?

— Não. Eu vi apenas um vulto luminoso passando.

— Como assim um vulto luminoso, Dandara? Era um pequeno nativo dos habitantes das florestas.

— Se você quiser ter certeza do que viu, siga ele. — Disse a jovem moça puxando N’zambi em direção para onde o suposto menino nativo caminhou.

N’zambi e Dandara seguiram o menino às espreitas e viram que ele estava indo em direção às oferendas. N’zambi vendo isso disse:

— Olha, Dandara, esse menino está roubando as nossas oferendas. Espera aí que vou até lá para impedi-lo.

E Dandara, segurando N’zambi pelos braços com força, disse:

— Não faça isso. Se você pensa que ele é um dos nativos, quer dizer que, o que eu acabei de lhe contar entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Observe esse menino com calma, e procure nele alguma coisa de estranho. Porque os meninos nativos não costumam andar tranquilos nas florestas sem a companhia das suas mães.

N’zambi rapidamente recordara das palavras de Dandara a respeito da anomalia. E começou a examinar o menino nativo com toda a sua atenção, mas não conseguia ver nada de errado nele, e disse:

— Não vejo nada de anormal nesse menino.

— Ah! É. — Disse Dandara e continuou. — Olhe para essas pegadas que ele deixou aqui.

N’zambi viu as pegadas, mas não encontrava nada de errado nelas, e disse:

— Não há nada de anormal nessas pegadas aqui. Têm cinco dedos, os dois pés são da mesma proporção. Não consigo ver nada demais.

— Então me diga, meu príncipe inteligente, como ele andou em direção às oferendas, se suas pegadas estão como se ele tivesse caminhando para trás, em nossa direção?

N’zambi, ao reparar nesse detalhe, se estremeceu em si mesmo, e disse:

— Dandara! Como essas pegadas podem estar ao contrário?

E, olhando para o menino nativo e reparando nos seus pés, N’zambi perceberá a anomalia. Os seus pés estavam pelo avesso, os calcanhares se encontravam à frente das suas pernas e os dedos dos pés virados para trás. Então, o suposto menino nativo o encarou, e desapareceu na frente dos seus olhos, levando consigo as oferendas que estavam no prato feito da palma de guariroba.

Dandara, ao ver N’zambi atordoado, lhe disse sorrindo:

— Eles gostaram de você, N’zambi. Por isso se fez visível tão rápido. Eles se apresentaram a você na forma de um Kuru’Pira, um espírito das matas que protege os animais dos cruéis caçadores.

— Uau! Se não fosse por você, Dandara, eu nunca saberia que eram eles na forma daquele menino nativo. É incrível como eu não consegui perceber a sua anomalia, mesmo diante dos meus olhos.

— Ele quase te enganou, né! É assim que eles fazem com todos. Eles sabem que ninguém vai reparar nas suas anomalias. E, mesmo que reparem, a sua concepção da realidade ira moldá-las para o normal. Isso é consequência do medo, a consciência molda a percepção para proteção. Porque a consciência não consegue assimilar o que os olhos não podem compreender. E, para evitar esse choque de realidade que você está experimentando agora, a consciência molda a realidade apagando a anomalia dos seus olhos. Se eu não estivesse aqui ou insistisse para lhe fazer ver, você nunca enxergaria a anomalia. Foi isso que aconteceu com os nativos Tawantinsuyu das regiões costeiras, não enxergaram as naus espanholas, pelo fato deles não acreditarem em suas crianças.

— E por que as crianças viram? — Perguntou N’zambi ainda tremendo de pavor.

— Porque as crianças são abertas. E por ainda as suas consciências não estarem moldadas para encarar uma única coisa como realidade. O fato é de que já nascemos livres e abertos, e ao crescermos nos trancafiamos em uma prisão baseada nos moldes de uma sociedade de valores egocentrista e mercantilista.

— In illa hora accesserunt discipuli ad Jesus dicentes quis putas major est in regno cælorum. Et advocans Jesus parvulum statuit eum in medio eorum. Et dixit amen dico vobis nisi conversi fueritis et efficiamini sicut parvuli non intrabitis in regnum cælorum. Quicumque ergo humiliaverit se sicut parvulus iste hic est major in regno cælorum. Et qui susceperit unum parvulum talem in nomine meo me suscipit. Qui autem scandalizaverit unum de pusillis istis qui in me credunt expedit ei ut suspendatur mola asinaria in collo ejus et demergatur in profundum maris.— Disse N’zambi em latim, recitando novamente palavras de Jesus contidas na Bíblia.

