Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

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... e claro. Muito claro.

Todas as telas focalizaram enfim. Eram como uma avalanche de cores e flashes. Flashes da própria câmera que me filmava junto com os flashes das plateias dos vilarejos mais ricos.

A mão de Kallien não segurava mais a minha, embora desejasse que ele ainda o fizesse. Eu não ouvia nada além de vozes ao fundo, suspiros de admiração e ruídos. Mas parecia que minha audição estava tentando captar todas essas coisas com clareza, ao mesmo tempo. Isso estava me deixando louca.

Não conseguia focar nos rostos dos meus concorrentes, mas tinha certeza que eles analisavam cada espasmo meu.

Eu deveria estar patética. Meus olhos pareciam estar marejados devido as luzes ofuscantes, e eu parecia internamente mais pesada.

Nossos Governantes estavam em uma das Telas mas eu não conseguia distinguir nenhum deles.

Nossos Governantes, nossos Deuses, alguns provavelmente Simpatizantes em potencial, assistindo a todos nós e eu estava completamente patética.

Todos deveriam estar caçoando de mim por dentro.

Uma dúzia de nomes já haviam sido apresentados quando, de repente:

—Kallien Steros e Corinna Lestat.

Conseguir forçar meu pescoço ao virar a direção de Kallien. Ele não se parecia nada comigo. Um sorriso tímido em seu rosto, um olhar sério, intimidante e até mesmo triunfante.

Eu era apenas um estreitar de olhos e um bolo de confusão.

Talvez todos esses anos me preparando para esse momento não foram suficientes. Foram uma ilusão.

Talvez eu não estivesse realmente pronta.

"Sorria pelo menos um pouco. O foco está em você." A voz de Laeni aparentava não querer me sobressaltar, mas foi como uma ordem firme para os cantos dos meus lábios que se curvaram como se eu olhasse e quisesse aquilo mais do que tudo.

Mas, na verdade, eu queria correr, gritar, congelar no lago, caçar...

Ninguém saberia disso.

Patética.

Dormimos em casa apenas dois dias e estes foram alternados. Os três dias restantes passamos no casebre, que se moldava, graças a magia, de acordo com nossas necessidades.

Esboços de conversa sobre como o Pronunciamento havia ocorrido, dançavam ao redor de meus ouvidos.

Um vilarejo abaixo de nós se rebelou e o Sacrifício ganhou mais dois escolhidos na Maré de Azar.

Já os rumores que os Simpatizantes já tinham seus favoritos, não fazia a mínima diferença para mim.

De qualquer forma, eu quase desmaiei quando todas aquelas luzes se apagaram. Não dormiríamos em casa naquela noite. E para falar a verdade, eu literalmente não dormi.

Nos outros dias, eu procurei fazer o máximo de coisas que eu gostava de fazer.

Cacei com meu pai e o abracei diversas vezes, pois não queria esquecer como era a sensação.

Deixei que ele revisasse uma coisa ou duas sobre a história da Criação do nosso mundo e desgastasse meu cérebro com contas complexas.

Ele cantou para mim, eu cantei para ele e ele me contou novamente a história de como me encontrou naquela floresta escura e, como sempre, disse que faria tudo de novo.

O meu tempo com Callandrea foi gasto, pela primeira vez na vida, comigo aceitando fazer várias das futilidades como inspecionar seus vestidos mais caros e atualizar a fofoca sobre outras famílias.

Apenas tivemos um momento tenso quando eu toquei no assunto de casamento e se agora, que ela não precisava mais de casamentos falsos, ela já havia considerado todos os homens que caíam aos seus pés ou escolhido algum.

Então ela ficou estranha, foi evasiva e mudou de assunto. Eu também não insisti e ela me fez prometer que eu não esqueceria dela.

Enquanto andávamos pelo vilarejo, algumas pessoas vinham me cumprimentar e me desejar boa sorte. Era estranho, mas não se comparava com um grupo de três senhoras que nos barraram no meio do caminho.

No nosso vilarejo éramos ensinados a tratar os mais velhos não só com respeito, mas como se fossem parte da família. Então cada uma deu um beijo na testa de Callandrea e na minha. Elas pareciam especialmente intrigada comigo.

Pude percebê-las analisando meus cabelos, minhas roupas, minha altura, meus olhos.

Quando a mais velha delas ficou por tempo demais segurando meu queixo e encarando meus olhos, eu não pude me conter:

—Há algo errado, senhora?- ela pareceu acordar de um transe e descobrir uma fórmula secreta.

