Bomba Relógio


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1. Bomba Relógio

 

Eric do Vale

 

            Tenho para mim que no período em que estudamos juntos, ele nunca foi com a minha cara; eu também não gostava muito dele e pela mesma razão: o achava um babaca. Portanto, estávamos quites.

            Lembro-me muito bem dele, naquela época, contando vantagem em relação a si próprio. Havia cabimento em fazer aquilo, porque, comumente, ele frequentava as partidas de futebol e as baladas.

Quanto a mim, eu era o oposto: um jovem extremamente complexado; míope, franzino, tímido e dado aos livros. Tais características permitiram-me ser alvo de gozação por boa parte da classe, inclusive dele.

De saída, após a prova, conversávamos sobre um camarada que estudava conosco e que, diga-se de passagem, era um mala sem alça.

-Ele é um otário, assim como o Daniel. _ Disse ele.

Ao ouvir aquilo, questionei:

-Mas vocês não são tão amigos?

-Sim, somos; mas é por falsidade.

Não estava acreditando no que tinha acabado de ouvir. Considerando as inúmeras asneiras que ele costumava dizer, aquilo, para mim, foi a gota d´água!

Pensei em procurar o Daniel e contar-lhe tudo, mas do que adiantaria? Seria a minha palavra contra a dele. Sendo assim, desisti da ideia sem nunca esquecer daquilo que ele me falou.

O tempo passou até que algum conhecido me colocou no grupo de Whatsapp do colégio. Estavam todos lá: ele, o Daniel e eu. Apesar de me sentir desconfortável naquele ambiente, tinha a esperança de que todos tivessem melhorado. Engano meu: volta e meia, os integrantes postavam vídeos e fotos apelativas; principalmente, ele. As conversas então... Sem comentários!

Como não compactuava com nada daquilo eu era tido como o mais sério do grupo. Mesmo assim, procurava interagir com todos falando algo que, ao meu ver, poderia ser interessante e até conseguia obter algum êxito. Vendo as minhas postagens, ele procurava me tirar de tempo fazendo piadinhas muito pesadas até que, um dia, eu o procurei e disse-lhe que estava passando dos limites.

-É assim? _ Alterando a voz.

Ele disse que, a partir daquele dia, me ignoraria e finalizou:

-Ai de você, se vier com brincadeira comigo.

Depois disso, fiz um exame de consciência e conclui que estava sendo muito radical, por isso deixei com que o tempo se encarregasse de tudo.

Cada qual, ao seu modo, continuou fazendo as suas postagens até que, um dia, ele parabenizou um colega nosso sem perder a piada: “Espero que você, atualmente, tenha aprendido a usar cueca...”.  

Minutos depois, encontrei uma mensagem que dizia: “Sabe por que a tartaruga vive mais? Porque ela cuida da própria vida.”. Não só achei interessante, como resolvi compartilhá-la em várias redes sociais, inclusive nesse grupo.

Ele, logo, manifestou-se copiando aquela mensagem e escreveu embaixo dela: “Sabe por que eu não mando alguém a PQP? Sabe por quê?”. Em seguida, desligou-se do grupo.

Todo mundo tentou trazê-lo de volta, mas ele, desde então, tem-se recusado. Além disso, todos se perguntam:  “O que foi que aconteceu?”.  Respondo:

-Eu é que sei?

 

 

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