O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRLHA

Aqui começa uma história de amor e luta, de esperança e liberdade, de profecias, espiritualidades e crenças messiânicas no período colonial português no Brasil. Esta saga tem palco no Quilombo dos Palmares, entre o atual estado do Pernambuco e Alagoas, onde era a Capitania Hereditária de Pernambuco e nos conta uma história mística de um Preto Velho GRIOT chamado Djeli, um descendente dos antigos contadores de histórias africanos e de N’zambi, um jovem da descendência real do Congo, que futuramente se tornaria um dos maiores heróis negros da história dos africanos escravizados, forçadamente trazidos para o Novo Mundo.

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5. Capítulo 1 - א (ALEPH) O ENVIADO

O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA

א

ALEPH

O ENVIADO

 

O ancião Djeli era da descendência dos antigos povos mandês. Um sábio preto velho africano contador de histórias. Um mestre griot dos povos mandinkas. Respeitado e considerado por todos os povos africanos que foram escravizados e forçadamente trazidos dos diversos reinos da Terra-Mãe África para as terras do Novo Mundo, as Américas.

Djeli era o único guardião ainda vivo da antiga linhagem ancestral, daqueles que fizeram e estabeleceram o Grande Pacto. O único e verdadeiro mantenedor das palavras sagradas. Palavras essas que guardavam as muitas memórias, com os seus muitos ditos e preceitos de sabedorias. Palavras que traziam as lembranças das muitas vivências dos primordiais patriarcas e das primordiais matriarcas da Terra-Mãe África. Sendo Djeli o último griot da sua linhagem, o único que restou em todos os berços da nossa a amada Ama Terra.

O Grande Pacto era chamado pelos antigos de: “O Sagrado e Eterno Contínuo”. Pacto esse feito desde muito tempo atrás pelos antigos anciãos. Os templários antepassados do seu povo negro, os primeiros africanos. O Grande Pacto, que é o Sagrado e Eterno Contínuo, mantinha viva e acesa a chama da linhagem do Saber Ancestral, que é a coroa de sabedoria de Kee’Musoo, que, na língua dos povos mandinkas, etimologicamente quer dizer: “O Esposo e A Esposa” ou “O Amado e A Amada”. Sendo Kee’Musoo um atributo dado pelos antigos povos mandês ao “Grande Espírito Criador de Todas as Coisas Existentes”, que continham os mais velhos povos que no princípio habitavam a nossa amada Ama Terra.

No entanto, quando o domínio do ego, coroado pela mentira e carregando em suas mãos o cetro da ignorância, veio a habitar em nosso reino, convidando a maldade, a brutalidade, a doença, o medo e a fome, trazendo toda desgraça, toda mortandade e toda miséria para conviver no nosso meio,  e, assim, entristecendo e desvirtuando os mais amados de toda criação, os templários antepassados do povo negro, por serem seres justos e puros, se apartaram deste mundo, elevando-se ao mais Alto dos altos e Luminoso dos luminosos, se transformando nos povos alados, que agora moravam nas mais altas e brilhantes estrelas que pululam o nosso imenso céu.

Contudo, teve alguns dentre eles que, por amor e compaixão aos homens, mulheres e crianças, e, também, por amor a toda vida que anda, a toda vida que voa, a toda vida que nada, a toda vida que rasteja, a toda vida que escala, perfura, pula, cresce, floresce e dá frutos, abdicaram-se da sua pureza e divindade para permanecerem neste mundo. Com o intuito de não deixar que a humanidade se esqueça da sua verdadeira origem, linhagem divina e imagem verdadeira da mais pura e perfeita perfeição.

E foram estes últimos que, antes de desencarnarem, estabeleceram o Grande Pacto. Criando assim uma linhagem missionária de guardiões da sabedoria dos primeiros povos. Que nos tempos atuais, devido à colonização dos europeus franceses na Terra-Mãe África, esses contadores de histórias ficaram conhecidos como griot. E assim era Djeli, um preto velho griot. O guardião e mantenedor das muitas histórias, dos muitos saberes e das muitas vivências dos nossos antepassados primordiais. Quem ele chamava carinhosa e respeitosamente de: “Os Nossos Primeiros Pais e As Nossas Primeiras Mães”.

O preto velho griot Djeli vivia já há muito tempo no reino da N’gola N’janga. Muito conhecido como K’ilombo dos Palmares pelos colonos portugueses. Em verdade, Djeli foi um dos grandes líderes fundadores desse reino africano no Novo Mundo. Djeli preferia viver fora dos kraais do K’ilombo. Não porque menosprezava a vida em comunidade. Mas, assim como todo homem sábio pleno em si mesmo, valoriza a sua privacidade. O preto velho resolveu morar sossegado, meditando dia após dia na tranquilidade do silêncio em sua paz.

Um kraal é uma espécie de bairro ou condomínio fechado, cercado por troncos grossos de madeiras e com apenas uma entrada protegida por uma grande porteira, em que se organizavam as comunidades africanas no K’ilombo dos Palmares. Possuindo moradias, escolas, espaços físicos comunais, locais de trabalhos, viveiros de animais, olarias e ateliês produtivos.

O preto velho griot Djeli vivia em uma modesta casa com cinco kubatas arredondadas e unidas entre si. Uma kubata pode ser um cômodo de uma casa, ou pequenas casas de apenas um cômodo. Essas pequenas casas, na sua maioria, podiam ser quadradas ou arredondadas sem janelas, com apenas uma porta aberta protegida por uma pequena fogueira. Além dessa pequena fogueira servir para proteger a entrada da kubata de certos animais nocivos da floresta, como cobras e insetos, servia também para iluminar o seu interior. Para aquecer os seus habitantes nas noites frias. E para fazer café, mingaus e chás. E também acender seus charutos e cachimbos.

Essa casa, com suas cinco kubatas unidas, mais parecia um pequeno castelo. Que Djeli próprio construíra com o labor do seu suor no alto de um monte. Feita em parte de adobe e em outra parte de pau-a-pique. Ambas as técnicas de construção africana, manejadas pelos k’ilombolas, os guerreiros e as guerreiras da floresta, para as construções de suas habitações.