— Por isso sempre serei como uma criança, uma eterna criança — Falou Dandara sorrindo.

— Você entende latim? — Perguntou N’zambi surpreso por Dandara compreender o que ele disse.

— O papai me ensinou. Ele me disse que eu tinha que aprender essa língua e estudar a Bíblia para minha proteção. Porque um dia eu precisaria desse conhecimento, caso eu fosse capturada pelos colonos. Agora vamos nos apressar N’zambi, temos que encontrar um local seguro para acampar hoje à noite. Ainda temos que atravessar as matas perigosas nas baixadas, perto das vilas das colônias. E por lá costumam transitar muitos bandeirantes e capitães do mato. Depois temos que subir a serra antes de escurecer.

Dandara, N’zambi e os dois cachorros, Kuarahy e Jasy, seguiram caminhando por entre a mata fechada. Ao passo em que caminhavam, Dandara ia explicando ao jovem príncipe como era a vida dos povos nativos das florestas. Dandara também lhe ensinava a conhecer as árvores e as plantas, e suas propriedades curativas, mágicas e sagradas. Ela lhe ensinava coisas sobre os animais e os insetos perigosos e venenosos, e de como se proteger deles. E quais ervas serviam para se medicar, caso fosse picado ou contaminado pelo seu veneno.

Ela lhe ensinava a conhecer os pássaros pelo seu canto, a conhecer os insetos e os demais animais pelos seus chiados e grasnidos. E lhe falava que na floresta era muito importante prestar atenção nesses sons, para se proteger dos perigos que podiam ameaçar. E lhe ensinava também como se camuflar com galhos, folhas e troncos de árvores para se proteger do campo de visão dos capitães do mato, bandeirantes e jesuítas que costumavam frequentemente andar pelas matas.

N’zambi estava maravilhado com todos aqueles saberes das florestas. Algo de novo, mas muito antigo despertara em seu ser. Sentia-se completamente vivo ao ouvir as canções das matas com os seus muitos e variados sons. Ao ver as suas muitas e variadas cores. Ao sentir os seus muitos e variados cheiros. Tudo o encantava. N’zambi se via livre, em uma liberdade interna de bem-estar, paz e alegria. Sentia-se expandindo em si mesmo, e a felicidade reinara em seu coração. E, quando olhava para a bela moça Dandara e seu sorriso mágico, se viu submerso no incompreensível amor.

A grande mata era o mundo de Dandara, a sua verdadeira casa. Dandara sempre foi uma menina solitária. Porém, solitária na visão dos outros. Ela compreendia muito bem a solidão, e por isso sempre a usava em seu favor como uma forma de proteção e aprendizado. Sabia ela que estar só é estar no meio de todas as coisas. E de tudo ser apenas um simples observador. Mas a verdadeira solidão de Dandara era quando estava no meio das pessoas, que não tinham nada a lhe acrescentar. E, quando Dandara estava só no meio da floresta, se sentia absoluta e completa. Quando criança, Dandara tentara fazer amigas, mas a sua condição de ser uma menina branca em Palmares fazia com que as outras meninas a repudiassem. Sofria muitos maus-tratos, e em muitas vezes voltava para casa chorando. Pelo fato das outras meninas negras puxarem o seu longo cabelo, e lhe falarem que ela fedia a leite coalhado.

Dandara nunca se apaixonara antes, preferia viver longe das pessoas que constantemente estavam entrelaçadas em seus problemas, medos, complexos e discriminações. Andava constantemente pelas matas e nos seus variados ambientes. Adorava a companhia dos animais, das árvores, das plantas, dos insetos, dos pássaros e dos muitos seres invisíveis das floretas. A floresta era o seu verdadeiro lar, e os seus seres eram os seus legítimos irmãos e irmãs.

Entretanto, algo desconhecido em N’zambi despertara certo sentimento nela. Ao lado daquele jovem rapaz curioso e atencioso, Dandara sentia-se compreendida, e livre para falar o que viera à cabeça sem medo de não ser entendida, ou de ser julgada como bruxa e louca. Essa tal liberdade de expressão e tamanha sintonia, ela só sentia com Djeli, o seu papai. E isso a confundia muito, e em certos momentos a deixava temerosa. Tal sentimento era desconhecido para ela, e, com medo que N’zambi pudesse perceber algo de estranho em seu olhar, ela tentava disfarçar os seus olhares de moça apaixonada com vários sorrisos.

