Hearts Of Sapphire

"Ter coração nunca foi tão importante."

Corinna desde que nasceu soube que não seria capaz de se acomodar numa vida subjugada pelo sistema.

Num lugar onde seres com poderes fantásticos e humanos vivem uma relação de opressores e oprimidos, ela vê-se obrigada a ir de acordo com as regras de seus governantes para conseguir uma chance de derrotar esse sistema de dentro para fora.

Em meio a aventuras, disputas e intrigas, Corinna descobre ser agraciada com uma dádiva que os outros à sua volta perderam há muito tempo e ela terá de escolher se usará isso para o bem ou para o mal.

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2. ¨1¨

  ❖  

O som não era muito agradável, mas até que combinava com o ambiente.

Apertei contra o corpo o casaco escolhido de última hora. Respirei fundo, tentando não desejar demais aquela xícara com um líquido quente desconhecido na mão daquela mulher. Ela bebia com tanto gosto.

Apesar disso, ela também estava despreparada naquele dia, afinal era inverno.

Audições não aconteciam no inverno, esta seria a primeira vez.

Uma fina linha de vento congelante atravessava o lugar diretamente até mim, fazendo minha pele arrepiar.

Estávamos sentados no chão em três semi-círculos enfileirados por ordem de nascença um atrás do outro. Do mais jovem ao mais velho.

Todos semi-círculos se voltavam em direção à mulher com a xícara fumegante na mão. 

Eu via seu rosto anualmente há 8 anos, mas não sabia ao certo seu nome. Certamente, não faria alguma diferença se eu soubesse.

Eu me encontrava no último semicírculo, a mais velha das garotas, contudo a mais nova entre os garotos no grupo de dezesseis à dezenove anos. 

O hino nacional era um som distorcido e quase perturbador naquele momento. Pelo menos para mim, já que as pessoas ao meu redor não pareciam dar a mínima para isso. 

Até mesmo as crianças no grupo de dez à treze anos que estavam posicionados em cima do aparelho tocador de som, antigo e desgastado, pareciam ouvir a mais agradável melodia de suas vidas.

Talvez porque aquela seria uma das poucas melodias que ouviriam na vida.

Talvez estivessem tentando se concentrar em algo que não fosse o choro lamurioso de seus colegas ou a possível chegada de um destino mortal e cruel se seus nomes fossem os escolhidos.

O número de "participantes" da Audição diminuía conforme os anos passavam. Não éramos nem a metade do ano passado.

Se colocar todos nós dentro de um casebre de apenas um cômodo fosse uma estrategia dos nossos governantes , era uma admirável. Fazer com que nós nos sentíssemos sufocados pela presença um do outro até que acreditássemos que as nossas chances de sermos escolhidos fossem mínimas era uma jogada de mestre.

Também era, claramente, uma contra-partida à nossa própria humilde tática nos últimos anos. Nós éramos um dos vilarejos mais pobres, éramos um dos mais descartáveis no Sacrifício. Nenhum de nós gostava de ver nossas crianças podendo ser arrancadas de nossas casas para darem muitas vezes suas vidas à "deuses" doentios.

Por isso nossas garotas estavam casando mais cedo, por isso que nos sujeitávamos a trabalhos praticamente escravos, por isso que recorríamos a procedimentos clandestinos e perigosos de esterilização. Era principalmente por isso que nossos choros quase nunca eram de alegria quando uma criança nascia.

Apesar de entender, tudo isso era demais para mim. Por que brigar contra os nossos sonhos, desejos e natureza, em vez de brigar com os responsáveis por destruí-los? Ainda assim, eu não ousava expressar meus pensamentos mais radicais com alguém que não fosse meu pai ou Kallien, ou até mesmo Callandrea quando ela estava disposta a me ouvir.

Meu pai era a única pessoa que dividia a casa comigo. Não cheguei a conhecer de fato a minha mãe, que faleceu poucos dias depois do meu nascimento. Na verdade, meu destino quase foi o mesmo que o dela se não fosse por meu pai que nos encontrou entre as árvores com a vida lentamente se esvaindo de nós. 

Ele fez uma escolha grandiosa naquele dia ao perceber que não havia mais nada a ser feito por minha mãe e embrulhar minha vida, como se fosse um presente e não um fardo, tomando para si as responsabilidades de cuidar sozinho de uma criança que não era dele.

Eu nunca tive uma ideia sobre onde e quem seria meu pai biológico, mas muitas vezes regressava àquela floresta, próxima ao limite do nosso vilarejo , apenas para sentir nem que fosse uma vibração restante da minha mãe ou algo que me levaria às minhas origens e que eu ainda não tinha percebido.

