Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

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3. ¨2¨

 

❖  

Audição tinha duração de três dias conhecidos como: Cadastro, Análise Escolha. Em alguns anos, em certos vilarejos, havia ainda um quarto dia carinhosamente apelidado de Maré de Azar.

Se alguma revolta acontecesse em algum dos três dias fixos, a Maré de Azar era a nossa punição.

Punição por demorar demais nas despedidas, punição por se recusar a ir ao Sacrifício, punição por blasfemar contra o governo. Ela era bem simples, direta e clara, acrescentava-se mais duas pessoa à lista dos dois geralmente escolhidos do vilarejo infrator. Algumas humilhações públicas e agressões  às famílias dos "rebeldes" também poderiam acontecer.

Hoje era o dia do Cadastro. Esperávamos até o meio-dia para sermos chamados individualmente para que nos "entrevistassem" e montassem uma ficha com nosso dados básicos. 

Na primeira parte, respondíamos à perguntas, na segunda, os entrevistadores — os deorum inferiores com poderes de visitar a mente alheia— confirmavam a veracidades das respostas dadas na primeira parte e alguns aproveitavam para vasculhar nossa mente apenas por curiosidade.

Não fazia sentido eles nos fazerem perder tempo respondendo perguntas para as quais eles poderiam obter a resposta muito mais facilmente, mas estava no regulamento.

O dia da Análise se resumia a testes escritos para a minoria que sabia ler e escrever, e visuais para a maioria que não sabia. Algumas baterias de exames e uma invasão mais profunda à nossa privacidade mental também estavam inclusas.

Por último vem a Escolha.  Os resultados eram divulgados em cada vilarejo ao amanhecer e quando o Sol exibia sua glória do meio-dia, o mundo que nós conhecíamos passava a conhecer os desafortunados escolhidos para o Sacrifício.

—Feliz aniversário para a garota mais corajosa do vilarejo de Fortuna. Pensando bem, por que não do mundo? - Kallien se sentou no espaço vazio à minha direita, apenas segundos depois de eu ter sentido o seu cheiro e ouvido seus passos ao cruzar a porta.

—Meu aniversário legalmente é daqui a dois dias, Kallien.- eu disse quando o garoto deu um beijo demorado na minha bochecha e deslizou os dedos na minha coluna por cima do casaco, deixando uma trajetória de calor passar por mim.

—Vaidade para ser sempre mais jovem?- ele provocou e eu mostrei a língua. Kallien sabia muito bem o motivo. Quando meu pai me encontrou na floresta entre a vida e a morte, sobrevivendo ao frio, aos animais selvagens e as bestas do lugar, exames feitos na hora do meu registro de nascimento disseram que eu já tinha aproximadamente dois dias de vida. 

Adotei a data como meu aniversário oficial, o dia do meu renascimento.

—Queria ser o primeiro a te parabenizar, além disso, não sei se ainda estaremos juntos daqui a dois dias.- ergui uma sobrancelha enquanto ele mexia no bolso de seu casaco.

— Apostando todas as suas fichas no último ano em que participará da Audição? Confiante?- Kallien tirou duas coisas do bolso: uma sacola e uma caixinha azul escura.

—Talvez o último ano seja meu ano de sorte.- ele piscou para mim me entregando a sacola de papelão que exalava um cheiro que me fez salivar de fome.— Não sei o porquê, mas estou com um bom pressentimento.- meu amigo fez uma pausa e olhou de mim para a caixa azul minúscula pelo menos duas vezes. Semicerrei os olhos com uma expressão de brincadeira.

—Não convém pedir outra garota em casamento quando sua já noiva o observa como um falcão analisando o seu almoço.- Kallien riu baixinho dando um breve aceno para a garota encostada em um dos cantos do casebre  parecendo que iria desmaiar de raiva a qualquer momento.  

—Engraçadinha e convencida. Entretanto, infelizmente não é um anel de casamento, é um presente de aniversário.- ele abriu a caixinha revelando um colar delicado e singelo, feito de prata que tinha como pingente uma esfera média de...

—Safira?- arregalei os olhos para o tesouro na minha frente. —É uma das pedras mais caras do nosso mundo.- pude ouvir e reconhecer os passos furiosos de Ailani, prometida de Kallien, ecoando até a saída do recinto. 

Quando os indivíduos que formavam um casal eram prometidos um ao outro, ambos tinham o direito de escolher se iriam ou não participar das Audições. Ailani escolheu não participar, diferentemente de Kallien.

Ela sabia do meu estranho relacionamento com Kallien, não interferia nem se pronunciava sobre, mas também não demonstrava que aceitava.

—Já... já faz um tempo desde que eu queria dá-lo a você. Quero que você tenha,- ele respirou fundo passando a mão pelos cabelos.— Tenha algo de mim para sempre e que esteja ciente disso, mesmo quando...