A magia que viria unir N’zambi e Dandara era o fato das suas histórias serem muito parecidas, apesar das suas muitas diferenças. Ambos os jovens vivenciaram certas situações drásticas, com muitas perdas e sofrimentos desde crianças. Perderam seus pais muito cedo, e seus mundos foram trocados. Um menino negro descendente de reis africanos congoleses, que foram brutalmente arrancados de sua terra natal e escravizados, vivendo e sendo educado em uma sociedade branca e racista. Uma menina branca descendente dos cristãos-novos criptojudeus portugueses, que foram praticamente discriminados e banidos da sociedade europeia, vivendo e sendo educada em uma sociedade negra, e também racista.

As duas faces diferentes de uma mesma moeda, onde unicamente a solidão lhes servira de refúgio. Viviam num mundo estranho que não lhes pertencia, e, por isso, criaram um mundo novo, mágico e maravilhoso para pertencerem. Um mundo interno onde o bem vencia o mal. Apesar de todas as dores e sofrimentos que presenciavam em seus cotidianos adversos, seus corações por alguma razão incompreensível, de amor que deu origem ao perdão, permaneciam puros e livres de mágoas. Algo constante e que se movimenta, sem nenhuma expressão e sem nome, os protegia e os guiava. Contemplavam as maravilhas do universo e da natureza dentro de si mesmos. As suas vivências carnais eram distintas, mas seus espíritos possuíam a mesma origem. Só havia algo de secreto em comum entre os dois. E esse algo era a porta para todas as maravilhas, sendo o Mistério dos mistérios e o Segredo dos segredos. Aquilo ou aquela coisa que fazia do dois (2) um (1), e do um (1) três (3), e do três (3) cinco (5), e do cinco (5) sete (7), e do sete (7) doze (12), e do doze (12) o infinito vazio, o nada de tudo e o tudo de nada (0).

Ambos não enxergavam o mundo como os outros de suas espécies e culturas em conflito. Não conheciam o dia pelo dia, não conheciam a noite pela noite, não conheciam o quente pelo quente, não conheciam o frio pelo frio, não conheciam o acima pelo acima, não conheciam o abaixo pelo abaixo, não conheciam o grande pelo grande, não conheciam o pequeno pelo pequeno, não conheciam o belo pelo belo, não conheciam o feio pelo feio, não conheciam o bem pelo bem e não conheciam o mal pelo mal.

Sabiam pelo divino que crescia em seus corpos, pela majestade de toda natureza, pela magnitude de todo universo, e pela singularidade e pluralidade de toda vida, que uma coisa gera uma outra coisa por adaptação. E, portanto, que algo completa algo, que algo estabelece algo, que algo inclina algo, que algo realiza algo, que algo ensina algo, que algo movimenta e se transforma em algo. Um pelo outro e o outro por um. Um ao outro e o outro ao um. Um com o outro e o outro com um. Mas que pela liberdade única um não possuía o outro. Apenas juntos se uniam. Apenas juntos se separavam. Apenas juntos se realizavam. Apenas juntos se manifestavam. Apenas juntos se criavam. Apenas juntos se amavam, apenas juntos eram uma coisa só.

Ao passo que o sol se deslocava em direção a sua morada de descanso. N’zambi, Dandara e seus dois cachorros, Kuarahy e Jasy, aprofundavam-se ainda mais nas matas escuras da grande serra. Dandara sabia que essa noite a lua já começara a escurecer, por isso se apressava em caminhar rápido pelas baixadas onde a mata era densa, com o propósito de encontrar um local seguro e mais aberto para passarem a noite. Ao cair da tarde subiram uma grande montanha, e no alto do seu topo encontraram um local semiaberto, com poucas árvores e muitos arbustos. Dessa alta montanha dava para ver ao longe o grande mar. Sendo que aos olhos de Dandara pareceu aquele ser o local ideal e seguro para dormir, e apreciar um lindo céu imensamente estrelado.