A técnica de construção de adobe consiste na preparação de tijolos feita em solo argiloso. Em que se faz um buraco perto do local da obra, onde há solo apropriado, colocando-se água. Depois, amassa-se o barro com os pés até sentir que tem boa liga. O barro é posto em fôrmas feitas de madeiras, com as dimensões de dois palmos de comprimento, um palmo de largura e um pouco menos de um palmo de altura. Sendo que um palmo é a medida que se obtém com a mão toda aberta. Compreendendo a parte superior do dedo de vênus, o polegar. Até a parte superior do dedo de mercúrio, o dedo mínimo. A fôrma é molhada antes de se colocar a argila. Depois, realiza-se um processo de secura por dez dias, virando-a a cada dois dias.

As construções feitas com esses tijolos eram extremamente resistentes. E tornavam o interior das kubatas fresco, suportando muito bem as altas temperaturas. Nos tempos de clima quente e seco, na serra que abrigava o K’ilombo dos Palmares, o calor ficava muito intenso durante o dia e havia sensíveis quedas de temperatura à noite. A inércia térmica garantida pelo adobe minimizava esta variação no interior das kubatas. As construções de adobe eram executadas sobre fundações feitas de pedras. Que, normalmente, eram colocadas cerca de mais ou menos três palmos acima do solo, para evitar o contato com a umidade ascendente. E possíveis infiltrações, que degradariam o adobe. Da mesma forma, era importante a construção de coberturas com as palhas das palmeiras de guarirobas. Formando, assim, beirais. A fim de proteger as paredes das kubatas das águas da chuva. Essas paredes eram revestidas com um reboco de barro e calcário para maior durabilidade.

Já a técnica de construção de pau-a-pique, conhecida também como taipa de mão, era feita com longas e finas varas de madeiras de biriba, entrelaçadas horizontalmente em outras muitas varas verticalmente fixas ao solo. E todas essas varas amarradas com cordas feitas das cascas das próprias varas de biriba que foram utilizadas nesse entrelaçamento. Formando, assim, um grande painel perfurado com vãos quadriculados. Após esses vãos quadriculados serem preenchidos com uma massa feita de barro pisado, junto às palhas secas das palmeiras de guariroba desfiadas a mão, transformavam-se em resistentes paredes, com um acabamento de barro vermelho-amarronzado. O teto dessa casa, como também das outras inúmeras kubatas dos kraais dos mokambos do K’ilombo dos Palmares, era feito do ajuntamento de muitas hastes das folhas das palmeiras de guariroba, que cercavam toda aquela região.

Um mokambo é uma espécie de assentamento dos refugiados africanos com fronteiras ideológicas e culturais. Possuindo um líder administrador e comportando muitos kraais. Foi através da união dessas chefarias de refugiados chamadas mokambos, que se ergueu e se constituiu o K’ilombo dos Palmares.

O K’ilombo é muito mais do que um simples assentamento de rebeldes e refugiados. É um estado libertário e uma divisão militar administrada pela união dos povos oprimidos e suas causas. Sendo, entretanto, um reino constituído por homens guerreiros e por mulheres guerreiras que lutam bravamente pelos seus direitos naturais de liberdade e livre-arbítrio. Ou seja, ter a possibilidade de decidir, opinar e escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo e causa que determine toda ou qualquer situação adversa. Por esses importantíssimos e nobres motivos libertários, o K’ilombo se constituiu como um forte acampamento guerreiro e militar na floresta, em que se organizavam socialmente, ideologicamente e militarmente os africanos escravizados, que se rebelavam contra o sistema escravagista dos povos europeus. Tanto na Terra-Mãe África, como no Novo Mundo das Américas.

Já o K’ilombo dos Palmares em especial era um Estado Africano emancipacionista e miscigenado no Novo Mundo. Que estabelecia uma fronteira social, cultural e militar contra o sistema colonial europeu, que oprimia os povos nativos e negros escravizados. E se constituía numa unidade rebelde militar permanente e organizada. Sendo o centro operacional da liberdade e igualdade de direitos e deveres. Um refúgio dos negros escravizados e “Estado Guerreiro Libertário”, comandado por um rei, o M’wene K’ilombo, e por um parlamento de líderes da Ordem K’ilombola, os Mazômbos.

A serra que abrigava o K’ilombo dos Palmares na Capitania Hereditária de Pernambuco, subdivisão do Estado do Brasil, colônia do Reino de Portugal no Novo Mundo, era toda encoberta por uma palmeira solitária de nome guariroba. Essa valorosa palmeira representava um forte ganho socioeconômico para os k’ilombolas. Pois dela extraíam o vinho de palma conhecido como ma’lávu, o vinagre, cataplasmas e os unguentos medicinais, a farinha conhecida como em’bá, o sabão, as estacas e as palhas para as construções, as fibras para os tecidos e as cordas. Seu fruto, um coco verde-amarelado e liso, de duas a três polegadas de comprimento, é conhecido como catolé. Servia, junto ao palmito retirado do estipe das folhas, para alimentação dos k’ilombolas e dos seus animais. Sendo que uma polegada, como o próprio nome indica, deriva da largura do dedo polegar da mão humana na base da unha.

A palmeira de guariroba pode chegar de cinco a vinte varas de altura, de modo que uma vara compreende cinco palmos. Tendo um tronco superficialmente anelado e acinzentado, pode medir de um palmo a um palmo e meio em seu diâmetro. Os guerreiros e as guerreiras do K’ilombo utilizavam desse forte e grosso tronco para as construções de suas fortificações, barricadas e trincheiras. Daí o porquê daquele refúgio e assentamento militar dos negros guerreiros na floresta ser chamado popularmente pelos colonos portugueses espanhóis e holandeses de Palmares.

