Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

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22. ¨21¨

 

 

 

❖  

A comida praticamente se derramava pela mesa. A primeira porta que entramos depois do Galpão foi a do Salão das Refeições.

O teto era alto o suficiente para que esquecêssemos que estávamos confinados no subsolo. Apesar de toda a decoração requintada e de bom gosto, não nos arrumaram para o jantar. Ninguém além de nós e nossos Examinadores estariam lá. Não precisávamos mostrar um pingo que fosse de dignidade para ninguém.

Os mais variados tipos de alimentos estavam dispostos sobre a mesa. Massas, grãos, bolos, sucos e refrescos... Os Escolhidos dos vilarejos mais altos não pareciam espantados com nada além da ansiedade que os Escolhidos dos vilarejos mais baixos estavam para pôr as mãos nas comidas.

Eu não poderia negar que o aroma fazia meu estômago apertar de vontade, mas me contive ao colocar apenas a quantidade necessária no meu prato.

Mattia estava sentada na cadeira em frente a minha. Ela não havia comentado nada sobre o que acontecera mais cedo, mas eu não poderia deixar de notar os olhares que ela me lançava de momento em momento. Depois que ela e Conall voltaram para suas camas, discretamente eu enfiei a agulha novamente várias vezes para ver o processo se repetir. A cada vez a dor era diminuída.

Não pensei sobre isso até encontrar seu olhar pela milésima vez na noite. Seu sorriso sincero era o suficiente para me garantir que ela não contaria para ninguém. Nem mesmo para Conall.

—Nunca pensamos que estaríamos aqui juntos comendo provavelmente a refeição mais decente que provaremos em nossas vidas.—Kallien disse baixinho para mim enquanto enchia seu prato pela terceira vez no mínimo.

Por um momento, eu queria até esquecer o lado que ele havia escolhido, esquecer a insinuação de Ranthal e companhia. Fingir que éramos aquelas crianças idiotas e felizes quando uma caça ou uma venda muito boa abençoava nossas casas. Contudo, não estávamos mais em Fortuna, precisávamos escolher nossas posições e estava claro que Kallien havia escolhido um lado. E não era o meu.

Apenas me limitei a encará-lo por alguns segundos sem lhe dar uma resposta. Desejava que ele entendesse o recado.

Entretanto, se ele entendeu não demonstrou e voltou a dar atenção total a sua comida.

Embora não lotasse meu prato, repeti algumas vezes até sentir a saciedade que não sentia há anos. Queria que meu pai estivesse aqui. Queria poder guardar qualquer coisa que fosse para entregá-lo quando saísse dali.

Era um pensamento idiota, e eu nem sabia se sairia dali de fato.

Dormir não é tão difícil quando a escuridão é tudo o que você pode encarar.

Depois de voltar do jantar, fomos avisados que as luzes eram desligadas quando fosse a hora para esperada dormirmos. Eu poderia sentir as diferentes respirações no ambiente. Algumas era calmas, já embaladas pelo sono, algumas eram pesadas, traçando estratégias para os próximos dias. Algumas até mesmo eram entrecortadas, não era surpresa para ninguém que alguns de nós acabaria chorando quando a noite chegasse.

Éramos vinte e dois. Se fôssemos otimistas, no máximo cinco voltariam para casa quase inteiros fisicamente. Nem um pouco inteiros psicologicamente, disso eu tinha certeza.

Um peso fez minha cama balançar e eu me sentei rapidamente. Kallien estava ajoelhado na minha frente.

—O que você está...—não tive tempo de terminar meu sussurro, pois ele tapou minha boca com suas mãos e logo depois com os seus lábios.

No susto, passei os braços por seus ombros como de costume. Quando suas mãos exploraram por debaixo da minha blusa, foi como se um choque me acordasse.

Não estávamos em casa. Muito pelo contrário.

Empurrei Kallien com um pouco mais de força do que pretendia. Ele caiu na outra extremidade da cama sem maiores barulho.

—Corinna...—sua voz era praticamente uma lamúria.

—Você enlouqueceu?— estávamos acostumados a conversar por sussurros, ele não demorou a me entender.

Meu amigo se aproximou novamente, dessa vez com cuidado.

—Eu...você...sinto sua falta.— ele acariciou o meu rosto.—Você está agindo como se eu não existisse. Isso é parte de alguma estratégia?

Eu sorri falsamente, ainda que para o escuro.

—Você quer mesmo me dar lição sobre estratégia, Kallien? Você se juntou a uma aliança que planeja massacrar pessoas. Nossa própria espécie. Em algum momento você pensou em me comunicar sobre a sua decisão ou estava mais interessante contar detalhes sobre nós para aqueles porcos?

Mesmo na ausência de luz, eu tinha certeza que todos os músculos de Kallien estavam firmes e seus punhos cerrados.