No alto daquela formosa montanha, por detrás das outras inúmeras montanhas, encoberta pelas verdes palmeiras de guariroba que predominavam na grande serra, N’zambi deslumbrou um magnífico pôr-do-sol, envolto em um cobertor luminoso de nuvens avermelhadas. Maravilhado diante daquela paisagem parada e silenciosa, o jovem príncipe contemplou aquela cena como a mais bela visão da divindade. Preso àquele paraíso contemplativo, não se sabe se ele perdeu a noção do tempo e do espaço, ou foi o tempo e o espaço que se dissolveram. Mas de uma coisa se sabe, foi ele que se perdeu e se dissolveu numa dádiva que poucos podem perceber, e num sentimento que poucos podem sentir. Até, pelo que se sabe, em todas as línguas não há palavras e nem frases para isso exprimir.

O jovem príncipe olhava aquela paisagem com a mais pura simplicidade. Perplexo como se aquela paisagem e ele fossem uma só. Perplexo como se só paisagem restasse.

Depois que o sol se escondeu rapidamente por detrás dos montes esverdeados. N’zambi repentinamente, como se algo o movesse, virou em um impulso magnético, atraído ao olhar no horizonte do céu e do mar a Grande Estrela, aquela que mais brilha. Ao encarar a Grande Estrela, N’zambi se sentiu observado por Algo Superior. Viu-se abençoado pelo Grande Espírito PAI-MÃE-FILHOS. Ele percebeu que a Grande Estrela sorria para ele e ele sorriu para ela. Apenas Olho a olho, ele com aquela que mais brilha sorriam. De repente o véu caiu, a Grande Face e a pequena face ficaram uma diante da outra. E a luz do Olho Superior penetrou o olho inferior, e a partir dali se lançaram em todas as direções. E o jovem príncipe desmaiou girando em um baile descompassado, acordando segundos depois nos braços de Dandara.

Meio que confuso e ainda sem entender o que lhe sucedera, o jovem príncipe, se levantando dos braços da moça, sentou e disse:

— De repente tudo começou a girar... — E antes que completasse o que queria dizer, a jovem moça foi com a sua mão nos lábios dele, e disse:

— Não fale nada, N’zambi. Deite-se aqui no meu colo. Eu sei muito bem o que te aconteceu. Eu presenciei tudo. O Grande Espírito o arrebatou e dançou em você. Agora sei quem você verdadeiramente é. O filho daquela que mais brilha. Um dos escolhidos da Grande Estrela. Escute muito bem o que eu tenho a lhe dizer. Quando você observava o pôr-do-sol, eu vi o seu espírito elevando-se ao alto. Seu ser estava arrodeado de pequenos pássaros beija-flor de cor violeta como a ametista. De repente, quando você se virou ao olhar a Grande Estrela, eu vi o seu ser evoluir ao mais Alto dos altos. Ficando acima dos colibris. E seu ser se transformou numa pomba branca. Mas, quando você se elevou, um dos colibris foi tombado, e nesse tombo ele caiu ao solo, morto numa poça de sangue.

Dandara fez uma pausa, e lágrimas escorreram dos seus lindos olhos. N’zambi, ainda sem nada entender, paralisado, escutava a jovem moça. E ela agora chorando, empossou um tom de voz mais sério e firme, continuou a dizer-lhe:

— Escute agora, meu príncipe de Palmares, o que essa visão que eu tive significa. Quando você se elevou ao alto, ao nível dos colibris, é porque seu ciclo de vida aqui nesse plano terminou. Os colibris à sua volta representam as suas inúmeras vidas nesse plano, e a cor violeta ametista significa que todas essas vidas foram vividas sabiamente em um progresso perfeito. Mas, porém, envoltas em grandes guerras, sangue, tormento e sofrimento. Pois todos os colibris eram violetas ametistas. E quando você se elevou ao mais Alto dos altos, e se transformou numa pomba branca, um dos colibris foi tombado morto numa poça de sangue ao solo. Isso significa, que para sua evolução e ascendência ao mais Alto dos altos, essa sua vida de agora será sacrificada numa morte violenta, cruel e sangrenta. Terminando de vez com os ciclos de males em sua jornada.