O ancião Djeli possuía uma grande roça nas baixadas inclinadas do monte onde morava. Em que cultivava feijão, milho, amendoim, café, tabaco, cacau, aipim, mandioca, cânhamo, entre outras muitas leguminosas e hortaliças. Além, também, de ter plantado um grande pomar com inúmeras árvores frutíferas e possuir muitos animais e viveiros.

Todos os finais de tardes em cima de um alto monte. O preto velho griot gostava de se sentar numa grande pedra, acompanhado do seu M’bolumbumba. Um instrumento musical ancestral do antigo Kongo. Pelo qual, com o passar do tempo, teve origem o berimbau. Para Djeli, que agora vivia nas terras do Novo Mundo, envolto a muitos perigos entre ataques e guerrilhas, o M’bolumbumba, enquanto instrumento, foi uma opção mais simples e versátil do que a harpa africana dos povos mandinkas, a Kora. Que estava familiarizado a tocar, enquanto contava suas sagradas histórias ancestrais. Pois a Kora, além de ser grande e pesada, era de difícil confecção e locomoção. Contendo vinte e uma cordas apoiadas em um grande pescoço de madeira e uma grande cabaça encourada com pele de boi, para dar a ressonância.

Já o M’bolumbumba era leve e de simples confecção. Contendo apenas uma haste de pau, uma pequena cabaça e uma corda. Sendo o M’bolumbumba de fácil manuseio, podia ser carregado ao correr pelas matas na hora da fuga, e do perigo constante das invasões dos colonos europeus que ameaçavam os k’ilombolas. Além, também, de servir como arma, pois muitos dos seus possuidores cravavam uma farpa de pedra ou lâmina afiada na ponta de sua haste.

O preto velho Djeli costumava sempre trazer pendurado no canto dos seus lábios o seu cachimbo. Que era feito da casca dura do coco catolé, unida a um pequeno canudo de bambu, ou a uma pequena haste de madeira fina perfurada. E fixava seu olhar no vasto horizonte repleto das grandes árvores, em meio às solitárias palmeiras de guariroba, em direção ao pôr-do-sol.

O povo do k’ilombo sempre gostava de ouvir as histórias do ancião Djeli. Em que trazia as recordações da Terra-Mãe África. E, assim, podiam saciar as suas sedes de saudades, revivendo os contos e as lendas dos seus antepassados. E, em todos os finais de tardes, os k’ilombolas se aprontavam para subir o alto monte, levando consigo as suas crianças.

Ali, sentado numa grande pedra com o seu M’bolumbumba na mão direita, segurando como se fosse um cajado. E seu cachimbo na mão esquerda, levando-o sempre à boca, em que dava várias pitadas. Estava o preto velho em plena paz de espírito. E todos que o fitavam podiam sentir essa paz. Seu rosto negro reluzia de serenidade iluminado pelos raios solares. E seus olhos, brancos como as nuvens do céu, transmitiam uma profunda força como o próprio sol em seu esplendor. Então, todos os k’ilombolas com as suas crianças se sentavam ao redor da grande pedra onde o ancião se encontrava, para beber das águas de sabedoria que proviam de suas palavras. E como era doce e confortante a voz que saía de sua boca. Assim, as crianças corriam, e eram as primeiras a se sentarem aos seus pés. E os jovens e os adultos iam cada qual se sentando e acomodando-se por detrás das criancinhas.

O velho griot ancião, ao ver o povo sentado ao seu redor, pegava o seu M’bolumbumba, levava à barriga e começava a tocar. E o som do seu instrumento ecoava pela floresta e na cabeça de cada pessoa que se encontrava ali presente. Todos se maravilhavam com o toque daquele instrumento e a beleza de sua música. Criando, assim, um clima de magia e nostalgia a todos que ouviam. E o velho Djeli contava uma história cantada. E todos ficavam em grande silêncio e prestavam muita atenção a cada som que emanava da sua boca. E dessa maneira contava o preto velho griot Djeli:

— No tempo dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães, toda vida na nossa amada Ama Terra estava iluminada e devidamente equilibrada e unificada. E toda humanidade era um só povo. Uma só raça. Uma só cor. Uma só nação. Um só pensamento. Um só sentimento. Uma só expressão. Uma só língua. Um só amor. E havia uma só terra que formava um único e grande continente. E nessa terra havia um único e só rei, Kee’Musoo: “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”...

Nesse tempo, Kee’Musoo. A grande e maravilhosa Essência que habita em todos e em tudo. O grande Criador de todo o universo e de toda a natureza, onde toda a vida caminha, vive e respira. O Maravilhoso dos maravilhosos. O mais Belo dos belos que dá cor, cheiro e embeleza toda a vida. Aquele que é Rei dos reis e o Senhor dos senhores, e o maior Amor de todos os amores. Aquele que é a Fonte. Aquele que é Raiz. Aquele Luminoso que é a matriz da luz, do cheiro, do som e de todo o sentir, da visão, da inteligência e de todo o entendimento. Essa magna Energia Vivificante que movimenta, sustenta e faz existir todas as coisas pela sua imensa sabedoria. Sempre habitava e sempre imperava nas cabeças e nos corações dos homens e das mulheres...

Sendo Kee’Musoo o maravilhoso e Amado Esposo para as mulheres e a bondosa e Amada Esposa para os homens. E, assim, os homens e as mulheres viviam em eterna comunhão de amor com o seu Criador...

Kee’Musoo, “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”, era ação, e não palavras. Era harmonia, e não esforço. Era caridade, e não sacrifícios. Era a fonte da fé e de todo amor dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães...

“Aquele que Criou o Todo e o Tudo” nunca os corrigia. Pois a venda da ignorância do orgulho e de todo egoísmo humano ainda não existia nos olhos dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães. Dessa forma, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães tornavam a luz “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” útil. Dentro, entre e fora dos seus corpos. Emanavam apenas sentimentos bons, positivos e amorosos. Fazendo-se um só com “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”. E caminhavam como reis e rainhas em meio a todas as outras criaturas, em todas as formas, em toda existência individual, como em toda a comunidade e em toda Luz...