—Não, não, querida.- ela me soltou e tentou não se afastar tão subitamente de mim.

—Conte a ela, Myrthes.- outra senhora do grupo disse e eu franzi a testa.

—Não quero assustar a menina em um dos eventos mais importantes da sua vida, Lourdes.

—Isso não é assustar, é alertá-la.- a tal de Lourdes disse e se virou para mim antes de segurar minha mão. —Criança, tenha cuidado, estamos ouvindo notícias recentemente e elas não são nada agradáveis aos nossos ouvidos.

De repente, um choro baixo veio da terceira senhora:

—Pobre Bertha, perdeu a neta alguns dias atrás.- Myrthes se pôs ao lado da colega.

—E que notícias são essas?- Callandrea perguntou já impaciente ao meu lado.

Lourdes respirou fundo:

—As cinco jovens.- ela disse, mas quando viu nossos rostos confusos, continuou. — Em menos de duas semanas, cinco jovens dos três vilarejos mais pobres desapareceram e logo depois foram encontradas mortas. Uma delas foi a neta de Bertha que morava aqui, o resto foi dos outros lugares.

—Ela era tão jovem.- Bertha soluçou. —Tinha acabado de completar dezoito anos.

Callandrea bufou ao meu lado.

—Meus pêsames, senhora. Eu entendo o luto de vocês, mas não entendo o que isso tem a ver com vocês colocarem medo em Corinna. O que isso poderia ter a ver com ela?

Todas as três senhoras me olharam de cima a baixo, mas foi Lourdes que disse:

—Todas elas eram extremamente parecidas com você, Corinna.

Depois de ficar por horas com uma sensação estranha dentro de mim, apesar de Callandrea dizer que as senhoras estavam caducas, resolvi passar meu tempo com outra pessoa.

Meu tempo com Kallien foi mais simples, afinal passaríamos os próximos meses juntos.

Apenas nos encontrávamos, liberávamos todos o nosso calor sobre o outro e era isso. Não conversávamos e nem trocávamos olhares significativos.

Voltamos ao costume de antes só que ligeiramente mais impessoal.

Quando chegávamos a trocar algumas palavras, essas nunca eram sobre algo relacionado ao Sacrifício. Não sobre como ele se sentiu no Pronunciamento, nem se ele já havia traçado uma estrategia ou avaliado os oponentes. Nem se ele já recebia propostas de Simpatizantes, apenas falávamos trivialidades do tipo: "Como foi o seu dia?"

Na noite anterior à partida, meu pai me entregou um presente para que eu usasse na viagem ao Setor Superior.

Só de segurar a caixa nas mãos eu já me sentia não merecedora desse esforço. Mesmo com pagamento por ter sido a Escolhida do vilarejo, não queria que chegasse ao ponto que eu achasse que era o suficiente para gastar com coisas supérfluas.

Ainda assim, fiquei maravilhada com o conjunto de calça, camiseta e manta dentro da caixa. Eles combinavam entre si no tom de cáqui e com detalhes laterais cor de safira, mesmo tom da pedra que Kallien pusera em meu pescoço. Mesmo tom dos meus olhos.

Quase chorei ao tocar na delicadeza do tecido.

—Não precisava, de verdade.- eu abracei meu pai com todo amor que tinha em mim e ainda não era o suficiente. Era um sentimento infinito.

—Eu devo deixar claro para alguns rapazes que, antes deles, eu já te dava presentes. -ele apontou para o colar e eu ri —Espero que meus olhos estejam ainda perfeitamente aguçados para medidas....Mesmo as novas.

Dei de ombro fechando a caixa e colocando-a em cima da mesa, onde as poucas coisas que eu era autorizada a levar estavam dispostas.

—Vão servir.

As roupas caíram como uma luva, e meu pai pareceu orgulhoso de seu senso perceptivo.

Faltavam apenas trinta minutos para que Kallien aparecesse e então partiríamos.

Trinta minutos para que eu desse, por ora o último abraço em minha única família. Trinta minutos para que o desse as costas ao meu vilarejo sem promessa de retorno. Trinta minutos para que eu começasse a mudar o mundo. Trinta minutos para minha nova vida.

Minha chance. Minha única chance.

❖ ❖ ❖

Notas Finais: 

hey, pessoal!

como vocês estão? o que acharam do capítulo?

MINI-MARATONA DE CAPÍTULOS CHEGANDO AO FIM, MAS NÃO É ÚLTIMA VEZ!!

deixem seu comentários, opiniões etc...

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até mais

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