—Kallien.- eu o interrompi, como sempre. Como sempre fazia quando ele tentava me atingir com seus sentimentos muito mais intensos que os meus jamais seriam.

Dessa vez ele resolveu continuar:

—Mesmo quando eu me casar daqui a uma semana, ou se for escolhido. Sempre terá uma parte de mim com você.- meus olhos queimaram e eu o abracei para que ele não reparasse.— Você sabe que aquele anel de noivado seria seu com apenas uma palavra. Nem eu nem você estaríamos aqui se você me dissesse o que eu anseio ouvi desde a primeira vez que te vi.- eu estava ciente que um número considerável de pessoas nos observavam. Estava ciente do calor do corpo de Kallien dissipando-se para o meu, me fazendo parar de tremer de frio.

—Kall, você sabe que eu não posso fazer isso.- eu sussurrei e, para minha surpresa, ele apenas respondeu um "Eu sei."   ainda mais sussurrado. — Quero que saiba que sempre terá uma parte de mim também. Sempre.

Uma sensação estranha passou pelo meu corpo até o Kallien, mas não tinha certeza que ele percebeu. Sua respiração foi pesada ao pé do meu ouvido antes que ele se afastasse  minimamente de mim. Olhei novamente para aquele colar entre nós. A maior parte de mim sabia que era o certo me desprender de Kallien, embora uma pequena parte imaginava se um futuro com ele ao meu lado seria realmente inaceitável.

Eu me casaria com Kallien e ele faria de tudo para me dar o mundo. Eu poderia me enxergar em casa fazendo o almoço para ele e nossas crianças? Cozinhando o cervo que ele haveria caçado ou comprado? Porque, eu tinha certeza que teríamos dinheiro o suficiente para que eu não precisasse pôr os pés na floresta pelo resto da minha vida e meu amigo, então meu marido, se esforçaria dia e noite para que eu e nossos filhos nunca passássemos fome. Se esforçaria o suficiente para que no fim do dia, quando seu corpo se deitasse ao lado do meu, eu estivesse convicta que nunca passaria frio.

E isso pareceria certo. Se eu não me importasse que aquele relacionamento, aquele casamento, começaria por segurança e conforto, em vez de por sentimento, aquele futuro, aquela vida pareceria certa.

Porém, eu me importava. E era por isso que eu não poderia aceitar aquele presente.

Kallien pareceu ter lido isso tudo no meu olhar.

—Nem ouse recusar. Estou há meses tentando achar algo digno de você e quando vi essa pedra ela pareceu perfeita.- fiz uma careta.

— Você sabe que se me desse um graveto, eu estaria feliz.- me virei de costas para ele. —Mas sei que você não me deixará em paz se eu não aceitar, então me ajude a colocá-lo.

Fui capaz de ver seus olhos brilharem antes que ele posicionasse o colar em meu pescoço.

— Hm, pode abrir a sacola também. É um presente para o seu estômago, roubei antes que meu tio pudesse gritar sobre isso.

Antes de verificar o conteúdo eu já sabia que os preciosos pãezinhos doces, que só a padaria do tio de Kallien poderia fazer, me aguardavam.

Segurei o som de satisfação que queria escapar da minha boca após a primeira mordida. Os dedos calejados de Kallien não tornou essa tarefa mais fácil quando acariciaram minha nuca exposta.

—Deixe-me olhá-la- suas mãos pararam nos meus ombros me virando.

Observei a pedra pendendo em meu colo quase sendo aninhada entre os meus seios. Arrisquei um olhar para Kallien que me observava com um brilho diferente nos olhos. Um brilho selvagem e faminto.

— Obrigada.- sussurrei ainda sob a intensidade de seus olhar. Ele apenas se inclinou roçando os lábios na minha bochecha.

—Quero vê-la apenas usando isso mais tarde.- senti minhas bochechas esquentarem e arrepios pela minha espinha.

Kallien pegou um pãozinho, como se tivesse dito algo inocente para mim, e se ajeitou no seu devido lugar logo após piscar.

Voltei a olhar para frente encontrando o olhar esperto da mulher com a xícara na mão. Ela deu um pequeno sorriso de canto como se tivesse escutado cada palavra minha e de Kallien.

Digo, sorrindo de canto porque tinha ouvido cada palavra nossa. Ela era um deles e às vezes eu esquecia dessa pequena diferença genética entre nós.

Desviei o olhar.

Então, no momento que percebi que pessoas já haviam sido chamadas para o Cadastro, eu ouvi:

 Corinna Lestat.- meu nome foi chamado por uma voz doce e melódica.

E  aqui vamos nós de novo.

  ❖❖❖ 

Notas Finais: Hey, pessoal.

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