Não procuravam compreender o porquê de todas as coisas: Quem eram? O que eram? De onde vieram? E todas essas perguntas que sufocam a nossa consciência. E nem pensavam em questionar ou ir contra as leis naturais e universais de toda a vida. Apenas viviam o que eram...

A mais perfeita de todas as criações “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”...

Os corações dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães pulsavam em ressonância com o coração da Vida Infinita, através dos rufares dos seus tambores. Nos seus rituais sagrados, os seus espíritos eram arrebatados pela canção das estrelas, que os faziam dançarem em círculo por toda a noite, ao redor de uma grande fogueira, com labaredas ardentes azuladas, amareladas e avermelhadas. Dançavam imitando os movimentos dos astros ao redor do fogo, que representava o sol. Dançavam imitando as nuvens que caminhavam ofuscando o brilho da lua e dos outros inúmeros corpos celestiais que animavam e iluminavam o escuro do céu...

Em seus rituais sagrados celebravam a magia da vida conservando a Criança Interior, dançando em volta da Fogueira da Alegria. Fazendo a Magia do Sorriso florescer em seus corações...

Dentro dos seus peitos as vozes de todo o universo e toda a natureza faziam a Magia da Canção acontecer. E dessa forma o povo alado do imenso céu ensinava-lhes a arte de ver o que hoje é oculto aos nossos olhos de carne...

Através dos seus trabalhos ritualísticos e das suas manifestações culturais circulares, a Magia do Amor se manifestava nos seus corpos. Por terem a humildade de fincar os seus pés descalços no chão e olhar para as alturas e para as bordas do horizonte infinito, obtendo a dignidade de compreender que emanação “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”, eles e elas eram...

Para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães, o Amor era o solo fértil onde cresciam todas as suas ações. A alma da nossa amada Ama Terra, iluminada pelo nosso amado Padrasto Sol e pela nossa amada Madrasta Lua pulsava em seus corpos, sentindo a sabedoria do Sagrado e Eterno Contínuo que existe em todos e em tudo. Dessa maneira, a superficialidade das aparências que existe no mundo hoje não os iludia. Não impedindo em seus crescimentos como manifestações da mais pura e perfeita perfeição...

Ouviam a Canção da Criação que se renova de tempos em tempos. E que pelo movimento perfeito da sua dança a tudo faz crescer e embeleza...

Nesse tempo em que a nossa amada Ama Terra era unida, formando uma grande e elevada montanha plana, no meio de um grande e único oceano de águas reluzentes, que estava envolto e contido por imensos paredões de gelos, como se o nosso mundo fosse o olho único de um gigante ciclope universal, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães conheciam que “Aquele que Criou o Todo e o Tudo” dançava em todas as coisas, e falava através de todo movimento que se podia ver, ouvir, cheirar, sentir e perceber. Pois os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver, ouvir, cheirar e sentir com o coração. Pelo coração entendiam o Movimento Sagrado que impulsiona a circulação de todas as coisas...

Conheciam Aquele que Criou o Todo e o Tudo nos seus próprios corpos e nas três manifestações primárias da vida, que pela verdade entendiam ser uma só. O ÚNICO CRIADOR, TODA A CRIAÇÃO E AS VARIADAS CRIATURAS. Que de geração em geração se manifestava em nossa natureza como: Pai “CRIADOR”, mãe “CRIAÇÃO” e filhos “CRIATURAS”. E, assim, reconheciam a maravilhosa presença e vida “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” neles mesmos, nelas mesmas e nos seus filhos...

Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam a vida em toda sua totalidade. Tinham o entendimento oculto de reconhecer que vivíamos em um corpo. Sabiam que esse corpo era a nossa primeira casa. E que essa casa deveria ser tratada como um Templo Sagrado de Pureza Sublime da Morada da Alma e Manifestação da Vida. E que éramos, entretanto, seres bipartidos e, por consequência, seres sexualizados. Assim, compreendiam o conhecimento oculto que há por detrás de nossa sexualidade, servindo como um veículo para honrar e respeitar a vida de todos os seres, através da união sexual dos corpos bipartidos. Fazendo do “Dois (2) Um (1), e do Um (1) Três (3)” na chegada dos novos seres. Aí está o segredo do Sagrado e Eterno Contínuo de Toda Criação, manifestado nas formações das criaturas...

Isso particularmente eu chamo de O PODER DAS PIRÂMIDES.

Pois, naquele tempo, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães louvavam a Grande e Perfeita Criação. Provinda da união amorosa do Grande e Majestoso Universo Magnífico “Kee, O Esposo”, com a Grande e Majestosa Natureza Maravilhosa “Musoo, A Esposa”, representados nos seus corpos como o MACHO e a FÊMEA...

Este era o momento mais sagrado para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães. Pois compreendiam perfeitamente que, pela união dessas manifestações, manifestava-se O NOVO. Assim, o ato sexual era o que havia de mais sagrado, e só podia ser vivenciado num imenso ritual de amor e dança sob a luz da lua nova. E unicamente se aprofundavam nesse prazer só para gerar uma nova existência. Nesse momento, eles e elas compreendiam o poder em que o Dois (2) se faz Um (1). Pelo nascimento de uma nova vida no mundo, provinda pela união dos seus corpos...

Assim, pela manifestação e popularização da vida, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães entendiam que vivíamos em um mundo de relacionamentos, contatos e sentimentos com nossos semelhantes e outras criaturas animadas e inanimadas. E éramos, entretanto, seres sociais. E que cada contato nos oferta presentes e surpresas, e cada relacionamento nos oferece inúmeras alegrias e oportunidades de seguirmos AS VIAS DO CONHECIMENTO. Dando e recebendo de bom grado. Aprendendo e depois ensinando. Sabendo respeitar o momento em que todas as coisas se encaixam. E de que tudo tem o seu tempo, lugar, coração e inteligência certa...

Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que todos nós participamos direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente das estruturas que nos governam, e de que somos seres poderosos e politizados em virtude dessa participação. Sabiam, dessa forma, que nossa vida sempre permite contribuir para a criação de estatutos, leis e estruturas que respeitem a dignidade e o espírito de todos os seres...