—Você sabe que era o certo a fazer, Corinna. Juntar-me a eles não significa que tenho que agir como eles, apenas terei uma segurança maior até entender como vai funcionar o Sacrifício.—sua voz vacilava entre uma palavra e outra.

Balancei a cabeça em negação:

—Nem você acredita nisso, Kallie. É uma pena.— respirei fundo.—Se você puder fazer o favor de voltar para sua cama. Amanhã será um longo dia, de muitos.

Kallien segurou minha mão por poucos segundos, mas, enfim, partiu.

A manhã não demorou a chegar. Entretanto, não foi a luminosidade que me despertara.

Laeni estava sentada na extremidade na cama, chamando pelo meu nome.

—Os chuveiros não são o suficiente para todos e tem uma cota máxima de minutos para o banho quente. Pensei que gostaria de aproveitar a oportunidade. Vai fazer a diferença quando for se arrumar para a Cerimônia de Boas Vindas hoje à noite.— eu ainda piscava repetidas vezes enquanto assimilava suas palavras.—Ansiosa?

—Acho que ainda não estou acordada o suficiente para sentir coisas como ansiedade.— nós rimos um pouco.—Mas obrigada por me chamar, não gosto de tumultos e é bom ter pelo menos alguma vantagem por menor que seja dos meus concorrentes. Não é como se eu fosse a favorita da competição

Laeni deu um tapa de brincadeira em meu pé.

—Ainda.—ela disse levantando-se e indo em direção à porta dos Examinadores.

Não me demorei a sair da cama. As luzes logo acenderiam se eu estivesse certa com a minha estimativa de horário.

O banheiro era de um branco ofuscante, por mais louco que isso pudesse ser e suas luzes acendiam primeiro do que as do resto do Galpão. Incrivelmente, as paredes estavam tão alvas quanto poderiam ser. As cabines só eram particulares para os sanitários que ficavam espalhados em volta do cômodo. Já os poucos chuveiros eram separados por cortinas finíssimas e que por pouco não eram transparentes. Eles se localizavam no centro do lugar.

Tirei minha roupa sem pressa. Apesar de não ter feito absolutamente nada que exigisse algum esforço físico intenso. Minhas costas imploravam para curvarem-se e era como se um peso invisível pairasse sobre minhas costas. Passei por uma das cortinas dos últimos chuveiros. Os pingos mornos começaram a cair lentamente antes de ganhar um ritmo constante e eu não me demorei a colocar meu corpo debaixo deles. Automaticamente, senti cada músculo do meu corpo relaxar e suavizar a tensão.

Você conseguiu. Você é uma Escolhida. Está no Setor Superior. Minha mente dizia para reduzir minha sobrecarga emocional.

Preciso traçar um plano. Entretanto, do que adianta traçar um plano para o que fazer depois do Sacrifício, se a dúvida de que se eu conseguiria chegar até o final crescia a cada instante.

Eu lidaria com pessoas, com vidas, com minha espécie. Ora eu enfrentaria pessoas como Ranthal que tentaria me matar a todo custo em um confronto, ora eu enfrentaria pessoas que já desistiram, que não queriam estar ali, que não teriam mais forças...e eu seria forçada a terminar o trabalho.

Além disso, tinha os eventos estranhos. As materializações, meu corpo que não parava de ultrapassar minhas roupas em altura, machucados que não demoravam a cicatrizar, os sentidos... Esses últimos, eu tinha que ter um esforço extra para controlá-los.

Ficar na Sala de Jantar com aquele tanto de pessoas e barulhos era quase uma missão impossível.

Se eu estivesse em casa, segura, não haveria problemas, mas agora eu estava na terra de meus inimigos, pessoas que não pensariam duas vezes antes de tentar me prejudicar. Se estivesse em casa, meu pai teria um bom conselho para me dar.

Mas eu não poderia recorrer ao meu pai, eu não estava em casa. Ainda não.

A água esfriou quando meu último pedaço de pele saíra do chuveiro.

Recebi olhares sonolentos, confusos e alguns raivosos enquanto saía do lavatório. É, amigos, o jogo está para começar.

A maioria percebeu minha jogada de primeira. Tinha certeza que amanhã eu não conseguiria as regalias de um banho agradável. Não que significasse muito para mim, na verdade. Em casa estávamos acostumados a nos banhar em rios quase congelados ou com águas de poço igualmente gelados.

Deixávamos as regalias para as ocasiões especiais, que não eram tantas assim.

Contudo, só de ver Ranthal e seu grupo se esforçando para enfrentar a pequena aglomeração de pessoas que começavam a se direcionar ao banheiro, eu já estava satisfeita. Mattia e Conall conseguiram ser um dos primeiros a adentrar o cômodo também, então estava tudo nos conformes.

Encontrei Fearis quando voltei para minha cama. As luzes haviam acabado de se acender.