A jovem moça disse essas palavras acariciando o rosto do jovem rapaz. E ambos, com lágrimas em seus olhos, se olhavam profunda e intensamente. Olho no olho sem ao menos pestanejar. A jovem moça Dandara o mirava de cima. Como uma águia que, ao sobrevoar bem alto, olha as grandes montanhas chorando um chiado que ecoa por todo o céu. E o jovem príncipe N’zambi a mirava de baixo, como um lobo que, ao subir em um pequeno penhasco, olha a lua cheia chorando um uivo que ecoa por toda a terra.

Então, veio o momento em que tudo ficou em profundo silêncio. Não o silêncio do poeta ou da poetiza para se tomar um fôlego entre duas palavras recitadas. Não o silêncio melódico entre duas notas musicais. Não o silêncio de confusão ou dúvida entre um ou outro pensamento. Não o silêncio parado do ponteiro do relógio de um segundo para outro.

Só silêncio.

Apenas Silêncio.

Silêncio.

Nesse místico e puro silêncio, ambos os corações sufocados, batendo fortes e acelerados, uma doce poesia começou a recitar. Mesmo que quisessem falar, as palavras lhes faltaram como as últimas flechas de um arco. A língua teve que parar. E o que restou...

Apenas olhos e olhares.

Os olhos de tanto olhar, cansados, se fecharam. Os braços simplesmente se abraçaram. Os lábios sem ter o que falar, inúteis, se tocaram. As suas línguas no primeiro beijo se entrelaçaram e se amaram. E mais nada restou...

Ao amanhecer, o sol percebera que aquela sagrada montanha estava vazia. N’zambi e Dandara, Kuarahy e Jasy já haviam partido bem cedo para o Grande Rio Mundaú. Naquela montanha, no meio dos seus pequenos arbustos, havia uma grande e frondosa árvore de gameleira-branca. Em que juntos, embaixo dela, o jovem rapaz e a jovem moça se conheceram pela união dos seus corpos.

Nesse princípio, ambos se sentiram sufocados por uma presença interna calorosa e latejante. O mundo começara a girar em torno deles como se nada mais existisse. Sendo que eles se dissolveram nessa inexistência, e não mais sabiam quem ou o que giravam. O mundo ao redor, ou eles mesmos. Seus corpos acenderam em chamas e se dissolveram em águas. Ambos se perderam um no outro e não mais sabiam quem eram. Já não existiam mais corpos, e sim corpo. Já não eram mais dois, e sim um. Já não era mais um, e sim o todo em tudo. Já não era o todo em tudo, e sim o nada.

Uma energia intensa. Uma coisa estranha que não pode ser explicada, e mesmo sendo explicada não poderia ser entendida. Uma explosão muito longe da dor e distante do prazer. E se amaram toda noite à vista daquela que mais brilha, em um céu gloriosamente estrelado.

No grande tronco dessa gameleira-branca, N’zambi e Dandara deixaram cravados os seus nomes com um punhal. Assinando um testamento vivo, na compreensão e no entendimento que suas vidas eram uma só, e que sempre se reencontravam nesse mundo como duas almas irmãs.

E nos dias e nas noites que se sucederam, em que eles se encontravam no leito do Grande Rio Mundaú. No momento em que o dia morria para o nascimento da noite. N’zambi e Dandara em seus finais de tarde de amor, apaixonados, observavam o céu imensamente estrelado. E perceberam que a cada noite que entrava, uma luminosa estrela de cor amarelada ia se aproximando cada vez mais da Grande Estrela, aquela que mais brilha. Até que em uma dessas noites, a Estrela Amarelada se fundiu completamente com a Grande Estrela.

Então, obtiveram a compreensão da graça oracular, que sua união estava sendo abençoada pelos “Povos Alados das Estrelas”. E nisso, naquela noite em que as duas grandes e luminosas estrelas se fundiram em um só corpo luminoso, N’zambi e Dandara resolveram se unir ali mesmo, nas margens do Grande Rio, em um matrimônio sagrado. E de mãos dadas entraram nas águas correntes e calmas, que sob o olhar das estrelas trocaram palavras de amor e fidelidade num pacto sagrado de união.

Então, nessa vida de agora e nesse mundo de encontros, desencontros e reencontros. N’zambi e Dandara juraram novamente um amor eterno. Assim como no Princípio dos princípios juraram os seus Primeiros Pais para as suas Primeiras Mães, e as suas Primeiras Mães para os seus Primeiros Pais. 

FIM DO DÉCIMO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).  

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...