A ninguém adulavam, bajulavam ou prestavam homenagens, nem davam poder aos homens e às mulheres que hoje julgamos ser grandes e poderosos. Nem ninguém classificava ou distinguia os homens e as mulheres por suas notáveis habilidades, cargos, posições hierárquicas ou acúmulos de posses. Pois todos observavam os dons e os talentos em si e no outro. Sabendo que cada existência individualizada é única. Trazendo em si mesma sua sabedoria individual, pelo seu pessoal ponto de vista do universo e da natureza, que contém um mistério envolto em um segredo oculto que só esse ser individualizado pode conceber...

E, por isso, seus trabalhos se baseavam em aprimorar as suas faculdades inatas, como Portadores da Luz em diversas faces, em adoração e obediência ao Criador de Todas as Coisas Existentes. Sendo cada homem e cada mulher ponte para o outro homem e para a outra mulher na diversidade dos seus dotes, talentos e conhecimentos. Formando uma natural cadeia comunitária de autoajuda, suficiência e sustentabilidade solidária...

Os sacerdotes e governantes eram como as grandes montanhas e vulcões. E o povo era como as grandes árvores, e os outros seres como as pequenas plantas e arbustos em meio a uma imensa biodiversidade florestal. Dando sua sombra, água dos páramos, adubos, alimentos e proteção, para suprir as necessidades do ciclo de toda vida da natureza, em troca e comunhão contínua...

Todos eram honestos, bondosos, fiéis e justos sem se darem conta de que estavam sendo o que verdadeiramente deviam ser. Naturalmente amavam-se uns aos outros. Mas não se classificavam bons, ou se qualificavam generosos, ou compreendiam e valorizavam por meio de doutrinas e dogmas o significado do amor ao semelhante e ao seu próximo...

A ninguém enganavam, usurpavam ou tiravam proveitos de nenhuma situação adversa, tiranicamente em intrigas e mentiras. Mas nenhum deles sabia o que era ser sincero e o que era ser honesto...

Eram fiéis ao seu rei, à natureza e ao universo, ao equilíbrio, ao seu Deus: “O AMADO e A AMADA”. Quem chamavam de: “PAI-MÃE DE TODA CRIAÇÃO”, “GRANDE E PODEROSO ESPÍRITO”, ou simplesmente “AQUELE QUE CRIOU O TODO E O TUDO”. Mas desconheciam ser esse entendimento a verdadeira fé e verdade...

Viviam todos juntos em plena liberdade, dando e recebendo em comunhão contínua. Mas não sabiam o que era gentileza, o que era generosidade e o que era liberdade...

Assim, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam essas simples, porém grandes, coisas. Respeitavam a Natureza como sua mãe, o Universo como seu pai e todas as Coisas Vivas como irmãos...

Cuidando deles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sabiam que estavam cuidando de si mesmos...

Dando a eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que estavam dando a si mesmos...

Ficando em paz com eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sentiam em seus corações que estavam sempre em paz consigo mesmos...

Aceitavam a responsabilidade pela energia que ambos manifestavam. Tanto na sua atividade como um integrante das suas comunidades sociais, quanto no Reino Sutil de se conhecerem como parte integrante do Reino Animal. E, quando os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães estavam admirando uma bela flor, pela prática da observação, eles e elas não viam apenas um acontecimento isolado. Mas raízes, folhas, galhos, caule, água, solo, minúsculos seres da terra, vento e sol, estrelas, lua e o todo do cosmos. Cada um deles se relacionando com os demais, e as pétalas aflorando dessa bela relação...

E, olhando para Si mesmos ou para as outras pessoas, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver a mesma coisa. Grandes árvores e pequenos insetos. Complexos seres humanos e a simplicidade da beleza das flores. Pássaros voando no firmamento e animais rastejando no solo. Sol escaldante e lua deslumbrante. Astros luminosos, planetas errantes, estrelas cintilantes, águas correntes e um minúsculo grão de areia parado no chão. E em sua superioridade como imagem e semelhança da Fonte Criadora, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam que suas próprias energias tinham parte nisso...

Em seus pensamentos não havia a separação das coisas, e nem havia as variadas fragmentações do saber de cada coisa. Tudo e todos eram um só, em perfeito movimento contínuo do existir...

Não contavam as horas do dia, nem contavam os dias, nem tampouco os meses e os anos. Apenas viviam de acordo com os ciclos da Majestosa Natureza Maravilhosa, em plena comunhão com o Magnífico Universo Absoluto...

Naquele tempo os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães não dividiam o dia como hoje fazemos. Não havia manhãs, tardes ou noites. Mas percebiam o movimento do dia como o ciclo da vida de todas as coisas existentes. Início, trajetória e fim. Luz e trevas, trevas e luz. E no movimento do dia percebiam a dança de todas as coisas existentes em evolução contínua, e em diversas situações de ganho e perda, vida e morte. E nas mudanças das estações podiam compreender a totalidade dos ciclos de suas vidas...

Primavera, verão, outono e inverno...

Nascimento, juventude, maturidade e velhice...

O início e o fim, o fim e o início...

Não possuíam a linguagem escrita. Não por ignorância ou por serem julgados como povos primitivos. Mas porque em seus pensamentos não existia o esquecimento do Saber do Sagrado e Eterno Contínuo, que manifestava na nossa amada Ama Terra o Entendimento Ancestral. Pois, de geração em geração, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães guardavam as palavras dos antepassados dentro deles e dentro delas, desde muito tempo. E continuavam a passar para os seus descendentes, AS CRIANÇAS. As quais nossos Primeiros Pais e nossas Primeiras Mães compreendiam que seriam os herdeiros da vida e guardiães do mundo, manifestando O NOVO...