Devido à escolha feita pelo meu pai, ele prometeu que o meu destino, se dependesse dele, nunca estaria nas mãos de alguém que não fosse eu. Se eu quisesse me casar, eu me casaria. Se eu quisesse ter filhos, eu os teria. Se eu acreditasse  que tinha uma pequena chance que fosse de conseguir algo bom do Sacrifício, eu me submeteria a isso. E ele me apoiaria em qualquer que fosse a minha escolha.

Assim sendo, enquanto minhas colegas ponderavam sobre quem seria o melhor partido para se casar já aos 12 anos, eu pedia ao meu pai que me ensinasse coisas como ler, escrever e caçar.

Kallien era o meu melhor amigo, que acabou se tornando algo mais quando entramos na adolescência,  e não era muito a favor da liberdade que eu tinha. Ele costumava dizer que eu não precisaria saber caçar se eu me casasse com ele. Ao completar 20 anos, ele se tornaria mercador, como o seu pai, e transitaria livremente pelos vilarejos e setores, voltando para casa trazendo qualquer capricho que eu desejasse.

Ambos sabíamos que nosso casamento nunca aconteceria de fato. Éramos incrivelmente quebrados pelo sistema e muito cientes disso para sequer pensarmos em consertar um ao outro. Apenas viveríamos os anos satisfazendo nossos desejos carnais, instintivos e materiais, que no final não nos acrescentariam grande coisa.

Kallien achava besteira eu nutrir alguma ilusão sobre eu ser algum dia escolhida para o Sacrifício. Os Escolhidos do nosso vilarejo só serviam para divertir e entreter os Deorum que nos governavam Ele pareciam gostar de nos ver clamando pelas nossas vidas e a de nossa família, então meu amigo dizia que estava escrito por toda a minha face que eu preferiria ingerir veneno ou enfiar uma adaga no peito em vez de dar a eles o que queriam.

Nisso eu concordava com ele, exceto na parte de que eu não seria escolhida. A esperança nunca foi algo que me faltou.

Ainda que eu não fosse, pelo menos, agora que o governo nos pagava uma pequena quantia para fazer parte da Audição, eu teria algum fundo de reserva para alguns meses. Quem sabe, anos. 

Kallien não entendia essa necessidade minha pois suas adversidades nunca puderam se comparar às minhas.

Sua família tinha uma "fortuna" decente. Talvez, fosse capaz de sustentar até três gerações futuras se todos os membros parassem de trabalhar naquele momento. Com um bom planejamento e economia, claro.

Em contra partida, eu e meu pai não tínhamos muita sorte. Sentíamos frio, sentíamos fome. Perdíamos constantemente nossas humildes plantações no nosso pequeno jardim e isso vinha acontecendo com cada vez mais frequência.

Callandrea, a irmã gêmea de Kallien, não participava da Audição há três anos, quando se casou pela primeira vez com 16 anos. Ela era apenas um ano mais velha do que eu e estava indo para o seu terceiro companheiro.

Na verdade, Andrea não poderia nem ser considerada efetivamente esposa de nenhum deles. Os senhores já tinham todos idade avançada e algum problema de saúde. Só queriam uma bela e agradável companhia nos seus últimos dias. Ou seja, nenhuma possibilidade de consumar de fato o matrimônio, o que fazia de Callandrea ainda uma das pretendentes mais cobiçadas pelos jovens rapazes.

Depois de passar os primeiros três anos chegando bem perto de ser escolhida na Audição, ela decidiu usar essa estrategia até os vinte anos, quando não teria mais idade para participar do que ela chamava de "Circo de Horrores" . Apesar disso, ela se opunha raramente contra o governo e quase sempre me censurava quando eu o fazia.

Esta era uma característica que os irmãos compartilhavam: a arte de questionar minhas escolhas e opiniões.

"Corinna, se te ouvirem falar assim, poderão castigá-la."

"Corinna, não revire os olhos desse jeito para os rapazes, um deles poderia te livrar do fardo das Audições."

Ainda assim, eram meus amigos, praticamente a minha família.

A moça da xícara estava ansiosa, eu podia perceber. E com isso quero dizer que não tinha um indivíduo naquele casebre que perdoasse as unhas da mão.

Uma onda vacilante de euforia passou por mim. 

Repeti para mim o mesmo mantra de todos os anos que participei da Audição:

Essa é a minha vez e eu não a desperdiçarei.

  ❖ ❖❖

Notas Finais: Hey, pessoal. Espero que se interessem pela jornada de Corinna e a acompanhem até o fim.

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Até mais!!

xx

 

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