—Fico feliz que a senhorita tenha conseguido uma boa chuveirada.— ela disse de pé até eu gesticular para que ela se sentasse. Era engraçado que ela tivesse algum respeito por mim. Fearis era uma Deorum, ainda que não da mais alta classe, mas ainda assim "acima" dos humanos. Não via mais nenhum funcionário (soava melhor do que servente) tratar outros Escolhidos da mesma forma.

—Pode me chamar de você, Fearis. Sou igual a você em quase tudo.— vi suas bochechas se enrubescerem.

Ela tinha um rosto arredondado e delicado, num formato que lembrava um coração. Seus cabelos, presos num coque firme e impecável, pareciam ser loiros escuros. Se não fosse por umas poucas marcas de expressão em seu rosto, poderia dizer que ela era até mais nova do que eu.

—Você, então...—a palavra parecia até soar estranha em sua boca.—Esta noite será a Cerimônia de Boas Vindas , teremos carta branca para confeccionarmos a roupa de cada Escolhido. Vocês têm que estar bem apresentáveis para os seus futuros Simpatizantes.— ela tentava tanto esconder sua empolgação que eu me proibi de revirar os olhos com suas palavras.

Bem apresentáveis...

Fearis continuou:

—...a senhorita, bem, você tem alguma preferência de vestido? Sei que não são seus favoritos, mas até nossa carta branca tem algumas restrições.— ela deu um sorriso amigável enquanto eu murchava na cama.

—Tem certeza que essa restrição é obrigatória? Minhas pernas não são muito fãs de se esfregarem uma na outra a noite inteira. —Fearis riu um pouco. —Além do mais se algo acontecer, como vou fugir com um vestido? Totalmente angustiante.—sua risada fora genuína e eu a acompanhei.

Ela demorou alguns segundos para se recuperar com uma mão em sua barriga que começava a sobressair bem sutilmente.

—Eu verei o que posso fazer, mas não posso garantir muita coisa. Alguma cor em especial?

Dei de ombro:

—Apenas me deixe com o máximo de conforto e agilidade possível.— pisquei e ela levantou-se.

—Deixe-me fazer uma trança em seus cabelos, não é uma boa ideia deixar essa colcha horrível úmida.— Ela se posicionou em minhas costas, fazendo seus dedos ágeis começarem a trabalhar.—Gostaria de agradecer mais uma vez pelo o que fez por mim lá no trem. Estarei em dívida com você pelo resto dos meus dias.

Sua voz era suave e eu logo respondi:

—Era o meu dever. Sei como é crescer sem mãe e posso imaginar como foi para a minha lutar até o último instante para me proteger.

Fearis iria responder algo, mas então Mattia apareceu em nosso campo de visão.

—Será que eu ganho uma trança também?— ela perguntou com uma expressão de quem implora.—Ninguém da minha "equipe" aparece ao menos para me dar um bom dia ou uma instrução.

Eu não duvidava. Tive sorte de ter conseguido Laeni, Marjorie e Fearis para me guiar, mas era visível que o suporte para os vilarejos mais baixos eram tão precários quanto para os próprios vilarejos.

—Claro, seu cabelo é curtinho terminarei num instante.—Fearis respondeu enquanto chegava ao fim da minha trança firme. Discretamente, posicionou o meu pequeno travesseiro entre sua barriga e as costas de Mattia que se sentava. Não poderia correr riscos.

—Preparada para a noite?- minha aliada perguntou.—Meu Simpatizante ainda é o mesmo aparentemente, não que eu esperasse alguém a mais.

—Não diria que preparada seria palavra no momento. Resignada, sim. Genuinamente preparada, não.

—Não se preocupem, meninas. Aconselharia vocês a observar bastante tudo em sua volta. A maioria do meu povo que estará presente hoje à noite é poderosa, mas não deixam de ser previsíveis. Não se enganem com sorrisos e feições agradáveis.— com um ar um pouco mais sério, Fearis acrescentou.— O Sacrifício não começa apenas quando vocês forem desafiados pelos seus primeiros oponentes. Não é sobre lutar numa arena ou despejar seu conhecimento sobre o outro, é um condicionamento físico e psicológico. Geralmente, não vencem os mais fortes ou os mais intelectuais, vence quem sabe falar com as pessoas certas e estarem no lugar certo nas horas certas.

Se aquela foi ou não a intenção de Fearis, eu não sabia. Mas suas palavras ficariam na minha cabeça por um bom tempo.

❖❖❖

Notas Finail: 

como vocês estão? o que acharam do capítulo?

Estou pensando em deixar os capítulos, mais compridinhos como esse, oq acham?

deixem seu comentários, opiniões etc...

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a playlist da história está em construção, mas já está disponível no link: bit.ly/hosplaylist

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até mais

xx

 

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