Em suas linguagens não existiam palavras que denominassem toda e qualquer forma egocentrista. Não existia eu... seu... ou meu... só havia NOSSO. E não existia nenhuma palavra ou expressão que justificasse falsidades, infelicidades, discórdias, avarezas ou mentiras. E assim os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães valorizavam as suas palavras como o Alimento Sagrado da Alma. E através de suas palavras de puro e pleno poder transmitiam a visão e conhecimento do não tempo, das estrelas e dos astros, das coisas, dos animais, das plantas, de todo o Universo e de toda a Natureza, do SER e do Espírito a cada um...

Assim, o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo nunca morria, e os pais de seus pais e as mães de suas mães sempre se faziam eternamente vivos em seus corpos por indefinidas gerações. Pois sabiam que o novo é a continuação do velho. E, assim, velho e novo não existiam. Era o fim e o começo do ciclo da roda girante do Sagrado e Eterno Contínuo...

Hoje, com a quebra do Sagrado e Eterno Contínuo, e por desvalorizarem as histórias e banalizarem as palavras de sabedoria dos templários antepassados ancestrais, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães morreram nos novos corpos. E o Saber Ancestral, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, pela ignorância se extinguiu. Por esses motivos, seus feitos por muito tempo até os dias de hoje nunca foram narrados. E, como consequência, o esquecimento do Sagrado e Eterno Contínuo se tornou o conhecimento dos povos. E a sede do Espírito se tornou a decadência dos novos...

E os novos seres de hoje seguirão tentando inutilmente inventar mais cores, mais sabores, mais odores, mais luzes, mais deuses, mais líderes, mais ídolos, mais verdades, mais religiões e mais ciências. E inúmeros mais objetos e mais utensílios, sendo que caminharão e cambalearão de lugar em lugar procurando inutilmente o que é de mais sagrado para tentarem matar essa sede insaciável do espírito. Que nos torna cada vez mais ignorantes e distantes da vida, da natureza e do universo, da verdade, do saber e do “Criador de Todas as Coisas Existentes”...

E o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, se extinguiu. E dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães...

 

Fez-se uma breve pausa. E o ancião Djeli com os olhos mergulhados no vasto horizonte verde. Onde as inúmeras palmeiras de guarirobas bailavam ao movimento suave e dançante dos ventos marítimos. Exclamou com um tom forte e firme de voz, balançando a cabeça para um lado e para o outro:

— Não nos restaram mais lembranças!

O velho Djeli continuou a tocar o seu instrumento até a morte do sol. E os k’ilombolas, perplexos, maravilhados, confusos e saciados de conhecimento, aos poucos voltavam para os seus kraais e as suas kubatas.

Entre os ouvintes havia um jovem da família real do K’ilombo, que permaneceu junto ao preto velho Djeli, enquanto todos partiram. Ele ficou encantado com os contos dos antepassados, sentia-se plenamente vivo diante de tamanha sabedoria e desejou permanecer ali à noite na companhia do velho griot. Seu nome era N’zambi, filho da Princesa Sabina e sobrinho do Grande Rei do K’ilombo, N’ganga N’zumba. Ambos os filhos da Grande Mãe dos k’ilombolas, a rainha Akualtune, descendente dos reis e rainhas do Kongo antigo, os M’wene Kongo.

O velho griot o conhecia muito bem, pois o viu nascer, e também sabia de toda sua trajetória de vida. Pois N’zambi era o filho daquela que mais brilha. A grande Estrela do Pastor, que precedia o nascimento de todos os grandes homens e reis, que ao seu tempo fariam grandes obras para humanidade. Assim, o velho Djeli ficou maravilhado por dentro com sua presença, mas não deixou que o jovem notasse. Porque muitos haviam crido que N’zambi tinha morrido, depois que foi capturado em uma expedição portuguesa aos seis anos de idade. Em uma batalha com os k’ilombolas que perdurou por quinze dias, em que também falecera seu pai e sua mãe em um grande incêndio.

Djeli sabia que, se N’zambi realmente fosse o filho daquela que mais brilha, ele retornaria ao seu povo e o lideraria contra os seus opressores. Por isso ficou surpreso e admirado ao vê-lo tão depressa. Forte e sadio, em bom estado e aparência.

N’zambi permaneceu em pé parado, a cerca de uns oito passos do preto velho griot, e o observava pacientemente, enquanto o ancião ainda tocava seu M’bolumbumba. Ele sabia que o velho Djeli era um homem muito sábio, por ser um ancião nascido na Terra Mãe África, e um dos poucos verdadeiros griots ainda vivos. Além de ter convivido com seus antepassados da família real, ainda no Império do Kongo. Por isso, o jovem estava convencido que aquele preto velho poderia ter as respostas para todas as suas perguntas e incertezas. N’zambi foi procurá-lo no Mokambo de Tabocas a mando do seu tio, o comandante e engenhoso guerreiro Mazômbo, N’ganga N’zona. Que o orientou que esse velho era um vidente dos antigos, e de tudo sabia.

O Sol já desaparecera por detrás das palmeiras de Guariroba, acompanhado de um céu avermelhado com tons amarelados e ofuscantes. E o preto velho Djeli, ao se virar em direção ao jovem príncipe, viu por detrás dele, ao horizonte, a grande Estrela do Pastor levantada no imenso céu acinzentado do final de tarde. E o que mais chamou sua atenção foi o fato da Grande Estrela de todas as tardes e manhãs estar de um brilho tão intenso como nunca vira antes. Assim, Djeli teve a confirmação oracular de que verdadeiramente N’zambi era o filho daquela que mais brilha.

Djeli, com os seus olhos fixos na Grande Estrela, se aproximou lentamente do jovem, ficando ao seu lado, e disse:

— Repara na moringa que quebra se esvaziando das suas águas. No galho que cai e no barulho que faz, ao se romper da árvore frondosa. Na flor que murcha, e no baile do cair suave e silencioso de suas pétalas. No vento que arrasta a poeira no olhar de quem anda na estrada de barro. Nas folhas que rodopiam nos caminhos dos vilarejos, arrastadas pelo vácuo do cavaleiro veloz. No mato que cresce nas brechas das construções de pedras. Na topada que se leva ao caminhar distraído, e na dor aguda do bater do cotovelo. Nas orelhas amassadas das páginas dos livros e nas pingueiras do telhado da casa, quando cai a chuva forte. No simples broto que cresce no pedaço de pau que serviu como estaca. Veja, meu jovem! As coisas conversam falando conosco constantemente. Nos alertando, nos ensinando e nos confirmando toda a verdade do Sagrado e Eterno Contínuo, que se encontra agora oculto aos olhos inocentes. Pois as mensagens do Grande Espírito Criador vêm a nós na maneira e na forma mais simples e singela que podemos conceber e conhecer. Eis aí a importância de estar atento a tudo, e a todo movimento ao nosso redor, acima e abaixo. Devemos nos manter sempre alerta, com os olhos do espírito despertos, e a cabeça livre de julgamentos prévios. Para ver o que não se pode ver. Ouvir o que não se pode ouvir. Sentir o que não se pode sentir. E cheirar o que não se pode cheirar.

N’zambi, vendo que o velho griot lhe falara olhando para algo por detrás dele com tamanho espanto, virou-se e também olhou para Grande Estrela. E sentiu uma forte sensação de que já tinha visto aquela cena antes, e disse:

— Impressionante! Eu acho que já vivi esse momento antes.

E Djeli lhe disse:

— Sim, meu jovem. A vida no mundo é como uma história contada de traz para frente. Pois o Grande Espírito Criador de Todas as Coisas Existentes, Aquele Algo Poderoso e Vivificante que move em todos e em tudo, assim! Tudo já determinou. Se não fosse assim, não existiriam os videntes e as suas profecias. Afinal! O que é uma profecia senão uma história contada de traz para frente? — Questionou o velho griot, e continuou:

— É por isso que você já viveu isso antes.

O jovem, então, disse:

— Mas, como isso pode ser possível? Se surge um dia após o outro dia, e coisas novas em cada novo dia. E se somos nós que tomamos a decisão e as escolhas do que vamos fazer a cada hora e a cada momento.

E o velho griot disse:

— Aí está a maravilha, e aí está a ilusão. Pensamos que de tudo sabemos e de nada sabemos. Aquele que pensa que move algo está primeiro sendo movido por Algo. Há uma força maior que movimenta todas as coisas. Este é o segredo que revela a paciência. Aí está a sabedoria do leão, o bom caçador não corre atrás da caça, ele fica parado em um lugar camuflado pensando na caça, e só então a caça chega até ele. Se ele corre atrás da caça, a caça correrá dele. Aí está a sabedoria da aranha, que tece sua teia sem se preocupar com o inseto que lhe servirá de alimento. O inseto voa de encontro à teia sem se preocupar que vai servir de alimento. A teia é o atrativo dos propósitos. A aranhazinha, depois de tecer sua teia, apenas somente espera. Deve-se armar a teia e pacientemente esperar. Então, aquele Algo que dança em todos e em tudo fará com que mova na rede do invisível o perfeito movimento de todas as coisas. Você pode compreender isso, N’zambi?

E o jovem exclamou:

— Como você sabe quem eu sou?! Tenho quase um ano que cheguei aqui no K’ilombo. Sendo a primeira vez que saí da Cerca Real dos Macacos, e nunca te vi antes.

E Djeli lhe respondeu:

— Como eu não reconheceria o filho daquela que mais brilha?

N’zambi perguntou:

— Era assim que era chamada minha mãe aqui no K’ilombo?

E o preto velho disse:

— Não falo da sua mãe, a Princesa Sabina, falo dela. — Apontando com o seu M’bolumbumba para a estrela maior que havia no céu totalmente estrelado, e continuou:

— De tempos em tempos, no fim e no início de uma nova era, quando uma geração entra em caos, e o povo desta geração está em grande sofrimento e tamanha ignorância do Sagrado e Eterno Contínuo, surge um homem dotado de toda a força, o Grande Guerreiro que é o filho daquela que mais brilha. Este vem quando uma geração está para ter um fim, vem para renovação e início de uma nova geração. Pois, assim como há o nascer e o morrer de um dia, para dar vida há outro dia. Uma geração tem que morrer, para que surja uma nova geração. Assim são os ciclos de todas as coisas criadas, até que venha o grande fim deste mundo, para que possa surgir um outro mundo. Primeiro as coisas acontecem no pequeno e por último no grande. E você, meu jovem N’zambi, é um dos filhos daquela que mais brilha. Nesse mundo houve muitos filhos dela, e ainda haverá vários. Até que venha o último Filho que também foi o primeiro. Este último que também foi o primeiro será dotado de toda sabedoria. Um homem capaz de conhecer a existência. O descobridor dos mundos e conhecedor dos homens. Sendo o arquétipo da vida e do universo, chamado de o Grande Arcano, a Perfeição da Essência, denominado o Absoluto! Podendo ser compreendido como a maior Beleza de todas as belezas! O maior Amor de todos os amores! O mais Alto dos altos e o Ser Maravilhosamente Maravilhoso. A forma arquetípica perfeita, contida dentro do Todo e o Absoluto que constitui a Redenção Universal, e a humildade em pessoa. Este vem quando uma geração universal está por ter um fim. Vem para renovação e início de um novo mundo, uma nova era. A Este são dotados poderes especiais, e Este é capaz de fazer a coisa certa na hora certa, e age de conforme a verdade, e todo o universo e toda natureza gira ao seu favor. Suas palavras não são suas. Suas obras não são suas. Nada Ele realiza. Pois Ele é a própria existência e criação corporificados. Quando Este estiver por vir. Inúmeros como você, meu jovem N’zambi, surgem o procedendo, para lhe preparar o caminho. E novas ideias e verdades começam a despertar nos corações da humanidade. Trombetas para anunciar “Aquele que Veio, já É, e Vem”. Pois, quando Este for reconhecido e revelado, todos o conhecerão, e ninguém o poderá resistir. Pois será como uma chave que abre todas as portas. Este, quando for revelado, será vitorioso e conquistador, rei e senhor do mundo inteiro, e de todas as nações e povos. O último dos filhos daquela que mais brilha, porque de certa forma foi o primeiro. E estará à direita dos povos oprimidos, para salvá-los dos que julgam a sua alma, e, subjugará no meio daqueles que são as cabeças das terras populosas, despedaçando governantes e executando julgamento entre as nações no dia da sua força militar, em que o povo se oferecerá voluntariamente, tendo na sua companhia de homens e de mulheres jovens, assim, como as gotas do orvalho. Será o sacerdote do Grande Espírito Criador por tempo indefinido. Se manifestará de uma maneira e forma simples, nada de grandiosamente extraordinário aos olhos, num momento inesperado e não previsto, sem mais profecias, ou astros que o descrevam. Pois este mundo está com os seus dias contados! Não para destruição, e sim para renovação do espírito. Uns para vida de consciência eterna, e outros para uma segunda morte. A morte do espírito-alma, que é o fim eterno da vida existencial. E todos sentirão e reconhecerão o TODO-PODEROSO, a Grande e Poderosa e Atemorizante Energia PAI-MÃE-FILHOS, que permeia por toda partícula e por todo universo, e por toda natureza, e todas as estruturas cairão por terra. Em verdade digo, meu jovem, que Este já nos visitou como um cordeiro e ascendeu uma fogueira no mundo, que agora arde até o seu retorno como um leão. E Este é aquele que o povo da estrela do norte, que fica acima da nossa Terra-Mãe África, o espera. Mas, por agora, meu jovem, aquela Grande Estrela que mais brilha é sua. Você pertence à grande família das estrelas, e o Algo que movimenta em todas as coisas vive em você. E a esperança desse povo oprimido, nessas terras que os homens doentes do coração chamam de Novo Mundo, está em ti, meu jovem. Eis que agora é chegado o fim do ciclo e da era dos reis e rainhas sobre os domínios dos povos da nossa amada Ama Terra. Pois outro tipo de governo muito mais brutal o substituirá, disfarçado pelo direito à liberdade que todos terão de ser um governante. E o domínio dos egos reinará, encoberto pelo manto roto e sujo de uma ignorante democracia.

O preto velho Djeli, possuído pelo Espírito Revelador, depois de pronunciar essas palavras proféticas, encarou o jovem príncipe com firmeza nos olhos e disse:

— Vamos, meu jovem, já é tarde. Essa noite você passará em minha companhia. Creio que você deve estar cansado e com fome, da longa caminhada que trilhou até aqui. Vamos! Comamos e descansemos por hoje, pois você tem uma longa jornada pela frente, que já começou.

Então, o jovem príncipe seguiu acompanhando o preto velho griot até sua casa de taipa e adobe, que ficava no alto de um monte. O preto velho Djeli acendeu os candeeiros que se encontravam nas kubatas da casa e preparou um saboroso café. Cozinhou algumas raízes de aipim, também banana-da-terra e fruta-pão. Deu ao jovem e foi sentar-se numa das redes que ficava na varanda da casa. Em que apreciava o céu estrelado, e o barulho dos animais e insetos da noite.

Depois de comer, o jovem N’zambi foi também deitar-se numa das redes da varanda, e também apreciara o céu. E lá estava a Grande Estrela, aquela que mais brilha. E o jovem se perguntava por que nunca tinha reparado nela, pois ela é a maior e a mais brilhante de todas as estrelas do imenso céu.

N’zambi tinha quase um ano que retornou ao K’ilombo dos Palmares. Depois de nove anos em que fora brutalmente arrancado de lá, pela expedição do colono português Brás da Rocha Cardoso. Expedição essa financiada pelos Lins. A mais poderosa família de colonos e senhores de engenho da Capitania de Pernambuco no Estado do Brasil, colônia administrativa do Reino de Portugal no Novo Mundo das Américas.

N’zambi foi dado de presente pelos Lins a um missionário católico. O Padre Antônio de Melo no povoado de Porto Calvo, aos seis anos de idade. O Padre Antônio batizou o menino negro com o nome de Francisco, pelo fato de tê-lo recebido de presente no dia quatro de outubro. Dia esse em que a Igreja Católica Apostólica Romana comemora a festa de São Francisco de Assis. Aos dez anos de idade o menino Francisco já sabia ler e escrever em português e latim, e ajudava o padre na celebração da missa, onde iniciava a carreira de coroinha. N’zambi vivenciou constantemente na colônia portuguesa o sofrimento do seu povo negro no árduo trabalho escravo, e as severas punições e maus-tratos dados pelos seus possuidores. E de como os portugueses se julgavam superiores, pelo fato de terem a pele branca, e isso o revoltava muito.

N’zambi estava esperando o momento certo de fugir para o K’ilombo dos Palmares. Pois certos escravizados do povoado o conheciam e estavam planejando um modo de como levar o jovem de linhagem nobre de volta ao refúgio dos negros fugidos. A oportunidade surgiu quando veio a notícia de uma ameaça, de uma suposta invasão dos franceses. Nisso, os portugueses locais da Capitania de Pernambuco ficaram ocupados em como defender a sua província. Dando a oportunidade para que vários negros escravizados pegassem o jovem príncipe e fugissem para Palmares.

As várias repressões e humilhações que passou e que viu o seu povo passar nas colônias portuguesas haviam deixado o seu espírito com uma autoestima fraca. E se perguntava como ele haveria de ser um dos filhos daquela que mais brilha, como disse o preto velho griot Djeli. Sendo ele apenas um rapazote de quase dezessete anos de idade. E como poderia defender seu povo do império português, que era imenso e poderoso. E vários pensamentos emaranhavam em sua mente, como o montante das estrelas que havia no imenso céu. E ainda mais perguntas sem respostas começavam a se acumular em sua cabeça. Até que, de tanto pensar, dormiu.

FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO - Esta saga tem vinte e dois capítulos, que são configurados nas vinte e duas letras hebraicas, do א (ALEPH) ao ת (TAV).

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